Sunday, December 29, 2013

Última crónica de 2013 para O RIBATEJO - Rosário Breve n.º 339 - in www.oribatejo.pt



Aritmética de rebanho

Digo-o de cor mas não à pressa: a 8 de Março próximo, é de celebrar o primeiro século decorrido desde a magia de maravilha daquele   momento/limiar em que, acercando-se de uma cómoda alta em perfeito transe de criação, um tal Fernando Alberto Pessoa Caeiro deu à luz, e de um jacto, os poemas de O Guardador de Rebanhos.
Esse mesmo ano quatordécimo do XX foi o do rebentamento da famigerada Grande Guerra, também chamada Primeira Mundial (como se toda e qualquer guerra, por invariavelmente configurar o crime da desumanidade contra a humanidade, não fosse sempre mundial).
E foi também, já agora, o do nascimento de Alberto dos Santos Abrunheiro, meu Tio paterno e o mais perfeito exemplar da mais exemplar solidão pessoal que já me foi acontecido conhecer. Amputado aos dezanove anos de uma das pernas no mesmo ano de gangrena da ascensão de Hitler à chancelaria do Reich e da, por cá, infame Constituição salazarenta que pros(ins)tituiu a ratazanaria do Estado Novo, esse meu também Alberto atravessou a vau o almegue desolado da própria existência, a qual se lhe finou, sozinho ele como à chuva um cão sem coleira, a 14 de Agosto de 1980. Outro catorze para outro Alberto, portanto: aritmética de rebanho.
Destas águas passadas, confesso, se movem os meus moinhos, quiçá se não de mais. São, por assim dizer, a minha cinemateca portátil, pois que, surda e gestual à maneira de cinema-mudo comigo sozinho na plateia, sempre me deixa re(vi)ver o-que-lá-vai no cumprimento da ameaça de nunca mais voltar.
Entre o ano que aí vem e o que ora se nos acaba, parece-me bem (mal) que o Diabo já veio e já escolheu: mais do mesmo e p’ra pior. O contumaz e relapso desGoverno da Nação, em inquebrantável imunidade ao mais simples civismo como o daltónico ao arco-íris, tudo (des)fará em proveito do piorio.
Passos continuará sempre inapto e inepto, incapaz sempre de entender o Barão de Itaraté: “Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.”
Já o inefável Portas não há-de ter, dentre as dezenas de milhar de fotocópias que à escancarada sorrelfa esmifrou ao xerox do Ministério da Defesa, uma mera folheca A4 que lhe recorde o que Virginia Woolf recordou, que foi aquilo que fez a Lady Winchelsea escarnecer do autor de Trivia, um tal John (curiosamente) Gay: “Mais lhe competiria andar à frente da carruagem do que andar nela.”
Resta-nos, dos vigentes, o mineral Cavaco, cuja rigidez malar trai dele a propensão facínora para a lagrimeta de esguicho provinda da flor de plástico à lapela de mau cómico. Porque, de entre tantas mais coisas, a “preocupação” dele para com os reformados se resume a dois utentes: ele próprio e a própria mulher dele próprio.
Em 2013 como em 2014, tudo isto me parece ser de sem-tirar-nem-pôr, tão-só ressalvando, da geral canalhada, a rapaziada de toga-tunga do Tribunal Constitucional, benza Deus a tais santinhos deste mais estábulo do que Estado.
À guisa, enfim, de conclusão, isto está pró péssimo e não vai p’ra menos ruim. Optimismos tolos, sirva-se deles o acéfalo de serviço à porta da sopa-dos-pobres em arroubo de caridadezinha sazonal. A verdade é sermos, um a um(a), dez milhões de pategos sempr’agradecidos a Vossa Senhoria, o bonèzito estendido como língua de pano, o joelhozito dobrado em ângulo tipo-Cova-da-Iria ante a azinheira do Poder. Como é verdade também subirmos todos já a encosta nascente da Serra do Caramulo, em cujo cume pontifica o quarto sozinho e crepuscular do sanatório que os dois Albertos, o que era meu Tio e o que guardava rebanhos de tinta por veigas de papel, escolheram para, respectivamente, morrer e nascer – dois actos existenciais que o próximo ano não promete propriamente vir a saber distinguir.

Thursday, December 26, 2013

Entrada n.º 40 de BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - noite de 10 de Maio de 2013, sexta-feira

40


                                                                                                                                               
                                                         
Aquele homem é lento por causa de uma doença
chamada idade,  acontece muito nesta Cidade.
Queimo a boca de roxo com um cigarro branco.
Apetece-me falar com um amigo, mas não tenho
saldo no telemóvel, é quase tudo 96,
na mocidade era diferente, telefonava-lhes

para casa dos pais, tudo era fixo,
talvez por isso envelhecer seja tão móvel
e tão quieto ao mesmo tempo,
a gente sabe que vai morrer,
afia um lápis mas sabe que vai morrer,
abre-se em livro e depois morre.

Sou muito atento aos ócios preocupados.
As pessoas filosofam nos Cafés a propósito
de coisas como o arroz-doce e o trigo-roxo
e a subserviência e a carreira e os impostos
mas depois na internet borram-se todas,
vê-se-lê-se logo que não sabem escrever.

Eu aqui em Leiria passo muito à porta
da casa onde viveu o Eça-Padre-Amaro,
sinto logo muita pena de mim por causa do naturalismo,
fiz na quarta-feira 49 anos,
coisa que nem o Pessoa nem o Ruy Belo fizeram
mas o Eça sim, o Eça fez tudo em apenas 55, parece mentira.

Monday, December 23, 2013

Um dos momentos de ouro da Língua Portuguesa é protagonizado pela pena de João Roiz de Castelo Branco.
(E "ditos" pela divina Amália com pauta de Alan Oulman, então...)


