Thursday, July 05, 2018

ADEUS, PAPEL - Rosário Breve n.º 562 e ÚLTIMO EM PAPEL in O RIBATEJO de um destes dias de Julho de 2018 - www.oribatejo.pt






Adeus, papel



Na passada segunda-feira, 2 de Julho de 2018, o telefonema de um Amigo anoiteceu-me a manhã. Reservo-me por enquanto o entristecedor motivo. Narro-Vos, todavia, o que se seguiu a tal.
Saí, a sós como toda a vida, às minhas vielas natais. Escolhi uma esplanada discreta para acampar a tristura portátil que me é própria. Perto, num largo embolorecido pelos séculos perdidos, soava o realejo electrónico de um cego esmoler tão pobre, mas tão pobre, que nem macaco tinha. No chão, a escudela de baquelite acolhia dezassete centavos, perdão, cêntimos. Demasiado porosa a estas merencórias & lacrimosas realidades, a matéria virtual da mente azedou-se-me mais ainda um bocadito. Pior: pus-me a reler Camões. Não reli muito: fechei depressa o canhenho de sonetos desse glorioso desgraçado. Viver atrapalhava-me o existir. Pus-me a assobiar baixinho. Foi então que, a páginas tantas só agora aqui escritas, passou uma senhora mais formosa ainda do que o sol de Inverno.
Deveria ser da minha idade. Não era de corpo nado mas esculpido. Aquilo nem era andar – era florescer. Ou: era flores ser. De zénite a nadir: cabelo lambido a luz, fiado aqui & ali a encanecida prata natural; olhos feitos de cinza de lareira em que refulge ainda a queimadura do ouro; nariz perfeito, cleopátrico, mortífero; boca única, de um vermelho biológico sem tinta francesa; dentes que morderam a maçã do Éden; colo de hipnótica simetria sustentando o alabastro do pescoço; braços de mármore respiratório; mãos impossíveis, com algo de aranha uma, de mariposa outra; ventre nunca tocado; pernas de cisne próspero; e pèzitos de tal insignificância volumétrica, que me causaram o desejo de ofertar, à dona deles, framboesas que não posso & versos que não sei.
As coisas, portanto & afinal, recompunham-se: a beleza alheia é paliativa da nossa íntima feiura. O meio-dia já era. Eu não almoçara ainda, nem de seguida o fiz: o pão-nosso-de-cada-dia é contra as hipersensibilidades doentias como a minha. A passagem da dita senhora tivera todavia para comigo a bondade & o condão de desempobrecer a hora amargada pelo tal telefonema do tal Amigo. Nisto, o telemóvel guinchou de novo. Era o meu mui querido sobrinho Zé Daniel. Ele fazia anos, eu mandara-lhe uma festiva lembrança de amor. Sequência & consequência: foi ele afinal a dar-me uma prenda. Esta prenda: vai ser Pai em Dezembro próximo, tornando-me tio-avô pela quinta vez na vida. Muito provavelmente, de uma menina. Quinta sobrinha-neta, aliás: os meus sobrinhos & as minhas sobrinhas parecem avessos a gerar rapazio macho. Definitivamente, a segunda-feira volvera-se-me vitoriosa, poalhada de grácil glória, nimbada mesmo de uma algo desaforada ilusão de perpetuidade.
E quanto ao tal telefonema matinal de tal Amigo? Era a dizer-me que O RIBATEJO acaba em papel a partir desta mesma edição. Mágoa & impotência: foi o que senti (e sigo sentindo). Este Jornal foi o meu mais seguro porto, o meu mais hospitaleiro abrigo – durante onze anos, um mês & nove dias (a partir, precisamente, de 25 de Maio de 2007). Um mero riscar de fósforo à chuva. De mil pequeninas mortes, enfim, se faz cada existência. Mais: o mundo não pertence aos sérios, pertence aos espertos; a realidade não se pauta pela honestidade, mas pela manha; e o tal pão-nosso-de-cada-dia não é de quem o trabalha, mas de quem o usurpa.
Em papel ao menos, O RIBATEJO acaba hoje & aqui. Só posso, agora, deixar aqui um derradeiro sinal de gratidão às pessoas que ao longo de quase 33 anos fizeram o Jornal, honrando-me profundamente ao me considerarem como uma delas. A esses grandes profissionais sou todo grato – a eles e aos/às Leitores/as, que alguns tive por & para minha boa-sorte. Saudades de Coimbra a todo o Ribatejo.
A senhora muito bela passou sem deixar nome – mas a minha novel Sobrinha-Neta nasce em Dezembro. Oxalá que a 25.



Saturday, June 30, 2018

PEDRO CANAVARRO: UM ESPELHO PARA O FUTURO - Rosário Breve n.º 561 in O RIBATEJO de 28 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt






Pedro Canavarro: um espelho para o futuro



Como prometido, a crónica desta semana resulta da minha leitura do livro intitulado A Única Coisa que Fiz Foi Viver. A obra é, estruturalmente, um diálogo; essencialmente, é uma memória autobiográfica. As voltas do diálogo acontecem a mote das perguntas que Yann Araújo (nascido em 1979) houve por bem colocar a Pedro Canavarro (nascido em 1937). A leitura do resultado de tal encontro entre estes dois homens é muito branca, digo, muito clara – digo mais: e, não-raro, luminosa.
Posto isto, retomo da sabença popular um adágio assaz empírico: “Não há bela sem senão.” Assim sendo, passo a referir de imediato o único senão com que esta publicação me confrontou. Ele é: apesar da promissora nota constante da ficha técnica do livro (“O autor não adopta o novo acordo ortográfico”), o texto final está infestado de barbarismos acordistas. Tal profusão de incorrecções macula inapelavelmente a elegância das palavras memoriais do entrevistado. Os exemplos são, infelizmente, mais do que muitos. Enumerá-los aqui truncaria, em espaço tipográfico, esta crónica. Digo apenas: na eventualidade muito desejável de uma segunda edição da obra, deve ser tida como primacial uma revisão total & cabal do texto. Repare-se que até por isto: há gralha gravíssima na página 62. O “Professor” nela referido não pode ser Luís Miguel Cintra. Não pode. É grande actor e grande encenador, mas não pode ser ele. Trocaram o filho pelo pai. Só pode ser Luís Filipe Lindley Cintra, este sim, figura gigante da história pedagógico-cultural portuguesa. Errar é humano, enfim.
Quanto à bela, o livro é deveras uma beleza. Este homem Pedro Manuel Guedes de Passos Canavarro, ribatejano de íntegra & ínclita gema, discorre sem soluços a propósito de seus/dele primeiros oitenta anos de vida. O fio narrativo é linearmente cronológico – Infância e Juventude; Percurso Académico; Do Japão à Docência, da Museologia ao 25 de Abril; XVIIª Exposição de Arte, Ciência e Cultura; Política Nacional – PRD; Política Internacional – Parlamento Europeu; Arte, Ciência e Democracia – Fundação e Casa-Museu Passos Canavarro.
Do tudo disto, que pouco não é, ressalta a evidência de Pedro Canavarro configurar, a olhos tão vivos quão nus, uma espécie de numismática efígie – que no caso, e para mim, é moeda de uma perpendicular dignidade senatorial. É um campeão moral. Ou por outras palavras: o homem é de forte delicadeza, de desassombrado espanto, de orientalizado ocidentalismo, de irmanado conluio entre Beleza & Perigo – e nostálgico de um porvir que, trazendo embora a morte, só pode (por)vir a reiterar a autoritária & serena concertação de um amador da vida em paz com ela.
Pedro Canavarro é homem que não desconhece o espelho: Narciso não lhe é estranho. Mas se todo o dom da memória é autobiográfico, não será narcísica toda a lembrança? Será. É. Não há nisso pecado. Todos certamente morremos – mas deveras vivemos todos? Posso garantir-vos que Pedro sim.
Esteta da tranquilidade, acalmado epicurista. Alma que se não esqueceu de ser corpo. No fundo como à flor, um conservador de periferia esquerdo-humanista. Mordomo só de si mesmo, amo de sua casa, benigna reencarnação talvez de um Wenceslau de Moraes. Cultor de benignos fantasmas, apreciador de vagaroso chá na contiguidade de roseirais.
Concluo: o livro é bom, a obra é útil, a vida é muito meritória. A página 23 é modelar. Nela se evoca a primeira recordação vital de Pedro quando menino. A uma janela de rés-do-chão, numa praia do Norte, assiste em deslumbramento a “Uma festa, uma procissão, com banda, flores e andores.”
Esse menino tem hoje 81 anos, completos que foram a 9 de Maio último. Tudo me leva a crer que, daqui a mais 19 anos, Santarém e o País terão tudo para comemorar o vivo centenário de uma criança que, desde sempre, tem preferido pessoas a brinquedos. E com tal não se brinca. Assim seja.

