Thursday, September 29, 2016

Rosário Breve nº 474 - in O RIBATEJO de 29 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Eu e José António Saraiva



1 Dirigi (oficiosamente, um; oficialmente, outro) dois jornais na minha vida de jornalista encartado. Nenhum deles expressamente viu o sol. Vale-me isto: eram mesmo jornais. Um era o Correio de Pombal. Outro, o Dito e Feito, sito na mesma parvónia. De ambos me livrei com o coxear rápido dos inválidos ante a ameaça das carroças sem travões. Tudo isto para preambular a minha leitura, que acabo de fazer, de “Eu e os Políticos”, de José António Saraiva, antigo director do Expresso e do Sol.

2 Li. Juro que li. É um nojo. Cheira a cuecas mentais que nenhum sabão de honestidade intelectual lavou. Está mal escrito, foi mal revisto, é mal intencionado. Custa-me mais por causa disto: José António Saraiva é filho de António José Saraiva (1917-1993), figura absolutamente maior da História Cultural Portuguesa. Custa-me menos por causa disto: é também, afinal, sobrinho de José Hermano Saraiva, contador de tretas reciclado pós-25 de Abril apesar de fascistóide ministro da Educação aquando da Crise Académica de 1969. Sim, li a coisa. Tem almoços, tem má sintaxe, tem promiscuidade, tem Lisboa a mais e País a menos. Destapa mortalhas sexuais que recobriam pessoas mortas. E gaba Maria Cavaco Silva por conseguir perceber o que ele/EU escrevia, em nome de um confessado (mas frívolo, mas falso, mas ignóbil) cartesianismo (página 43, sff) de quem nem da própria idiotia tem dúvidas.

3 António José Saraiva, pai deste Zé-Tó, foi (e segue sendo-o, mercê da perpetuidade devida aos livros bem escritos) o meu gajo absolutamente referencial da História da Literatura Portuguesa, em co-autoria com o também gigante Óscar Lopes. Pela portuense Editorial Inova (vivam os meus 17 anos, carago!), o título Inquisição e Cristãos-Novos mora-me e demora-me no saber necessário da identidade histórica deste (ainda?) Povo que somos. O volume da Bertrand (capa amarela, riscada obliquamente) de 1977, Filhos de Saturno, trazia o polemista ex-PCP de outras velhas-guardas. Mas era um plumitivo do caraças, o Doutor António José Saraiva! Adunco, fanhoso, bigode obstinado. Nada a ver com este arquitecto desvelador das Câncios e das Marantes, dos mentideros propiciadores da amnésia rápida e da influência nenhuma. Nenhuma. Ou: se alguma – mudar de passeio, até por nojo de alguma contagiosíssima sífilis estilística, à vista de tal deserdado.

Este jornal em que escrevo não oferece almoços in nas espeluncas caras de Lisboa. Mas também não bate em mortos que não podem defender-se, quiçá, dos boatos de alcova arrepanhados à liça por um medíocre que nunca escreveu no Correio de Pombal, quanto mais no Dito e Feito, quanto menos em O RIBATEJO

Thursday, September 22, 2016

Rosário Breve nº 473 - in O RIBATEJO de 22 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Santa Engrácia, vera padroeira de Santarém



1 Findava-se a manhã quando, dirigindo-me eu da marquise à cozinha no intuito de apurar do apuro da enxúndia galinácea que há duas horas borbotava ao lume brando, me ocorreu, em uma espécie de estremeção messiânico, o que acima botei por título. Senti logo que a frecha da verdade me varara o peito. Se a epifania pecava, era por genuína que pecava. Dúvida nenhuma, senhorinhos leitorões meus, pois que:
Obras da EN 114? – Santa Engrácia.
Loja do Cidadão? – Santa Engrácia.
Recolha & tratamento capazes, eficazes, a tempo-e-horas e limpinhos do lixo? – Santa Engrácia.
[E a este pouco santo descaminho parece ir deitando pernada a prometida (para este mesmo Setembro) intervenção consolidadora das Barreiras.]
Não sei bem a que propósito, ocorreu-me o malogro das cabaças na Torre a que elas cabaças deram nome, essas sonoras e repercucientes cabaças ocas que cabeças idem esvaziaram mais ’inda. O altaneiro e cabaceiro relógio torrejão não despede já chamada laboral de pega & despega aos trabalhadores que já não há por essas lezírias que a haver continuam. Mas adiante, que a cabaça é outra.