Cantiga sua partindo-se

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Gosto ·  · Promover · 

Thursday, December 19, 2013

Rosário Breve n-º 338 (penúltima do ano) - in O RIBATEJO de 19 de Dezembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Young Acrobat on a Ball, 1905 by Pablo Picasso


Nem o palhaço se lembrou desta da avó e da bezerra

Perto de minha casa, num vasto terreiro ermo que só os ventos de marítima origem usam franquear, acampou agora, por e para um mês, um circo. A tristeza do costume: espécie em lona de acampamento funâmbulo-cigano, é presídio de animais tristes e condenados à prisão perpétua sem qualquer culpa formada, tugúrio de artistas tisnados dourando a cárie da gargalhada postiça sem riso dentro e castiçal de bandeirolas virente-rubras tipo Euro-2004 com o mesmo resultado (da) final.
Aderindo aos maus tempos d’agora, todo o santo dia aquele pagode de pano encardido e desbotado ladra stum-stuns de bárbara cacofonia de discoteca equivalentes a descomunais arritmias cardíacas que sobressaltam a passarada num raio de dez milhas terrestres e me inviabilizam, pelo menos até 6 de Janeiro próximo, o passeio beira-fluvial do dia (que para mim é às seis da manhã, Inverno ou Verão, que começa).
Não se trata, todo este ror de repugnâncias minhas, de ter alguma coisa contra a esfarrapada nação circense. Trata-se tão-só de nada ter a favor dela, por mais que tente. Poucas coisas nesta vida me são tão instantaneamente deprimentes quão os circos. De menino que assaz me fazem mal à pituitária lírica. Na cidade marítima onde veraneávamos (sim, tempos houve já em que as famílias operárias também veraneavam – e nem era muito longe dos ricos frequentadores do casino, do ténis-clube, do hipódromo de contraplacado, do chá-dançante e das casadas com os oficiais da capitania), dizia-Vos eu então que, na cidade marítima onde veraneávamos, o circo era fatal como a morte da avó (ou da bezerra, no caso dá o mesmo).
Reparai: tenho cinco anos e recordo, como se agora fosse, as jaulas inçadas de ímpias moscas atormentando os leões mais magros, mais famélicos e mais tristes do mundo; o patriarcal elefante padecendo a insuportável humilhação do exílio e com ar de quem sonha ainda poder um dia deixar correr, ou morrer, o marfim ao mesmo campo-santo de seus livres antepassados indiano-africanos; o ar de barbeiro pelado dos chimpanzés, tão parecidos sempre com os nossos primos da Beira Alta; a lustral gordura alvinitente da gentil senhorita assistente do atirador de facas; o palhaço sem pingo de graça mas muita pinga de bagaço e de cachaça; a mulher-às-vezes-aranha-às-vezes-das-barbas lavando e pondo a estiolar ao vento marinho suas ceroulas museológicas e suas cartas de um amor antigo que se recusa a secar; o fadista internacional que nunca passou nem a norte da Mealhada, nem a sul de Portel, nem a disco gravado, a Oeste como a Leste; a arrogância toleirona do Director de Arena, esse patusco dos bigodes retorcidos em parêntesis para sussurro da frase em linha dos lábios e sempre com aquela casaca de granadeiro napoleónico que não tirava nem para tomar o banho que nunca tomou; e o lixo que cada fim de época balnear aquela malta abandonava ao dissabor eólico da praia cercana.
Por não ter eu salvaguardado ainda, ou já, o dinheiro q.b. para ir habitar o deserto, levo com o circo à porta. Isso me fez, antes de enviá-la em definitivo ao jornal, telefonar esta crónica a um Amigo a quem também os circos deprimem sem remédio. Ele fez muito que sim logo às primeiras instâncias respiratórias do primeiro parágrafo. Também ele redesceu logo a menino, logo de novo assistindo, como se agora fosse, àquilo a que pelas aldeias chamavam “comédias”: famílias andrajosas que, queimadas do frio e do mau hábito da fome, pandeiretavam e símio-realejavam por as eiras e os fontanários das paróquias as últimas maravilhas de uma ilusão que há muito deixara, já então, de ser a primeira.
E agora isto: acontecer-me que a escrita desta crónica acabasse por me cabisbaixar o brio – como se tivesse ido ao circo. Ou como se, havendo finalmente logrado adormecer, adormecido sonhasse com o leão liberto, liberto de homens e de moscas e de verões não africanos que nunca voltam a ser o de 1969, esse outra vez livre e forte rei fazendo rugir a altífona goela à aparição da gentil senhorita, também ela farta, e liberta finalmente ela também, do sacanita que lhe atirava facas.

Friday, December 13, 2013

Thursday, December 05, 2013

Rosário Breve n.º 336 - in O RIBATEJO de 5 de Dezembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Do fundão do mar

Em recente madrugada álgida e petrificada de cristal, como é da época e de lei, derivando eu não acompanhado pela avenida deserta das seis da manhã, aconteceu um fragmento de folha de jornal vir, à maneira de famélico cão perdido, aninhar-se-me aos pés. Toda a vida tenho tropeçado em lixo (do humano inclusive), pelo que não liguei e segui em frente, rumo ao Café onde diariamente procedo ao desjejum de cafeína, nicotina & versos.
– Olhe o senhor Daniel que traz aí qualquer coisa agarrada às canelas – avisou-me, maternal como sempre, a D.ª Lena, como sempre reiterada pelo olhar da senhora Ermelinda, que quando olha para os homens nem é para as canelas que olha.
Toda a vida tenho olhado para baixo (mas não quando é gente que olho), pelo que accionei a grua do pescoço no ângulo descendente: era o pedaço de jornal. Rezava assim:
“(…) revelaram tratar-se de uma pessoa com ‘superficialidade afectiva, ausência de remorsos, manipuladora e com elevado grau de reincidência’”. Mais nada.
Reli o trecho não sei quantas enésimas vezes: “revelaram tratar-se de uma pessoa” enquanto tilintava a colherinha no rebordo da chávena; “com superficialidade afectiva” enquanto abafava na faringe o delic(i)ado arrotinho a açúcar torrado; “ausência de remorsos” enquanto buscava e rebuscava o nómada do isqueiro em todos os bolsos menos no certo; “manipuladora” enquanto fumegava a melhor passa do Camel de enrolar, por ser a primeira do dia; “e com elevado grau de reincidência” como este mesm’O Ribatejo, periódico que, à imagem dos melhores casamentos de longo curso e média duração, ainda se dá uma (vez) por semana.
Por padecer da incontornável e irredimível mania de me ver como espécie de escritor, fiquei perplexo de propósito ante tal papelucho. Qui-lo ominoso. Qui-lo código de qualquer coisa mística, como a besta do Dan Brown, o inenarrável Paulo Coelho e essa fotocópia sem toner de ambos chamada Zé Rodrigues dos Santos. Fiz até de conta que às canelas se me tinha vindo prostrar o pedacículo que faltava aos Manuscritos do Mar Morto. Ou que era, mais grave e mais especiosamente ainda, a única genuína evidência documental da entrada “Miguel Sousa Tavares” no Dicionário da Não-Literatura Portuguesa dos Tristes Editoriais Dias da Contemporaneidade. Ou, ainda, que se tratava de alguém a dizer mal de alguém só para ter alguém de quem dizer mal a ponto de ser também considerado alguém, coisa que sempre me repugnou, como é disso cavalar prova cabal esta crónica mesma. Decidi indagar.
Paguei a bica a prestações, esmaguei a segunda metade do cigarro e, sempre de papeleta nas unhas roídas por causa dos nervos, rumei ao quiosque jornaleiro do meu distinto e anónimo Amigo, que se chama Gervásio e não se distingue. Herdou do pai a banca e, como o pai, lê todos os dias, à frente de toda a gente, aquela porra toda, menos as revistas com gajas de mamas expostas ao sol e à chuva porque a Sé é ali mesmo ao lado da traquitana dele – e já se sabe que isto de sexo & religião é como álcool & condução. (Dizem eles, como abaixo se não verá.) Mas adiante. Eu assim para ele:
– Ó Gervásio, de que jornal, de que data e sobre quem há-de ser este bocado de prosa?
E ele assim p’ra mim:
– Há-de ser, não: já foi. Se está escrito, já foi. Só há-de ser p’ra sempre se estiver bem escrito e for bem lido. Deixa cá ler.
Eu deixei. Ele leu. Então o Gervásio, que é uma maravilha de óculos como ele há poucas, que devia mas era ser director da Biblioteca Nacional como o foi aquele Carlos Reis professor que nos lixou a todos com a bênção do abort’ortográfico, o Gervásio, dizia eu, disse-m’assim:
– Diário de Notícias, 3.ª feira, 3 de Dezembro de 2013, pág.ª 4, Ano 149, n.º 52 829, 1,10 €.
E então eu, aflito de propósito e numa ânsia de investigadorzeco à maneira do Jaime Coiso do Montalbánzito de cá, vulgo Chico-Zé Viegas, eu então assim:
– ‘tá bem, pá, mas isso é sobre quem?
E ele, esvurmando-me as ganas que eu tinha de que fosse o Passos, o Portas, o Cavaco, o Sonasol ou o SuperPop, sentenciou:
– Pá, tem pouco interesse, é o costume, um padre e crianças masculinas tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus, é só a avaliação psiquiátrico-pericial daquele que era vice-reitor do Seminário do Fundão e abusou de meninos.
Fiz finca-pé cá na minha:
– ‘tá bem, ó Gervásio, ‘tá muito bem, mas o gajo, por viol’ipendiar crianças, apanha dez anos. Já os outros (o SuperPop e o Sonasol) de que te falei, os superficialmente afectivos, os sem pinga de remorso, os manipuladores e altamente reincidentes, nem um ano apanham por abusarem de dez milhões.
E não apanham, como eu do chão apanhei um pedaço de jornal que, dizendo pouco afinal, afinal tudo diz – tanto do “fundão” como do mar-morto em que este País deixou que o tornassem.


