Daniel Abrunheiro

18/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 366 a 370

© DA.



366

Segunda-feira,
17 de Maio de 2021

    Um homem chamado Camilo Rato teve, esta finimanhã mesma, arte de imisção em o meu ideário. Já no corrente Parnada Idemuno uma vez (m)o fizera ele, mas sem profunda consequência (nem expressa nomeação). Lembrei-me dele (ou ele de mim) quando, no perfeito solipsismo que é o de toda a gente aquando na retrete, folheava páginas preciosas do precioso Almeida Garrett nosso, compendiadas estas pelo fiel servo das Belas-Letras que foi o senhor João de Castro Osório.
    Camilo Rato. Deve andar pelos 74, 75 anos. Tinha um filho a estudar na Universidade cá do sítio. Não era de cá. Era de uma Póvoa – de Varzim, como o Eça?; de Lanhoso, que foral houve d’El-Rei D. Dinis a 25 de Setembro de 2012? Questionar é preciso, responder nem sempre é possível. Não cheguei a conhecer-lhe o tal filho. Camilo falava-me dele com discreto orgulho. Certa noite, ajudei este senhor a subir um móvel-livreiro ao quarto que o filho arrendava ali à Couraça dos Apóstolos. O rapaz não estava. Fomos depois a refresco ao Café Santa Cruz. Conversámos. Era ele pessoa interessante & interessada. Não tinha o liceu (antigo) todo. Aos quinze, foi trabalhar de paquete num hotel do Porto. Teve (só) aquele filho de uma cozinheira da Ribeira daquela cidade. Estabeleceu-se depois como retalhista de panos em Aveiro. Foi pagando o filho. Chegada a hora universitária deste, sentiu-se feliz. Coimbra vivia já da esmola chamada nostalgia – mas formar-se nela ainda não deslustra seja quem for. Bom Camilo. Não sei que dele seja feito – espero tão-só que desfeito, não. Lembrou-se ele hoje de mim pela mediúnica literatura, que é o meu último reduto. E o dele também, agora que penso nisso.

367

    Daquela vez, eram as Pezzi Sacri de Claudio Monteverdi, sim, na tarde maviosa de um sábado, como todos, sem-retorno: da Gloria ao Crucifixus, passando por Venite, Videte & Exsulta, Filia Sion & Salve Regina. A Lita era para ter vindo ao concerto comigo – mas o pai não deixou, suspeitava ele da minha pessoa finiadolescente. Hoje, que também filhas hei, não só o compreendo como o acho carregadinho de razão. Exsulta Pater, portanto & por assim dizer.

368

    Houve aquele dia primeiro de Janeiro que me trouxe o par Audrey Hepburn /a Mulher-Flor, digo) & Rex Harrison. Foi há mais anos do que se me torna fácil crer. O que fazia de pai malandreco a cantar With a Little Bit of Luck. Grande produção, esse musical My Fair Lady. Audrey era belíssima, mas de uma beleza, por assim dizer, botânica. A de Sophia Loren, essa é (ainda é) toda carnação.
    O melhor desse Janeiro, sei-o agora como profeta do futuro-anterior, era ter toda a gente viva. E não só os meus – como também os amigos, as famílias de cada amigo, os cães no quintal, a oliveira, o cedro, o pastor Barbeiro, o Gago fadista, o Tónio polícia, o Leandro jardineir’ébrio, todos os Cucos. De pouco me serve soltar à perda tanto ai.
    E no entanto algo se inscreva em pedra
    Universal demanda de lembrança
    Esquecimento é cão que já não ladra
    Memória ilude mas sempre é pertença.
    Entretanto, o futuro era isto: cadeias de transmissão viral, judeus hitlerianizando palestinos, o vespeiro asiático imune a qualquer humanismo, a Rússia inçada de gorilas-albinos, a tropa em França implorando ao governo do miudito que não abra tanto as pernas a tanta escumalha fundamentalista & inassimilável – e por cá a cavacal múmia etc.
    E salvação disto? Ela haver, talvez haja. Aqui é que ela não mora. Nem com aquele bocadito de sorte da canção da bela Lady.

369

Ao alto de um plano da Cidade, lá onde árvores vicejam
Passeando a própria roupa ao deus-não-dará das horas
Lá tornado aqui, sítio de versos que bocejam
De esperanças rotas, moucas fés & vãs demoras.

Por ’í uma pessoa pode anonimar-se sem família
Sem crédito fiado de quaisquer instituições
Vender ao desbarato os tarecos da magra mobília
Mijar na Sá da Bandeira perto do leão do Camões.

Própria da rés-pequenez é a mania-das-grandezas
Mais assisado é o tolo que ri das próprias toleimas
Aqui a estudantada estuda nada mas gosta mui das queimas
Ide ter co’ papá, peçam à mamã: ou ide servir às mesas.

Escrevo o meu ideário quanta vez nocturnamente
Não vou por trinta lentilhas alugar-me ao diabo
Ele há tão poucas pessoas, que o mais é gente
Caprina de pés & com cara de rabo.

À sépia-luz do candeeiro, sitiado de papel
Recordo menos que invento em alento de verdade
’inda outro dia, na mercearia, a senhora: - Sô Daniel,
custam-lhe as nêsperas o dobro se levar só metade.

(E eu com nêsperas à borla: ao pé da minha cunhada
Há nespereira fartinha junta a ’ma casa abandonada.)

Ao alto
Etc.

370

    De novo se fez nova a noite antiga
    Antiga lição é a da luz ausente
    Ela é antes & depois de sermos gente
    É espanto que ainda se vá na cantiga
    De uma além-vida em mel d’eternidade
    E o mal da morte afinal não ser verdade.
    Eram menos burros os politeístas: dispondo de vários deuses, tinham sempre alternativa funcional quando algum destes se avariava ou caducava – ou quando, tão humanamente aliás, morria e, por começar a feder, era enterrado & esquecido até mais não ver.
    Maio, segunda metade em curso.
    Siga.