2 Recolhendo da cozinha ao chuveiro, fui esfregu’ensaboando-me as misérias dérmicas, envolto eu mais de vapor que de nevoeiro o pobre menino D. Sebastião. A acima relatada revelação untara-me de um vago misticismo pagão. Embrulhado no toalhão de felpuda crina que nos ofereceu uma senhora muito boazinha da Obra do Padre Américo que não perde um pobre, passarinhei descalço & pingão até à estante onde nos existe & nos assiste outra santidade, doméstica e máscula esta: São João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. Sentindo-me o refulgente círio do olhar, logo esse meu adorado Cânone assim para mim:
“Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.”
Santarém, queria ele dizer – e disse – logo no capítulo primo das justamente célebres Viagens suas por arredores nossos. Num arroubo profano, fui de responder-lhe que:
“Meu senhor Clássico, meu apogeu Romântico, meu Primeiro Moderno: pois olha que Santarém continua tudo que dela disseste – Histórica de mais um século e mais seis décadas e mais dois anos desde que te finaste; Monumental de ferrolhos caretas e de cerradas tranquetas; e Vila – pois que de citadino pendão tem tão-só o vício administrativo e a canga fiscal, que, de resto, é mais brejo matoso de esguedelhada erva daninha sem corte por quanto é sítio público: assim conseguintemente, Santarém, de cidade, só a tarjeta autárquica e a clientela viciosa e a indecorosa camarilha de lusitanóide costume. Capital do Ribatejo, então, muito mais cada vez menos. Fica ciente. E o Vale da tua Joaninha cheira a voadoras fossas ubíquas e a frades mal lavados. Ciente ficas, meu bom Joaninheiro.”

3 Enxuto finalmente, ornei-me de não possidónias roupagens puídas mas limpinhas. (Ou limpinhas mas puídas – é conforme me dá na resignação ou no desassombro.)
Deu-se-me então o 1.º Desastre. Ao vergar a mola mole do espinhaço para efeito de encruzilhação dos atacadores sapatais, fendeu-se-me em irreversível rasgão a costura que vai do cós posterior à base da braguilha. Senti logo a friúra da aragem nas pudendas reentrâncias. Como só tenho aquele par de calças (descontando o de casamento, que há trinta anos me não sobe o joelho, quanto menos içar posso à ilharga), foi de calções de caqui cigano que saí à rua.
Deu-se-me então o 2.º Desastre. Ao lustral sol da praça já, lembrei-me do caldo ao lume. Aflição imediatamente vascular-cerebral! Apocalíptica bofetada de arrelia! E exsudorífera agonia fria. Deslarguei-me a correr de calções como se por milagre houvesse voltado a menino. Não esperei pelo elevador. Galguei mas foi degraus & patins – não aos saltinhos científicos à Nelson Évora, não, mas sim à marido de bombeira na antemão de caçado em flagrante por fogo-posto ao próprio casebre. Na esfalfad’arfante atrapalhação, deixei cair as chaves para aí umas setenta-e-catorze vezes. Adentro já, a esconsa cozinha volvera-se numa ominosa espécie de sauna crematória. Desfolhei do fogão a obstinada rosa do gás, deitei ao diabo o testo da panela sem tempo para urrar o calão das queimaduras, espreitei o mais actor-trágico possível: galináceo cremado, caldo evaporado e o fundo todo esturricado. Moral da história já a seguir no ponto 4 e último:

4 Com toda esta desEngrácia de Câmara, viver em Santarém não é canja.  

Thursday, September 15, 2016

Rosário Breve nº 472 - in O RIBATEJO de 15 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Madrigal



