Friday, April 20, 2018

TAMBÉM SOU CAPAZ DE AMAR UM GAJO - Rosário Breve n.º 551 in O RIBATEJO de 19 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Também sou capaz de amar um gajo



É sem minimamente mentir que posso dizer que o conheço de toda a (minha) vida. Sei muito dele. O que não sei, tento angariá-lo mercê de honesto estudo & de inquebrantável observação – e quando estes dois instrumentos resultam lacunares, supro o improvável pela imaginação, essa memória criativa que o porvir nos concede para que algo passado nos seja presente.
Do seu nascimento até hoje (e não escrevo até à sua morte porque, mui felizmente, ainda se não deu ao pecado imperdoável de morrer), todo o tempo dele me interessa. Mais isto: nunca fui isento a seu respeito – tanto no que concerne às suas admiráveis virtudes, como no que respeita aos seus obstinados defeitos.
Os meus Pais conheceram-no antes de mim. Naturalmente assim foi. Passaram-mo por uma espécie de herança transmigratória, ou consuetudinária, ou por usucapião, que nunca enjeitei. Conto dá-lo à atenção crítica de minhas ambas Filhas, dádiva que a minha mão direita pode & deve partilhar com a gémea esquerda sua.
Por que claro mistério me interessa ele tanto? Por mistério algum. Fala uma Língua maravilhosa, para começar. Come bem, bebe muito (de mais até) – imito dele a segunda coisa, não a primeira. Lê todavia pouquíssimo. É sentimentalão no que escreve. Tão depressa se diz “religioso” quão “não-praticante” & “laico nas horas vagas” – paradoxo que sempre me soube a tremoços sem cerveja.
Fisicamente, é alto & magro, de costas admiráveis. Mais: do semblante dele, alguém afortunadamente disse ser o modelo europeu de rosto por excelência – se não por definição.
Mentalmente, é uma criança atrapalhada por lapsos de senilidade.
Comportamentalmente, é doméstico & arruaceiro; lhano & manhoso; hoje acha & entrega à polícia uma carteira recheada de documentos e muito dinheiro; ontem andou à porrada com um cego pela caixa-de-esmolas; amanhã é capaz de dormir com um homem que lhe ronda a mulher. Já, com estes meus olhos que a terra há-de enxugar, vi marejarem-se-lhe de lágrimas os dele à imediata audição de Carlos Paredes – assim como o sei também muito useiro & vèzeiro dessas festarolas contaminadas de desquitadas estarolas que desfalecem baba & ranho ante o Tony Carreira. Já o vi, materno & ortopedista, reparar a patita quebrada de um pardal – assim como o soube escarlatemente exultando no redondel em tarde de barbárie tauromáquica.
Sim, gosto muito dele. Gosto irreparavelmente dele. Não o adoro, atenção! Adorar implica genuflexão – posição equívoca que poderia tornar-me mal-visto aos olhos das pessoas decentes. Chicoteio-o verbalmente pelos defeitos tantas vezes evitáveis de que é, aliás, exímio & contumaz amante & praticante. Admoesto-o (sem resultado prático positivo jamais, valha a verdade) quando ele é insensato, quando ele é maria-vai-com-as-outras, quando ele vota mal e se gaba disso, quando ele – na sua Língua maravilhosa – fala sempre antes do que jamais pensa depois, quando ele se arrola às procissões de santos depois de ter feito em casa um escarcéu dos demónios a mulher & filhos.
Mas também o louvo, louvo-o total & incondicionalmente: quando ele pinta uma casa de luz como em nenhum outro lado pode transparecer assim; quando ele amanha a horta com preciosas perícias de renda-de-bilros; quando ele me recebe com o pão mais fresco, o queijo mais puro, o peixe mais vivo & o vinho mais capitoso no seu pátio refrescado pela latada de cachos gordos como pérolas adiposas sob que cão & gato dormem em consolada & perfeita harmonia vigiados pelo canário & pela sogra velhíssima mas imortal.
Louvo-o, sim – e arremessemos sem medo o outro verbo: e amo-o. Amo-o de olhos abertos até nas mais fechadas noites. Amo-o sobretudo por ele ser quem é. Amo-o sobretudo por certo dia ter feito o que fez. Quem é ele? É Portugal. E o certo dia é Vinte-Cinco-de-Abril-de-Mil-Novecentos-e-Setenta-e-Quatro.  