Friday, November 29, 2013

Rosário Breve n.º 335 - in O RIBATEJO de 28 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt



Mea non vestra culpa

Já uma vez aqui mesmo Vo-lo disse, pelo que é mesmo aqui que Vo-lo reitero: há três décadas e meia que PS e PSD, com o ocasional penduricalho do CDS-PP, alternam à boca do tacho da desgovernação da Pátria – portanto a culpa é minha.
É minha – mas não é dos circunstantes com quem compartilho o usufruto cafeíno do café-galeria onde todos os dias, a partir das seis da manhã, matino os ossos, o lápis e o meu olhar de papel. Estes homens e estas mulheres são todas e todos de uma dignidade que não merece, nem de perto nem ao longe, ser amesquinhada como anda a sê-lo com mais agravo do que apelo.
Não duvideis: estas pessoas são como Vós e como eu pretendo ser, a compostura delas é a Vossa mesma, que reflectir pretendo. Permiti-me, pois, que Vo-las descreva com o, sumário embora, apuro possível:
o Quarteto de Mulheres-da-Limpeza: começaram, crianças ainda, a contribuir para pão & sabão em casa; pouca escola lhes deram; batidas ora pelos maridos como pelos pais outrora; por luxo único, esta chávena quente e parlamentar de cada madrugada; sei quando recebem o pouquíssimo que lhes pagam: é quando se permitem a extravagância mensal do pastel-de-nata; acho-as bonitas a todas, uma por uma; e considero-as não menos do que princesas reais. Ou canoas respiratórias ancoradas na precária angra do pão-de-cada-dia.
o Assentador-de-Pavimentos: é rapaz que não vai para criança, por isso mesmo que já cinco décadas e meia de nascido o coroam; gosto das mãos dele: parecem-me estrelas-do-mar capazes de tornar coral a pedra-pomes da subsistência; já o espinhaço batido se lhe adunca em fadiga óssea, é certo – mas certo é por igual não ser ele homem para desistir de merecer o que come, amailos filhos e a mulher, amanhã.
a Estagiária-de-Farmácia: era para ter sido médica, pelos sonhos de prestígio social que por ela e em vez dela tinham os pais e os avós, mas uma certa desvocação escolar para as Ciências interditou-lhe a formação clínica, pelo que se vinga em xaropes e supositórios do que nem Esculápio nem Hipócrates quiseram dela; é delicada como uma gardénia revestida a seda; namora um barbudo que mete música afro-brasileira numa espelunca de alterne aqui perto; enternece-me sempre muito o modo como, cedinho, esparge derredor si os bons-dias: como se francamente no-los desejara; mas, à boca-pequena, já se comenta que a directora-técnica da farmácia lhe lancetou que lugar efectivo, no fim do estágio, nem pensar.
Mais exemplos titulares vos escreve(da)ria, mas para tal são poucas as colunas que o Jornal me dá. Valham-Vos os supra-alinhados por paradigma, ainda assim.
O Tempo é o Rio que a todos nos usa por margens. Saibamos ao menos, como Ele, viver em moção, prescindindo ou desistindo jamais da fundamental dignidade que é a de não morrer sem ter vivido.
Há pelo menos trinta e cinco anos que Vós não cuidais muito disso, eu sei. Nem Vós, nem aqueles de “lá de cima”.
Como aliás sei que a culpa de tal é minha.