17/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 362 a 365


362

Domingo,
16 de Maio de 2021

    Morreu Diniz de Almeida, militar de Abril. Tinha 77 anos. É um dos rosto genuínos da Libertação. À boa figura física juntava a boa-prática pró-social: coronel na reforma, era psicólogo-clínico & médico-dentário, exercendo pro bono a favor das gentes do Bairro da Boavista, ali a Monsanto, Lx. Merece reconhecimento público. Não sei se o terá: afinal, não engordou à pala do Estado. Em humana graça será porém recordado por as pessoas decentes que este País ainda tem.

363

    Depois de cerrada invernia, o cair da tarde fez-se rutilante, fulgura de ouro-para-todos o pré-crepúsculo. Muito longe desta idílica sensaboria, os naZionistas de Israel perseveram a frio no genocídio palestiniano. Algo lhes ensinou Heydrich, pelos vistos. O Atlético Madrid pode ser campeão de Espanha domingo que vem, vencendo em Valladolid. Outras notícias raspam-me o casco mas não me abordam o convés. Tenho aprendido a bocejar & a encolher os ombros como um campeão de cinzas. Impera em mim um interesse cada vez mais selectivo. Termino hoje a leitura de O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português, de Eduardo Lourenço, obra de que a Gradiva, em vinte anos, fez dezanove edições, rara coisa cá na lusa parvónia. A seguir a Lourenço, Sófocles (Édipo em Colono, tradução portuguesa de Maria do Céu Fialho, in Tragédias, edição de 2003 da MinervaCoimbra). Não se está mal. E lá fora, a ampla luz – e aqui, insulação sem insolação.

364

    Sentado, fiz um breve périplo pelas figuras & vozes portuguesas seguintes: Mirene Cardinalli (1942-1969), Rui de Mascarenhas (1928-1987), Celeste Rodrigues (1923-2018) & Alberto Ribeiro (1920-2000). A irmã da divina Amália foi a de maior longevidade. A.R. viveu oito décadas. Mas Rui (59) & Mirene (27 apenas) foram-se muito cedo. Elas & eles, vozes bonitas todos – e sabiam cantar, ainda que nesse portugalinho-sem-escola. O meio tornava-os autodidactas, mais uns que outros, mas assim era por regra. Tal como a sua gloriosa mana, Celeste não teve infância fácil. Deixaram, enfim, um fio de obra cantada que hoje me deu para, no ócio claustral destes pandémicos tempos, revisitar com gosto & proveito.

365

    A luz gravada a preto-&-branco de um dia de há 67 anos mana da máquina para este quarto em semipenumbra. É panorama duas vezes distante: no Tempo & no país em que fizeram o filme. Numa das cenas, ri a bom gargalhar um rancho de crianças. Não é improvável que (oxalá) muitas sejam vivas ainda. Quanto aos adultos, talvez algum. Há muita sabedoria na produção deste rosário de imagens. As figuras orientam-se por marcações invisíveis a meus olhos. Há agora um bosque. Flores, rapaz & rapariga. Incipiente idílio, história antiga como o firmamento, o céu da noite coalhado de lumes frios. A constante pulsão de sobrevivência (do indivíduo como da espécie) traspassa a condição. Nesta acepção, a passagem para o humano estatuto merece ser tida como capaz de dignidade, trágica sempre, cómica em momentos menos maus. É de noite agora: no filme como nesta casa. Amanhece já lá. É uma manhã de chuva. O pretérito é presente, mercê da arte & da técnica. A luz persevera, avara de cores mas não de sentido.
    Corre o filme, corre-me a ideia em uma noite destas duas diversa. Era Outubro, ali muito perto do rio. A temperatura baixara bruscamente. A rua era quanto tinha de momento por casa. Pouquíssimo trânsito, nenhum comércio. Era uma daquelas noites que permitem ao solitário a compreensão da desmesura da vida: uma compreensão sem esforço, sem estudo & sem remédio. Outro homem: parecia vir arrastando um peso tremendo, mas podia ser só fadiga, ou bebida, ou ambos tais castigos. Assim veio, assim passou. Não deve ter-me topado entre as colunas da passagem aérea. Seguiu na direcção da gare, dissolveu-se em seu próprio filme. Voltei a topá-lo meses depois, mas então de dia. Sempre naquela zona, parece – entre a Estação Velha & a Casa do Sal. Decerto se apercebeu muito antes de mim da tal desmesura. Não sei. Sei poucas coisas. Costumo estar atento para aprender sem a intransigente & demasiada luta que a vida dá para ser apre(e)ndida.
    O Inverno era outro nestoutra lembrança: ando então no Liceu da Infanta Dona Maria. Na biblioteca, descubro um volume de capas verdes, acho que letras douradas, tenho a certeza de o autor ser o velho Fidelino de Figueiredo. Requisito-o, é um manual da história literária nossa. Na Primavera que vem, faço dezasseis, talvez dezassete. Dezasseis, acho. É quando a rapaziada & a raparigada-queque da Juventude Centrista têm por santos-vivos a João Paulo II & Lech Walesa, polacos ambos, ambos anticomunistas. The Stranglers estão na mó-de-cima com Golden Brown, os Orchestral Manoeuvres in the Dark também voam de Enola Gay. Posso estar a fundir anos lectivos, não tenho maneira de ser mais preciso nem de prestigiar & legitimar o que narro com mais assertiva acuidade. Vou no autocarro, não chove mas está frio, às cinco da tarde já não é de tarde mas de neonoite. Vejo passando na rua a Lena. É ali na esquina da Brotero, ela passa direita a S. José. Não somos da mesma turma. Ela é uma das da seita JC/CDS. Sim, mas é bonita. Bonita e não tão frívola quanto o resto daquela pandilha filha de médicos, engenheiros, empresários, advogados, lentes. Só nos falámos uma vez. Foi no ginásio, comentámos o basquetebol em curso, equipas mistas, torneio interturmas. Eu era da Turma H, ela da A. Pelas letras, dá para perceber logo que o pai dela era cardiologista, enquanto o meu, pintor-cerâmico. Nunca mais a vi, ao contrário daquele sem-abrigo que faz o circuito Estação Velha / Casa do Sal. Não escolhemos os olhos com que nascemos nem as visões que a vida nos atira ao focinho. Escolhemos tão-só como menti-las com fino aticismo.


