Friday, April 20, 2018

TAMBÉM SOU CAPAZ DE AMAR UM GAJO - Rosário Breve n.º 551 in O RIBATEJO de 19 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Também sou capaz de amar um gajo



É sem minimamente mentir que posso dizer que o conheço de toda a (minha) vida. Sei muito dele. O que não sei, tento angariá-lo mercê de honesto estudo & de inquebrantável observação – e quando estes dois instrumentos resultam lacunares, supro o improvável pela imaginação, essa memória criativa que o porvir nos concede para que algo passado nos seja presente.
Do seu nascimento até hoje (e não escrevo até à sua morte porque, mui felizmente, ainda se não deu ao pecado imperdoável de morrer), todo o tempo dele me interessa. Mais isto: nunca fui isento a seu respeito – tanto no que concerne às suas admiráveis virtudes, como no que respeita aos seus obstinados defeitos.
Os meus Pais conheceram-no antes de mim. Naturalmente assim foi. Passaram-mo por uma espécie de herança transmigratória, ou consuetudinária, ou por usucapião, que nunca enjeitei. Conto dá-lo à atenção crítica de minhas ambas Filhas, dádiva que a minha mão direita pode & deve partilhar com a gémea esquerda sua.
Por que claro mistério me interessa ele tanto? Por mistério algum. Fala uma Língua maravilhosa, para começar. Come bem, bebe muito (de mais até) – imito dele a segunda coisa, não a primeira. Lê todavia pouquíssimo. É sentimentalão no que escreve. Tão depressa se diz “religioso” quão “não-praticante” & “laico nas horas vagas” – paradoxo que sempre me soube a tremoços sem cerveja.
Fisicamente, é alto & magro, de costas admiráveis. Mais: do semblante dele, alguém afortunadamente disse ser o modelo europeu de rosto por excelência – se não por definição.
Mentalmente, é uma criança atrapalhada por lapsos de senilidade.
Comportamentalmente, é doméstico & arruaceiro; lhano & manhoso; hoje acha & entrega à polícia uma carteira recheada de documentos e muito dinheiro; ontem andou à porrada com um cego pela caixa-de-esmolas; amanhã é capaz de dormir com um homem que lhe ronda a mulher. Já, com estes meus olhos que a terra há-de enxugar, vi marejarem-se-lhe de lágrimas os dele à imediata audição de Carlos Paredes – assim como o sei também muito useiro & vèzeiro dessas festarolas contaminadas de desquitadas estarolas que desfalecem baba & ranho ante o Tony Carreira. Já o vi, materno & ortopedista, reparar a patita quebrada de um pardal – assim como o soube escarlatemente exultando no redondel em tarde de barbárie tauromáquica.
Sim, gosto muito dele. Gosto irreparavelmente dele. Não o adoro, atenção! Adorar implica genuflexão – posição equívoca que poderia tornar-me mal-visto aos olhos das pessoas decentes. Chicoteio-o verbalmente pelos defeitos tantas vezes evitáveis de que é, aliás, exímio & contumaz amante & praticante. Admoesto-o (sem resultado prático positivo jamais, valha a verdade) quando ele é insensato, quando ele é maria-vai-com-as-outras, quando ele vota mal e se gaba disso, quando ele – na sua Língua maravilhosa – fala sempre antes do que jamais pensa depois, quando ele se arrola às procissões de santos depois de ter feito em casa um escarcéu dos demónios a mulher & filhos.
Mas também o louvo, louvo-o total & incondicionalmente: quando ele pinta uma casa de luz como em nenhum outro lado pode transparecer assim; quando ele amanha a horta com preciosas perícias de renda-de-bilros; quando ele me recebe com o pão mais fresco, o queijo mais puro, o peixe mais vivo & o vinho mais capitoso no seu pátio refrescado pela latada de cachos gordos como pérolas adiposas sob que cão & gato dormem em consolada & perfeita harmonia vigiados pelo canário & pela sogra velhíssima mas imortal.
Louvo-o, sim – e arremessemos sem medo o outro verbo: e amo-o. Amo-o de olhos abertos até nas mais fechadas noites. Amo-o sobretudo por ele ser quem é. Amo-o sobretudo por certo dia ter feito o que fez. Quem é ele? É Portugal. E o certo dia é Vinte-Cinco-de-Abril-de-Mil-Novecentos-e-Setenta-e-Quatro.  





Thursday, April 12, 2018

ELA POR ELA - Rosário Breve n.º 550 in O RIBATEJO de 12 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Ela por ela



1 Sofia Sócrates, aluna da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém: “Existem muitas formas de ditadura, e hoje é contra ditaduras sem rosto, silenciosas e invisíveis, que temos de continuar a lutar.”
Estas palavras vêm na página 9 da edição imediatamente anterior a esta deste Jornal. Foi na peça intitulada “Tributo a Salgueiro Maia marcou início das comemorações de Abril”. Comento-as assim: jovens, antigas, definitivas, sábias palavras. A maravilha é provirem de alguém nascido em 2000 (d.C.). Não é coincidência que o nome grego Sofia signifique, precisamente, Sabedoria.

2 A minha filha Teresa, como Sofia, nasceu também no ano 2000. Foi outra revolução. Outro cravo, rosa sendo. Outro movimento de tropas. Outra madrugada perpétua. Foi, foi. Recordo sem esforço o perfume dela manando dos primeiros linhos. Digo: a neve imaculada da sua brancura sem senão. Minha filha, disse. E filha de Abril também, nascida embora em Janeiro. Filha de Abril como Sofia Sócrates.

3 Os CTT (que Deus tem) não são já aquela coisa fiável que já foram. Por isso, a minha assinatura em papel de O RIBATEJO só me chega a casa quando eles não estão demasiado ocupados a tratar do que mais deveras lhes interessa – o Banco CTT. Assim, só uns dias depois li as palavras da menina Sofia Sócrates a propósito do 25 de Abril e do gigante Salgueiro Maia. Ainda assim, aprendi-as a tempo de ser feliz por causa delas. A Sofia & a minha Teresa têm dezoito anos – meros menos trinta, portanto, do que durou a infecta podridão salazar-fascistóide. A liberdade, todavia, torna-as da idade de Portugal.

4 Tudo isto tem de ter a ver mais com o nascer do que com o morrer. E tem tudo a ver com o saber. Neste sentido: o saber só pode tornar-se moderno quando nasce clássico. Quando servir para sempre. Quando for completamente humano. Isto é: quando é totalmente humanista. Quando sabedoria e filantropia rimam na perfeição. Sim, Sofia, ele anda por aí muita ditadura invisível. Como a da ignorância. Como a da corrupção. Como a do desemprego. Como a do tempo de espera por uma consulta hospitalar. Como a do esvaziamento curricular das escolas. Como a do fanatismo futeboleiro. Como a da estupidez televisiva. Como a do desamparo dos idosos. Como a da poluição impune da Mãe-Natura. Como a do escarro no rosto em que consiste o salário mínimo. Como as dos tolos eleitos por tolos. Sim, Sofia, sim: temos, mesmo, de continuar a lutar.

5 Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de Abril de 2018. A Batalha de La Lys, em cujo nevoeiro sebastiânico tantos mil Portugueses se perderam, foi ontem + 100 anos. O nascimento do senhor meu Pai faz hoje 101 anos. Fica ela por ela. Ela por ela? Sim. Na mesma página 9 do nossO RIBATEJO, mais estas palavras da juvenil estudante do santareno Sá da Bandeira. Invocando o capitão Salgueiro Maia, diz: “Obrigado por nos teres aberto o caminho, e nos fazeres ver que é possível sermos livres, se o quisermos realmente ser.” O meu Pai tê-las-ia compreendido de imediato. Suponho que os Portugueses de La Lys também. Ser livre é querer. E é crer, também. Ora, gente como a minha Teresa & como tu, Sofia, tornam crível o País. E gloriosa a manhã de amanhã. Ela por ela.