Voltei a despertar sem alarme e a levantar-me às seis da manhã. Durante o aparentemente infindável Verão, tornou-se-me impossível tal madrugação. Estou agora todavia pronto a retomar a vocação de guarda-matinas. É outra higiene mental, garanto-vo-lo sem tretas. É vocação erma & linda.
A cru, desjejuo a catacumba gástrica com um copo de água tépida. Deixo ferver no vazio. A nutrição mastigante tem tempo. O mundo da Casa renasce entretanto em tal singeleza, que nem de palavras precisa. Nem rádio, nem televisão, nem computador. Para que raio me serviria saber da rotineira balbúrdia dos acessos viários a Lisboa e Porto, igual todos os dias com seus toques por trás à Rotunda do Relógio e/ou à Fábrica de Produtos Estrela? E dos famigerados “mercados” abrindo em baixo hoje o que ontem fecharam mais abaixo ainda? Em vez disso, passarada trabalhando música lá fora, isso sim. Descerro o estore, deixo entrar o mercúrio frescote da primeira linha d’alva. Da cadeira do quarto, faço por revertebrar as roupas quebradas, demando os sapatos desirmanados, esqueço-me dos óculos afinal já postos ao norte da tromba.
As decisões começam impondo-se-me já, porém. Raspar a barba hoje – sim ou não? Calças de lavado? Se sim, as azuis ou as castanhas? Nestum ou resto da sandes de atum? E até que seja meio-dia – Aquilino ou Cesário? Tudo opções com algum aparato de complexidade, que adio para depois da chuveirada na carcaça.
Descaso-me. À face oriental da ponte, sustenho a passada para arbitrar uma verbosa porfia entre vendedeiras. Ao que percebo, receiam ambas (ou ambas desejam muito) vir a ser comadres: o filho da das couves & a filha da das fanecas etc.-&-tal já com bambino feito e a caminho. Alvitro-lhes que o melhor ainda seja esperar por quinta-feira, dia em que o Jornal sai com a minha decisão por escrito. Acham-me sensato. Isso maravilha-me: serão talvez as duas únicas mulheres do mundo a achá-lo-me. Maravilhado, desando & sigo.
Os expressos da Rodoviária disparam já à rosa-dos-ventos-cardeais. O de Lisboa leva um pouco mais de maralhal do que os outros. O de Abrantes leva a velha dos tremoços. O de Santarém acarreta sete ucranianos que vão para as obras das barreiras mas, pelo que (não) ouvi dizer, se calhar vão mas é de passeio à senhora-da-asneira. O de Coimbra não me leva.
Aos poucos, a terriola fervilha quanto pode. Já há velhas-do-galão-margarina-no-pão pelas pastelarias. Toxiarrumadores esbracejam já ao níquel no baldio que, dizem, a Câmara não tarda muito a eriçar de parquímetros mamões. O cónego da Sé paquidermandarilha com o breviário do Record.
Não deram ainda as oito & meia, mas os panos de relva do Jardim, rociados ainda do refrigério nocturno, surgem já esmaltados do sol salvífico. A estátua do Poeta Oficial, devidamente cagada das pombas à imitação do que lhe fizeram à Obra as moscas, boceja de bronze na praça das arcadas. Sob estas, tomam anis os grossistas e ponche os retalhistas: de riscado, de tabaco, de faianças, de retrosaria, de pitrol & de outros alternes com ou sem kizom(pim)ba.
Ao quarto-para-as-dez, a madrugada é já uma improbabilidade crepuscular. O nervo do dia tempera o aço da jorna. Um cantoneiro, furioso por ter tropeçado na tampa de saneamento que o madraço do gajo das Águas deixou esbeiçada de esguelha, vai ali à Alice Zarolha amandar-lhe c’um branco só por causa das merdas. Da gaiola aberta do andaime, o pintor adere esfregaço de tinta areada a uma empena de terceiro-andar. De patitas carcomidas pela própria dejecção, pombas coxeiam como polícias reformados. Passa mais além, de rolos-projectos à sovaqueira, aquele empreitovigarista que é amigalhaço do ex-cunhado do vereador que tem a mulher metida naquilo do Gás. Carrinhos-bebés passeiam paridas-solteiras. Do Anselmo das Bifanas mana um fio maravilhoso de petinga frita agorinha-mesmo que nenhuma perfumaria de Paris pode alguma vez emular.
Parece impossível: onz&quarent&sete são já elas. Campeio por berma-rio o retorno ao casebre. Na passadeira, deixo passar, que vai doida, uma ambulância de tal maneira aos uivos que deve ser um lobo a ir ao guiador. Quando meto a chave à ranhura, soa a sirena da Cerâmica. Que fazer primeiro? A crónica ou o almoço? Decido-me pelo raspar da barba, que hoje pode muito bem ainda vir hora de ser visto pela Ermelinda (erma, linda), a quem nem Cesário nem Aquilino aquentam ou arrenfentam, à semelhança do deitar-cedo-e-cedo-erguer, que a gente um dia é toda morrer, case-se ou não o filho da das couves com a faneca da filha da outra.