Thursday, April 12, 2018

ELA POR ELA - Rosário Breve n.º 550 in O RIBATEJO de 12 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Ela por ela



1 Sofia Sócrates, aluna da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém: “Existem muitas formas de ditadura, e hoje é contra ditaduras sem rosto, silenciosas e invisíveis, que temos de continuar a lutar.”
Estas palavras vêm na página 9 da edição imediatamente anterior a esta deste Jornal. Foi na peça intitulada “Tributo a Salgueiro Maia marcou início das comemorações de Abril”. Comento-as assim: jovens, antigas, definitivas, sábias palavras. A maravilha é provirem de alguém nascido em 2000 (d.C.). Não é coincidência que o nome grego Sofia signifique, precisamente, Sabedoria.

2 A minha filha Teresa, como Sofia, nasceu também no ano 2000. Foi outra revolução. Outro cravo, rosa sendo. Outro movimento de tropas. Outra madrugada perpétua. Foi, foi. Recordo sem esforço o perfume dela manando dos primeiros linhos. Digo: a neve imaculada da sua brancura sem senão. Minha filha, disse. E filha de Abril também, nascida embora em Janeiro. Filha de Abril como Sofia Sócrates.

3 Os CTT (que Deus tem) não são já aquela coisa fiável que já foram. Por isso, a minha assinatura em papel de O RIBATEJO só me chega a casa quando eles não estão demasiado ocupados a tratar do que mais deveras lhes interessa – o Banco CTT. Assim, só uns dias depois li as palavras da menina Sofia Sócrates a propósito do 25 de Abril e do gigante Salgueiro Maia. Ainda assim, aprendi-as a tempo de ser feliz por causa delas. A Sofia & a minha Teresa têm dezoito anos – meros menos trinta, portanto, do que durou a infecta podridão salazar-fascistóide. A liberdade, todavia, torna-as da idade de Portugal.

4 Tudo isto tem de ter a ver mais com o nascer do que com o morrer. E tem tudo a ver com o saber. Neste sentido: o saber só pode tornar-se moderno quando nasce clássico. Quando servir para sempre. Quando for completamente humano. Isto é: quando é totalmente humanista. Quando sabedoria e filantropia rimam na perfeição. Sim, Sofia, ele anda por aí muita ditadura invisível. Como a da ignorância. Como a da corrupção. Como a do desemprego. Como a do tempo de espera por uma consulta hospitalar. Como a do esvaziamento curricular das escolas. Como a do fanatismo futeboleiro. Como a da estupidez televisiva. Como a do desamparo dos idosos. Como a da poluição impune da Mãe-Natura. Como a do escarro no rosto em que consiste o salário mínimo. Como as dos tolos eleitos por tolos. Sim, Sofia, sim: temos, mesmo, de continuar a lutar.

5 Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de Abril de 2018. A Batalha de La Lys, em cujo nevoeiro sebastiânico tantos mil Portugueses se perderam, foi ontem + 100 anos. O nascimento do senhor meu Pai faz hoje 101 anos. Fica ela por ela. Ela por ela? Sim. Na mesma página 9 do nossO RIBATEJO, mais estas palavras da juvenil estudante do santareno Sá da Bandeira. Invocando o capitão Salgueiro Maia, diz: “Obrigado por nos teres aberto o caminho, e nos fazeres ver que é possível sermos livres, se o quisermos realmente ser.” O meu Pai tê-las-ia compreendido de imediato. Suponho que os Portugueses de La Lys também. Ser livre é querer. E é crer, também. Ora, gente como a minha Teresa & como tu, Sofia, tornam crível o País. E gloriosa a manhã de amanhã. Ela por ela.