Thursday, April 05, 2018

FAUNA - Rosário Breve n.º 549 in O RIBATEJO de 5 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Fauna



Dois antigos na paragem do autocarro comentam a abertura da época da caça: IRS, IMI, recapitalização da banca privada à custa do contribuinte público. Envergam ambos roupa bem lavada, calçam com distinção. Um é de face rubicunda, que trai dele a vocação de merendas bem avinhadas. O outro é mais enxuto de carnes, perfil mais inteiriço, deve ter sido tropa de carreira.
A luz apaga-se, reacendendo-se instantes depois. No lugar dos dois maduros, duas idosas agora em cena. Uma, de saco com gerânios plásticos de campa fúnebre, quatro velas em bases roxas com furinhos crucifixos: ar de santa-viúva, lavadora extremosa do mármore de seu falecido, resignada adoradora de cinzas. A outra, de pernas arqueadas que a fazem gingar como barca ancorada em joanetes. Falam sem se ouvir uma à outra – de doenças, consultas, operações & demais deliciosas aflições.
Uma nuvem mais densa obscurece-as, dissolve-as, dissipa-as, rouba-no-las. Em lugar delas – e para nosso mor benefício -, uma moça se incorpora. Maravilhosa incorporação. Bonita de mais para ser alvo de cobiça sexual. “Ideal para namorar aos domingos”, como dizia um conhecido meu. Deveria ser emoldurada – mas só para exibir em sonhos. O senão desta bela é um defeito horrível no dedo: anel-de-noivado.
O projector estremece, esmaece, entenebrece: já na vez da formosa se insurge um arrumador de estacionamento. Avelhentado de muito pacote de vinho-de-cozinha & de muita sandes de pão-com-pão. Amarelidão de outono hipodérmico com garrote – mas rijo qual erva-daninha em interstício de calçada. Orgulhoso, é sem agradecer que me aceita o cigarro. Águia apeada que o vento não leva.
Mas que novo apagão de cena leva, sim. Quatro adolescentes, agora. Macambúzios. Autistas de smartphone, que matraquilham velocissimamente. Nenhum conversa com ninguém. Calças rotas de propósito, dentes agrafados por cremalheiras ortodônticas: arrumadores do futuro.
Um cavalheiro de lábio-leporino fende o ar da fala como a serpente assobia. Escuta-o mui solicitamente um que é solicitador, tirou o curso depois de reformado da Marinha Mercante, tem valor, aprender até morrer.
Dois bêbedos maravilhosos ziguezagueiam da esquerda-alta à direita-baixa da cena tablada. Um assegura Deus, o outro bebeu como o Diabo. Pertencem ambos a essa feliz eternidade d’inda-não-ser-amanhã. Um traz chapéu na cabeça mas é do amigo a cabeça, que aliás nem chapéu usa. O pior-da-vida é a gasosa no vinho e que as nossas mulheres fiquem viúvas. E que as nossas mulheres, ficando viúvas, nos lavem o mármore com água. E se auto-santifiquem e nos plastifiquem de gerânios.
Nisto, ressuscita em palco o arrumador-de-carros. Traz uma orelha murcha & uma narina esgalhada: algum tóxic’olega lhe bateu por vinte cêntimos que estavam no chão como Portugal também esteve entre 1926 e 1974. Não se queixa. Traz moedas q.b. para uma sandes de iscas & um martelo de branco. Quase exulta. Águia devoradora de vísceras.
E ainda: quatro vezes magra como quatro canas, uma senhora leva dois dedos à gaiola do peito, inquieta pelas intermitências arrítmicas do coração. A dois metros dela, sozinho no mundo como a Lua, um chulo de viela mijona escarra um esparadrapo amarelo da textura, da consistência & do volume de um ovo-estrelado.
Um casal de cegos (não-esmoleres) tirita o morse do chão com bengalas de alumínio extensível.
Uma mãe de gémeos em carrinho-duplo anuncia ao mundo a duplicação do mundo.
Foi produtiva, a manhã. Para que a solidão do espectador não seja tão vincada, água & sabão nas lentes oftálmicas: é tudo quanto o teatro do quotidiano requer. A fauna humana é inesgotável, haja lápis que a circo-inscreva. A grande maravilha não é o que as pessoas dizem – é o que pensam calar. Não é o que mostram – é o que julgam esconder. Qualquer lápis decente sabe isso.

Wednesday, March 28, 2018

DAVID & DA VIDA - Rosário Breve n.º 548 in O RIBATEJO de 29 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






David & da Vida





Sucedeu numa casa-de-pasto de cujo balcão sou freguês recorrente há bons (e menos bons) anos. Foi pela finimanhã de quarta-feira, 21 de Março de 2018, já o meio-dia não vinha longe. Aos que estávamos, juntou-se-nos um homem perdido. Em segundos velocíssimos, aquela aparição disse ao patrão da casa que não vinha pedir esmola em dinheiro mas sim a caridade de alguma coisa para comer – porque não comia há muitos dias, porque tinha sido escravizado em Espanha, porque não sabia o que fazer à ou da vida. E era de facto, na vida, David. David era deveras: fiquei a sabê-lo pelo diário local cá da paróquia na manhã seguinte, quinta-feira, 22 do corrente.
Por tal periódico, aprendi que este pedinte se chama David S., tem 50 anos, há sido trolha de profissão e foi dado como desaparecido pela família. A notícia (com retrato do extraviado senhor) acrescentava que é gente portuguesa de Joane (Vila Nova de Famalicão). A irmã, Rosa S., fornecera às autoridades e ao jornal um número de telemóvel, rogando que lhe ligassem em caso de avistamento do extraviado mano dela. Assim fiz. Liguei à senhora.
Disse-lhe o que Vos conto. Falei-lhe da cena na casa-de-pasto. Falei-lhe de Espanha. Ela disse-me: “É ele. Isso de Espanha é uma história que ele costuma alegar.” (Sim, ela disse “alegar”.) Perguntou-me depois se ele andava de barba (na fotografia do jornal, não a tinha.) Disse-lhe que sim, barba de muitos dias. Barba & casaco de couro acastanhado. E ela: “É ele. Tem de ser ele. Muito obrigada pela sua atenção.” Tinha a voz anestesiada pelo desespero.
Nessa mesma quinta-feira/22, fiz duas coisas: uma, fui à esquadra central da PSP cá do burgo, onde dei conta do facto aos uniformes competentes; antes, porém, comentei o caso com a freguesia & com a gerência da dita casa-de-pasto. Os demais clientes interessaram-se pelo episódio – mas a gerência nem tanto. A gerência nem tanto por pura má-consciência: é que, na véspera, tinha recusado comer ao homem – talvez por receio de tanga ou de ociosa pedinchice parasitária como tanta por aí anda, talvez. Percebendo o embaraço do remorso, não insisti. Paguei o meu copo e fui à polícia.
Tenho agora o recorte de jornal colado no caderno em que escrevivo estas crónicas para Vós. Não sei mais. Desconheço se o senhor de Joane, Vila Nova de Famalicão, foi já ou não ainda encontrado. Redijo estas linhas na sexta-feira, 23 de Março de 2018. Entrementes, a chuva voltou, maciça & massiva. Quarta & quinta foram dias muito formosos, de um azul oceânico feito céu a que o Sol presidiu com autoritário garbo & majestoso esplendor. Mas a chuva voltou, o que me faz temer pelo desaparecido.
Rosa diz que o irmão sofre de “depressão” por causa do descalabro do casamento e que anda “confuso e perdido” desde 11 de Fevereiro último, dia em que se desmaterializou de Joane. São muitos dias, bem mais de um mês ao lento relento.
E agora, Leitor meu, confesso: também eu padeço de má-consciência. Sim, má-consciência. Não reagi a tempo. Na manhã acabando-se de quarta/21, eu tinha duas sandes & uma banana no saco. Não me ocorreu sair à rua, perseguir David, dar-lhe de comer. Eram boas sandes: de mortadela & queijo-creme, uma; outra, de capitoso presunto translúcido & corado a fumo de lenha viva. Não me ocorreu, o que agora amargosamente lamento. Quando me lembrei, era tarde de mais: o perdido reiterara de si a perdição, invisibilizando-se na indiferente luz da manhã terminal.
A comparação seguinte pode parecer-Vos reles ou mentirosa ou lingrinhas ou auto-coitadinha – mas é mais friamente verídica do que meramente verosímil: também eu já me achei perdido. De família, de anos estragados, de projectos calçados a barro, de manuscritos sem tipografia, de animais amados como pessoas singulares & de pessoas não plurais como bichos de estimação. E de sozinhíssimas, insensatas copofonias. Verdade, tudo isto. Não hei-de hoje mentir.
Em lenitivo & paliativo contraponto, porém, a minha salvação tem sido esta mesma janela ribatejana de última-página, que há quase onze anos, em uma hora feliz, se me abriu para Vós. Porquê? Ora, porque não se pode perder tudo: a começar pelo que fazer, David, da Vida.