ENCONTROS DE BOLSO - republicação de texto, agora como crónica n.º 11 da série CONTRA OS CANHÕES - in Quinzenário TREVIM (Lousã), edição de 15 de Setembro de 2016



Encontros de Bolso



Junta-se um sem-fim de coisas nos bolsos. Cada um (não) sabe das suas. É preciso despejar os bolsos de vez em quando. Caso contrário, o acumulado toma-nos conta da vida.
Ia eu no comboio descendente. Meti a mão ao bolso à cata de uma afiadeira. Encontrei um lenço agora enxuto, resto mortal de um amor que deixou de valer a pena molhar. Encontrei a chave de um carro que não tenho há muitos anos por me ter esquecido de onde o estacionei. Encontrei uma unha que roí numa quinta-feira do ano passado. Encontrei o calor da minha mão. Encontrei um peixe que se tinha abrigado de não estar a chover. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz do meu Pai a dizer “há arroz de frango está no fogão”. Encontrei o arroz, mas não o meu Pai. Encontrei uma maneira diferente de escutar as árvores. Encontrei um pássaro desenhado a feltro azul por uma estrela de cinco pontas. Encontrei uma estrela de cinco pontas que era, a feltro encarnado, uma mão de menina. Encontrei uma carta impreterível do banco. Encontrei a peça principal de uma máquina do futuro. Encontrei uma ponta de cigarro fumado por outra boca. Encontrei um jornal publicado antes de tu teres nascido. Encontrei duas folhas de árvore: a nervura de uma indicava a certeza da morte, a transparência da outra demonstrava a necessidade de nascermos. Encontrei um bilhete manuscrito com a voz da minha Mãe a dizer “se não quiseres o arroz estrela ovos não sujes o fogão todo”. Encontrei a tatuagem do marinheiro que todos deveríamos ter sido. Encontrei um brilhozinho nos olhos sem olhos. Encontrei o mapa dos rios do sangue. Encontrei a visão aérea da solidão. Encontrei uma pulga que fazia poupanças há quinze anos para comprar um cão maior. Encontrei a fotografia que vê a minha irmã vestida de verde a olhar pela janela uma manhã sem remédio.
Só não encontrei a afiadeira com que costumo aguçar o lápis que escreve estas histórias.

Thursday, September 08, 2016

Rosário Breve nº 471 - in O RIBATEJO de 8 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Utopias e boas companhias