16/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 359 a 361

© Cristiano Cruz


359

Sábado,
15 de Maio de 2021

    Deixou obra forte o pintor Cristóvão de Figueiredo, lá do XVI português. Apreciei-o quando se nos acabava a todos a manhã do Sábado. Algumas telas dele foram-me, por assim dizer, legendadas pelo Vivaldi do Concerto para Fagote em Fá Maior, com Sergio Azzolini & L’Onda Armonica. Estamos portanto bem. Abençoa-nos a infinitude de recursos pró-Beleza. Com um pouco de justa-medida, a coisa vai.
    Falta-me o primeiro dos dois volumes (Bertrand) de A Mocidade de Herculano, tese do então também moço Vitorino Nemésio. Tenho já porém – desde 9 do corrente – o meu velho Pierre Nordon biografando (em 1964, France) o meu velho Conan Doyle: graças ao meu Amigo Marco Fernandes.
    Na hora seguinte (+ onze minutos), Die Kunst der Fugue (BWV 1080). Lá fora, dia baço – como gosto. Muita fuga possível, sim. Pelo menos aqui, posso escapar às alter(c)ações climáticas sem sentimento de compunção. Não darei por incompto o meu sábado. Em os refolhos de cada hora, (a)corro em meu adjutório mesmo, que mais gente me escasseia. Perdoe-se-me a tentação veleitária, que humana é por, precisamente, qualidade de seu defeito. Fazei Vós, enfim, são descaso do que V. peroro. Remedi(t)ar é-me preciso, julgo que no-lo é a todos. Bach, entretanto, em fuga (Holland Baroque met Judith Steenbrink, Filip Rekieć, Stefano Rossi, Tomasz Pokrzywiński, Tineke Steenbrink – 29 juni 2020 – Grote of Jacobijnerkerk te Leeuwarden). Não digais depois que V. não atirei convite. (clicar AQUI)
    Fotografias de Walter Ballhause (Alemanha, 1911-1991) + LP em vinyl Further Temptations (1977, by The Drones). E assim se arriba um gajo à tala de sopa, dando já as 14h36m.
    E depois de António José Saraiva, Eduardo Lourenço. Ambos Portugueses: o primeiro, 1917-1993; o segundo, 1923-2020. Ambos pensadores de alto-quilate, pensaram ambos Portugal. Há quem deles discorde não goste – etc. Não importa: deixaram Obra(s) cuja importância dá de si sem esforço. Têm sido ambos de meu bom proveito por este Maio, há muitos anos que mo vêm sendo. Escrevem muito bem, dominam cada assunto que abordam, pensam pela própria cabeça – fazendo pensar a de quem os leia. (Mesmo enquanto o gramofone cá de casa atira Get Our Way (by The Cynics, 1994.)
    Outros instantes:
    Salazar no caixão aberto, uma gaja a chorar-lhe em cima
    Um plano fotográfico da English Bay, Vancouver, por Hendrik Slegtenhorst
    Colecção de postais antigos (aspectos do Choupal)
    Detalhe de Bordando, tela de Wladyslaw Czachirski (Polónia, 1850-1911)
    De 1916, o auto-retrato de Cristiano Cruz (Portugal, 1892-1951)
    (...)
    O polaco Lewandowsky igualando o recorde de Gerd Müller (40 golos)
    E então, entre as 16h50m & as 17h47m, uma sesta sem história, relatório ou novidade. Ouço a máquina falar das temperaturas extremas esperadas para o Verão: acima dos 40 graus várias vezes, é o que prevêem. Acaba-se a brandura, volta a impiedosa fornalha. E volta o meu ódio inútil ao calor excessivo. O sensato é ir curtindo, por ora, cada dia, que é temperado viver. De Wembley, o Leicester leva para casa a edição deste ano da FA Cup, vulgo Taça de Inglaterra (1-0) ao Chelsea. Sempre foi o meu jogo favorito de cada ano, mas antigamente. Já não é a mesma coisa. Ou antes: não sou eu já a mesma coisa. (Cf. a extraordinária final de 1979: Arsenal 3 – Manchester United 2.) E que eu saiba, até agora não houve confusão em Lisboa por causa do Benfica-Sporting. Até agora (21h47m) – mas tenho prestado atenção quási-zero ao assunto.

360

Ronaldo Jaime Dionísio deixou a terra-de-todos-os-dias há onze anos.
Morava eu do lado oriental (?) desta Cidade, era Maio também.
Um arco-íris peculiarmente nítido arredondava o céu.
Deixou a família em bom aparato financeiro, o bom RJD.
Foi o Guilherme Alpha da loja de música a noticiar-me.
Era pelo fim da manhã de domingo, 16. Senti aquilo.
Quinze dias depois, iniciei o manuscrito de uma série diária
– um Ideário de Coimbra / Leite dos Santos, inédito ainda.
Da verdade (ou verosimilhança) disto, não hei mais que dizer.
Fica assim.