Saturday, November 16, 2013

Rosário Breve n.º 333 - in O RIBATEJO de 14 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Certidão de renascimento

Portugal é o nome da terra em que, a poder nascer-se de propósito, eu nasceria sempre e para sempre.
À beira do meu primeiro meio século de nascido, tenho por firmes tal opinião fetal e tal axioma amniótico. Não é por vão “patrioteirismo” à la Portas que vo-lo afirmo.
É porque só neste País a bruma, subindo do chão à primeira fímbria óptica da alva, faz do musgo, como em alhures algum, o espontâneo leito fofo do presépio natural. Dissipada ela, ela bruma, a luz põe-se toda a esmaltar, como em nenhum outro rincão mundial, os fundos pinhais de um verniz matizado de manteiga de ouro, que o vento reitera oceanicamente.
Mais digo que: também é por causa das mulheres absoluta, absurda e completamente Portuguesas. Algumas delas, com o desengonço içado e altamente elegante das girafas, escalam o escadote do próprio corpo encimado de um olhar húmido de água-ágata. Outras, meãs como empadas de açúcar, fazem reviver ao observador a ternura primeva das Mães lusitanas, essas magistrais economistas da escassez que nenhum Nobel contempla mas que todo o filho tenta repetir na esposa.
Os homens Portugueses são também, por outras tantas razões quantas as que perfazem o número deles todos um por um, outro motivo forte pelo qual, a ser-me possível escolher em que cor do mapa-múndi conhecer a primeira (e a derradeira) luz, isto só poderia dar-me Portugal. Mesmo os moralmente pequeninos, velhacos e bailarinos. Mesmo os que, imbuídos de um imponderável e improvável poder local tão mal exercido, maniganciam corrupçõezitas de mercearia num el-dorado de fancaria enodoado de quinquilharia.
Sim, definitivamente sim: Portugal é o único alfobre onde se pode nascer com alguma decência de alma, lavado o corpo e macerada a roupa través abluções a sabão azul-e-branco como só aqui se fabrica. Mesmo descontando esse elfo chamado Rui Machete. Mesmo engordando à perpetuidade esse lípido chamado Mário Soares. Mesmo só com dois cachorros, ou quatro gatos, por apartamento que se deva ao banco.
Da razão final pela qual me devo a reiteração incontornável de só me querer (e poder) nas-ser Português, terminalmente vo-la adjudico mercê de uma “sacanice”, digo, citação. Recorro a João de Deus, esse límpido Poeta nosso que, certa ocasião, celebrando de um amigo o aniversário, lhe rimou esta formosa graça:

Dia de anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora, o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!
Não faça tal, porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa, que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma
Também lhe não aconselho.
Mas anos… Não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

Onde o/a meu/minha Leitor/a lê, no poema, “Vinte e seis anos”, leia, por favor, 28. São quantos perfaz o aniversariante (e nosso) O RIBATEJO. Todas as terças, para às quintas sair, me calha a obrigação de escrever para este jornal-árvore (porque enraizado na terra), para este jornal-vento (porque a todo o lado se leva em palavras). Há quase três décadas que vem resistindo às intempéries e às tropelias da economia, do buraco na estrada, dos pontuais tiranetes de pacotilha que infestam a democracia (tanto a local como a do Terreiro do Paço). NB: mas sem jamais, até ao momento, ter feito de galego aguadeiro de fretes. De clara matriz editorial, O RIBATEJO é plural como o mundo e único como a Região que lhe dá o nome e o sentido existencial. Saudá-lo aniversariantemente é, até por sinédoque, saudar o público que tem sabido merecer. E, no meu caso, o caso é de perguntar: pois se não em Portugal, em que outro País um qualquer jornal me aturaria a crónica? Não é?

É.

Sunday, November 10, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 37 (10 de Maio de 2013)


37

Ib.
                                                                                                                                               

Começas criança mas ninguém te diz onde é o cinema.
Acabas percebendo a lata das bolachas, o ter de não estar vazia.
Percebes que a canção é mais do que um poema.
E chega a noite de ontem ao amanhã do dia.
Como cucos, os velhos são relojoeiros.
E nós, ex-crianças, disparamos morteiros.

Começa-se sempre pela louça, água-corrente nem sempre.
Mas há um horror ao lixo, que a limpeza é diferente.
É o mesmo que em pobreza a gente ser gente.
E as vagens-verduras sustentam a Mãe que morrer vai,
sei lá eu se é pecado ser nado ou nada ou d’onde-meu-Pai.
Dez de Maio, duplo-mil-&-treze, entretanto sai

o Sol inclemente, que com a Lua troca, indif’rença p’la gente.
Pela Arregaça antiga, que de Coimbra orla uma sandes paga,
a Matilde de há pouco (a louca dos meus versos) s’apaga,
de coxas varizmarmóreas, ante um viúvo desejoso,
uma ejaculação d’aguadilha, cuja emissão é o gozo
de um homem que não vou ser.

Amanhã, a manhã há-de ser de amanhecer.
O meu mais velho cruza morenamente a infância terminal.
Mandaram-no longe matar pretos em nome de Cristo-Portugal.
Tenho pena da Matilde, Gracita, aproveitam-se dela.
Já fez 60 anos, mas é branca de lírio. A beijar, é amarela.
Acontece exactament’agora. Escrevo bem. Acho mal.

Thursday, November 07, 2013

Rosário Breve n.º 332 - in O RIBATEJO de 7 de Novembro de 2013 - www.oribatejo.pt



Da solidária solidão

Há um ano e um século, a White Star Line, companhia proprietária do Titanic, enviou às famílias dos músicos da orquestra da fatídica viagem, também eles engolidos pelo abissal mar gelado, as facturas dos respectivos uniformes: afinal, a roupa pertencia à companhia de navegação, não a eles – e eles tinham cometido a gravosa imprudência de se afogarem sem se despir antes do que não era deles. (Isto não é patranha: é um histérico facto histórico.)
Cento e um ano depois, o Capitalismo “neoliberal”, essa besta autofágica e indutora do suicídio das nações que se não chamem EUA ou Alemanha ou China, segue à risca, à letra e a grosso a selvajaria da White Star Line acima descrita. O Capitalismo “neoliberal” é a Grande Hidra Cega. O Capitalismo “neoliberal” é a Nossa Mãe ao Contrário. O Capitalismo “neoliberal” é o ouro valer merda riscada a sangue. Vive de músicos afogados e de famílias desfeitas. Alimenta-se de podridões. E serve-se de lacaios acéfalos e invertebrados como esta cambada de cachopos que nos entretemos a eleger de quatro em quatro anos.
Vale que, um ano depois do Titanic, mais precisamente a 7 de Novembro de 1913, nasceu Albert Camus. Figura gigante, colosso ímpar da literatura do século XX, deixou obra sem cotejo possível. Muito superior à vedeta zarolha chamada Sartre, primou sempre pela solitária discrição. Morreu demasiado cedo, aos 47 anos, terminado por um desastre de viação automóvel.
Mas legou-nos A Peste, O Estrangeiro, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado, entre outros marcos descomunais das boas-letras.
Foi dos Nobel da Literatura mais justamente reconhecidos de que hei memória. E determinou para sempre uma distinção ética que outro gigante da literatura, também ele nobelizado, Gabriel García Márquez, adoptou como epigráfica divisa: que o ser solidário é o absoluto contrário do ser solitário.
Mas lá no fundo, o mesmo fundo em que jaz o Titanic, Camus mais não terá feito do que dizer à White Star Line, aos EUA, à Alemanha e à China que, de uma vez por todas, cresçam e desapareçam.

