Thursday, June 30, 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 4

Ainda. Entretanto, trabalho. O corpo cresceu para o trabalho e leva-o a cabo. Levanto pesos, mudo madeiras, rodo motores, decifro humidades. E finalmente escrevo. Numa parede, uma fotografia. Data, 1967. Não é coisa de Magritte, que morria por esse ano. Não sei se já vos falei disso.
Era o Verão, então. A luz fulminava o sal da respiração. A pele era toda uma grécia pessoal. Como contar isto? A mão desconhecia a luva, o olhar conhecia o ar, as tardes rebentavam de cor surda, além, por cima da quinta de invisíveis cavalos que jantavam laranjas e azeitonas e tranças de menina. Isso já era a solidão, mas eu não sabia e não via. E no entanto.
Jantávamos carne guisada com arroz, a Mãe ordenava os perfumes do Mundo: meias, axilas, terrinas, fotografias, cobertores, horas, rosas, cadeiras, carpetes, mendigos, vizinhas, cães, rádio, lâmpadas, bibelôs, música, Pai, sombra, paz, amanhã. Que poderoso é o sangue, verdade?
Fui para o pátio, levei a guitarra. A Irmã ou estava lá ou lá foi ter. O Fotógrafo magrittou-nos com monte ao fundo, invisíveis cavalos, ano 1967. Ainda éramos todos. Eu não sabia mas via. Na foto, estou a olhar para o chão, embora.
Agora, não estou. Estou a olhar para uma rapariga de olhos claros como vidros de través. Ela toma um condensado de alperce. Na mesa ao lado, joga-se dominó. Convidaram-me para jogar, declinei com gentileza. Não é 1967, não é de dia. Copos tilintam como ovos chocos. Mãos mal lavadas apertam a minha, glória de boas-noites de café, a solidão iluminada, cinquenta cêntimos a chávena.


21 de Junho de 2005

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