361

    Pessoa enfermiça, de valetudinário semblante, dada a tranquibérnias, mixórdias, burlas, falcatruas, trampolinices, trafulhices o mais multifárias – muito rico ficou, mas muito doente também. Morreu antes de perfazer cinquenta, o que o mostra, afinal, como pobre. Era de falar untuoso, de sílabas azeitadas – mas já não silaba, nem fala. Despertou, por tão abastado, a inveja de outros infelizes. É sempre assim. Já lá mora, já não é gente. A matéria de que era feito – refez-se em outras organizações que não a de humano formato. É sempre assim, também. Nem nome aqui lhe boto – por ele não merecer chegar a livro.
    Lá vai o pegureiro-pastor-zagal
    cuidar de seus vivos encosta acima.
    Forte cinzento se vem adensando,
    tiritará a choupana à chuva.
    Este sim, este dos quatro versos supra, tem nome. É Albino Daniel Albertes Teixeira, 68 anos, dono de quarenta cabeças caprinas & de trinta ovelhas de fofa locomoção. Sozinho como a Lua, tal homem. Não se lhe conhece uma maledicência, uma malfeitoria, um vinagre, uma infecção. Fez os dois primeiros anos da Primária, que amou. Puseram-no logo pastor, tinha oito anos. Foi isto em 1961. Não se lhe conhece uma queixa, não é de lástimas nem de lágrimas ao espelho.
    Casa de pedra velha ’inda robusta,
    albergue derradeiro de Marília.
    De sol a sol se foi volvendo adusta
    esta mulher sem ontem nem família.
    É casa sita a leste do povoado, tracto mais pedregoso do povoado. Farto vergel macieiro & pereiro a emoldura. Caminhos minerais levam & trazem bestas-de-tiro, o padre, bufarinheiros, flibusteiros – mas não Albino, que tentou Marília, que Marília rejeitou.
    Acontece muito.
    Não importa: de momento, aqui em casa, nem esperança, nem desespero. Em lugar deste & em vez daquela, atenção & aprendizagem. E tanto esta como aquela – sujeitas ambas ao anestésico esquecimento. Escorando o esquecimento, metafórica argamassa: rostos, idas ao cine-teatro, incipientes pulsões vagamente eróticas (de quando o corpo começou a não caber em si mesmo), primeiros livros lidos de prólogo a epílogo, certa deliciosa ânsia ante o mar. Sob a lona verde que protegia as cadeiras-de-armar para aluguer, a rapaziada brincava às fortalezas piratas, nessas ilhas-a-sul-de-norte-algum que lhes davam angra & refúgio. Em tal translúcida ocultação, roçava a euforia estar vivo. Nem dinheiro nem saúde tinham ou faziam qualquer sentido – prático ou qualquer outro. Lá vai. Também tal não importa.
    Importa o trigo-limpo da palavra
    ajustada ao gesto benemérito.
    Assim sempre procedeu o Adérito,
    mestre de sua leira & sua lavra.
    Dou isto por puro de vero: Adérito Júlio Barco Campos, homem em cima de cuja hombridade se poderia empilhar pedregulhos castelãos com torres, ameias & tudo. Como Albino, solitário, firme, sem um dito ou um arremedo de que ameaça surdisse. Mas os anos tanto dão a vela como o fósforo. Adérito como um côto delas se apagou. Levaram-no para outra leira; mais estreita & mais restrita esta, como é de uso. Já a Grande Guerra tinha sido. Digo: a primeira das duas (muito) grandes que o século deu à História. Algures entre 1919 & 1938, aventarão com mediano acerto os mais informados. Sim, por ’í-algures-tempo.
    Eu vim muito depois. Apesar disso, não peco por impureza de romanceador – são tão verdadeiros estes dados quão aqueles com que V. convenceis a aguentar vivos até pelo menos amanhã. Enquanto nativo desta Língua, tive de valer-me mercê de grossos alfarrábios-gramaticões para que a califasia se me volvesse atributo & marca-d’água. (Deu o que deu, deus meu.) Mas adiante, que para trás esguicha a mulher do burro. Passam-se os anos, estou de costas – isto não desfazendo – para a Nossa Senhora dos Remédio, peitando portanto o mar trovante daquele cabo. Longe, ainda o Muro-de-Berlim fervilhava de espiões & de famílias mutiladas. Li nessa época Carlos Fuentes & Helena Lisboa. Quando deveras anoso, o mais certo é recordar mais vezes esse inverno sem consolação nem lenidade. Convém-me, por conseguinte, dar daqui as de vila-diogo.
    Em baixel que não singra nem aporta
    Em só falar baixinho às senhoras
    Em podendo é largas as vassouras
    Ir levando o Senhor de porta em porta.
    Ou então não. Em vez disso, conferenciar a sós no sentido do afamado juizinho, vulgo tininho também. Se (e é o caso, gente, é bem o caso) não se atinou na vida com o provimento logístico-material que a escora, então pelo menos saber o seu latinzinho, o seu Oliveira Martins, a sua gesta dos Descobrimentos, a sua pitada de Borges, o seu rapé de Calvino, a sua linha-ideal de hóquei-em-patins (Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana & Livramento), o seu trecho de Junqueiro para recitar nos piano-salões, o seu Bocage para fazer rir o putedo nas matinées do Coimbra Clube, a sua geografiazinha (capitais, rios, continentes, grandes exploradores, cores das bandeiras), a sua tolerânciazinha sempre que à baila venham cafrarias ou judiarias ou mourarias &/ou demais pungentes minorias, o seu Eça lapidar, o seu Camões protocolar, o seu Pessoa a-dar-a-dar, todos os reis de todas as dinastias menos os três filipinos cabrões, todos os presidentes republicanos menos o Thomaz, que este é para pôr no telhado com as outras abóboras, seu roteiro de melhores antros petisqueiro-beberrónicos, as árvores de melhor fruta como as que dão enfermeiras em época de paliativos, costureiras em tempo de agulhas, professoras em estação longe de casa, a sua, enfim, pachorrazinha para lançamentos de obras que infelizmente nunca são lançadas para muito, muito longe daqui.
    Obras enfermiças, de valetudinárias capas
    etc.



15/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 353 a 358

© DA.


353

Sexta-feira,
14 de Maio de 2021

    Em mansidão, o refluir para o Oblívio acontece sem estardalhaç’aparato algum. Vou compreendendo a lisura com que tal aconteceu às gerações prévias. A passagem é pura praxis, não já tão-só remota fatalidade (a do só-acontece-aos-outros).
    A televisão mostrou alguns aspectos públicos de Arganil, terra que me é doce por biografia-em-estante. A seguir, acabei a leitura de boas páginas dedicadas a Eça por António José Saraiva.
    Mansidão, como V. disse.