Wednesday, March 21, 2018

SIM, ELE FUMA DEPOIS DE FAZER AMOR - Rosário Breve n.º 547 in O RIBATEJO de 22 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt





Sim, ele fuma depois de fazer amor



Onde era o barbeiro velho, é ora a venda de fruta. O barbeiro morreu, a nora é a fruteira. O filho do barbeiro anda nos camiões internacionais desde muito novo, não quis o ofício do pai. Também muito nova, a mãe do camionista foi sem querer que deixou viúvo o barbeiro: qualquer coisa no coração, um repente roxo que lhe deu. A começar pelo filho, já quase ninguém se lembra dela, agora que também o barbeiro se matriculou na galeria do esquecimento. A sobreloja da frutaria está há muitos anos arrendada a um gravador-ourives que já não trabalha. Continua todavia a pagar a renda, não tem onde guardar os apetrechos do ofício. A sobreloja é portanto plena de relógios parados, ao contrário das ruas da vida, digo, da vila. O gravador descia muito ao barbeiro. Conversavam ócios lentos. Sabiam-se co-tripulantes da barca-de-outrora, essa no cais-só-de-ida. Foram sempre de outro tempo, nenhum calendário lhes acertava o passo. É uma sobrinha do gravador que vem pagar a renda, o velho ourives já não aparece. A nora do defunto barbeiro oferece-lhe uma sacada de pêras ou de nêsperas ou de morangos ou de damascos ou de figos ou uma melancia grande e rotunda como as mães, é conforme a idade do ano. Também se pode dizer que o preto-e-branco da barbearia é hoje uma profusa paleta de cores. A renda é paga em contado vivo, não há recibo, palavra é honra, honra nem de palavra precisa. O camionista conhece noruegas, dinamarcas, suécias, finlândias, estónias, letónias, estalinegrados. São a rota dele. Como o caracol, vive de galera-casca às costas. O ofício envelheceu-lhe os ossos. É um homem positivo. Não sofre de mariquices artísticas. Quando morrer como o pai, morreu como a mãe. Não é coisa que o sofra. Não trai a mulher, que o não trai. Só não têm filhos porque um dos dois é estéril. Nunca quiseram determinar pela certa qual. Cada quinze dias, três semanas, ele volta do nada, fica dois dias, às vezes quatro. A máquina lava-lhe a roupa enquanto eles reacertam o amor físico, às vezes tal acontece pelo raiar da aurora, é conforme calha a hora a que o camião dele aparece no pátio a resfolegar como um elefante hidráulico. Ela naturalmente cheira-lhe a ele a pomar. Ele naturalmente cheira-lhe a ela a auroras-boreais. Quando cessa o espasmo e ele sai dela para tactear na mesinha-de-cabeceira os cigarros, ela conta-lhe estar grávida – mas é da sobrinha do gravador-ourives que fala. A parição (ou a aparição) só é própria quando a nossa própria mãe etc. Certa vez, ele teve férias. A Sul, houve então para ambos uma primícia de Verão no pontão de madeira que adentra o mar. À ponta do pontão, fulgurava o coreto onde a graciosa filarmónica lhes concertou ominosas valsas & pasodobles felizes. Tiveram gelados de cone, farturas vivas como enguias fritas: e ante a eternidade do mar usufruíram do inapelável sabor a baunilha dos dias sem horas. E jantares de peixe na brasa com vinho branco apalhetado. E demoraram a lentidão da harmonia. Retornaram antes de a roda-gigante se encerrar ao estimado-público. Ele partia de madrugada para Norte, estranhamente pela Bélgica, esse reino duas vezes violado no mesmo século pelos teutónicos do costume. Foi então que ela lhe sugeriu que adoptassem algum órfãozinho, desses brinquedos portáteis que a caridade estatal e a escaninha Igreja disponibilizam depois de devidamente pedofiliazados. Ele não quis. O barbeiro tinha predilecção pela rádio nacionalista. O gravador-ourives era de outras escutas. O Plano Marshall não invalidou as ditaduras ibéricas. As amendoeiras foram & vieram florindo sua alienígena neve japonesa. Nisto, um perfume de fruta exposta: a chuva dando nas laranjas da banca sobre o passeio. A nora do extinto barbeiro descerrou o toldo. A chuva cessou logo a seguir, o sol abriu o escândalo absoluto da mais régia totalidade, a rua refulgiu de verniz lavado, eu próprio tive de semicerrar as pálpebras ante a radiação de tal tesouro instantâneo – pois que a luz reiterava nos limões o ouro mais ácido da terra mais aérea. Bojuda como um zé-pereira, a muito prenhe sobrinha do velhote da sobreloja vem hoje pagar ao barbeiro que já não há a renda parada de relógios que afinal não param – mas sim param se já nem um camionista faz à mulher um filho como deve ser –, queres assim ou mais curtinho?

Thursday, March 15, 2018

RUI & ANA - Rosário Breve n.º 546 in O RIBATEJO de 15 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Rui & Ana



Era mais já que meã a manhã de terça-feira, 13 de Março de 2018, quando me telefonou um Amigo a dar-me conta da morte de outro Amigo. Pior ainda: era uma morte por suicídio. Ainda mais grave: foi um suicídio ferroviário exactamente no mesmo local da linha onde, a 29 de Maio de 2016, voluntariamente se dera à morte uma menina de 18 anos. A tragédia em toda a sua negrura: essa menina era filha deste meu Amigo agora terminado ele também. Ana, ela; Rui, ele. Nestes quase dois anos, o Rui lutou quanto pôde contra a dor – até deixar de poder. Ou de querer – não sei. Duvido de que alguém possa saber.
Sei isto: antes do telefonema, a minha manhã individual acontecia inofensivamente. Muito cedo no dia novo, eu descera em segurança não titubeante uma ínclita ladeira de bairro decente. Dispunha de moedas confortáveis para a chávena de café inauguradora do dia, o caderno de capas pretas albergava já a crónica-para-ser desta edição (em que referia Rilke & o Dr. Pedro Canavarro, entre outros tópicos ribatejanos), o autocarro veio à hora certa, nada de transcendente que não imanente. Apeei-me não longe do hospital, recolhi-me àquele Café muito limpo onde, há sete anos, gastei o interlúdio do velório da minha Mãe, retomei o meu Rilke, revi a crónica que esta semana já não vai ser, devo ter sido mais ou menos feliz até às 11h13m: foi então que o J. me telefonou com a má-nova da passagem-de-nível, a má-hora da terminação voluntária do Rui – com aquilo, enfim, que tanto me magoou e magoa. Mas que, confesso, me não surpreendeu.
Não me surpreendeu porque o esperei desde a primeira hora do acontecimento de 29 de Maio de 2016. Não conheci a menina do Rui. O pai sim, conheci-o. Era cinco anos mais novo do que eu. E eu, como toda a gente de que agora me lembre, adorava-o. Era de uma inteligência desarmante. Aquele olhar fulgurava de entendimento imediato das coisas do mundo. Na mocidade, fôra um exímio jogador de andebol. Em 2014, pude reencontrá-lo numa reunião de “velhas-glórias” daquela modalidade em que ele foi, de longe, o melhor de todos nós. Éramos então vivos todos. Ele brilhou: como (desde) sempre. Jogámos um bocadito, comemos um bocadito, gostámos todos uns dos outros um bocadão. Nada permitia prever aquilo da filha dele dois anos depois.
Eu tenho duas Filhas: tenho, não – a quem pertenço. Não me passa pela ideia (e pelo coração muito menos) seja o que for de semelhante. Não suporto, sequer minimamente, qualquer analogia. Dou-me ao luxo do egoísmo: tenho pena da crónica que já não vai ser. Preferia publicá-la milhões de vezes em vez desta. Havia cheias ribatejanas, havia pessoas sem-abrigo, havia aquele crime de Twickenham à portuguesa, havia a comédia triste & non-stop da EN-114-Santarém-Almeirim, havia citações de Rainer Maria Rilke, havia o jovem octogenário Pedro Canavarro, havia o lixo em Minde, havia o nabantino Mouchão ardendo a frio de poluição fluvial, havia os juniores felizes do futsal do Vitória Clube de Santarém, havia a tragifarsa costumeira deste pífio executivo municipal santareno – havia isso tudo: mas só me restou o “tresloucado acto”, como antigamente se dizia, do meu querido & perdido Amigo Rui. A realidade (s)urgiu outros lumes.
Cotejo: às mesmas sete horas a que me levantei, era encontrado o corpo dele. Na mesma aziaga circunscrição onde outrora a filha. É pertíssimo do casario um pouco mais a norte onde nasceram a minha Irmã & o meu Irmão mais velhos. E sim, eu disse “nasceram”, não disse “morreram” – esse pretérito só de nome perfeito com que o pai Rui julgou ser possível voltar a ver & a viver a filha Ana.
Não volta – mas finjamos todos que sim, que de novo está tudo bem, que a dor arranjou maneira de cessar quando o novo dia nascia.