Saturday, November 02, 2013

Duas crónicas para O RIBATEJO - n.ºs 331 e 330 da série ROSÁRIO BREVE - de 31 e 24 de Outubro de 2013, respectivamente

Acabar com o parque-de-merendas

Estar pobre e ser miserável são dois mundos antagónicos mas coevos no comum mundo tristonho nosso. O pobre – acha-se sempre provisório. O miserável – sabe-se para sempre definitivo. É por isso que a pobreza usa certos ouros só dela. E é por isso que a riqueza excessiva é sempre miserável. Aliás: como é que, fundamentada na multitudinária miséria alheia, uma fortuna colossal poderia alguma vez deixar de ser mais miserável ainda do que o húmus humano em que farpeia raízes? Não poderia. Nem pode. Nem jamais há-de poder. É ver o caso de Angola. É ver o nosso caso.
Qualquer nababo da Banca me parece sempre a lustral versão pós-sauna do chulo navalhista (no tempo do Eça, um faia) de cachucho no mindinho escarafunchando com a unhaca respectiva a cera do orelhame. Qualquer sanguessuga vitalícia do Estado me obriga a ver em sua figura a mesma do tarado perpétuo e impune que, à mesa do Café como na cadeira da sala-de-espera do posto médico, mirona lúbrica e sorrelfamente o seio da mãe que amamenta seu petiz em candura.
Disse-Vos ainda, acima, que, ainda assim, a pobreza usa certos ouros só dela. Disse-Vo-lo bem. Nenhuma nota de cem no bolso vale, como ali em cima (como agora mesmo) no céu de um azul-ferrete que o Sol estende em ampla colcha de seda, a castelar nuvem toda neve, de um branco que evoca a nata bem batida. Nenhum maço das de vinte enroladas em cartão à feirante vale para mim o que vale a parlapiação dos homens quando no barbeiro, ocasião em que essa espécie de mulherio masculino, mui geriátrica e pausadamente, estabelece cartilhas morais à la Jornal de Notícias. Nem nenhuma ceia no Tavares Rico puxa mais salivação pré-palatal do que as tábuas de parque-de-merendas, sobre que os pobres estendem o afinal linho, a cambraia afinal, da toalha de algodão aos quadrados grossos encarnados e brancos para que rescendam a divino a capitosa sopa-da-pedra que fumega, o bacalhau enroupado de cebola e ungido de azeite que crepita, o honesto pudim-de-pão que confirma a pançada saloia e a taçada simples de nêsperas frescas que a água da fonte quase vitrificou.
Temo todavia que a Troik’ASAE venha ainda a proibir, ó mein führer!, a garfada da mesma vasilha de pimento assado às tiras. Isto numa primeira fase. Na segunda, que se proíba até a reunião pura e simples de mais três pobres, assim exterminando para sempre a lamentação fadista e o jogo-da-sueca. O dominó há-de porém resistir, quero-o bem crer.
Era oxioma litúrgico-salazarista que “quem dá aos pobres, empresta a Deus”. Sabemos hoje que só o contraponto a esta (i)moralidadezinha de sacristia espuriamente caritária é que é verdadeiro: quem rouba aos pobres, é sócio do Diabo.
Ou então é como, num instantinho, irmos ali a Angola sem precisarmos de sair daqui.

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Uma maneira de dizer

Julgo de razoável precisão certa memória minha, eu teria o quê?, os meus cinco anos. Foi no Largo da Portagem, Coimbra, terra inicial minha. O céu desse dia era (como) este de hoje sob que Vos escrevo: um cartão-de-caixa-de-sapatos, uma folha-de-Flandres aluminiosa, glauca, catarata-de-olho. Não sei já se Mãe ou Pai me acompanhavam então, como ainda hoje, defuntos ambos embora, o fazem. Olhei esse céu de Coimbra, mirei esse rio que dá fados como dá quelhas arbustivas – e pensei assim: E se nada existisse?
Nada. Nem céu, nem rio. Nem cidade, nem ser de Pai ou Mãe. Nem pobreza, nem bicicletas. Nem violência doméstica, nem abandono de animais (ou de filhos). Nem polícia, nem recifes. E nem sequer Deus a precisar tanto do Diabo. E se nada, o Grande Nada?
Curto filósofo de um metro, a auto-pergunta inquietou-me o resto da vida. Até hoje. Hoje, sento-me neste café a fazer duas colunas de prosa para um jornal decente feito por gente decente para um leitorado decente. Sou o gajo do blusão verde, duas mesas atrás dessa gente toda. Folheio as conversas alheias em digitação: é como se paginasse o papel oral dos meus Portugueses. Digo: a gorda de blusa roxa e unhas lacradas a carmim que comenta a Casa dos Segredos; a de cabeleira amarelo-açafrão cujas mamas exsudam o soro do leite amamentador à boca do pequenito de dois meses; o capataz de ar sueco que aloira os cilícios dando ordens; e a sombra da minha mão direita fazendo-se tinta num papel a que nem sempre sei responder. Como aliás não soube, dessa talvez-manhã de talvez-1969, responder ao Big-Brother:
E se nada fosse, existisse ou houvesse?
Domingo passado, 20 do corrente, fui ver-ouvir um concerto-encontro de bandas filarmónicas. De uma, a minha Primeira-Filha era a linha-da-frente. As respostas acabam sempre vindo, percebo-o já bem enquanto, por encanto, escrevo:
– Tudo há no que é.
Tranquilo finalmente, não tenho cinco anos já.
Tenho menos.
Um dia morro, um dia nasço – baralha & torna a dar. E o rio sob o céu: página a página.
Até hoje.