354

    Sei que me repito mas sei também que tenho toda a razão – com duas palavras apenas, demonstro a inexistência de Deus & a patetice que qualquer religião é: 

Leucemia Infantil.

    Agora, ide em paz.

355

    Anthony Braxton andou hoje por esta casa. Luz oblíqua na divisão da máquina. Penso: Para Fradique Mendes, faltam-me tão-só o dinheiro & o talento; tirante esse par de coisas, nada me falta de fradiquista-militante. Não vou resolver o mundo, solvê-lo sim – em semiobscuridade, escutando agora, terminado o bom Braxton, o bom Berlioz. Nenhum COVID’óbito nas últimas 24, ao que dizem. Amanhã, há Benfica-Sporting: contaminação macacal em perspectiva.

356

    Aqui há tempos, fulano disse:
    Tenho ricos livros em casa, adoro às vezes sentar-me na sala a desfolhá-los.
    De vários que o ouvíamos, disse eu:
    Tenho pena disso.
    Banzado, ele assim para mim:
    Então pena porquê? Não gosta de livros?
    E eu assim para aquele pobre-de-deus:
    Gosto muito – por isso é que lhes não arranco as folhas. Ora experimente assim: (…) adoro sentar-me na sala a folheá-los.
    E ele matou-me:
    Já vi que você é um purista. Prevejo que não vá muito longe assim.
    E é que não vou, fulano tem razão. (E não sei se ele disse prevejo, se percevejo.)

357

    Por falar em livros, dei-lhes hoje outra volta boa. Fiz coluna dos a-ler seguintes, feitura que me prognostica um Maio bom. Por falar em Maio, fiz outra coisa – mas esta, pela primeiríssima vez na vida: um autoagendamento pela internet. Bimba! Como estou no escalão etário “Acima-dos-55” , pude enfileirar-me para a famosa vacina-xpto contra o bichinês-covídico. Fiquei autoagendado para 25 próximo. Pareço uma pessoa como os outros velhinhos. Finalmente, carago, finalmente.

358

    O Muro-de-Berlim não caiu – foi empurrado.
    Há que ver as coisas como eu quero: as coisas & o ver.
    Descuidemos porém tal egotismo oftalmológico.
    Prefiro ir ora por a recordação de um homem com quem conversei poucas mas preciosas vezes na vida. Ele já não existe à face da terra, só anos depois tive notícia do seu passamento, ainda hoje me é penosa tal nova & pungitivo não o ter homenageado em o seu funeral. Ele era de uma prosa-falada muito clara. Exercia uma gramática limpa como a chuva do Verão & a rosa de Janeiro. Tenho muitas coisas, por ele ditas, em constante companhia – também, ou sobretudo até, quando escrevo. Recordo-o aqui & agora em V.º benefício, pois que muitas são as ocasiões em que o recebo em casa, o levo pela rua, ouvindo-o, retribuindo-lhe a razão do que diz, continua a dizer.
    Ainda bem que o evoquei, pois já me preparava para repor na caneca o lápis deste dia. Roçamos já, com efeito, lápis & eu, a meia-noite. Instaura-se-nos o sábado, dia que era antanhamente o meu favorito. Agora (julgo tê-lo dito já a Vossas Senhorias) todos os dias são domingo: por desemprego, por pandemia ou por poesia, são domingos os meus dias. Não estou a queixinhar-me. Estou tão-só a atirar o barro de alguma lucidez à parede de algum espelho.

14/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 349 a 352

© DA.


349

Quinta-feira,
13 de Maio de 2021

    Tempo grisalho de pedras frias marcando azinhagas há muito inutilizadas. Ao fundo, em semicirco, a enseada (ou angra; ou calheta). A partir de Junho, o Sol volve-se ensífero: traz espadas que deveras ferem. Mas em Outubro o ensombro é gentil. Há muito menos gente. A neve vem no segundo meado de Novembro. Está-se preparado para ela, claro.

350

    É tão incoativo acordar quão adormecer, idem amanhecentardenoitecer. Mesmo só interior, a acção dá-se gás a si mesma. Por norma, a autonomia dos sonhos é acção-livre. Esqueço quase sempre os meus, talvez felizmente – mas enquanto sonho, assisto aos filmes com interesse. São películas (ultimamente, mais) que partilham com os achados arqueológicos o teor fragmentário. Sim, ultimamente mais. Tem também acontecido isto: leio-me escrevendo ao cabo de cada sequência fílmica (chamemo-lhes assim). Como um micro-relatório ou uma sinopse, um verbete, uma nótula, um incoativo de estância. A caligrafia é a minha, pelo menos – mas suspeito de mais alguém me guiar a mão do lápis. No sonho, não tenho mão-esquerda. Nesse momento em que escrevo, quero dizer. (Ominosa ponderação: a minha escrita vindo do & indo para o maneta.) Um trecho de que me lembro:
    Participo numa maratona a corta-mato. Fico feliz porque corro bem, nem pareço fumador veteraníssimo. Vou ali rapaz, ventilando maravilhosamente. Nenhuma fadiga, nenhuma ânsia – nem competição propriamente dita, antes convívio de enfileirada multidão dinâmica. É o que V. dizia com o vocábulo incoativo: que começa, dá início, põe em andamento, tira do marasmo. Toda a gente sabe que sonhar é incoercível. Não vejo magia nisso – o cérebro em repouso nunca repousa a cem-por-cento. Há sempre fiapos eléctricos chispando em tal central. Fascinante, sim; mágico, não – tudo é corpo, deixemo-nos de merdas, misticismos, carochinhas-cinderelas-peter-pans.
    Entidade & identidade próprias perdem nitidez, a opacidade esbate as cores, a sinestesia & o eidetismo ganham foros de percepção-mor – é giro. Em uma parede verde, emoldurado a tinta-de-ouro, um Sagrado-Coração-de-Jesus (sonho-me no México). Em um coreto de vila serrana, tarde de domingo, a filarmónica toda ela de crianças sábias, virtuosas, impossíveis. Redes metálicas, dessas de capoeira, em vez de lençóis. Panorama aéreo: piscina, estádio, rebanhos em vez de carros, crateras fundas como olhos vazados. (Sei que é Coimbra mas não é igual à dos postais de antigamente ou à dos drones de agora, é uma só minha, nem os tais rebanhos têm pastor, cão sequer, andam ali perdidos.)