MANHÃ TODA SCALABITANO-COIMBRÃ - Rosário Breve n.º 560 in O RIBATEJO de 21 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt






Manhã toda scalabitano-coimbrã



1 
Às 9h33m da manhã de sexta-feira, 15 de Junho de 2018, cheguei à paragem-de-autocarros que fica ali ao sopé do restaurante chinês e da escola de dança. (Nota: a mesma paragem do desmaio da rapariga grávida que consta da crónica de 7 de Junho passado.)
Abordou-me então uma senhora já outonal, já provecta, já mais lembrança do que planeamento: “ – O senhor sabe dizer-me se temos autocarro daqui a pouco?”.
Eu sabia: “ – Só daqui a dezassete minutos, minha senhora.”
E ela, muito expedita: “ – Então vou indo a pé, que tenho consulta no centro de saúde para renovar as receitas na minha médica, fui há dois meses operada à tiróide, sabe?”
Eu não sabia. A dita paragem alcandora-se a um íngreme cimo de ladeira, pelo que todos os santos nos ajudaram, a ela & a mim, a ir descendo. A senhora não era tagarela – era interessante, pelo contrário. Muito interessante, aliás: antes dos primeiros semáforos, já em terreno plano, aprendi ser ela uma senhora nascida & criada em Santarém (“ – Perto da Escola Agrícola, sabe? ”) mas radicada em Coimbra há para cima de quarenta anos. Eu quis saber porquê.
E ela: “ – Ora, porque o meu marido era de cá, morreu muito novo, tinha 57 anos só, foi do cancro no pulmão, mas em novo foi interno dum colégio em Tomar, nas licenças vinha aos bailaricos em Santarém – e foi assim.”
Aprendi mais: viúva ainda não velha, trabalhou muito para criar os três filhos como manda a sapatilha – dois são formados e estão bem postos na Função Pública, o terceiro trabalhava com o pai mas pela morte deste decidiu ir para Londres, onde também se acha senhor da própria vida com casa, mulher & filhos. Fiquei a saber ainda duas coisas mais.
Primeira coisa – Certa vez, ela foi a um médico-especialista (não perguntei de que especialidade, há sempre que ser cavalheiro). Vai o médico gentilmente assim para ela: “ – Então que faz uma senhora scalabitana cá por Coimbra?”.
E ela: “ – Ora, senhor doutor, o meu marido era de cá, morreu muito novo, tinha 57 anos só, foi do cancro no pulmão, mas em novo foi interno dum colégio em Tomar, nas licenças vinha aos bailaricos em Santarém – e foi assim.”
E o gentil doutor assim para a gentil viúva: “ – Sabe a senhora?, também sou de Santarém, sou filho do doutor Manuel(…), que toda a gente do seu tempo conhecia por lá.”
Claro que ela reconhecia o dito clínico santareno, garantiu-lho. E ambos se sentiram migrantemente felizes pela coincidência natalícia que em terra emprestada os reunia.
Segunda coisa – Aos dezassete anos, esta jovem hoje antiguecida esteve para ser toureira. Teria sido fresca novidade, à época. Por pouco não rompeu o marialvismo macho da cornúpeta tradição. O senhor Celestino G. achou muito bem. Chegou a correr publicidade por jornais e rádios a estreia da menina lidadora de redondel. Só não aconteceu porque o senhor pai dela, pretextando não lhe poder (ou querer) comprar os sapatos mágicos indispensáveis ao toureio, a ter na prática interditado de tal brava aventura. Todavia, foi sem lágrima coagulada na voz que me relatou isto assim: “ – Foi o que foi, passou-se assim, está & é passado.”
Chegáramos entretanto à porta do centro de saúde. Agradeceu-me a companhia & a audição. E saiu-se-me com esta matadora finalização: “ – Agora veja lá de que maneira vai o senhor apresentar isto nO RIBATEJO…”

2
Julgais que o scalabitanismo da minha manhã coimbrã se ficou por aqui? Se sim, mal julgais. É que, já pela hora de almoço, vim a casa saber se me sobrara sopa da véspera. Antes, abri a caixa-de-correio. Suave maravilha: dentro, morava um envelope grande & fofamente blindado. Era um livro. Este livro: A Única Coisa que Fiz Foi Viver, memória autobiográfica do Dr. Pedro Canavarro (em diálogo com Yann Araújo). Ainda não chegara a tarde e já o meu dia estava duplamente ganho.
Da minha minuciosa leitura desta obra V. darei conta na próxima edição. Palavra-da-salvação.

Thursday, June 14, 2018

FALA O ENFERMO - Rosário Breve n.º 559 in O RIBATEJO de 14 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt






Fala o enfermo



Tenho sido por estes dias (com suas precárias noites) o alvo involuntário mas resignado de um episódio febril mancomunado com um foco infeccioso em determinada reentrância do corpo, muito jeitosos ambos. Fui às cordas mas não atirei a toalha ao chão. Na mesinha-de-cabeceira, o costume: chá, comprimidos anticoiso, uma carrada de lenços-de-papel amarfanhados de muco & de vagidos, canjas repetidas como ideias fixas & a pagela do Santo Irmão Doutor Souza Martins – tudo através da minha vaga desesperança dos dias saudáveis consolidada no egoísmo-coitadinho-do-doentinho. Isto, é claro, incha, desincha & passa. Há tão-só que aguentar com pachorra de santo estas veleidades do diabo. E há que ser homem vertebrado – o que aliás nem é grande ideia, já que me doem & rangem quase todos os ossos do corpo.
Consequência fatal: nestas condições, o corpo dá ainda muito menos trela ao mundo exterior. Quero dizer: como já sou, em estado são a 37.4 Cº, um pessimista relativizador dos absolutos absurdos do famigerado politicamente-correcto, não é por agora estar com quase 39 graus que vou dar importância à rábula dos compères Croquete de Washington & Batatinha de Pyongyang. Do Sporting pelas ruas-da-amargura, já disse o que tinha a dizer. Pior: só na terça-feira passada tive acesso postal à edição em papel deste V.º Jornal.
Foi na cama que o recebi e assimilei. Não é porém o meu comentário dele que interessa – é o que ele suscita de reflexão aos Leitores mais esclarecidos, que os há e felizmente não tão poucos quanto isso. Marcelo na Feira? Passo. Barreiras/EN 114? Ninguém passa. Benavente/Quercus/nove autarcas? Não me surpreende. Falta de enfermeiros em Santarém? Pois. Sumiço do tartan de Riachos? Se não fosse triste, daria para rir. Só espero que não o tenham transformado & levado para Alcanena, onde apareceu um sintético dado como novo. Para piorar tudo (mais ainda), temos o sinapismo do Mundial à porta: Cristiano, Cristianinho, Dolores Aveiro, treinos da Selecção ao mais enjoativo milímetro, mordomias de hotel, fait-divers parolos sobre aquele rincão da Rússia a partir do qual os nossos jogadores recebem uma escandalosa batelada de euros por dia etc. etc. etc.
Sim, estou doente. Reitero: a paciência, que nos dias normais me é já tão pouca, só me dá para vir aqui enfermar, não para informar. Tenho canja nova ao lume. Consegui um ramito de hortelã para ela. Todavia, a própria água-mineral me sabe a xarope rançoso. Os professores deste País são roubados pelo Governo do mesmo. Ainda tenho mel para a infusão de camomila. Desconheço qual foi o bocado de parede que tenha caído hoje no centro velho da Capital do Ribatejo. Caio eu. De cama, claro – e tendo por única luzinha-ao-fundo-do-túnel a vela acesa ante o benévolo & milagreiro rosto do Santo Irmão Doutor Souza Martins, esse sim nosso, muito mais nosso do que Marcelos feirantes de cá perto e do que Croquetes & Batatinhas de lá, felizmente, longe. 