Wednesday, March 07, 2018

Diário da primeira semana marciana de 2018 - Rosário Breve n.º 545 in O RIBATEJO de 8 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Diário da primeira semana marciana de 2018



Quinta-Feira, 1Felizmente há chover, embora alguma pontual violência dos elementos humanize de mais a possibilidade de tudo se perder num repente. Na estação-de-serviço defronte, os estandartes da promoção-desconto-litro-combustível fremem como virgenzinhas que tanto sabem ao que vão como ao que(m) lhes há-de vir. Primeiro dia de Março: zune o poder eólico, o céu é chumbo negro, corre de estanho o estranho rio, vale mais ficar em casa a quem tem uma. (Nem toda a gente tem uma.) O Inverno vigora com justiça plena. De sudoeste, uma força aérea invencível carrega gelo consigo. Os penhascos rangem como viúvas ainda disponíveis. O mar traga os afoitos inconscientes. Trump quer os professores com pistolas. A Síria está bem, obrigado. Calor no Árctico, neve em Bragança-Vila Real-Chaves-Viseu. Certo. O meu Amigo Manuel M.M. telefona-me para almoçarmos juntos um dia destes. Sinto-me gratificado pela demanda: somos amigos há quase 39 anos. Recolho-me: o briol já aperta mandíbulas em torno dos ossos cinquentenários (upa, upa).

Sexta-Feira, 2É dia de Porto-Sporting. De nada mais falam as televisões da parvónia. Não sei por que chamam “mau” ao tempo: chove ouro, para mim; para mim, é pão que chove. O grande chumbo de ontem ferra ainda o céu de hoje. A cameleira da praceta, que o sol februário fez florir precocemente, tenta não se deixar despir de todo pelo assédio ventoso: mas há já pelo chão as inumeráveis páginas-violetas de suas folhas-lilases. É verdade: a luz parece toda feita de sombra, isso é verdade – mas não é com(o) tristura que assimilo a invernácea condição do dia. Não, isso não. A terra babuja de água boa, as raízes bebem fartamente, o verdor ainda não ardido deflagra no ar qual postal de seiva instantânea. Nisto, trovoada: um fósforo imenso & mudo, primeiro; segundos depois, o fragor de móveis arrastados na casa de Deus. Fracamente a cameleira diz não ao ar movediço, de súbito reforçado por esses populosos descampados. O tempo fala. O Tempo, também. Dizem-nos coisas – nem todas más, aliás. Espero tão-só que, logo, Porto & Sporting empatem.

Sábado, 3Estreia absoluta na minha vida: cortei o cabelo a alguém. Esse alguém, nascido a 11 de Janeiro de 1959, é o meu Amigo Jorge C. Vive sozinho num apartamento quase exíguo e é dono de um pente-lâmina eléctrico. Ele mesmo escolheu no dispositivo a velocidade “pente-3” (acertos & retoques finais a “pente-zero”), sentando-se depois, de toalha-babete sob o queixo como um bambino veterano, de costas para a janela do terraço. Vacilei um pouco, a princípio: responsabilidade assustadora. Devagar, porém, lá lhe fui desbastando & devastando o crânio. No fim, a coisa não ficou mal: pareceu-nos a ambos que era atavio ex-capilar digno q.b. para voltar com dignidade à recruta militar. Como disse, eu nunca tal houvera feito. Foi poupança de seis, sete, talvez dez euros até, no barbeiro profissional. Enquanto o tonsurava, pensei em fixar o episódio por escrito – pode ser aqui mesmo.

Domingo, 4Nunca simpatizei com domingos: o vazio existencial é menos disfarçável, talvez/decerto por isso mesmo. (“Tinha dias e noites idênticos, mas o que mais lhe pesava eram os domingos.” – J.L. Borges, in O Livro de Areia). Recorro à “omnipotência” da escrita para o dar por terminado à nascença.

Segunda-Feira, 5Por instância do meio-dia, um breve dilúvio benigno sitia a Cidade. O ar, varejado a vapor frio, volve-se glauco. A grelha pluvial, harpa sem mesura, aponta-nos a insignificância física nossa. Eu, sob escarlate toldo de lona, miro & aguardo. Lixo urbano é arrastado pela torrente das sarjetas. Agarradas sempre aos inúteis chapéus-de-chuva, já pessoas levitam a alguns metros de altura. Depois, Deus (ou o Diabo por Ele) põe-se na brincadeira: a primeira nesga de sol dá primeiro no campanário da Igreja de São José, fazendo-a bronzear a prima meia-hora da tarde. Envernizados pela plúvia rija, os cedros & as laranjeiras daquel’além tão antiga mansão senhorial reverberam como olhos sadios. Entretanto, das catorze pessoas içadas aos ares pela intempérie de há pouco, só doze voltam à terra: duas aproveitaram a boleia – ou para morrer ou para migrar, o que dá no mesmo. Digo eu daqui, nas lonas, escarlate & toldado.

Terça-Feira, 6Hoje é dia natalício (1927) do gigante Gabriel García Márquez (m. 17 de Abril de 2014). A esse descomunal Colombiano devo muitas horas muito felizes, mesmo (ou sobretudo) nos anos mais tristonhos. Por contraponto, anos bons foram aqueles que me viram contemporâneo & companheiro deste moço aqui mesmo, o Paulo C., que de repente, e ao cabo de mais de 30 anos, encontro no autocarro matinal. O Paulo está fisicamente óptimo. Noto-lhe todavia certo ar fatigado. Ocupa-o & preocupa-o a vida, decerto – como a (quase) todos nós. Foi porém uma breve alegria revê-lo. Apeei-me duas paragens (ou dois parágrafos) depois. Oxalá nos revejamos algures, nem que apenas daqui a mais três décadas.

Quarta-Feira, 7Não sei: nem como vai ser para mim esse amanhã, nem como foi para o meu Leitor esse ontem – o Jornal sai às quintas, eu envio a crónica às terças. Só sei que São José badala, precisamente agora, nova meia-hora: para mim, passada; para o meu Leitor, futura. Outra brincadeira do Diabo, enfim. Ou do Compadre de São José por Ele.  

Thursday, March 01, 2018

MARIA & MAIS NINGUÉM - Rosário Breve n.º 544 in O RIBATEJO de 1 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt








Maria & mais ninguém



Entre princípios & fins do século passado, nasceu, viveu & morreu a senhora minha Tia-Avó Maria da Conceição dos Santos.
Morreu de fome – esclareço. Atenção: de fome, sim – todavia não por miséria, pois que um cancro gástrico a extinguiu, condenando-a à impossibilidade de absorção nutritiva & queimando-a, por dentro, de carvões frios cuja brasa gelada a filtrou até à última transparência da cera. Eu vi isso acontecer, foi mesmo assim, acreditai-me Vós por uma vez na vida.
Herdei dela a cama-de-ferro em que dormi a adolescência, essa terra-de-mais-ninguém daquela idade em que todos somos a única pessoa viva & importante do mundo.
A minha Tia-Avó Maria era uma proscrita: nascida virgem & solteira, solteira morreu mas sem já o outro atributo hímen-original. Consta que namorou fisicamente algum inconsequente aproveitador de seus/dela mucosos vinténs. A família (minha: mas anterior ao meu nascimento) soube dessa cópula infeliz & estéril – e nunca lhe perdoou o devaneio, ostracizando-a inexoravelmente sem sombra de perdão: o fascismo vestia chita.
Morreu sozinha como um cão feminino numa casita miniatural de sem-marido, ou tugúrio de boneca sem príncipe, que eu visitava aos sábados dos meus 17 anos sem atender a cadastro sexual, sem inquisição católica & sem resquício sequer de censura moralóide. Talvez me atraísse nela o meu próprio retrato futuro: este de cão masculino auto-exilado em casota mental.
O irmão dela, pai da senhora minha Mãe, nunca a visitou sequer uma vez, como eu tantas vezes fiz: que a terra lhe seja, a ele tal bruto, pesada como chumbo.
E no entanto a minha pobre Tia Maria permanece como a mais alta glória cinematográfica do meu clã: é dela a voz agudinha que se ouve, em pregão cantado, no filme portuguesíssimo chamado Capas Negras [de 1947, com realização de Armando de Miranda e protagonizado pelas maravilhosas pessoas & vozes de Alberto Ribeiro & Amália Rodrigues, naquela cena da Estação Velha (ferroviariamente falando, Coimbra-B actual)]: era ela, na vida dita real, a vendedeira de arrufadas de quem, na dita película, se escuta o chilreio de ave fininha.
Recordo ante Vós a casa-de-boneca que era a dela: ao fundo do Lagar Velho, na propriedade dos Rodrigues, e à esquerda de quem desce a caminho do Cardal cemiterial onde há muito dormem (o sono de que se não acorda) os meus Pais & o meu Irmão, dava para uma eira gretada de ervas sem jardineiro – mas além da qual vicejava uma horta farta miraculada pelas humílimas verduras da terra nutriente & portuguesa: couves, nabos, o episcopal & rubicundo tomate, a terna & tenra alface, a leira de batata gorda que os porcos adoram e os humanos não desestimam.
Entrava-se naquele casinhoto celibatário pela cozinha imediata, acabando-se de imediato a visita no quarto-de-dormir mais sozinho do mundo, esse onde branquejava, qual cisne negro da solidão mais irremediável, a tal cama-de-ferro lacrada a branco-cor-de-asa-de-anjo que depois herdei mas hoje pertence ao meu Irmão Fernando, gémeo do extinto Jorge nosso.
Na cozinha de livro infanto-juvenil para duendes, gnomos invisíveis haviam pregado ripas de pinho, das quais se penduricavam utensílios cozinheiros de menina-velha: o pucarito esmaltado (como esmaltado no quarto o bacio), o tachito breve para aqueles arrozes-brancos que provisionam o jaquim frito, a panela mínima em que ela, da horta, fervia a couve em ração de anã, a faiança cromada de rosas cerâmicas abrilhantada pelo filete-de-ouro do pintor-porcelanista anónimo que o senhor meu Pai toda a vida foi – e a colher-de-pau do tempo da Senhora Dona Maria II. A todo este enxoval presidia a litografia glauca que perpetuava a efígie do senhor Papa Paulo VI.
Paulo VI veio à Cova da Iria em 1967. Foi pelo meio-século da falcatrua fatimista. Na cozinha da minha Tia, porém, e sem que sumopontificemente o pudesse ele augurar, o Papa presidia também ao vero pretexto que a casa de Maria da Conceição dos Santos me levava cada sábado: namorar T., sobrinha do senhorio. Essa adorável T. era uma rosa vertical erguida a partir de dois caules-pernas, factor anatómico que a volvia flora ambulatória. De olhos enormes como lagoas expostas a um luar de prata para que ainda não fora inventado adequado firmamento noctívago, manteve-se pura & ilusória à maneira daqueles natalícios globos de cristal que basta agitar para que a neve & o Natal suspendam perpetuamente os sais e os flocos da mais pueril felicidade eterna. (É certo porém que, no viço nubente, T. acabou casando-se numa cidade estranha com um rapaz fininho, católico como ela, cujas presteza & decência até hoje eu seria incapaz de emular – de modo que.)
Tinha-lhe passado a fome terminal: de modo que inumámos entretanto a senhora minha Tia-Avó em tão campa tão rasa (ou tão rosa) quão os já nonagenários três nomes dela para ninguém. Levei-lhe papoilas ao mármore.
Tenho pensado entretanto na casita que ela deixou devoluta. Talvez se T. voltar desquitada, não sei, sobrinha que continua do senhorio, ali ao Lagar Velho, não sei, sei lá, lá onde a eira, a horta, os fantasmas das bonecas e o pucarito de esmalte, tudo a que eu aporia logo a cama-de-ferro que um dia destes o meu Irmão Fernando vai ter de me devolver, talvez, não sei bem, Maria.


Wednesday, February 21, 2018

Especulação do faminto - Rosário Breve n.º 543 in O RIBATEJO de 22 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Especulação do faminto



A informação em excesso torna-se, por contraponto de saturação, desinformação. Tal verborreia sem stop é uma massa tóxica que envenena o espírito crítico do maralhal. O mais certo é que seja mesmo para isso: para acarneirar com força o pessoal. O recente fim-de-semana de 17 & 18 do corrente confirmou-no-lo sem apelo & com agravo. Na noite que mediou sábado & domingo, fingi sonhar que os papéis protagonistas tinham sido enganosamente atribuídos. Isto é: que, na verdade, Bruno de Carvalho vencia por quase unanimidade o congresso do Partido Social Democrata e que Rui Rio entregava de mão-bandejada a Marques Mendes a secção de basquetebol do Sporting Clube de Portugal. No entanto, a segunda-feira ulterior contrariou-me a ficção, como é aliás timbre de todas as segundas-feiras da vida.
Sobrevivi a essa afinal ténue decepção: na terça-feira imediata, já a autoridade do esquecimento exercia sobre mim e sobre o nosso País a veleidade da indiferença. Na véspera, eu fôra a uma repartição pública. Enquanto esperava vez, lapijei no bloco-notas: “Antigamente, a ignorância era envergonhada. Hoje, é atrevida, é insolente – e, portanto, mais insuportavelmente imperdoável. Não me refiro ao analfabetismo livresco. Refiro-me, sim, à arrogância voluntária do tipo não-sei-nem-quero-saber-e-tenho-raiva-a-quem-sabe. Sou invariavelmente intolerante ante tal bruteza feroz – sobretudo quando tal espécie de gente se alcandora a postos de mando & comando públicos (os privados não me interessam, neste caso) para os quais não revela pertinente mérito, nem reconhecida aptidão, nem particular competência.”
Uma hora depois, satisfeita a necessidade burocrática que me levara a tal repartição do Estado, mudei de sede. Anotei então: “É em pacata mudez que me dou a estas considerações no curso da bela manhã de Inverno. Ante a minha posição sedentária, nesta praceta livre como o ar mesmo que a vivifica, o choupo sobe principescamente a frescura da hora, encavalitados nele quatro pardais o mais vivazes, o mais furiosamente felizes – conjunto (ou conjunção) flora-animal que me é de refrigerante consolação estética.”
Até aqui, enfim, tudo bem – o problema residia na minha hesitação. Sim, eu hesitava: por que linha seguir cronicamente? Pardais? Repartição? Choupo? Jornalixo? Bruno? Rio? Eu-próprio-outra-vez? Valeu-me dispor de mais notas a lápis. Uma delas trocadilhava sobre o “papel papal” de Francisco, pontífice-sumo que muito me admira não ter sido ainda envenenado pela padralhada pedófilo-banqueira-ultramontana-PioXII(naz)ista. Outra nota soluçava, em verso adiado sine die, a “identidade permanente do coração – que se chama volubilidade.” Outra, ainda, marcava passo à passagem de uma gaja mesmo muito boa – assim: “Ao sol tíbio, vejo passando uma mulher segura de si, a cabeleira dela, tornada fulva pela refracção da luz, chispando dardos de oiro, o peito dela duplicando o milagre do leite adiado.”
Todavia, restava por fazer a crónica. Eu sabia que me era tão-só necessário evitar essa víscera chamada coração, ir pelo racional, seguir pelo lógico, fugir pelo concreto – mas o problema era a fusão toda nuclear PSD/SCP, que continuava, afinal, a zunir-me nos pavilhões auditivos. Outro problema: a formosa manhã invernal dera-se entretanto a pluvial, pois que, quase de repente, e fundida com o ar, a morrinha viera tornar respirável a água de São Pedro. Nisto, era já hora-de-almoço – e eu esquecera-me de trabalhar para merecer a sandes. Comparei a escandalosa evidência famélica do meu presente à fartura gordurosa do passado – e vi logo as diferenças, como na página de entretenimento dos jornais. Felizmente, não me deu para a melancolia. Deu-me, isso sim, para especular sobre a obscura razão pela qual o Rui Rio não pôs ao Santana os patins da secção de hóquei do glorioso Sporting. E também sobre que raio irá agora fazer Bruno de Carvalho da senhora Elina Fraga.