Saturday, October 19, 2013

Rosário Breve n.º 329 - in O RIBATEJO de 17 de Outubro de 2013 - www.oribatejo.pt


De ferreiro mau, só espeto de pau

Davam as cinco da tarde na passada segunda-feira, 14 do corrente, quando os secretários de justiça notificaram, por todo o País, os escrivães de direito das secções judiciais, informando-os de que, afinal, os funcionários judiciais sempre podiam sair do trabalho às 17 horas. Mas atenção – desde que sindicalizados. Os outros, não. Os outros tinham (e tiveram) de ficar até às 18h00m. O episódio, rocambolesco, histriónico e bufo à maneira das mais velhacas e mais tragifarsantes operetas, só pode ter feito rir na campa, e à gargalhada, o velho George Orwell. Sim, o mesmo Orwell que, em O Triunfo dos Porcos (Animal Farm, no original), já tudo dissera quando estabeleceu que “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”
A anedota triste (mais uma) tem história e tem cronograma. A saber:

1. A 2 de Agosto último, sai a Lei n.º 68/2013. Nela se “estabelece a duração do período de trabalho dos trabalhadores em funções públicas”. Novidade: aumento da carga horária, ordem de passar a sair só às 18h00m, em vez de às 17. A entrar em vigor no dia 28 do seguinte Setembro.
2. O Sindicato dos Funcionários Judiciais interpõe providência cautelar de suspensão de eficácia a 30 de Setembro.
3. A Direcção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) insiste na “obrigatoriedade do cumprimento imediato da Lei 68/2013, de 29 de Agosto”.
4. 11 de Outubro : o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa (TACL) vê pertinência na providência cautelar interposta, dando-lhe razão e provimento.
5. A DGAJ ordena então o exposto no início desta crónica.

O episódio é deveras velhaco, bufo, histriónico e rocambolesco. E poderia não sê-lo, caso a DGAJ soubesse ler decisões. A decisão do TACL dá razão a TODOS os funcionários judiciais, sindicalizados OU não. E mais: a decisão do TACL até ensina aos mandadores do sistema que, para obrigar TODOS os funcionais judiciais, sindicalizados OU não, a trabalhar mais horas pelo mesmo dinheiro (ou por menos, como se tem visto de mês para mês), há que alterar uma coisa chamada LOFTJ, id est: a Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais, que consagra, entre outras minúcias, o Estatuto Próprio de Carreira dos Trabalhadores Judiciais, esses inimigos do Estado em geral e deste desGoverno em particular.
Querem mais uma hora de borla, querem? Não pode ser, olha a LOFTJ. Mas é claro como água turva que, se agora não se pode, depressa se vai poder – e com h depois do p: é que, a 26 de Agosto último, três dias apenas portanto da tal Lei 68/2013, saiu a Lei 62/2013, que visa a organização (ou, digo eu, requalificação, ou degradação, ou destruição) do sistema judicial. Esta marosca-de-rabo-de-fora traz no bico a alteração do tal Estatuto Próprio de Carreira dos Trabalhadores Judiciais (TODOS, p’s ’tá claro). Alterado este, vai de hora diária suplementar e nada de refilar, qu’isto já não são 25-d’abris.
Li os documentos que acima vos crono-enumerei. São orwellianos. Informam e enformam (e enfermam) a desengraçada realidade triste dos tristes dias sem graça que vivemos penando, sem culpa formada embora. A decisão do TACL, porém, é de despachada (e despachante) clareza. E de minuciosa pedagogia seria até, no caso improbabilíssimo de os desmandadores ministeriais preferirem, a escrever por linhas tortas, saber ler (a) direito.
Em casa de ferreiro, espeto de pau – quando os próprios desmandadores da tutela não sabem a quantas andam (sabendo embora para onde querem ir, os maganos), mau-Maria. Curial seria que a cúpula da Justiça soubesse na ponta da língua a tal LOFTJ, por mero mas não despiciendo exemplo, mui especial e nomeadamente no que consta dos artigos 122.º, aprovado pela Lei 3/99, de 13 de Janeiro, e 152.º, aprovado pela Lei n.º 52/2008, de 28 de Agosto. Por aí veriam qual é, por lei e por direito, o horário de trabalho dos Funcionários de Justiça. Mas não sabe. Ou não quer saber.
O mínimo que destas caricaturas processuais o Público (tu e eu, Leitor/a) pode concluir, não há que nem como negá-lo, é que nem o ferro é de pau, nem o ferreiro percebe de espetos.
(Nisto, ouve-se de novo o Orwell a rir-se na tumba: mas, para aliás não grande admiração geral, a gargalhada dele tem o timbre vocálico do, valha-me Deus!, Marinho Pinto.)

Saturday, October 12, 2013

Rosário Breve n.º 328 - in O RIBATEJO de 10 de Outubro de 2013


Uma anedota itálica com mulher distante só p’ra disfarçar

Que o senhor Ricardo Araújo Pereira seja melhor contador de anedotas (e melhor cronista também, já agora) do que eu – não é nem de espantar nem de grande pólvora descoberta agora. Mas que um senhor Rui Machete o seja, isso já, a mim me ata dois nós: um na garganta e outro, mais a sul, nas tripas. Nunca tive especial apetência erótica por virgens, muito menos das ofendidas, como me parece quer um senhor Rui Machete (a)parecer(-se). “Inexactidão factual” não é, de facto, exacto. É só mentira. É como dizer “inverdade”. Ou, tratando-se de pessoa fisicamente cega, chamar-lhe “invisual”- porque “invisual” é o que se não vê, invisível portanto, e não quem não vê.
Destes preciosismos retóricos inventados por bezerros-de-lata chamados Assessores vive a (in)comunicação (as)social dos nossos tristes dias de tão-mau-tempo-no-canal. Eu até era para perder mais do meu e do vosso tempo com isto, mas não ceder vou à tentação. É que, pela galeria onde assentadamente dou escrivão assento a esta crónica hebdomadária, vai passando um monumento respiratório, todo carne e todo luz-de-olhos. É uma senhora. Vive e trabalha aqui perto do Café onde diariamente inscrevo o bolor do meu ócio. Permiti-me Vós que vo-la diga:
Olhar adjudicado a orçamento de veludos nacionais, tem, por pestanas, aranhas movediças. O rosto vale por maçã arrebatada, daquela golden que se faz camoesa. Ivóreos dentes afloram o carmim do lábio quase grosso. Queixo ergonómico tamanho concha-da-minha-mão. Pescoço que se alabastra em nervura tensa. Pele global de tensa elasticidade, que dá ganas de morrer tactilmente e de olhos abertos para não perder um segundo de filme. Peito que vos não digo. A sul do diafragma, todo um ventre valendo o postal de todo um estuário azul. Coxas de colunar templos gregos, dentre os que ela um deles. Rótulas de madrepérola por joelhos que a breve saia roça de comichões de chita. Artelhos de mínima protuberância: como soluços ósseos de mais espuma que osso. E pés de uma ascendência de asas ícaras: por mais de cera que de palmípede.
Já uma vez lhe franqueei a conduta salva da divisória de vidro do Café da Rita.
Pestanejou-me o óbolo do cavalheirismo.
Fui fulminadamente feliz no instante mesmo, de onde me resultou evitar a felicidade alienígena à hora a que a minha senhora esposa volta do trabalho cansada de tanto-cabrão-no-governo-e-fora-dele.
Não, não cronicarei, à falta de ser sequer meio Ricardo Araújo Pereira, sobre um senhor Rui Machete, cujo rosto, aqui há muitos anos (sei-o de cor, juro que sim) o Expresso descrevia como “suave e civilizado”.
É figura que me parece elfo já nascido com óculos, como o Harry Potter, à maneira dos gatos, ou dos ratos, mais fedorentos.