Friday, June 08, 2018

ANDAMENTO DO RESULTADO (SEM TEMPO PARA DESCONTOS) - Rosário Breve n.º 558 in O RIBATEJO de 7 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt





Andamento do resultado (sem tempo para descontos)



Foi há quarenta anos. Era partida de futebol a contar para a Zona Centro da Segunda Divisão Nacional. No entretanto demolido estádio municipal cá do sítio, União de Coimbra 0 – União de Santarém 0. Resultado justo para o que se passou em campo. Estive na bancada. Começava eu então a deixar de ser menino. Foram noventa minutos contemporâneos do princípio do (meu) mundo – pois que ninguém grave me havia então morrido.
Dezoito anos volvidos sobre esse manso empate, fui eu a deslocar-me à capital do Ribatejo. Movia-me lá o propósito de uma entrevista com determinado familiar directo do maravilhoso doutor António Martinho do Rosário, vulgo Bernardo Santareno. Obtive a entrevista, que depois radiodifundi para memória, que eu saiba, de ninguém. Santarém 1 – Coimbra 1.
Bem. Passados que foram oito anos mais, e algures nas imediações da tão mal-aproveitada Scalabis, jantei com & a convite de duas jovens senhoras muito bem-postas: Santarém 3 – Coimbra 2. Nesse mesmo anuário, comemorei livrescamente o 30.º aniversário do 25 de Abril no jardim-feito-Casa do doutor Pedro Canavarro (cujo recente livro ainda não tenho mas hei-de ter). Tal foi lá em cima, onde o Sol abre de si as Portas – Santarém 4 – Coimbra 3.
Do tudo disto, (re)tiro & (res)guardo o pequeno-nada de ser verdade tudo. Não me acrescento nem me subtraio: são coisas que, minhas, a outros pertencem também. O ponto está em esta crónica me devir rectilineamente da edição passada (31-5-18) dO RIBATEJO. A manchete desse fértil & festivo número foi: “A Feira está mais ribatejana”. Bom. Ainda bem. Entretanto, e na página 14 da mesma publicação, o meu amigo Arnaldo Vasques cronicava, a benigno preceito como sempre, sob este título: “A nossa Feira”. Como na comum & global vida, presente & pretérito mesclaram-se. Ninguém conhece o porvir – mas o presente é iluminável sem dor mercê de lâmpadas passadas, cuja luz é incapaz de fazer mal a quem não ande aqui só para usar na moleirinha um daqueles chapéus-há-muitos-ó-palerma! Eis pois que, portanto, Santarém 5 – Coimbra 4.
A presente & corrente crónica poderia, já & por aqui, dobrar a finados de si mesma – mas não dobra, que eu não deixo. Tenho mais dela, e por ela, a dizer. Digo: não fui este ano à Feira do Ribatejo. Não pôde ser. Outro ano será, espero. Perda minha: Santarém 6 – Coimbra 4. O facto é eu viver, hoje em dia, outras feiras. Mormente, a feira-do-quotidiano. Hoje mesmo, ao rés-vés (e ao revés) do primeiro autocarro da manhã, uma rapariga branca como um lírio & grávida como um pote deixado à chuva, desmaiou na paragem dos autocarros. Socorremo-la todos, atrapalhando-nos de aflição uns aos outros. A em-breve-mãe recuperou sangue, tensão & consciência, agradecendo-nos a todos o susto & o préstimo. Santarém 6 – Coimbra 6 (o feto também conta).
Termino sem cansativo prolongamento. Assim: pela mesma edição passada deste V.º Jornal, fiquei a saber, a páginas 41, que a União Desportiva de Santarém (UDS) “segue em frente rumo à subida”. Muito bom. Muito bem. Já o recorrente, atento & atencioso leitor Rudi B. comentava, a propósito, que “vamos lá a ver se será desta que a UDS ganha asas para pousar nos campeonatos nacionais”. Oxalá. Nota daqui: o meu emblema local foi rebaptizado Clube União 1919. Tem a ver com a bancarrota a que alguém (ou alguéns) levou o mui formoso & mui operário Clube de Futebol União de Coimbra. Ainda não temos equipa sénior, só camadas jovens – mas lá iremos. Cá estarei, nos entretantos, para novo vitorioso empate entre a Santarém que é minha & a Coimbra que faço Vossa. Parafraseando: cidades que, minhas, vos a Vós pertencem também, ainda, desde & para sempre. Ninguém perde. Ganhamos todos.

Thursday, May 31, 2018

FARTO DE SANTARÉM (?) - Rosário Breve n.º 557 in O RIBATEJO de 31 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt








Farto de Santarém (?)