1 O senhor meu Pai comprava todos os dias o jornal. Era o Diário de Lisboa. Nenhum dos dois existe já. Era um senhor bom Pai. Era um senhor bom jornal. Fui bem criado, pois: como filho e como leitor. Cheguei a desejar escrever, um dia, naquele periódico. A realidade da extinção tornou-me irrealizável tal utopia. Em compensação, escrevo aqui, nO Ribatejo. A vida não me foi madrasta de todo, portanto. Só tenho pena de, chegando a casa, não poder mostrar ao meu Velhote as palavras que tão boa companhia me fazem, a saber: as dos grandes Armando Fernandes, Arnaldo Vasques, António Branquinho Pequeno, Beja Santos, Fernando Paulo Neves, João Salvador Fernandes, Joaquim Jorge Carvalho, Mário Rui Silvestre e, de longe em longe, Carlos Cruz e Carlos Chaparro. Mais o traço impagável do António Maia. Mais tudo o que fazem os profissionais desta Casa.
Não digo isto por mariquice sentimentalóide. Digo-o por gratidão. São quase nove anos e meio de comunicação com as gentes leitoras de uma Região tão bela quão mal aproveitada. Pronto, está feito e fica dito.
2 Derredor o meu par de óculos, a Realidade quotidiana é insalubrezita. Muita (demasiada) gente sem trabalho. As televisões industrialmente jorrando lixo. Lixo propriamente dito pelo chão, manado por gentalha sem pinga de civismo nas ventas. Estoiros rodoviários perfeitamente evitáveis. Incêndios criminosos. Coisas mal pensadas, mal escritas & mal lidas. Um ror, enfim, de mediocridades que vou fazendo por desprezar com a tranquilidade possível. Como não sou super-herói, desforro-me na frequência agradecida de bons impressos, tais como: A Morte É um Acto Solitário, de Ray Bradbury; Papéis Inesperados, de Julio Cortázar; Silja, de F. E. Sillanpää; As Grandes Correntes do Pensamento Antigo, de Albert Rivaud; Las Doctrinas Políticas en Portugal (Edad Media), de Francisco Elías de Tejada Spínola; a maravilhosa Hélade, compendiada pela também maravilhosa Doutora Maria Helena da Rocha Pereira; e ainda, claro, o nossO Ribatejo. Vou-me safando com algum garbo. Vou, vou.
À maneira de despedida, sempre V. digo que, se me sair uma batelada brutal no euromilhões, reactivo o Diário de Lisboa e ponho-me Director dele, para alegria secreta do senhor meu Pai. Há-de ser limpinho. Ou nunca, que sempre é o mais certo.




Thursday, September 01, 2016

Rosário Breve nº 470 - in O RIBATEJO de 1 de Setembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Mas isto sem enredos nem dramas



Durante duas semanas, não soube que fazer nem da nem à minha vida – a quinzena de descanso (aliás justo, merecido aliás) dos trabalhadores desta Casa fez com que o meu trânsito temporal pelo tórrido Agosto equivalesse, ora nem menos, a um ardente viático deserto sem fofuras frescas de oásis à miragem. Duas vezes sete dias sem uma embirraçãozinha com a Câmara – caramba, sempre é estopada, sempre é seca, é ferro sempre! Mas enfim, o Jornal está de volta. Vem arejado, ourejado, bronzeado. Vem são como um bebé de boa casta e de rosada compleição já muito capaz de seus gu-gus & de seus dá-dás.
Setembro aí está. Hoje é o dia n.º 1 dele. Já se ouvirá roncar a maquinaria de reconsolidação das barreiras? Daqui onde escrevinho, a não sinto. Talvez amanhã, útil dia também. Cuido tão-só, riscando-me porém a papalvas facetas de ingénuo, que à palavra dada se dê seguido acto – e que as orçadas obras arranquem sem mais. Nem menos.
Nisto, num sítio por acaso não longe daquele em que o meu Leitor me segue as linhas, abeira-se-me um sujeito espadaúdo de que não conheço o nome mas cujos ademanes reconheço. É de cabeça cúbica como uma esfera errada, carão de malares metalúrgicos em que negreja um bigodão de crepe lutuoso, nariz esponjoso qual framboesa feita de fígado, olhinhos desconfiados como pardais pretos e de pescoço grosso sulcado de cordoveias sujas & fortes como lianas amazónicas. No fundo como à flor, não é mau tipo. É apenas burro. É apenas mula. Gosta de atirar trocadilhos sentenciosos mas fáceis do género: “É preciso mudar as coisas do Estado para mudar o estado das coisas!”. Ou então paradoxozitos desta classe de pacotilha: “Isso foi gajo que até no morrer teve sorte!”
Ele àquela mesa, eu a esta. Moita-carrasco (sem flores de trocadilho) da minha parte. Cúnfia nenhuma. Laissez-estar, laissez-palrar. O gajo sente, manando de mim como uma febre electrostática, um silêncio de espessura de edredão. Sorrelf’olha-me de oblíquo viés. Desconfiado, ele – hoje em dia, escrever num Café sem ser no tablet ou no telelé mas sim, ainda por cima, a caneta e em papel – pode ser de grande melro, mas não grande espingarda. Sinto-o presa agónica de uma ardência comichosa. Herpes da mente, urticária da alma, psoríase da perguntação, frieira do diga-me-cá. Incapaz de açudar a torrente daquilo que matou o gato, vozeia-me ele:
Você desculpe, mas isso aí da escritura é mais nódoa atirada ao pano do sôprezdentedacambra ou quê?
Tiro os óculos para o ver mal e, sem uma palavra, meneio o capacete que não.
Mas ele:
Você desculpe se quiser, mas é qu’isto tem sido das suas partes um inzajêro, qu’ele é o home’ nas procissões todas imaizalgumas, el’é ele a birabaixo nas barreiras, el’é ele a deixar sujar o Tejo como se o Tejo num tibesse auga suficiente pa’ se lavar, el’é ele tudo e todo por coisa nenhuma.
Mazeu, sempre assilábico, de uma afonia manhosa sempre, escorneio o meu casco – que não.
Acalmado, o bigodão então assim para mim:
Bom e bem-haja atão assim, q’atão assim é bem melhor. Em-fim, sempr’aforam duas semanitas estas de quétude & sossego, pois atão num foram?
E eu (ou: mazeu), resguardando-me a caneta & guardando-lhe rancor, abandono o proscénio, sem nódoa que caia onde
CAI O PANO.