Thursday, February 15, 2018

Fala o órfão inédito - Rosário Breve n.º 542 in O RIBATEJO de 15 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Fala o órfão inédito




“Estou de volta à Cidade que, através de um homem e de uma mulher que se amaram, me deu nascimento.”
A 31 de Maio de 2010, assim começava – e ainda começa – um livro que ainda não arranjei maneira de publicar, concluído que o dei a 3 de Março de 2011. Os três cadernos manuscritos que o enformam, esses preenchem com obstinada paciência a gaveta-alta do roupeiro. Não desisti dele(s) – como na vida, tudo é uma questão de tempo: para o sim como para o mal, para o não como para o bem.
Tenho, por estes dias, relido esses meus dias embalsamados de 2010/11. Era afinal simples, o mote: tinham-me avisado por telefone de que a Mãe iniciara a descida terminal. Contra todas as efabulações mais racionais, também ela era mortal. Dei por mim retornando, pois, ao local-do-crime perdoável de ter nascido de gente d’ali/'qui. A partir da minha escrita irreconciliável, a Mãe durou ainda nove meses & três dias – em espécie, digamos, de anti-nascimento, de avessa gravidez de si-mesma, já ela sem marido embora há dezassete anos. Nesse derradeiro dia de Maio de 2010 (uma segunda-feira), decidi-me por a confecção de uma memória presente, diarística, ubíqua, vigilante, pessoalíssima. Quase oito anos volvidos, não enjeito o escrito. Atenção: não se trata de lamentosa escritura do tipo coitadinho-de-mim-que-estou-para-ser-órfão. Não. Nada disso. Não é coisa impermeável à dor antecipada, pois não. Também não é coisa alheia à solidão essencial (de ser) de todos os eus. Lá está, nessa mesma primeira página manuscrita a tinta preta: “Ando sozinho – como toda a gente na vida.” De toda a maneira, e/mas enfim, o sobredito livro por publicar é um depoimento sem solipsismo umbilicalista de espécie alguma. Receio só que seja, também & ainda, um livro de amor. Intitulei-o “Leite dos Santos – Um Ideário de Coimbra”. A razão titular é esclarecida na dedicatória epigráfica: “In Memoriam Viva de Hermínia Leite dos Santos (27 de Outubro de 1924 – 3 de Março de 2011)”. Muito simples, muito claro, muito directo ao assunto, muita terra-mãe-a-mãe-terra.
Por virtude ou defeito de cronicar agora sobre tal inédito talvez impublicável, recordo esses meus dias na terra-de-ninguém que foram os de me perder da Mãe. A vulnerabilidade era-me total. Eu (man)tinha então uma imitação de trabalho: ensinava num curso profissional que não pagava mal, com dois a três meses de atraso embora. Sobrevivia materialmente num quarto de celibatário contrariado: a mulher anterior, inteligente e/ou manhosa, tinha-me desertado a ocorrência em prol de um homem melhor. Não sem militância, emaranhei-me de muita leitura, muita taberna & muito desamparo. Vi-me febril & fabril de dias quentes como infernos portáteis & de noites regeladas pelo mau costume de pensar nela(s): na Mãe como nas noites mesmas.
O Verão de 2010 aconteceu à maneira de tragédia lenta. Recordo a intolerância solar das visitas ao Lar onde a Mãe, qual flor anacrónica, aprendia a vegetar sem mãos ao volante da bicicleta. Era o meu verdadeiro trabalho, a minha única importância. Eu já só (a) escrevivia. De volta de cada visita, recolhia-me ao tasco sob o viaduto para fazer de conta que o mundo existia à face, et pour cause, do balcão dos deserdados da vida. Cometi muitos versos. Nem todos saíram mauzitos. As noites vinham à maresia seca da Cidade só fluvial.
Uma dessas noites, choveu muito. Recordo: o meu casaco de bombazina cor-de-nestum-com-mel passou a pesar quilos de tão ensopado, eu não me abrigara – nunca até então o houvera feito na vida, como naquela noite o não fiz também: & até hoje o não faço. Chegado ao quarto pré-sepulcral, ri-me sozinho como os doidinhos da minha condição de cavalinho-não-tirado-da-chuva.
O Inverno posterior foi o humanismo do costume: hirta, tiritando, a Cidade celebrou o Natal, essa tragicomédia que faz do cristianismo o Carnaval de costume do consumo irracional. No quarto emprestado por esmola, libei o nascimento do Cristo à morte-para-breve da Mãe. Segui escrevivendo a sobrevivência possível. O porvir era já então o que aqui reitero: uma orfandade lúcida, provida tão-só de pouquíssimas certezas ancoradas na racionalidade da desesperança mais pragmática.
Como disse, o livro está por publicar. Não apenas tem tempo ainda de sê-lo – pois que houve tempo de tê-lo sido. Lamento tão-só que a senhora minha Mãe não possa lê-lo. Pelo menos, até 2 de Março de 2011, essa véspera de mais-nada a partir da qual tudo se me torna tão improvável quão o caraças de um editor honesto, a havê-lo, entre os intervalos de quanto hoje chove, que amanhã faz sol, que 2018 já cá canta(m).

Thursday, February 08, 2018

Acta da Hora Improvável - Rosário Breve n.º 541 in O RIBATEJO de 8 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Acta da hora improvável




1 Antigamente (a bem dizer, tão antigamente mesmo, que foi já no século passado do milénio idem), acontecia-me de quando em vez secretariar reuniões. De professores, primeiro, de redacções jornalísticas, depois, com algumas de direcção de sociedade filarmónica pelo meio. Parece-me outra vida, agora. Noutro planeta. Agora que funciono sozinho, resta-me escrever as actas do que se vozeia nas paragens de autocarro (melhor quando chove, pois que o quorum humano jamais resiste a comentar os cântaros que Deus dá ao entorno) e do que se diz nas filas de hipermercearia, em qualquer sala-de-espera das boas (centro de saúde, finanças, segurança social, conservatórias), nas assembleias de mirones de desastres rodoviários – e de preferência nos Cafés de bairro da minha perdição. Segue-se, pois, a acta apurada a partir das 17h17m do passado dia 31 de Janeiro no Café C. (O itálico integral da transcrição é de lei, por isso mesmo que nenhum palavreado nem fraseado algum me pertencem:)

2 Se uma pessoa me engana fora do raio-d’acção dela, eu tento perceber a pessoa, eu tento ver onde é que me enganei acerca dela, sim, eu pelo menos posso gabar-me de fazer iss’assim / Se a mãe não te der dinheiro para ires cortar o cabelo, diz-lhe qu’isto não é daqui-d’el-rey, qu’isto ainda é Portugal, qu’isto ainda não é o da-mãe-joana / Agora se lhe disseres que queres-comer-isto-queres-comer-aquilo, então isso já-me-cheira-a-cavalo, iss’é-qu’é-um’-avaria / Quem é aquele?, tem alguma coisa a ver co’ Varela dos Pneus?, pergunto porque não sei mas se me dizes isso-assim-assim então perfeito, então tudo-à-larga / Levas c’uma botija de gás em cima qu’é um mimo / ’Tás bom, ó sô Fócsináite? / Menos uma hora nos Açores / Ele disse Sálvio ou sábio? / Mas olhe / A minha mãe trabalhava na fiação, mais de quarenta anos de descontos, o algodão punha aquela coisa na garganta mas também foi das últimas a sair antes d’aquilo fechar, vá que não vá / Olha, já fostes / Quantos?, setenta-e-seis agora em Julho que vem / Saber o que a gente sabe até hoje, quem me dera na altura / Graças a Deus também já tive os meus problemas de saúde até hoje, ind’esta manhã / Um remate contra as pernas de Ivo Oliveira / Está a ficar frio, mais do q’ontem / Está-m’alembrar de quando íamos p’la’strada-velha / Esse velhadas fazia vinho como um carago mas depois também era uma esponja p’ó dele & p’ó dos outros / Típico trabalho do deus-me-livre-de-todo-o-mal-ámen / O menos que fez disso já lá vai um ano / Eles não ’tão tão cois’assim como ’tás p’-aí a d’zer / Daqui a pouco voltamos para a segunda-parte deste Portugal / Acabam-se os problemas sem ter de gastar mais dinheiro com preocupações de merda / Superfícies giratórias são a solução / Disponha agora disso pelo preço duma sandes-d’iscas, pá / Claro que aquilo é tudo mentira, pá / Zé, já venho, aguenta-m’aí-os caváis/ Eu pago essa mini, deixe-’star / Agora querias mas era mamar mas não te deixam / Já vistes? / Era do tempo em que o de cima ia à Universidade / Tchau, bacano, fica bem / Ui! / Conseguem tudo, o trabalho deve ’tar a aumentar / Ui, ao poste! S’é p’abrir o circuito com vitrine & arca, n’um vale a pena arriscar, superfícies giratórias são a solução / Ricardinho / Bola à procura de Fábio Cecílio / É um peso-pesado, só te digo isso / André Coelho, Cecílio, Oliveira / Qu’é-qu’-estão aí a fazer os dois?/ Eu conto mas é três / Nesse aspecto, uma amizade dá para duas ou três vezes / Eu gostei, sou sincero, eu gostei / Acende a luz da rua, se me fazes o favor / Agora o desvio do manípulo não é o pior / Qualquer válvula fazia o lugar disso s’isso fosse assim fácil ma’-n’é! / Então podes-te preparar / Eh lá, calm’aí! / Então e o Porto?, chupa! / Vá, até já.