351

    Depois de composto o 350, passei pelas brasas. Não muito: coisa de uma hora & um quarto. Sonhei. Mas atenção: os sonhos são para quem dorme, os projectos são para quem anda acordado. Eu digo sonho no sentido literal (pensamento-livre-cinema-independente & inimputável da pessoa inconsciente), não no sentido figurado (quimera, desejo, paixão, ideal, utopia).
    Entre as 4 & ½ & as 6 menos ¼ da tarde, libertei-me do mundo global, encasulando-me no meu. Merendado, agasalhado, autónomo, sem nada que dizer aos costumes nem lenço com que esmoncar ranhosos, pouco demorei a imergir em meu pélago mesmo. Foi uma boa sessão.
    Vi-me entre construções tortas, infinitas, erguidas de um chão que fumava miasmas de pântano. Não senti medo: aquilo era só feio & tristonho, não ameaçador nem suspeito. Escrevi: Sítio sem mapa. Era verdade: nenhum azimute era ali traçável. Talvez por causa da palavra mapa, pus-me sonhando com a escola-primária. Já não era a minha. Tinham queimado as carteiras no recreio – e riam-se do que faziam. Não sei quem. Não tinham cara, só buracos por onde se riam. Nada escrevi. Sonhei depois incisões bruscas: um comboio todo feito de caricas; um pano pintado à mão à mostra em montra poeirenta; a cara de Victor Hugo no fundo de uma tina com água; e cães, muitos cães, atravessando linhas de comboio com erva crescida mais de meio-metro.
    Acordando, ocorreu-me um projecto: escrever o 351 antes que me esquecesse de algo que já nem sei que era nem por que tinha sido.

352

    Fora de onirismos, vi planos continentes de homens irmanados pela pobreza. Têm quase sete décadas. É uma representação finamente concatenada. Como nos sonhos, são a preto-&-branco tais imagens. Filhas ambas da miséria, mocidade & velhice são ali irmãs-gémeas. O ano é 1954, esse em que nasceram (gémeos também) o Jorge & o Fernando. A história que vejo não é sobre estes dois. É a propósito de camponeses obrigados a alugar violência para exterminar a violência de que têm sido, regular & sistematicamente, vítimas. É bem mais retrato que caricatura; mais reprodução do que alegoria. E é mais assimilação vera que mero entretenimento.



13/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 344 a 348

© DA.


344

    Na parte V da entrada 299, deixámos o jovem José lendo o jornal dessa Quinta-feira, 12 de Junho de 1975. Ao fim do dia de trabalho, levá-lo-á para casa, no bairro chamado Monte Formoso. É esse exemplar mesmo que encontro no chão, atirado, esquecido ou perdido por alguém. José já há muitos anos que não mora por aqui. Eu sim, para aqui vim há alguns anos, por aqui ambulo, durmo, escrevivo, colho coisas do chão mais que do céu. Com os meus olhos faço a leitura que foi de José. O jornal é O Século.

    «Bacalhoeiro português pasto das chamas na Noruega
    Assaltantes condenados (Lisboa)
    Rebentou-lhe uma granada nas mãos (Póvoa de Santa Iria)
    Seis membros da família Espírito Santo transferidos para a Polícia Judiciária
    Detidos por furtarem carteiras (Barreiro)
    Jornalista inglês agredido e roubado (Avenida da Liberdade, Lx.)
    Mortes súbitas (Amadora – de Cidália C.C., de 63 anos; de João S.A., 61; e de Idalina M.P.C., de 44)
    Atingido com dois tiros (Largo do Corpo Santo)
    Estudante afogado numa piscina (Figueira da Foz)
    Armeiro assaltado (Casa Russel, na Avenida da Igreja)
    Cadáver encontrado na ilha Deserta (Faro)
    Encontro de esperantistas (Casa das Beiras, Porto)»

    Repouso um pouco os olhos. Tiro os óculos, levo água fria à cara, apetece-me ervilhas guisadas com ovo escalfado, chouriço, chispe & toucinho-branco. O Zé já por aqui não mora. Mudou-se para a Bissaya Barreto, depois para a Carlos Seixas. O menino dele nascerá na Quarta-feira-2-de-Julho-de-1975. Cândida Leite, materAvó de José, completará 72 anos na véspera do nascimento do menino, José também. Ele, na Rua Cidade de Salamanca, eu noutra não muito longe em espaço – mas longe, a ponto de inalcançável, em tempo.

    «Vasco Gonçalves assiste à reunião dos Vinte e Quatro
    Camões, grande esquecido
    A situação em Angola apresenta-se estabilizada
    Um Timor-Leste indonésio
    Elementos do MRPP agridem estudantes e destroem material
    As habitações sumptuosas não têm razão de ser neste momento revolucionário
    Marcelo Caetano demitido da função pública»

345

Quarta-feira,
12 de Maio de 2021

Vi hoje a fina arvéola debicando
o pão que lh’atirei cá da marquise.
É de molhado olhar que a vou mirando:
nada lhe falte em pão de que precise.
Sem culpa ou pecado, é só volante
inocência sem erro nem deslize.
Do vento-rio, montante & jusante
conhece em libertada soledade.
D’eterna efemeridade um instante
vale ela, qual o bosque & a cidade.

346

Floresce na esplanada, encarnada,
uma humana papoila feminina.
Sei dela o ser casada (& ser Cristina,
mal-empregada) com Lopo d’Andrada.

Quem a vê ’ssim fumando distraída,
asinha percebê-la nunca logra.
Porém, tal vermelhidão é de cobra
vermelha, venenosa & fementida.