POUCA TERRA, MUITA TERRA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 1 de Setembro de 2016


Fotografia de Helder Jorge Tomás Medina



Pouca terra, muita terra

Li, reli e não tresli: “Plano regional de transportes ignora Ramal da Lousã”. Vinha no nosso TREVIM de 18 de Agosto último. Parece que uma tal “Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra”, fundamentada numa remota empresa de engenharia do Porto, a “TRENMO”, nem pia sobre a autêntica ferida aberta que continua a ser a suspensão do serviço ferroviário de Coimbra a Serpins.
Para mim (como decerto para milhares de cidadãos mais), isto é mais do que mera incompetência política. Isto roça a irresponsabilidade criminal. Num português vazio, bem pode a papelada do “Plano Intermunicipal de Mobilidade e Transportes” apregoar a “necessidade de uma inversão da quebra de competitividade do sistema de transporte público”, agitando a bandeirinha retórica do “aumento da eficiência, eficácia, competitividade e conveniência” – tretas, digo eu: tretas. O que queremos todos é o comboio de volta. Chamem-lhe “metro”, chamem-lhe o que quiserem – qual seja o nome, queremo-lo de volta porque é nosso e porque não é um capricho mas uma necessidade crucial que em outros melhores tempos tínhamos por satisfeita.

Setembro tem de ser o mês em que a iniciativa do TREVIM seja ouvida, lida & e tida em devida conta. A petição pública pela reposição do serviço rodoviário do Ramal da Lousã é de uma qualidade democrática cada vez mais rara nestes tempos de esvaziamento cívico e de estupidificação massiva. A linha está bem. Reponham-se os carris onde criminosamente foram arrancados. E que rolem cabeças até que de novo role o serviço de boa memória. Memória oxalá que futura.