3 E p’ra tudo isto poder ser nos Açores, só daqui a uma hora.

Sunday, February 04, 2018

Sétima em memória do sr. António Pires - manhã de terça-feira, 30 de Janeiro de 2018



Sétima em memória do sr. António Pires







Cumpre-se a preceito a hora ingente,
dif’rente não seria boa ideia.
A inumar vai hoje um pai-de-gente
que decente foi dos mais da aldeia
que a mim & aos filhos dele viu crescer.
É da lei do nascimento o morrer.
Não é excepção à regra disso sofrer.



Daniel Abrunheiro,
manhã de terça-feira, 30 de Janeiro de 2018


Thursday, February 01, 2018

Como quem não rói a corda ou Não é A ou B mas A & B - Rosário Breve n.º 540 in O RIBATEJO de 1 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Como quem não rói a corda
ou
Não é A ou B mas A & B



1 Reza um provérbio árabe que os homens se parecem com o seu tempo. Se o Tempo é um Rio e o Tejo é outro, com que se parecerá, pois, o senhor ministro do Ambiente quando diz que o estado do t(r)ágico caudal é que é o responsável pela coisa toda, ao ser caudalosamente insuficiente para “depurar” (o termo técnico foi usado por ele) “a descarga A ou a descarga B” (cuja responsabilidade facílima de apurar continua, até hoje, precisamente, por apurar – ou por depurar…)?

2 A morte é a mais democrática das leis. Não conheço outra que a supere nisto do igual-para-todos. Mais, ante Vós, me reitero linhas escritas & caminhos pisados: 1) O tempo todo nunca é muito; 2) Os anos acabam sempre por roer a corda. (Sabemos que a água é vida. Sabemos que, no plural, as águas podem ser mortíferas. Desconhecíamos, parece, que elas mesmas eram morta(i)s: cf. Festival da Lampreia de Mação.)

3 O RIBATEJO não é um seminário: é um semanário. Não há por aqui prédicas pró-evangelizadoras do infiel, nem sermões pró-aculturação do indígena. O que há, é gente que pensa a terra sobre que é vertical como horizonte identitário – e quem isto não souber ler, também não saberá ver, posto que ser não sabe, quanto menos estar.

4 Coimbrão que nasci & hei-de morrer, interessa-me muito a iniludível geminação geo-histórico-portuguesa Coimbra-Santarém. Nem sequer é por também, , haver uma Académica; nem sequer é por também, , haver fados & guitarradas ao modo daqui. É mais por termos feito corpo unitário da trinitária divisão da Península Ibérica em Tarraconense (de que Bracara Augusta/Braga), Bética & Lusitana (de que Scallabis, Conimbriga/Aeminium & Pax Julia/Beja). Sim, é isto. Fica dito & feito.

5 Mansidão dos semiloucos por aquestas esplanadas: ao sol não-tíbio de Janeiro, envernizada a verdura pelas chuvas recentes, os esfacelados sociais perambulam seus itinerários de formiga-sem-formigueiro. Ainda agora (10 & picos da manhã claríssima), um deles soliloquou qualquer coisa a ver com talvez-fátima-talvez-futebol – e em/com voz de fado o fez. Tudo certo, portanto, debaixo do sol januário-português. Entretanto, na mesa mais a oriente da minha, quatro mãos envelhecidas. Pertencem a Osvaldo R., aposentado do comércio retalhista, e a Esmeralda T., que foi mulher de Jerónimo B. mas já não é, embora oficialmente Osvaldo continue marido de Estela S., que não entra nesta história (salvé, Carlos Drummond de Andrade!). O atravessado casal meu vizinho de mesa poderia ser apresentado, para V.º mais luminar entendimento, como Osvaldo Descarga A & Esmeralda Descarga B. Com V.ª licença, os sobreditos e não de todo ausentes Jerónimo & Estela farão de descargas C & D.

6 Aquilo da manchete da edição anterior (cf. ponto 3) – “Cabras sapadoras chegam a Alcobertas 8 anos antes de o Governo as descobrir” – fez-me o que a vida nem sempre me faz bem: pensar. Vi-me desejando as bravas & bravias cornúpetas alpinistas como devoradoras não só do naturalíssimo combustível florestal de mais raso chão como de certas práticas autárquicas do tipo deixa-arder-que-não-fui-eu-quem-soprou. E recordei, também a propósito, a mais intelectual anedota que conheço. Esta aqui:

7 Omnívoras, duas cabras pastam em um monturo de lixo. Uma delas caça & abocanha o DVD do filme E Tudo o Vento Levou. Já nos dentes dela se estilhaça a furta-cores o redondel digital quando a outra, curiosa, lhe demanda: Então, estás a gostar?” Ao que a outra, ruminantemente plácida, lhe redargue: Hmmm, gostei mais do livro…”

8 Fico-me por aqui, desta feita. Desconheço de que gostará mais o senhor ministro do Ambiente – se da Descarga A, se da Descarga B. Do Tejo propriamente dito é que parece não ser, ó cabrinhas sapadoras que destas águas não bebereis, roendo porém, como os anos, a corda toda. 

Thursday, January 25, 2018

CRÓNICA NÃO FORMOSA MAS SEGURA - Rosário Breve n.º 539 in O RIBATEJO de 25 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt




Crónica não formosa mas segura

1 Lamento, Sebastião, mas não “é pelo sonho que vamos”.
Para que fôssemos riquíssimos, Camões rapou escandalosa pobreza. A meu ver, a edição de 18 de Janeiro do corrente deste Jornal poderia ter sido escrita pelo grande lusíada que viu, descalça, ir Leonor para a fonte. Refiro-me em concreto às páginas 6 e 15 da edição em papel (peças que também podem e devem ser consultadas na edição electrónica, aqui: http://www.oribatejo.pt/).
A incontornável senhora vice-presidente da Câmara de Santarém perpassa pela sexta. A minha Amiga Manuela Marques também. Na décima-quinta página, o caso remete para Salvaterra de Magos. Sim, refiro-me aos casos absolutamente dramáticos e completamente intoleráveis dos cidadãos Carlos T., professor de música, 62 anos, que por Santarém, e literalmente, sobrevive pelas ruas da amargura com & como um cão; e de Henrique C., 42 anos, inutilizado por um pinheiro caduco há mais de duas décadas, arrastando-se por chãos e degraus em aparato desumano.
Ninguém que tenha lido o número anterior deste Jornal pode ter ficado insensível a esta dupla vergonha. Ou pode?

2 Somos um país minúsculo que parece incapaz de entender o desamparo como capaz de tanta letalidade quanto o cancro, os hospitais infecciosos, o perigo rodoviário, a gangrena dos veios-de-água e os incêndios. E a depressão. E a solidão. A miséria não é remediável com natalinhos calendários do tipo ó-p’ra-mim-tão-bom-cristão-uma-vez-por-ano. A besta voraz do capitalismo selvagem, impune & libérrima, tem uma filha: chama-se indiferença social. A fome existe. Estamos no século XXI mas a fome continua a andar por aí. O desmantelamento social é realíssimo. O Outro não é entidade reconhecível. O Trabalho e o Trabalhador são vistos por certos patrões como inimigos da fortuna instantânea. Processional, a carneirada muito bale mas nada vale. Exígua, escassa, rala, rara, a minoria de pessoas para quem Solidariedade não é palavra vã, oca ou maninha, essa talvez ainda acredite no célebre poema do tão precocemente malogrado Sebastião da Gama que antigamente dourava os manuais escolares. Pode ser que essas pessoas ainda acreditem ser pelo sonho que vamos – mas eu não.