Em uma manhã que só não se fez perfeita por cometer, ela, o pecado de parecer perpétua, fui feliz como um passarito saciado. O caso foi que, a tempo & horas, me remuneraram generosamente por certo trabalho de escrita algo trabalhosa, pois que de muita letra. Massa no bolso, fui logo almoçar fora. Enfardei toda uma gamela de cozido-à-nossa-pátria-maneira, atulhando-me de enchidos que, garantiu-mo outrora um médico sisudíssimo, são o terror das próstatas cinquentenárias, como é o caso da minha. O serviço foi-me feito pelo Manel, empregado-de-mesa que sofre muito da hérnia inguinal no lado esquerdo do coxear. Sim, foi uma manhã radiosa, durante a qual estar vivo não me pareceu tão mal quão de costume.
À saída da casa-de-pasto, e aquecida a algibeira pelo troco da nota gorda, passei por uma pandilha de corvos perpendiculares que são os capas-&-batinas cá da parvónia. Passei também pela praça: no mercado coberto, benignamente infestado do acre perfume do peixe quási-vivo, zoava a humana algaraviada colectiva de vendedores & compradores, zoeira que me lembrou aquela frenética, aquela eufórica chilreadeira dos pardais nos plátanos do entardenoitecer, hora a que Deus os obriga a algaraviar gratidão & louvor a Ele mesmo, Sumo Criador das Asas Canoras.
Ainda de palito mordido ao canto da beiça, ambulei erraticamente pelo deserto do centro dito histórico (mas afinal velho apenas, por incúria dos mandantes da urbe & por inércia dos mandados do orbe): sapatarias descalças, relojoeiro-ourivesarias ora sem ouro nem hora, mercearias assombradas por fantasmas de fregueses que já vieram mas não voltam já, igrejas encerradas ao culto, ao turista & à beata local, amailos Cafés às moscas – resultando o tudo disto no todo arrasado a quási-nada. Todavia, não permiti que tal ermo me melancolizasse: nem sequer ante a visão de um sem-abrigo que vasculhava abutremente as entranhas de um contentor de lixo. De facto, eu, pleno como um odre, só pretendia ajudar a digestão cirandando aos ziguezagues pelas ruas ainda mais estreitas por obra & desgraça dos carros estacionados nos passeios esburacados. Assim fiz.
Para ajudar ao flato & ao arroto, entrei numa das derradeiras tabernas à portuguesa do mundo, nela mamando um alto quartilho de gasosa. Comovi-me, então: nas prateleirinhas ingenuamente esmaltadas a escarlate, a verde & a amarelo republicanos, refulgiam, à sombra do boneco Zé-Povinho-do-Manguito-Queres-Fiado-Toma, o terno pacotilho de bolacha-baunilha, a pragmática latita de sardinhas-em-molho-de-tomate, a botelha de ginja e a de anis e a de ponche e a daquele porto mais barato que sabe sempre a vinagre com açúcar-amarelo. Ante tais, tantas & tão singelas maravilhas, apeteceu-me logo ser português até morrer. De tanto sentir-me, acabei por sentar-me um pouco. O mesmo é dizer que acabei por comer qualquer coisita a pretexto de beber qualquer coisona. Davam já as quatro da tarde quando me refiz às ruas, de novo pós-prandial que nem roxo & grosso abade.
Impusera-se entretanto à Cidade uma daquelas “tardes claras em que a humidade serve de lente”, como em 1908 escrevia o senhor Conde de Sabugosa, esse mesmo que aludiu à “prata líquida do Tejo”. S. por S., ocorreu-me então o bom Sá, o humaníssimo Sá de Miranda: “Isto que ora ouvis de mim / Não sei se ouvireis de alguém. / Buscai, perguntai sem fim / No desejado Almeirim / No farto de Santarém.
Excelente ocorrência me foi essa. Contentemente fatigado das gâmbias, sentei-me à borda-d’água para, em sossego, fumar pela minha rica saúde. Escrevi ali duas linhas: Passo o tempo a ver o rio. / O rio vê o tempo a passar-me. Recordei outra já ontem antiga: Sou mais um de nós num convosco de ninguéns. Escrevi mais duas frescas: Felizes, os que podem ser esquecidos. / Felizes mais, aqueles que não lembram. E mais uma ainda: A saudade é uma fome que nunca dá em fartura. Todavia, reciclei esta última sentença no seguinte decassílabo: Saudade é fome que não dá fartura.
E foi assim que dei por mim ante o profundo sentido de “farto” que Sá de Miranda deu, como eu uma vez por semana intento dar, por e de mim, a Santarém & a Almeirim.


Thursday, May 24, 2018

LEIAM SÓ O PONTO 4 - Rosário Breve n.º 556 in O RIBATEJO de 24 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Leiam só o ponto 4



1 Só os presidentes camarários de Alpiarça e do Cartaxo, na companhia de um vereador do PS da edilidade de Santarém, estiveram, a par de mais de uma centena de cidadãos eleitores-mas-não-eleitos, em recente apresentação pública do Projecto Tejo. TODOS OS OUTROS (perdoe-se-me a maiúscula exclamação) autarcas democraticamente eleitos do & pelo Ribatejo houveram por bem os pecados de falta, omissão, indiferença & deixa-te-andar. Ajunto possibilidades de explicação para tão gritante realidade: a) Não havia comezaina; b) Não havia procissão com foguetório; c) Não vinha “o” Marcelo. Ou então mais estas três, mas pela afirmativa: d) Estava bom-tempo, bom de mais para coisas demasiado importantes para todos; e) O novo Alqueva é uma seca; f) Os cívicos e os politécnicos percebem pouquíssimo disto. Não lavo no/nem do Tejo as minhas mãos – mas sei quem politicamente eu crucificaria sem sequer olhar para os ladrões do lado.

2 Menino & moço, gostei muito de futebol. Cheguei a praticá-lo, só não tendo chegado a Cristiano Ronaldo por ser Hermínia a minha Mãe e não Dolores. Já não gosto. Deixou de ser desporto, passou a indústria. Poluente, ainda por cima. O futebol de que eu gostei? Mesmo e até com este Clube enorme & meu adversário agora pelas ruas da amargura? Posso dar umas dicas. Sou do tempo de o seguro Carvalho ter tido (que remédio…) de dar lugar a essa gloriosa promessa tão gloriosamente cumprida chamada Vítor Damas (paz à sua alma). Manaca. Nelson (ex-Varzim). Manoel. Keita. Fraguito. Festas. Laranjeira. Bastos. Baltazar. Manuel Fernandes (ex-CUF). Jordão (ex-SLB). Caló. Tomé. Hilário. Lourenço. Marinho. Chico. Ernesto. Dinis, o angolano cujo pé esquerdo tornava invisível a bola. Etcetríssimo. Tantos, verdade? Mentira que tão bons? E logo comigo, comigo que até sou do Benfica por do Benfica ter sido o meu Pai. Não, já não gosto de futebol. A passada semana disse-me que tenho todas as razões para desgostar de uma coisa que foi bonita mas entretanto desastrosamente prostituída por uma espécie de proxenetismo se calhar genético-nacional. E quando tenho razão, ninguém ma dá – mas também ninguém ma tira.

3 O Rio Tejo & e o Sporting Clube de Portugal estão ambos por resolver. Não hão-de ser águas-passadas a solucionar as crises gravíssimas de um nem de outro. Quanto àquele (o grande Rio), autarcas ineptos & inaptos, não. Quanto a este (a grande Instituição de um Francisco Stromp, de um José Roquette/Alvalade), cachopos de esquisita patologia mimalhóide também não. Digo isto sem precisar de ensanguentar o coração nas mãos. Digo isto por ter carradas de razão.

(4 E o Tejo é o Rio do Baptista Pereira. E o Sporting é o Clube do Yazalde.)


Wednesday, May 16, 2018

DEZASSEIS MICROFILMES NESTE ROSÁRIO BREVE N.º 555 - Rosário Breve n.º 555 in O RIBATEJO de 17 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Dezasseis microfilmes neste Rosário Breve n.º 555