Thursday, August 04, 2016

Rosário Breve nº 468 - in O RIBATEJO de 4 de Agosto de 2016 - www.oribatejo.pt



Um jantar românticochon 
ou 
Crónicóinc



1 Extravagância rara mas perdoável, a minha Senhora & eu fomos, por uma destas cálidas noites do corrente Estio, jantar fora. Andáramos meses amealhando moedas esquecidas. A hora boa era boamente ora. Lá fomos, carregadinhos das moedas.
Ampla, a esplanada era toda de távolas amarelas com réclame ao chá gelado da moda. Derredor, falava-se muito francês com sotaque de Alpiarça. Hordas gordas pastavam com afinco. Tudo entrava à base de azeitonas roídas de coentros alhados e rijinhas ao dente, queijinhos de saudades do da Serra, pâtés de sardinha moída e/ou de atum cirrótico. Atafulhadas de vaporosa legumagem, travessas-inoxes exclamavam ricas fumegações de cozido não-pobre: unha, costela, morcela, linguiça, orelha, farinheira, pesadelos tudo do maralhal islamita. Bêbedas de vinha-de-alhos, caçoilas de barro preto chanfanavam capitosamente o ar nasal. Nacos de bacalhau, espessos como dicionários do bom tempo pré-AO/90, rangiam fofuras ébrias de azeite. Garoupas & robalos decapitados rogavam tão-só, no que prontamente eram deferidos, que os imolassem sobre cama de arroz-de-espigos levado ao forno. Míseras delícias, enfim, desta vida de uma-noite-só-por-ano, que uma noite não são dias. Estar vivo era quanto bastava para ser um bocadito feliz sem remorso. Foi então que.

2 Foi então que se deu aquilo dos porcos. Estávamos todos tão bem da vida como parágrafos abertos e fechados em torno de um segredo bom. Mas então – os porcos. Passou-se que uma viatura de transporte de animais vivos estacionou à face da esplanada. O frete era de suínos-recos-javardos-grunhos-tós. Uma caminéte de porcos, pronto. E de pronto o ar se saturou do pungente perfume da merda mais viva, mais penetrante, mais perfuradora & menos tolerável da nossa vida. Nossa, de todos. Senhoras começaram a gasganetar a bola da mastigação. Criancinhas ficaram de olhos húmidos como estrelinhas do Natal. A minha Graça começou a dizer mal do casamento que fez. E eu esfreguei as patitas de pateta contente: (“Já tenho crónica, caraças! Já tenho alegoria, carago!). E era que tinha. E é que tenho.

3 Tenho, tenho – esta assim, quereis ver/ler? Sei bem que quereis. Cá vai: a risível mas triste historieta do nosso (meu & da minha Senhora Esposa) jantar romântico é muito cotejável ao que ali por bandas de Torres Novas em má-hora acontece. Mais explicitamente: naquele afluente do Rio Almonda a que por triste ironia chamam Ribeira da Boa Água. A diferença entre o meu jantar à beira de porcos parados e a desgraça criminosa daquelas paragens está nisto: no meu caso, os porcos estavam quietos; no caso do Almonda & demais afluentes do pobre Tejo, os porcos não apenas se mexem como agridem as pessoas de bem que vêem a Natureza não como aterro ou esgoto mas como Casa de Todos. Está dito, está dito: e nas fuças dos porcos bípedes, covardes & covardes & porcos.

4 Moral da alegoria? Nenhuma. Nem tirando o O a alegoria pode dar alegria. É muita tristeza junta. É muita impunidade à solta. É muito ganancioso sem uma cadeirita de ferro pela corneta abaixo. Até que um dia o Diabo se lembre de lhes ser bom.

5 Por falar em Diabo, o diabo do porqueiro lá comeu felizmente depressinha (tinha vindo só para uma bifana no pão com um quartilho de branco-de-cozinha) & cá nos desamparou a loja. A vicissitude mal-odorosa refez-se, rarefez-se &desfez-se. Pagámos & desandámos. Vim para o carro com um sorrisito mefistofélicozito. E a minha Graça assim p’ra mim: “Já tens croniqueta, malandrim!...”.
E era que tinha. E não é que tenho?