347

    Sporting campeão nacional, ontem. Confusão multitudinário-policial nas ruas lisbonenses, de Alvalade ao Marquês. Faltam dois jogos para o fim do campeonato, mas a matemática pontual já faz rimar leões com campeões. A próxima jornada é na Luz – vai dar confusão cá fora, não é preciso ser bruxo. Os energúmenos da bola não representam os emblemas, personificam tão-só o vandalismo à solta. As claques (todas elas, excepção nenhuma) são a merda feita substantivo-colectivo. Fátima/Cova da Iria também recebe amanhã – é a festa-do-avante dos pastorinhos-miraculados. Viva Portugal!

348

    Marta Violante Froes Vilaleste. Deve rondar os noventa, hoje em dia. Lúcida, resiste à tentação de borrifar-se para tudo & todos. Sentada no cadeirão branco estriado a veludo grená, tendo à esquerda a vidraça que emoldura o jardim.
    De vez em quando, alguma das mulheres do filho traz-lhe crianças a beijar, netas ou enteadas, nunca se sabe: “Os filhos das minhas filhas meus netos são, os dos meus filhos serão ou não.” Sábio povo.
    Gosta de acompanhar o canal que segue os crimes, dos mais hediondos aos quási-cómicos. E toma ainda o seu portinho pontual, digestivo, pós-prandial. Não tem a pior vida do mundo, tem só tempo a menos por ter tempo a mais.
    Irina Aurora Abade Costelo, co-residente do Lar onde Marta se ultima. Mais nova, não fez oitenta ainda – mas bem mais estragada: tromboses consecutivas em oito meses. (Não sei se ainda se diz “trombose”, agora é tudo por siglas & acrónimos, AVC, SIDA, BES, COVID etc. – mas foi uma trombose o que matou o meu materAvô aos 69 anos; o meu paterAvô, foi a tuberculose, aos 50.)
    Na ala dos homens, Joaquim da Encarnação Risca Alenquer, 78: José David Ramalho Herculano, 68; Henrique Miranda Costa Gaspar, 74; Emanuel Pedro Simão Lucas, 42 (vegetativo).
    Enfermeira-residente: Cândida Maria Zara Abreu, 31 anos.
    Administrativo: José Carlos Amaro Carvalho, 40.
    Senhoras-da-limpeza: Ivana & Chica, 29 & 31.
    Cozinheira: Fernanda, 42.
    Director: Dr. Serafim Ernesto Marques Belo, 66.
    Motorista & Faz-Tudo: Manuel Ventura, 50.
    Marte dorme mais de dia que de noite. De noite, pensa de mais.
    Nos dois homens que a fizeram, primeiro, viva; viúva, depois. Do primeiro, houve ela o único filho, Alexandre, hoje com 67, gordo, efeminado mas mulherengo, dissipador, pai nem ele sabe de quem – ou de quantos.
    Nos anos da Lisboa da ditadura, nas idas às queijadas de Sintra, os verões em Sesimbra, os natais em Celorico, todos esses anos em que deu por si bocejando como a Lua.
    Não chegará – isto de certeza – a 2042.
    E eu se calhar também não, que isto das tromboses é um repente que nos dá & nos tira.

12/05/2021

PARNADA IDEMUNO - 341 a 343


341

Terça-feira,
11 de Maio de 2021

    Paulo Carlos Franco Claro perorou no Café de Paris sobre aspectos das vida & obra do pintor Carlos Reis (1863-1940). Depois, ligaram de novo o televisor, dava um filme protagonizado por Oliver Reed (1938-1999). Posso estar a fazer confusão. Paulo Claro palestrou no sábado à tarde, o filme deve ter sido no domingo, à tarde também. Não importa. Foi um bom fim-de-semana. Clarinda veio, ficou com os Souza-Lares, julgo que partiu terça de manhã. Na segunda de manhã, fui à Bertrand e tive sorte: havia um volume que incluía o torrejano Carlos Reis, muito agradável edição, fui estreá-lo no Arcádia, era como hoje segunda-feira mas o século & o milénio não, o Tempo é danado. Foi no ano em que o trio de Bill Evans (+ Eddie Gómez & Marty Morrell) se deu a ouvir ao vivo no Oil Can Harry’s, ali em Vancouver, na Colúmbia Britânica. Esse ano é 1975 d.C.
    Há menos falsidade do que a desejável no que lembro, sim. Corro o risco de entreabrir janelas que podem desbragar-se como comportas em dia de ide-vos-com-deus-ite-missa-est. Pode que sejam coisas mortas – mas nada obsta a que delas escreva (ou nelas inscreva) lépidas lápides, por assim dizer. Tenho a memória encadernada em percalina, por assim dizer aussi.
    Outro sábado, outro ano do mesmo dito século passado. Era em Novembro. Benvindo Júlio Cosme Vilhena, apesar de encontradiças recorrentes monótonas imprecisões cronológicas, falou no Café de Londres sobre o fotógrafo Brassaï (1899-1984). O húngaro-franco tinha morrido no Julho anterior, quatro dias depois do nosso feriado-municipal. No domingo seguinte à palestra do professor Vilhena, fui ao cinema com Clarinda, passavam uma retrospectiva de Jacques Tati (1907-1982), foi maravilhoso, Tati é o maior. Ainda era viva Filomena D., sim, teve o desastre em ’86, morreu em ’97, isso não, nunca confundo.
    Clarinda, porém, continua a encontrar-me mais falsidade do que seria, foi sempre, desejável. Ora cá está uma comporta em perigo.