3 Deixei há muitos anos de resistir ao cinismo existencial. Revolucionámos cravos – mas arrastamos ferraduras. O meu agnosticismo incréu em matéria religiosa propagou-se ao descrédito, muito meu, quanto a esse animal sem remédio chamado ser humano. E disto ninguém me tira. Reservo-me o direito a esta negatividade. Não nasci anteontem, desconheço se morro depois de amanhã. (Já agora, quero chamar-Vos a atenção para a crónica de Mário Rui Silvestre, também na passada edição do nosso/Vosso O Ribatejo. Intitula-se “O Tejo a quem o polui” e é uma belíssima peça, de uma prosa desassombrada. Revela-nos e releva-nos a insignificância até cósmica da nossa eterna efemeridade. Foi uma das pérolas da minha semana. Recomendo-vo-la totalmente.)

4 Esta minha crónica é toda amarga, sei-o bem. Santarém, Salvaterra, Portugal – terra(s) que ninguém salva de si mesma(s). Aqui onde nasci e vivo, há muitos Carlos e Henriques também. Habitam os intervalos da chuva, invisíveis ao mundo. Ando a ficar parecido com eles: são cães bípedes, destroços oblíquos de naufrágios individuais que é muito lindo fotografar para a lagrimeta de quando há eleições. Já o grande riomaiorense Ruy Belo, com lapidar concisão, no-lo dissera: “O meu país é o que o mar não quer”.
Quero eu, para mal dos meus pecados, ó Sebastião. Ó Manuela. Ó Inês.

Thursday, January 18, 2018

Mais dois casos esquisitos cá co’ a malta ribatejana - Rosário Breve n.º 538 in O RIBATEJO de 18 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt



Mais dois casos esquisitos cá co’ a malta ribatejana



O epicentro dos fenómenos esquisitos parece ter, de vez, deixado de ser exclusivo do ferroviário Entroncamento para abranger a totalidade desse território a que em Portugal chamamos Ribatejo.
Os “casos” mais recentes têm nome de gente: Arlindo Consolado Marques & Pedro Barreiro. O primeiro é um ambientalista amador por pulsão de dever cívico-ecológico. O segundo é um homem das artes de palco cultoras de Tália.
Arlindo vê-se agora em apuros de tribunal ao ser constituído arguido por alegada difamação e suposto ataque doloso ao “bom-nome” de uma potestade celulósica. Pedro é filho de quem é.
Depois, as coisas emaranham-se: o Tejo está porco à vista até dos mais cegos; uma actriz desnuda em cena e capaz de uma linguagem escabrosa configura, não um atentado ao bom-gosto e ao bom-senso, mas a prova de que a Cultura é um contrapoder.
Ora, as pessoas do poder não gostam de contrariedades. As do poder do dinheiro não querem abelhudos sicofantas como Arlindo. As do poder político detestam manifestações culturais que não alinhem no apimbalhamento atávico, acéfalo e acrítico da carneirada.
Posso dar um contra-exemplo: ninguém espera ver uma vereadora nua em plena assembleia municipal bolçando obscenidades verbais. Ninguém. Não é sítio para isso. Mas, sabeis?, há asneiras que não são da boca para fora, antes sim da vista para dentro. Obsceno, senhores, é o abandono do centro profundamente histórico da capital ribatejana; pornográfica, senhoras, é a podridão a céu-aberto do Tejo; malcriado, rapazes, é o contentor prenhe de lixo dos pés à tampa; impertinente, raparigas, é o esvaziamento turístico de um património que tinha (e continua a ter) tudo para justificar romarias pagantes pró-desenvolvimento local.
Mas o que é que aconteceu a 1 de Outubro último? Aconteceu que as pessoas exerceram o seu incontestável direito democrático à burrice, reempossando nos lugares de mando autárquico mais do mesmo nada. Ou por clubismo partidário ou por abstenção, foi o que foi. Lembram-se das barreiras por consolidar? Lembram-se da estrada encerrada? Ninguém se lembra, cuido bem (mal) que ninguém se lembra. Dividida, a Esquerda ribatejana deu o ouro ao bandido. (“Bandido” por assim dizer, atenção, ó melindrosos senhores do Ministério Público! Linguagem figurada é de antemão perdoada. Vêde bem se ainda me pondes réu por delito opinativo…)
Confio, apesar de tudo, na absolvição de Arlindo. Já confio menos no castigo dos diversos predadores-poluidores do Tejo. Quanto a Pedro, nova corrida, nova viagem. Deixa obra feita no Sá da Bandeira. Sai de pé e de cara lavada. Os actos (não os teatrais) ficam com quem os pratica.
Nisto, cai o pano. E a nódoa nele.


Thursday, January 11, 2018

UMA VALSA-HISTÓRIA A TRÊS TEMPOS - Rosário Breve n.º 537 in O RIBATEJO de 11 de Janeiro de 2018 - www.oribatejo.pt

Uma valsa-história a três tempos




Tempo-1 Pode parecer-Vos inverosímil o que de seguida vou contar-Vos. Admito que sim – mas isto Vos garanto: inverosímil mas verdadeiro. Aconteceu mesmo. A Vida & a Morte têm destas coisas. Vamos, pois, a isto:

Tempo-2 A 19 de Dezembro de 2017, o meu querido Amigo & antigo companheiro de bola (três clubes, anos diversos) José Manuel dos Santos Peres morreu. Foi a contribuição sócio-estatístico-hospitalar de Coimbra para o rol de vítimas da legionella dos nossos (e meus) tristes tempos. Nascera a 4 de Agosto de 1961 & casara-se com a Paula a 5 de Agosto de 1985, consórcio amoroso de que nasceu uma filha formosa, a Patrícia. O senhor Peres-pai fôra gravador-ourives do mais fino quilate. (Quantos noivos lhe não devem a finura dos nomes nas recíprocas alianças?) O filho Zé seguiu do pai-Peres fé & profissão, tornando-se muitos anos caixeiro de ourivesaria especializado em relojoaria. (Este pormenor dos relógios é crucial para o que sigo relatando.) Um dia, a ourivesaria que empregava o Peres-filho fechou portas. Indemnizado por tuta & meia, o Zé Peres viu-se no desemprego. Não desistiu. Olha quem. Tirou um curso de vigilância-segurança e arranjou trabalho no ramo. Não era a mesma coisa – mas dava para ajudar ao sustento da casa familiar. Até que, por meados de Novembro passado, caiu doente à cama. Foi acidente de trabalho, dúvida nenhuma: a bactéria mortífera entranhara-se-lhe no organismo durante o turno num dos sítios empresariais que vigiava. Esteve um mês em coma induzido. Não lograram todavia salvá-lo. Inocente de novo, foi a sepultar por as vésperas de Natal. Não consta que algum dia nos retorne.

Tempo-3 Dois dias depois, contei a súmula do exposto no Tempo-2 a um outro meu Amigo de sempre, o Fernando Jorge Domingues Correia. Ele quis saber mais, perguntando-me com aferida pontaria qual o dia de óbito do Zé Peres. Respondi-lhe que a 19. Então, ele fez aquela cara que todos fazemos quando o aparentemente impossível (e daí que inverosímil) entra sem bater por a nossa porta adentro. Eu quis saber porquê: “ – Que cara é essa, Jorge? Conhecia-lo?” E ele disse-me que sim, que conhecia. Disse-me que sim, que conhecia, e mostrou-me o pulso direito. No pulso direito dele (ele é canhoto desde nascido, usa relógio do avesso desde a 4.ª Classe), latejava a encarnado um relógio de ponteiros. Não estranhei nem cor nem avesso de sinistra, posto que benfiquistas nós ambos. Só que não era aquele relógio vulgar o busílis-da-questão. A invulgaridade da questão era de outro teor. Por palavras dele: “ – Ó Daniel, eu só ando com este relógio há dois dias. O que uso há mais de vinte anos avariou-se-me no dia 19. Sim, 19 de Dezembro de 2017. Agora, adivinha onde o comprei. Onde o comprei – e a quem…” Eu gemi: “ – Não pode ser…” E ele: “ – Tanto pode, que foi mesmo assim e é e há-de ser! Comprei-o ao Zé Peres e nunca mais usei outro. Este que trago, estava esquecido na gaveta há anos.” Não foi preciso dizermo-nos mais nada. Olhámo-nos um ao outro – e no rosto de outro & um era, pura como a água da fonte boa, legível a evidência de, uma vez por outra, também o Tempo se dar ao capricho de parar & de se deixar ficar quietinho à espera de que a má-hora, como a do Zé Peres, passe e não retorne.