E, anedota por anedota, inverdade por mentira, semblante que só merece que eu, por senhor o tratando, o faça sempre em cursivo itálico.

Thursday, October 03, 2013

Rosário Breve n-º 327 - in O RIBATEJO de 3 de Outubro de 2013 - www.oribatejo.pt

Cartão-de-eleitor do papa-bivalves

De quando em vez, os bivalves tornam-se objecto de apanha proibida. A interdição sanitária visa precaver o consumidor de incómodos mui nocivos, como sejam, e são, a intoxicação diarreica e a amnésia. A estas duas mazelas de mau convívio, eu ousaria, e ouso, adir a patologia social da sintonização televisiva na TVI e a famigerada abstenção eleitoral, por fundamentarem ambas, a meu ver, a nem sempre compreendida mas crucial distinção entre o praticar o mau-olhado e o ficar mal-visto. Já da supracitada paridade diarreia/amnésia, não me inibirei, escarninhamente, de, atentos os resultados eleitorais, relevar a peregrina simetria moitaflorista de, se de facto o senhor Ricardo Gonçalves “não tem cabeça para a herança de Moita Flores”, também o senhor Moita Flores, pelos vistos e pelos votos, não ter unhas para a viola da herança de Isaltino. Sequer. Acaba por ser triste, aliás: conta mais um responsável preso do que um irresponsável em liberdade.
(Nota: com a relesia das minhas crónicas de última página e penúltimo bom-senso, mais não pretendo do que subsidiar o historiador do futuro que se não arreceie de emporcalhar as mãos na gamela da sociometria política à portuguesa de princípios de terceiro milénio. Quem deveras não tem cabeça para urdume de tão monumental desconcerto c’est moi, como Flaubert dizia que era a Madame Bovary. Ou aquela Loulou do perfume da Cacharel.)
Do maralhal cómico que bota bitaite comentador nas capoeiras de néon, vulgo estações televisivas, não houve muito exemplar que relevasse o verdadeiro vencedor das Autárquicas/2013: a Abstenção. No formoso trecho de mundo chamado Ribatejo, ela campeou lezírias e galgou valas, malogradamente revestida, como sempre e por todo o lado, das não diáfanas gazes da indiferença, da resignação, da desistência, da não-resistência e da auto-interdição comum à dos bivalves de quando em vez.
Isto que digo nem sequer é discutível, posto que inequívoca verdade de Abrantes a Ourém, de Alcanena a Vila Nova da Barquinha, de Almeirim a Torres Novas, de Alpiarça a Tomar, de Benavente ao Sardoal, do Cartaxo a Santarém, da Chamusca a Salvaterra de Magos, de Constância a Rio Maior, de Coruche a Mação e do Entroncamento à Golegã, passando por Ferreira do Zêzere. E o mesmo vale dizer dos restantes 287 municípios do território pátrio.
Tenho por definitivo que o abstencionista é bivalve. E do estragado, não desse que, fresco como um limão de sal, acorda o mar no palato em cúpida antemão de uma rajada gélida de cerveja e/ou de uma explosão glacial de verdasco gaseado. Somos deveras um País tão lerdo, que ao cabo de meio século de ditadura vamos já cumprindo, como quem enferma de um mal que desconhece ou à guisa de quem pena de um anátema que se calhar merece, quase outra meia centúria de tiranete “democracia”.
(Nota pessoal e final: posso parecer-vos indignado. Não estou. Isto já só me faz bocejar larga, aberta e profundamente, em nojosa exposição da mui cariada arcada dentária minha. Sim, este Povo leva-me ao bocejo, à quase misericórdia quase cristã. E à saudade do senhor Bulhão Pato, que sabia mais de como se faz a amêijoa do que esta minha gente há-de saber de como fazer, de si mesma, País. E que nem sabe que diarreia e amnésia, em alegada Democracia, são uma única e mesma coisa.)

Sunday, September 29, 2013

Rosário Breve n.º 326 - in O RIBATEJO de 26 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Crónica para ler ao altifalante

1. São estes os últimos dias da campanha para as Autárquicas/2013. Por todo o País, viaturas entestadas de altifalantes rastreiam por becos, vielas, travessas, ruas, avenidas e praças o ladrar roufenho da propaganda. É som que me melancoliza: lembra-me sempre, por irrecusável e irredimível homofonia, a presença antecipada dos circos. E pior: traz-me dos antigamentes a camioneta dos sorteios dos cegos por cercanias do Natal. Ou, das feiras, o casal de microfone enrolado em peúga a vender colchões milagrosos a velhinhos de arruinadas ortopedias e enxovais mijados a noivas já prenhes.
Tenho já idade a suficiente, todavia, para que a minha propensão merencória se não alcandore a critério de aferição. Este vozear a pilhas altífonas & megafónicas do vota-neste-vota-naquele é, afinal, quanta música a democracia local sabe cantar. Mas antes essa cantiga, afinal e deveras, do que o silêncio sepulcral das nomeações a dedo do tempo do Morcego Eunuco, vulgo Salazar.
Que eu não tenha expectativas, é moléstia pessoal só. É só enfado incréu meu. Agora que o País as não tenha, aí já fia mais grosso. Casos há e autarquias há em que um mínimo de bondade prática é exercido nos ínfimos meandros da quotidianidade. São excepções, todos o sabemos – mas a regra é ir a votos sempre, posto que muita e muito boa gente sofreu em combate as sevícias da ditadura para que os vindouros (que nós somos) pudessem errar à livre vontade sua no boletim democrático.
Eu sei, eu sei: “eles” não vão para lá para nos servirem mas para se servirem. Nem todos, porém. Conheço casos de gente eleita cujas clara honestidade e competência irredimível são irrecusáveis. Trata-se, no fundo, de sabermos, como eleitores, identificar os gatos e os ratos, votando no cão. No lobo, não.