342

    Carácter da pessoa visada: com fendas já não calafetáveis. Em causa: persistente, sistémica, crónica malevolência para com os próprios filhos. Meço o que me dizem, mas não me arvoro em juiz de alheia causa. Sei que a dita pessoa não presta, que nunca foi grand’espingarda, se já em vida do cônjuge não era, nunca foi, como haveria de sê-lo agora etc. Isto sou eu fingindo conversar conVosco. Finjo porque estou só ante este papel. É remota a eventualidade de, sequer minimamente, V. ser de interesse qualquer coisa que àquele mau-carácter respeite & concirna.
    Ângulos de outra casa em sombra, alguma desta em verde.
    Rosais por essas encostas tão gráceis sempre ao sol total.
    Restam uns vagos sobrinhos avelhentados, tudo se esvai.
    Uma promissora rapariga acabou enredada em Alfragide.
    Nem vaga notícia dela hei há muito, no suceder de
    episódios sem relevo, sem pimenta, sem açúcar nem sal.
    A mãe da moça ainda é viva, desconheço se idem seu pai.
    O tio tinha uma farmácia rural, julgo que em Carnide,
    mas talvez mal julgue, sei pouco, neste deve & haver de
    contos sem fábula nem fantasia ou menor moral.
    Gostaria fosse minha tal casa, sobre que a chuva cai,
    parece, de intemporal maneira, meu Amigo David.

343

Na sala-de-espera da Segurança Social.
A senhora limpando devagar as lentes enquanto espera vez.
Grisalha natural, sem elixires nem lacas, a cabeleira.
Vestida de verde-pálido, sapatos brancos traindo nela a enfermeira antiga.

À esquina da Doutor Manuel Rodrigues com a Sofia.
Casal de muitos filhos com sacos de juta aos pés.
Envelhecidos precocemente, parece-me, olhar quebrado como vidros de ruínas.
Conheci-os a ambos quando estudávamos no Infanta.

Na Rua da Louça, um homem sentado no chão, cão ao lado.
Um pacote-litro de tinto-de-cozinha do outro lado.
Não pede, não se manifesta, não olha quem passa, não lê isto.
Não deve ter quarenta anos de nascido, pouco devo errar.

Casa-de-Oração a meio de uma ladeira abrupta:
“Prepara-te para te encontrares com o Senhor.”
Credo & cruzes-canhoto, dá-me tempo, tem lá calma.
Paredes da dita com ar de muitos domingos apodrecidos.

Em estabelecimento de retrosaria de interior azul-sabão.
Senhoras miudamente avaliando paninhos à mão bordados.
Rostos de quem não falha uma Rainha-Santa há cem anos.
Dedos pergaminhados, enxutos, de unhas muito duras.

No Largo da Feira, lá bem em cima.
Um irmão que tropeça, o irmão que o ampara a tempo.
Isto a um 23 de Maio, pela finimanhã: como em P.H. de Mello,
“há uma rosa na manhã agreste”.

No Real das Canas, século/milénio antes deste.
Maria Helena & Carlos Alberto, sábios decanos académicos.
(Ela bem mais do que ele, seja notado por vero.)
Mocidade inapanhável, reiteração dos fados clássicos.

Na Cervejaria da Fábrica, em dia 1.º de Maio.
Foi há mui poucos anos a Revolução de Salgueiro Maia.
Com António Manuel A., entre gente festiva.
Passagem do Kalinkas-115, o despudorado madeirense.

Ao alto da Sereia, uma semana antes do Natal.
Trechos do Rigoletto través o arvoredo antigo.
É porém tão nova a luz, que nem a sombra foi criad’ainda.
Flautins, tarolas, transparência total da recepção.

Na Rua Augusta, a casa alta emulando Paris.
Sumptuária da decadência, fantasmas simbolistas.
Boa para se ouvir Brel cantado por Scott Walker – e Ferré a capella.
Para se ler Nerval também – e Prévert, Céline, Vian.

Na Padre António Vieira, com M. Castro, o músico, copos no Skylab.
A namorada dele, Gina Porto Artur dos Remédios, poderosíssima.
No ano em que queimaram um dos carros alegóricos da Queima.
Ou no anterior, não hei como precisá-lo em segurança.

Ao cabo da de S. Paulo, com Jorge Alves, o das produções artísticas.
Fazia um frio rachão mas seco, suportável, não-fascista.
Canções de Raul Portela, de Belo Marques & de José Mário Branco.
Isso foi em programa-de-variedades, baile só na matinée dominical.

Em pleno Bota-Abaixo, viveiro & morredouro de existências manhosas.
Antes de pavimentarem aquele baldio, de oficializarem ali serviços.
Por ali Maria da Glória, florista, honrada, cabo-de-guerra, intimorata.
O que na Praça não vendia, ia dá-lo à Tutoria dos meninos.

No Beco do Romal sem guarda-chuva em plena intempérie.
Recolhem-se ao buraco as falas escurecidas pela lama da pobreza.
Come-se porém o belo quarto-de-bife no Paço do Conde.
Regressa de vez à Metrópole o major Proença de Vianna.

Morre um arlequim nas Almas de Freire – de coração partido.
Diz-se que era de família possidónia, mas de atávica cardiologia.
No pasquim local, só o rectângulo necrológico, explicação nenhuma.
Corre o ano em que cá vem o General H.D., para geral comoção.

Em qualquer partida, o mal é humano, o bem não é comum.
Se pudesses engarrafar a luz, engarrafá-la-ias visando fortuna.
No Choupal, ranchada de órfãos levados a passeio pelas freiras,
também estas órfãs – mas de outro Pai, esse que a tudo assiste borrifando-se.

No Palácio da Justiça, o velho elevador de grade, os painéis maravilhosos.
Quanto caso foi ali julgado por juízes ao serviço da fantochada?
A História de Portugal arregimentada ao serviço da Sacristia-Comba-Dão:
mas maravilhosa, maravilhosa, a arte de Jorge Colaço em 1933.

Na Império, merendando, Fernando & Cristina, antes da dúplice tragédia sua.
Na Sirius, Alberto & Isabel, casados havia nem um trimestre.
Na Marques, Nicolau & Lucinda, professores da Brotero.
Na Central, Jaime & Cidalina, empregados do Português do Atlântico.

Vista do céu local, a Cidade é mais ou menos a mesma.
Digo: enquanto caderneta, pois que os cromos variam muito.
Pálida embora, uma ideia pode fazer-se de onde nos achamos.
Mas não de onde nos perderemos, se o não estamos já.

Canzoada Assaltante