Por uma esplêndida manhã de Maio, assentei praça, por assim dizer, em um particularmente diáfano recanto da urbe a fim de escreviver o que (Vos) desse & (me) viesse. Fui feliz na escolha: dezasseis microfilmes verbais (já revelados à nascença da obturação) impuseram-se de imediato & sem esforço ao meu lápis. Assim pois:
1. Mulher pobre de criança ao colo – por ter mãe, é de copiosa fortuna a criança;
2. Camisas a enxugar em estendal – crucificados cristos têxteis;
3. Fila de deserdados à porta da sopa-dos-pobres – untado, seráfico, pançudo, freirático angelismo das sopeiras serventes;
4. Gato à janela de quarto-andar – Napoleão desterrado na Ilha de Santa Helena.
Continuei (escrevi)vendo, permeado de uma espécie de êxtase sereno. Eu dormira muito bem a noite, despertando sem amargura nem esperança tolas. Considerando que se, de Lobsang Rampa, que diziam ter três olhos, nada de especial, e que de Camões, com um só, tanto & tão bom – propus-me usar os meus piscos dois a ver o que dava. E é que deu:
5. Semáforos abertos no vermelho franqueando passagem livre a duas ambulâncias & a um carro-funerário – a primeira, rumo à maternidade; a segunda, direita ao hospital; o terceiro, soma das duas;
6. Mulher com braçada de cravos ao colo – nenhuma revolução é órfã;
7. Crente consultando o horóscopo (“Viagem inesperada na sua vida!”) – o azar é que, sufocado por um pedaço mal mastigado de courato, acabaria por esticar o pernil quando desse, como veio a dar-se, o meio-dia a esta crónica, pronto a sepultar na quinta-feira da saída d’O RIBATEJO;
8. Canteiro municipal polvilhado de amores-perfeitos & tomado de assalto por miríades esterlinas de borboletas, essas pétalas erráticas, ébrio-aladas, trémulo-volantes, cuja efémer’eternidade dura quatro dias há milénios.
Dei por mim eram quase dez horas. Extra-caderno, a realidade fulgurava como o diadema de uma palavra oportuna, ou de uma sentença justa, ou de uma ideia clara, ou de um Amigo-para-sempre, ou de uma menina am(atern)ando a sua boneca, ou de um rio não poluído pela ganância dos criminosos.
Longe, a cúpula do Seminário arredondava o céu de-cá-baixo.
A meia-distância, a álea de plátanos conspirava muito muita sombra da mais fresca.
Perto,
9. Carrinha de nove lugares pejada de pessoas idosas, mas tão idosas, que a infantilidade retomada as fazia pasmar de miúdo espanto ante a fabulosa novidade do mundo;
10. Homem de fato-completo-três-peças perambulando a merecidíssima aposentação de professor-primário – o que me comoveu muito, por me recordar Elias Rodrigues Faro, esse senhor meu segundo Pai;
11. Quiosque-tabacaria cujo escaparate estourava frondosamente de publicações multicolores que me pareceram as borboletas do microfilme 8. e a cujo minibalcão velava uma rapariga avelhentada & endurecida pelo calo do celibato involuntário – o que também me comoveu muito, por me lembrar aquela canção da dupla Rui Veloso / Carlos Tê, Saiu para a Rua;
12. Jovem agente da PSP indicando, num inglês fluente, a um casal de holandeses o itinerário mais acessível para o velhinho Mosteiro que foi dos Crúzios.
Nos por-enquantos, porém, volvera-se provecta a minha manhã. Davam já as 11h35m, faltando apenas, por conseguinte, um quarteirão de minutos para que morresse engasgado o fulano astrozodiacómano do microfilme 7.  Sem como nem por nem para quê, recordei essoutro meio-dia de 10 de Dezembro de 2004 (uma sexta-feira) em que adquiri a tradução portuguesa de The Figure on the Carpet de Henry James (trad. de Luzia Maria Martins, ed. Relógio D’Água, Lx., 1988). Foi em Lisboa, metrópole também de si mui capaz de microfilmes. Eis quatro dessa matina dezembrina de vai-para catorze anos:
13. Em um degrau da Igreja de Santa Isabel, aquela pomba morta – morta & esventrada – morta & esventrada & cravejada de varejeiras semelhantes a rubis verdes azulzumbindo;
14. Na farmácia do Largo do Rato, um mocito envergonhosamente ciciando à farmacêutica: “Uma caixa de preservativos dos mais baratos, fàxavôr”;
15. No Largo do Carmo, reencontrei, em corpo-sempre-presente, o capitão Salgueiro Maia: vestido à paisana, parecia-se muito com o homem que eu de menino sempre quis ser quando chegasse a homem;
16. E numa rua a que chamei Rua da Princesa, amei, sem remédio & com cegueira voluntária, um porvir imediatamente desmentido pela força irreparável da (a)parição alheia.
Agora, calma. Tanto microfilme seguido já vai dando longa-metragem. Acabo a projecção da seguinte maneira: como consta do título, esta é a crónica número cinco-cinco-cinco da série Rosário Breve. Dedico-a, com gratidão muito minha, à memória viva de três pessoas que douraram, nele brilhantemente cronicando muitos anos, este Voss’O RIBATEJO: Eurico Heitor Consciência, Luís Eugénio Ferreira & José Niza. Sem misticismos tolos, sinto-os connosco. E tal sentimento dá, a meu ver, um bom filme.

Thursday, May 10, 2018

SÓ ME FALTA O LIVRETE - Rosário Breve n.º 554 in O RIBATEJO de 10 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Só me falta o livrete



Há já muitos anos que não tenho automóvel. Não o digo por choramingona auto-lamentação. Digo-o como reiteração da ironia da vida. E a ironia está no que se segue: cimentei amizade com uma viúva rica. Melhor da festa – não tem filhos nem irmãos, nem sobrinhos sequer: apenas & tão-só uns vagos afilhados não de sangue. Idade de senhora, não se pergunta nem se escarrapacha em crónica. [E não, não poderia ser minha mãe – não exageres na descúnfia, ó Leitor(a).]
Disse mal: a ironia não está propriamente na amizade com a viúva. Está nisto: meteu-se-lhe na cabeça oferecer-me uma roulotte. Em vão lhe redargui que não possuo carro que a puxe. Com a tenaz obstinação dos portadores de ideias-fixas, contestou-me ela: “Uma coisa de cada vez, menino. Roma e Pavia…” Ou seja: passei por ganancioso, quando a verdade purinha é eu ser o mais humilde desinteresseiro dos homens – pelo menos dentre aqueles que raspam a barba ao espelho da minha casa-de-banho.
Eis-me, pois & assim, futuro possuidor (que não utente) de uma roulotte com matrícula de 1972. Comprou-a então, novinha em folha, o dinheiroso falecido dela. E com ela, o casal fez peripatéticos gerêses, ibizas, côtesd’azures, pompeias, odessas, florestasnegras, vienas – e figueirasdasfozes. O carro que a tractorava, esse espatifou-o mortalmente o marido ao cabo de infortunada noite no Casino do Estoril. Desencarcerou-se da vida encarcerado nesse glamoroso Opel Manta de fatal memória.
Nota importantíssima: não é de cariz pornográfico – mas gráfico sim – a relação que tenho & mantenho com a dita dama de copiosa abastança. É gráfica porque ela adora sonetos à Bocage, que eu imito, até nem mal de todo, com caralheira brejeirice. Recebo dela uma nota de cinquenta por cada posta tonitruante de catorze versos, o que não é mesmo nada mal pago. Modos que ando poupando em sonetos no fito de comprar uma carroça em segunda ou terceira-mão que me ponha a roulottar por aí afora à guisa do caracol de choupana às costas. E já matuto numa coisa maravilhosa.
Maravilhosa, sim. Esta aqui: plantar o carro, a roulotte & o meu “cadáver adiado” algures no troço da EN 114, a desditosa via há tantos anos estrangulada. Como o mais certo é não ser reaberta ao livre trânsito antes de 2100, o sossego da minha nova residência parece-me sobejamente garantido. Até me proponho plantar gerânios em vasos em cerca ao acampamento. E ter cá fora um cão-de-louça. E andorinhas-de-barro agarradas às janelas. E um estandarte altíssimo do Sport Lisboa e Benfica. E bustos em plástico do Cristiano Ronaldo, do Che Guevara, do Ricardo Gonçalves, da Madre Teresa de Calcutá & do Leitor e/ou da Leitora que lá me for esmolar conservas & garrafões.
De resto, muito agradecido, ando feliz da vida. Faço os sonetos soezes, alimento-me em tascos de bifanas, atiço inglesas velhas à mercê da machíssima desenvoltura dos meus aparatos musculares, durmo sem remorsos & acordo sem lembranças.
A viúva telefona-me às terças, adora-me com comichosas palavrinhas pejadas de uma emurchecida lubricidade, ameaça-me de novo com o carago da roulotte & encomenda-me mais uns quantos sonetos geni(t)ais, a Deus graças.
Não tenho ido ao médico nem à farmácia. Prefiro ir pela mata para assistir ao voejar alucinatório das andorinhas de Maio. Também me costuma dar para ficar descalço até ao pescoço estirado na varanda que dá para o cemitério hebraico. São gozos inócuos mas cá muito meus. Bem pior seria drogar-me com lixívia.
De quando em vez, perco os óculos. Passo então dias de visão aquária, as pessoas tornam-se peixinhos glaucos, o sol fere-me termonuclearmente, é uma porra das antigas. Logo que arranjo uns novos, a realidade readquire o teor absurdo de que é primaz absoluta.
Escrevo isto a uma terça-feira. E não, a viúva ainda me não telefonou hoje. Vou lapijando sonetos entre cigarros rimados & cálices de tinto da Quinta do Falcão. Nos entrementes, coco as mulheris formosuras que o bom-tempo despe pelas ruas. Tento não me arrepender das más escolhas que a minha inconsciência fez por mim. Mas olhai: a vida é só enquanto cá estamos. Só me turva o sossego uma coisa. E tal coisa é – toparei eu sítio, algures na EN 114, onde ligar cabo a tomada eléctrica? Vou precisar de frigorífico, computador, máquina-cafeteira, ventoinha refrigéria etc. Nesse aspecto tão técnico, a minha viúva não pode ajudar-me. Nem ela, nem o Ricardo Gonçalves. Ou seja: nem Roma, nem Pavia.