2. Até lá (dia 29 do corrente), não nos doa a cabeça nem nos apodreça o dente. Ao morredouro quotidiano do tostão, saibamos opor o lingote do bom sol português, que o Outono já oficial ainda não soube, ou não quis, desveranizar. Foi o que fiz no sábado, 21. A minha mais nova quis ir ver a primita, neta da minha irmã. Través a fornalha reverberante da tarde, soubemos merecer, na casa que foi de nosso Pai quando infante, a frescura das grossas paredes de uma alvenaria mais antiga do que a morte dele. Houve refresco de café lambido a limão em gelo. A minha sobrinhita-neta, que se chama Margarida, não estava – mas a minha Teresa não esmoreceu por causa disso. A minha irmã (que é Lucília, cuja etimologia é luz por a razão óbvia do que ela é em pessoa) foi buscar os álbuns das fotografias familiares. E então a Teresa folheou o Pai dela quando mais novo do que ela – e quando os cães altifalantes das eleições, que então nem havia, não altiladravam por becos, vielas, travessas, ruas, avenidas e praças a local e nacional e patriótica democracia.

Monday, September 16, 2013

DOIS DIVERTIMENTOS (linguagem e assuntos um bocadinho pesadotes)

DIVERTIMENTO (1)

Leiria, 13 de Setembro de 2013, sexta-feira

Como altos frutos de seiva alta crescem
e passam pela galeria as mulheres alheias.
Todas, sem excepção quase, me merecem
as felicitações mais altaneiras.

Olhai-me esta morena: parece um lírio bronzeado.
É desconfiadita: mamalhuda, olha de lado
o poeta inocentíssimo que a soletra, o vil.
Em cada pernaça rija tem quilómetros mais de mil.

Fincai-me esta loura à força como é de moda:
já aquele coirão (perdão!) mereceu muita foda,
que no derramar do leite está o choro ganho.
Fica-lhe bem a popelina fresca na pele saída do banho.

Estas duas, siamesas, amorangam framboesas.
As bocas são de uma carnação acerejada
que apetece lamber com chantilly – ou então com nada.
Que passinhos voadores! Que sandalinhas princesas!

Passa por fim a feia forte não desprovida de encanto.
Farfalhuda de barrigola, é de marido que gosta de bola.
Mas um não-sei-quê se evola dela,
uma trepidação que conspira sob a blusa amarela.

Já quase arrumo o caderno, já vou quase em casa.
Portei-me hoje bem, não ensaquei o grão-na-asa.
E quando a minha me perguntar pelo dia,
minto-lhe, feito cegueta, que só a ela vi quando escrevia.



DIVERTIMENTO (2)

Leiria, 15 de Setembro de 2013, domingo

Esvurmo, mui voraz, à palitada
de dente cavernoso uma bocada
de carne que ali me apodrecia.

Sarro e catarro arranco a puxões,
que escarro depois sobre um relvado.
Que feio e ruidoso, puxar o escarro

e deixar o verde pano ov’estrelado!
A minha santa Mãe, se isto me via,
ralhava, pomba furiosa, pois não podia

que o Menino fosse qual vil carroceiro,
p’ra mais com universidade e do nome Abrunheiro.
Mas nem sempre se é mota. Às, vezes só se é lambreta.

Sou feliz assim, porcalhão, descuidoso.
Chego a cuspinhar pelo mero gozo
de imitar a fonte, a carranca, a sarjeta!

Ora pois qu’inda bem. Hoje, não lavei ’inda os dentes.
E pois então? Cariados, rachados, são sorridentes
à mesma, quando disso é ocasião.

Esta, uma dessas. Mas pelo que te escrevo não meças
(ou, muito menos, me peças)
que mude agora de condição.

Algumas lostras chegam a ser formosas,
com seu quê de ostras, de ovo, de rosas.
Daí o parecer-me algo pacóvia

a repugnância indistinta ante toda a escarróbia.
As que prefiro são as de recheio como as empadas
– folhosas, cristaladiças, suculentas e folhadas.

E não direi muito pelo errar, não,
que, afinal, todo o cuspir-pró-ar
acaba caindo no chão

como é da mais humana condição.


Sunday, September 15, 2013

Rosário Breve n.º 324 - in O RIBATEJO de 12 de Setembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Utopia lamentosa

A minha utopia é a de um País cujos bombeiros só fossem precisos para tirar da árvore o gato que a ela subiu para desespero da viúva que tanto o mima.
Agosto ardeu já de ponta a ponta. Queimou combatentes que precisavam só de ter juízo, de ficar em casa com a família, de deixar arder os outros e o que é dos outros. Morreram uns tantos? Não faz, parece, mal: vamos continuar a ter futebol distrital.
A minha isotopia é a de um Portugal que quisesse chamar-se Mar-Pinhal. Uma longa horta de litorais 860 quilómetros. Um que plantasse sardinhas e pescasse tomate. Um que não permitisse à hidra do capitalismo a transformação de searas em campos de golfe. Um que, em vez de amestrar, educasse quem nasce. E que cuidasse de quem, por culpa inocente dos muitos anos, des-nasce sem amparo nem remédio.
Agosto é o nosso carnaval em chamas. Até aqui, era só um mês parolo, uma jornada bailada em calão, uma temporada pimba, papalva, quase inocente. Já não é só isso. Agora é também uma época mortífera. Parece uma telenovela fatal, a que acresce a “fatalidade” intolerável do calendário.
A minha utopia portuguesa é a de erradicar de uma vez para sempre o mês de Agosto. Baniríamos para sempre a crise, passando directamente de Julho a Setembro. Pensando em profundidade, aliás, nem de Julho precisaríamos. Ficávamos só com Junho, cujo Inventário foi escrito por Teixeira Gomes, elegante e nosso esquecido Presidente da República. Maio? Longe com ele: nasci num. Abril? Memória nenhuma e respeito nenhum, meu capitão Salgueiro Maia. Março? Nem com bagaço. Fevereiro? Adeus, atoleiro. Janeiro? Acabado, como o professor que antologiava as lendas da Primária no tempo em que se lia nas escolas. E nenhum Natal e nenhum Novembro por causa de tão infiel e tão defunto e nenhum Outubro.
A minha utopia é a dos oito bombeiros, entre rapazes, homens e raparigas, voltarem para casa a tempo de um País que nem de meses precisasse para estar a tempo de si mesmo.
No entretanto, também a democracia para que fui educado arde. Chega a ser desopilante, a anti-PIDE do tudo-à-mostra: a carcaça da corrupção, o Cavaco nas Selvagens a fazer de Vasco da Gama, os fatos Armani-Sócrates dos comentadores tipo Judite/Seara, a exuberante inteligência do CR7 pelo menos naquilo da Irina. Mas os bombeiros, os bombeiros…
Prefiro o gato da viúva, gozão, em cima do choupo. Sei do que falo: sou marido de bombeira, pelo que tive um mau mês. Muito mau. Mas para o ano há mais, bem no sei.