ALEGORIA VENATÓRIA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 4 de Agosto de 2016







Alegoria venatória




1. Esta que passo a contar-vos para efeito de alegoria passou-se mesmo. Mais do que verosímil, é verídica. Bebi-a de fonte limpa. Passou-se pois o acontecido assim:

2. Por certas matas & brenhas do nosso distrito, um homem tinha por uso andar na companhia de seus cães no intuito de apanhar coelhos silvestres para o tacho. Era caça sem licença e sem espingarda. Os rafeiros, exímios farejadores, davam conta do recado às mil maravilhas. O homem só tinha de fazer de batedor. Do resto, tratavam os patudos. Durante não contados tempos a fio, não faltou chicha orelhuda & roedora àquele caçador sem pólvora nem chumbo. Ora, como tantas vezes nesta vida, o êxito particular foi pai de invejas públicas. Aquela cinegética artesanal, coroada como era de tão clamorosa recompensa petisqueira, caiu mal no goto de uns quantos sicofantas. Como “sicofanta” significa “delator”, os meus Leitores já estão a ver o que aconteceu: o homem foi denunciado às autoridades. Em consequência, veio a Venatória. O caçador passou a caça. Seguiu-se o seguinte: devidamente mandatados para o efeito, dois fiscais puseram-se a pé por aquelas brenhas & matas até darem com ele. Isto é, com eles: o dono dos cães e os cães propriamente ditos. Caçaram-no sem procurar muito. Foram direitos a ele & ao assunto: “Então o senhor anda por aqui aos coelhos sem licença, sem caçadeira e fora de época ainda por cima?”. Arvorando um ar seráfico de virgem que nunca sentiu bafo de macho, o homem contestou-lhes isto: “Eu? Eu népias disso. Ando por aqui às pinhas, só isso.” E os guardas: “Às pinhas? Então e os cães são para quê? Para farejar os pinhões?”. E o homem: “Cães? Mas quais cães?”. E os guardas: “Esses mesmos que estão aí a dar ao rabo junto a si, homem!”. Sem se desconsertar, respondeu-lhes o ladino: “Mas ó ‘sôs’ guardas, os cães nem são meus!”. Insistiram os fiscais: “Não são seus? Então por que raio andam eles por todo o lado atrás de si?”. Foi então que o homem lhes lançou esta pérola: “E ‘atão’? Vossemecês os dois também andam atrás de mim mas não me pertencem, pois não?”

3. ‘Por fas & nefas’, fica o conto contado. Que nos sirva de alegoria. Esta aqui: Também a linha ferroviária dita da Lousã, em tempos idos que não sei se voltam, andava sempre perto do povo que servia. E do povo era ela. Até que vieram os fiscais e lhe levaram os cães. Perdão, os carris. Até hoje.

Thursday, July 28, 2016

Rosário Breve nº 467 - in O RIBATEJO de 28 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



Terrorismos estivais



1 O terrorismo não se esgota nos atentados suicidas, nem no fundamentalismo mascarado de religião, nem no maniqueísmo simplista nós bons/eles maus. Ah pois não. Ele há mais terrorismo. O das famigeradas “sanções” da alegada União supostamente Europeia, por exemplo. Intolerável ingerência na soberania de cada Estado mais “periférico” (isto é: tudo o que não é Paris, não é Bruxelas & não é Berlim), todo este aparato dos “défices estruturais” e da “Dívida” traz água estragada no bico. Para mim, é terrorismo. E não costumo enganar-me nas palavras que uso.

2 Outro terrorismo: a Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara, que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice de certa política. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia, por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade: muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo “esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?

3 Termino por esta semana com uma confissão: cada ano que acumulo, o Verão torna-se-me mais intolerável. A inflação centígrada dos últimos dias tem-me tornado um bicharoco recluso cozendo à sombra dos quarenta graus. Amanheço a desejar a noitinha. Jornada é fornada. No céu sem fronteiras, o grande Sol, rei ímpar, dardeja uma violência que calcina. Antigamente (falo por mim, só por mim), era uma estação bem-vinda. A trégua escolar chamava & juntava os grandes ócios maravilhosos de ir à fruta, ao rio, à mata, aonde o nariz livre apontasse. Aos 52 anos, sou um velhinho transido de calor que quer tão-só esses estores bem descorridos para baixo, essas cortinas bem encerradas, a casa tornada mosteiro de pedra fechada à violência solar. É como se o Sul da Europa tivesse sido tragado para sempre pelo Norte de África. Ou por Berlim. E ainda temos Agosto aí à porta, raios o partam.