Wednesday, May 02, 2018

Três curtas-metragens - Rosário Breve n.º 553 in O RIBATEJO de 3 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt





Três curtas-metragens




1

Baile de sábado-à-noite em associação recreativa de lugarejo. Os casados no bufete. As casadas, em casa. Os solteiros, à caça. As solteiras, ao alcance de tiro. Lâmpada de luz-roxa, bola-de-espelhos. Fora do recinto, mais motorizadas do que carros. Dentro, a latência biológica, predatória, rapace: fervor da pré-procriação.
Uma das solteiras: olhos iridescentes, carnação (gene)rosa, frequência universitária, um só ex-namorado no currículo.
Um dos solteiros: belo rapagão alto, espáduas simétricas, electricista-canalizador, cobiçadíssimo pela fauna fêmea.
O salão-de-baile tem escadas que sobem ao balcão-beberete. Ele vai a subi-las, agora. De baixo, ela mira-o fixamente pelas costas. Ele sente a pressão hipnótica daqueles olhos de céu estilhaçado. Já não acaba de subir. Desce, vai dextro a ela. A música está quase no fim – mas ele toma-a na mesma, dançam sem prévia apresentação mútua. Depois, ele leva-a pela mão ao bufete. Cerveja para ele, gasosa com groselha para ela. Só então se tornam Armando & Otília. E só então se tornam um(a) do outro.
Passado pouquíssimo tempo, têm uma filha. Oito meses antes disso, casaram-se pela igreja. Passado pouquíssimo tempo, ele adoece da cabeça. Desorienta-se por nada, muda-se-lhe o carácter, torna-se irascível, desfecha palavrões descabidos, arranja problemas no trabalho, despedem-no. Ela consegue finalmente forçá-lo aos médicos.
O primeiro médico é um negligente arrogante, não cuida da evidente gravidade do mal, mas o segundo doutor acerta de imediato contas com a fatalidade: tumor cerebral maligno. É uma vez operado – resiste heroicamente, segura-se de muletas, ainda reconhece mulher & filha. É operado segunda vez – fica vegetativo. Dura uns meses. A respiração dele enche a casa como o vento as florestas. O vento cessa, aquieta-se o arvoredo: ele morre.
No lugarejo, entretanto, não houve mais quem pegasse na direcção da associação recreativa. Nunca mais houve baile – só a luz permanece roxa, estilhaçados os espelhos da bola como dela o olhar outrora.

2

Era de comboio que vinha pelas primícias do entardenoitecer. O trabalho não era muito, não mais de quatro horas, ao fim das quais comia alguma coisa numa casa-de-pasto perto da gare ferroviária. Desfazia tempo lapijando as palavras-cruzadas do jornal do dia. Tomava o comboio de volta à hora invariável. Se o não fizesse, só cinco horas depois teria outro.
Uma noite, conheceu outra pessoa. A nova pessoa era mais velha uns vinte anos. Foi ao balcão da casa-de-pasto que se conheceram. Comiam lado-a-lado nos bancos giratórios de pé-alto. Foram revelando-se lances pretéritos de cada vida. Eram vidas vulgares. Eram tão-só duas pessoas. Não possuíam fortuna financeira ou predial relevante. Trabalhavam, colhiam o salário, gastavam-no em comida, luz, água, gás, licor, sabão & sapatos.
A pessoa com mais anos passou a interessar-se por palavras-cruzadas também, começando até a adquirir & a partilhar publicações da especialidade com a pessoa menos jovem. (E talvez algumas vezes a de menos anos tenha ido no comboio de só cinco horas depois.) Foram envelhecendo a par até as duas décadas de diferença se esbaterem invisivelmente.  
A casa-de-pasto mudou de gerência, o novo dono era antipático, passaram a encontrar-se na de duas portas ao lado. A pessoa que vinha & partia de comboio arranjou trabalho na cidade de origem, deixando de entardenoitecer por ali. Cruzam ainda palavras pelo correio – mas nunca mais se cruzaram.

3

Era uma vez um homem que se abstraía de dores anacrónicas do foro afectivo pelo escapismo da leitura. Ele era o primeiro – e o último – e o único – a reconhecer que o coração sentimental é uma relojoaria atafulhada que não bate bem (d)a hora: daí que lesse tanto contra ele.
Certa tarde de largos oiros aéreos, abeirou-se dele um indivíduo possuidor de olhos anónimos: era uma senhora. A mulher saudou-o pelo nome próprio. Ele sentiu-se embaraçado por se não recordar do próprio dela. Fez-se porém de não-surpreso & ofereceu-lhe assento. Ela aceitou, continuando a falar-lhe com a maior naturalidade tu-cá-tu-lá deste mundo.
Os temas eram os de sempre: separações, filhos, progressão-na-carreira, escassez de perspectivas, a aranha da idade babando a seda da última teia.
Ele apreciou o fulgor não-pintado da cabeleira dela, a alvura coruscante da dentição, a firmeza agressiva dos morangos peitorais pontiagudando a blusa roxa, as mãos pequeninas de boneca crescida. Isso – mais as safiras perigosas com que ela o olhava (e via). Ela insistiu em pagar a despesa, despedindo-se assim:
– Felicidades, Armando.
Ai Otília, como se “felicidade” pudesse ter plural.

Thursday, April 26, 2018

QUASE TAL MÃE, QUASE TAL FILHO - Rosário Breve n.º 552 in O RIBATEJO de 19 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Quase tal mãe, quase tal filho



Reconheci-os sempre – e ao longo de quase cinquenta anos. Mãe & filho. Nunca soube de homem dela nem de pai dele. A pobreza deles era tão próxima da miséria quão esta minha unha deste dedo meu. Cheiravam: pelo próprio nariz como aos outros. Não-utentes de balneário próprio nem público, atingiram a tez encardida e hirsuta dos mais simiescos primatas. A mãe tinha mais barba do que eu. Ele tinha, todavia, menos que dizer mal da vida do que eu tantas vezes digo. Só que, sem mais nem menos – eram tão Portugueses quanto quem me fez.
Uma coisa muito-só-dela: ela adorava casamentos. Na sé mais velha, não perdia um domingo esponsório. Movia-a o que a comovia: a brancura pura da noiva, flor-de-laranjeira sobre que virginalmente nevara. Não faltava a um. Arrancava malmequeres baldios do chão municipal, rompia adentro os convidados, ofertava-os à recém-casada. Como os vestidos de noiva não usam bolsos, nunca recebeu moedas pela doação. Nem ela as procurava – bastou-lhe sempre o nojo disfarçado de gratidão com que cada nubente lhe suportava o fedor de andrajosa dada a florilégios núbeis.
Uma coisa muito-só-dele: ele preferia funerais. Favorecia precisamente aqueles em que era deixado penetrar & assistir: os dos menos-ricos. Entesoava-o o crepe gázeo na carnação alvinegra das mulheres enlutadas. Os círios mortiços do velório eram para ele bola-de-espelhos. Chorava madalenamente (crocodilamente é que nunca) pelos manequins de cêra que todos os defuntos são. E para mais, o adágio portuguesíssimo que obriga a que “dia de funeral, dia de bebedeira”, ah sim, não lhe foi nunca recompensa de somenos: embebedava-se de álacre tristeza com o recolhimento & a devoção de um monge alquimista de licores.
Digo agora: quase cinquenta anos de reconhecimento podem não chegar para mote a voltas de crónica. Porém, o filho ter aparecido morto em estreme solidão domiciliária – isso sim, deus-me-livre-de-que-não, isso serve. Aconteceu que mãe & filho eram de um lugarejo siamês do meu. Isso era em próximo derredor da minha (mo)Cidade. Quando a Cidade me & a eles deixou de ser moça, filho & mãe passaram a residir num casinhoto opaco de uma só porta & uma só janela. Era em ba(i)rro estrangeiro, por assim dizer. Dava a espelunca para um campo de canas, grilos grandes, víboras pequenas & lixos automobilistas muito maiores. No exterior, sobre um pano de lama endurecida, mantinham um assador carbónico onde imolavam chicharros argênteos & sardinhas tesas de sal ao lado de descomunais esmeraldas a que chamamos pimentos.
Uma pouco bela manhã, vieram os de impermeável branco da Câmara. Eram da Higiene/Desinfestação. Despejaram-nos, envenenaram os derradeiros ratos do casebre & selaram o tugúrio a tijolo & cimento. A mãe foi assistida socialmente. Ele, também. Ela foi posta num lar municipal. Ele, noutro. Ao que sei, ela ainda lá está. Quanto a ele, aguentou-se algumas seis semanas no albergue antes de fugir. Fugiu – e arranjou quarto sem-luz-nem-água-nem-esgotos-nem-amanhã no lugarejo-natal. Comia na sopa-dos-pobres com o retrato de Sidónio Pais ao lado do Crucifixo Redentor. Continuou a frequentar funerais. A mãe percebeu que o abrigo não era a pior coisa do mundo: a CMTV dava-lhe casamentos infindáveis mesmo sem ser ao domingo.
Agora, o cadáver do filho foi descoberto por uma prima pobre da senhoria. O defunto não tinha cinquenta anos (sou coerente nas minhas crónicas). Estava morto porque sim. Nenhum indício de crime. Nenhuma violência para além da de ter nascido. Estendido qual chicharro. Sobre a brasa fria de um carvão apagado.
A mãe não sabe. Não lhe contam nada dele. Nem ela pergunta. Toma os comprimidos que lhe dão. Vê noivas. Nunca olha para os noivos: são homens, não lhe interessam. Move-a & comove-a a laranjeira que neva pureza. Sonha-se uma delas. E quer ter um filho. E eu, senhor de tantas palavras, não tenho uma que sobre isso lhe diga.



Friday, April 20, 2018

TAMBÉM SOU CAPAZ DE AMAR UM GAJO - Rosário Breve n.º 551 in O RIBATEJO de 19 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Também sou capaz de amar um gajo



É sem minimamente mentir que posso dizer que o conheço de toda a (minha) vida. Sei muito dele. O que não sei, tento angariá-lo mercê de honesto estudo & de inquebrantável observação – e quando estes dois instrumentos resultam lacunares, supro o improvável pela imaginação, essa memória criativa que o porvir nos concede para que algo passado nos seja presente.
Do seu nascimento até hoje (e não escrevo até à sua morte porque, mui felizmente, ainda se não deu ao pecado imperdoável de morrer), todo o tempo dele me interessa. Mais isto: nunca fui isento a seu respeito – tanto no que concerne às suas admiráveis virtudes, como no que respeita aos seus obstinados defeitos.
Os meus Pais conheceram-no antes de mim. Naturalmente assim foi. Passaram-mo por uma espécie de herança transmigratória, ou consuetudinária, ou por usucapião, que nunca enjeitei. Conto dá-lo à atenção crítica de minhas ambas Filhas, dádiva que a minha mão direita pode & deve partilhar com a gémea esquerda sua.
Por que claro mistério me interessa ele tanto? Por mistério algum. Fala uma Língua maravilhosa, para começar. Come bem, bebe muito (de mais até) – imito dele a segunda coisa, não a primeira. Lê todavia pouquíssimo. É sentimentalão no que escreve. Tão depressa se diz “religioso” quão “não-praticante” & “laico nas horas vagas” – paradoxo que sempre me soube a tremoços sem cerveja.
Fisicamente, é alto & magro, de costas admiráveis. Mais: do semblante dele, alguém afortunadamente disse ser o modelo europeu de rosto por excelência – se não por definição.
Mentalmente, é uma criança atrapalhada por lapsos de senilidade.
Comportamentalmente, é doméstico & arruaceiro; lhano & manhoso; hoje acha & entrega à polícia uma carteira recheada de documentos e muito dinheiro; ontem andou à porrada com um cego pela caixa-de-esmolas; amanhã é capaz de dormir com um homem que lhe ronda a mulher. Já, com estes meus olhos que a terra há-de enxugar, vi marejarem-se-lhe de lágrimas os dele à imediata audição de Carlos Paredes – assim como o sei também muito useiro & vèzeiro dessas festarolas contaminadas de desquitadas estarolas que desfalecem baba & ranho ante o Tony Carreira. Já o vi, materno & ortopedista, reparar a patita quebrada de um pardal – assim como o soube escarlatemente exultando no redondel em tarde de barbárie tauromáquica.
Sim, gosto muito dele. Gosto irreparavelmente dele. Não o adoro, atenção! Adorar implica genuflexão – posição equívoca que poderia tornar-me mal-visto aos olhos das pessoas decentes. Chicoteio-o verbalmente pelos defeitos tantas vezes evitáveis de que é, aliás, exímio & contumaz amante & praticante. Admoesto-o (sem resultado prático positivo jamais, valha a verdade) quando ele é insensato, quando ele é maria-vai-com-as-outras, quando ele vota mal e se gaba disso, quando ele – na sua Língua maravilhosa – fala sempre antes do que jamais pensa depois, quando ele se arrola às procissões de santos depois de ter feito em casa um escarcéu dos demónios a mulher & filhos.
Mas também o louvo, louvo-o total & incondicionalmente: quando ele pinta uma casa de luz como em nenhum outro lado pode transparecer assim; quando ele amanha a horta com preciosas perícias de renda-de-bilros; quando ele me recebe com o pão mais fresco, o queijo mais puro, o peixe mais vivo & o vinho mais capitoso no seu pátio refrescado pela latada de cachos gordos como pérolas adiposas sob que cão & gato dormem em consolada & perfeita harmonia vigiados pelo canário & pela sogra velhíssima mas imortal.
Louvo-o, sim – e arremessemos sem medo o outro verbo: e amo-o. Amo-o de olhos abertos até nas mais fechadas noites. Amo-o sobretudo por ele ser quem é. Amo-o sobretudo por certo dia ter feito o que fez. Quem é ele? É Portugal. E o certo dia é Vinte-Cinco-de-Abril-de-Mil-Novecentos-e-Setenta-e-Quatro.  





Thursday, April 12, 2018

ELA POR ELA - Rosário Breve n.º 550 in O RIBATEJO de 12 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Ela por ela



1 Sofia Sócrates, aluna da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém: “Existem muitas formas de ditadura, e hoje é contra ditaduras sem rosto, silenciosas e invisíveis, que temos de continuar a lutar.”
Estas palavras vêm na página 9 da edição imediatamente anterior a esta deste Jornal. Foi na peça intitulada “Tributo a Salgueiro Maia marcou início das comemorações de Abril”. Comento-as assim: jovens, antigas, definitivas, sábias palavras. A maravilha é provirem de alguém nascido em 2000 (d.C.). Não é coincidência que o nome grego Sofia signifique, precisamente, Sabedoria.

2 A minha filha Teresa, como Sofia, nasceu também no ano 2000. Foi outra revolução. Outro cravo, rosa sendo. Outro movimento de tropas. Outra madrugada perpétua. Foi, foi. Recordo sem esforço o perfume dela manando dos primeiros linhos. Digo: a neve imaculada da sua brancura sem senão. Minha filha, disse. E filha de Abril também, nascida embora em Janeiro. Filha de Abril como Sofia Sócrates.

3 Os CTT (que Deus tem) não são já aquela coisa fiável que já foram. Por isso, a minha assinatura em papel de O RIBATEJO só me chega a casa quando eles não estão demasiado ocupados a tratar do que mais deveras lhes interessa – o Banco CTT. Assim, só uns dias depois li as palavras da menina Sofia Sócrates a propósito do 25 de Abril e do gigante Salgueiro Maia. Ainda assim, aprendi-as a tempo de ser feliz por causa delas. A Sofia & a minha Teresa têm dezoito anos – meros menos trinta, portanto, do que durou a infecta podridão salazar-fascistóide. A liberdade, todavia, torna-as da idade de Portugal.

4 Tudo isto tem de ter a ver mais com o nascer do que com o morrer. E tem tudo a ver com o saber. Neste sentido: o saber só pode tornar-se moderno quando nasce clássico. Quando servir para sempre. Quando for completamente humano. Isto é: quando é totalmente humanista. Quando sabedoria e filantropia rimam na perfeição. Sim, Sofia, ele anda por aí muita ditadura invisível. Como a da ignorância. Como a da corrupção. Como a do desemprego. Como a do tempo de espera por uma consulta hospitalar. Como a do esvaziamento curricular das escolas. Como a do fanatismo futeboleiro. Como a da estupidez televisiva. Como a do desamparo dos idosos. Como a da poluição impune da Mãe-Natura. Como a do escarro no rosto em que consiste o salário mínimo. Como as dos tolos eleitos por tolos. Sim, Sofia, sim: temos, mesmo, de continuar a lutar.

5 Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de Abril de 2018. A Batalha de La Lys, em cujo nevoeiro sebastiânico tantos mil Portugueses se perderam, foi ontem + 100 anos. O nascimento do senhor meu Pai faz hoje 101 anos. Fica ela por ela. Ela por ela? Sim. Na mesma página 9 do nossO RIBATEJO, mais estas palavras da juvenil estudante do santareno Sá da Bandeira. Invocando o capitão Salgueiro Maia, diz: “Obrigado por nos teres aberto o caminho, e nos fazeres ver que é possível sermos livres, se o quisermos realmente ser.” O meu Pai tê-las-ia compreendido de imediato. Suponho que os Portugueses de La Lys também. Ser livre é querer. E é crer, também. Ora, gente como a minha Teresa & como tu, Sofia, tornam crível o País. E gloriosa a manhã de amanhã. Ela por ela.


Thursday, April 05, 2018

FAUNA - Rosário Breve n.º 549 in O RIBATEJO de 5 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Fauna



Dois antigos na paragem do autocarro comentam a abertura da época da caça: IRS, IMI, recapitalização da banca privada à custa do contribuinte público. Envergam ambos roupa bem lavada, calçam com distinção. Um é de face rubicunda, que trai dele a vocação de merendas bem avinhadas. O outro é mais enxuto de carnes, perfil mais inteiriço, deve ter sido tropa de carreira.
A luz apaga-se, reacendendo-se instantes depois. No lugar dos dois maduros, duas idosas agora em cena. Uma, de saco com gerânios plásticos de campa fúnebre, quatro velas em bases roxas com furinhos crucifixos: ar de santa-viúva, lavadora extremosa do mármore de seu falecido, resignada adoradora de cinzas. A outra, de pernas arqueadas que a fazem gingar como barca ancorada em joanetes. Falam sem se ouvir uma à outra – de doenças, consultas, operações & demais deliciosas aflições.
Uma nuvem mais densa obscurece-as, dissolve-as, dissipa-as, rouba-no-las. Em lugar delas – e para nosso mor benefício -, uma moça se incorpora. Maravilhosa incorporação. Bonita de mais para ser alvo de cobiça sexual. “Ideal para namorar aos domingos”, como dizia um conhecido meu. Deveria ser emoldurada – mas só para exibir em sonhos. O senão desta bela é um defeito horrível no dedo: anel-de-noivado.
O projector estremece, esmaece, entenebrece: já na vez da formosa se insurge um arrumador de estacionamento. Avelhentado de muito pacote de vinho-de-cozinha & de muita sandes de pão-com-pão. Amarelidão de outono hipodérmico com garrote – mas rijo qual erva-daninha em interstício de calçada. Orgulhoso, é sem agradecer que me aceita o cigarro. Águia apeada que o vento não leva.
Mas que novo apagão de cena leva, sim. Quatro adolescentes, agora. Macambúzios. Autistas de smartphone, que matraquilham velocissimamente. Nenhum conversa com ninguém. Calças rotas de propósito, dentes agrafados por cremalheiras ortodônticas: arrumadores do futuro.
Um cavalheiro de lábio-leporino fende o ar da fala como a serpente assobia. Escuta-o mui solicitamente um que é solicitador, tirou o curso depois de reformado da Marinha Mercante, tem valor, aprender até morrer.
Dois bêbedos maravilhosos ziguezagueiam da esquerda-alta à direita-baixa da cena tablada. Um assegura Deus, o outro bebeu como o Diabo. Pertencem ambos a essa feliz eternidade d’inda-não-ser-amanhã. Um traz chapéu na cabeça mas é do amigo a cabeça, que aliás nem chapéu usa. O pior-da-vida é a gasosa no vinho e que as nossas mulheres fiquem viúvas. E que as nossas mulheres, ficando viúvas, nos lavem o mármore com água. E se auto-santifiquem e nos plastifiquem de gerânios.
Nisto, ressuscita em palco o arrumador-de-carros. Traz uma orelha murcha & uma narina esgalhada: algum tóxic’olega lhe bateu por vinte cêntimos que estavam no chão como Portugal também esteve entre 1926 e 1974. Não se queixa. Traz moedas q.b. para uma sandes de iscas & um martelo de branco. Quase exulta. Águia devoradora de vísceras.
E ainda: quatro vezes magra como quatro canas, uma senhora leva dois dedos à gaiola do peito, inquieta pelas intermitências arrítmicas do coração. A dois metros dela, sozinho no mundo como a Lua, um chulo de viela mijona escarra um esparadrapo amarelo da textura, da consistência & do volume de um ovo-estrelado.
Um casal de cegos (não-esmoleres) tirita o morse do chão com bengalas de alumínio extensível.
Uma mãe de gémeos em carrinho-duplo anuncia ao mundo a duplicação do mundo.
Foi produtiva, a manhã. Para que a solidão do espectador não seja tão vincada, água & sabão nas lentes oftálmicas: é tudo quanto o teatro do quotidiano requer. A fauna humana é inesgotável, haja lápis que a circo-inscreva. A grande maravilha não é o que as pessoas dizem – é o que pensam calar. Não é o que mostram – é o que julgam esconder. Qualquer lápis decente sabe isso.