Thursday, April 05, 2018

FAUNA - Rosário Breve n.º 549 in O RIBATEJO de 5 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Fauna



Dois antigos na paragem do autocarro comentam a abertura da época da caça: IRS, IMI, recapitalização da banca privada à custa do contribuinte público. Envergam ambos roupa bem lavada, calçam com distinção. Um é de face rubicunda, que trai dele a vocação de merendas bem avinhadas. O outro é mais enxuto de carnes, perfil mais inteiriço, deve ter sido tropa de carreira.
A luz apaga-se, reacendendo-se instantes depois. No lugar dos dois maduros, duas idosas agora em cena. Uma, de saco com gerânios plásticos de campa fúnebre, quatro velas em bases roxas com furinhos crucifixos: ar de santa-viúva, lavadora extremosa do mármore de seu falecido, resignada adoradora de cinzas. A outra, de pernas arqueadas que a fazem gingar como barca ancorada em joanetes. Falam sem se ouvir uma à outra – de doenças, consultas, operações & demais deliciosas aflições.
Uma nuvem mais densa obscurece-as, dissolve-as, dissipa-as, rouba-no-las. Em lugar delas – e para nosso mor benefício -, uma moça se incorpora. Maravilhosa incorporação. Bonita de mais para ser alvo de cobiça sexual. “Ideal para namorar aos domingos”, como dizia um conhecido meu. Deveria ser emoldurada – mas só para exibir em sonhos. O senão desta bela é um defeito horrível no dedo: anel-de-noivado.
O projector estremece, esmaece, entenebrece: já na vez da formosa se insurge um arrumador de estacionamento. Avelhentado de muito pacote de vinho-de-cozinha & de muita sandes de pão-com-pão. Amarelidão de outono hipodérmico com garrote – mas rijo qual erva-daninha em interstício de calçada. Orgulhoso, é sem agradecer que me aceita o cigarro. Águia apeada que o vento não leva.
Mas que novo apagão de cena leva, sim. Quatro adolescentes, agora. Macambúzios. Autistas de smartphone, que matraquilham velocissimamente. Nenhum conversa com ninguém. Calças rotas de propósito, dentes agrafados por cremalheiras ortodônticas: arrumadores do futuro.
Um cavalheiro de lábio-leporino fende o ar da fala como a serpente assobia. Escuta-o mui solicitamente um que é solicitador, tirou o curso depois de reformado da Marinha Mercante, tem valor, aprender até morrer.
Dois bêbedos maravilhosos ziguezagueiam da esquerda-alta à direita-baixa da cena tablada. Um assegura Deus, o outro bebeu como o Diabo. Pertencem ambos a essa feliz eternidade d’inda-não-ser-amanhã. Um traz chapéu na cabeça mas é do amigo a cabeça, que aliás nem chapéu usa. O pior-da-vida é a gasosa no vinho e que as nossas mulheres fiquem viúvas. E que as nossas mulheres, ficando viúvas, nos lavem o mármore com água. E se auto-santifiquem e nos plastifiquem de gerânios.
Nisto, ressuscita em palco o arrumador-de-carros. Traz uma orelha murcha & uma narina esgalhada: algum tóxic’olega lhe bateu por vinte cêntimos que estavam no chão como Portugal também esteve entre 1926 e 1974. Não se queixa. Traz moedas q.b. para uma sandes de iscas & um martelo de branco. Quase exulta. Águia devoradora de vísceras.
E ainda: quatro vezes magra como quatro canas, uma senhora leva dois dedos à gaiola do peito, inquieta pelas intermitências arrítmicas do coração. A dois metros dela, sozinho no mundo como a Lua, um chulo de viela mijona escarra um esparadrapo amarelo da textura, da consistência & do volume de um ovo-estrelado.
Um casal de cegos (não-esmoleres) tirita o morse do chão com bengalas de alumínio extensível.
Uma mãe de gémeos em carrinho-duplo anuncia ao mundo a duplicação do mundo.
Foi produtiva, a manhã. Para que a solidão do espectador não seja tão vincada, água & sabão nas lentes oftálmicas: é tudo quanto o teatro do quotidiano requer. A fauna humana é inesgotável, haja lápis que a circo-inscreva. A grande maravilha não é o que as pessoas dizem – é o que pensam calar. Não é o que mostram – é o que julgam esconder. Qualquer lápis decente sabe isso.

Wednesday, March 28, 2018

DAVID & DA VIDA - Rosário Breve n.º 548 in O RIBATEJO de 29 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






David & da Vida





Sucedeu numa casa-de-pasto de cujo balcão sou freguês recorrente há bons (e menos bons) anos. Foi pela finimanhã de quarta-feira, 21 de Março de 2018, já o meio-dia não vinha longe. Aos que estávamos, juntou-se-nos um homem perdido. Em segundos velocíssimos, aquela aparição disse ao patrão da casa que não vinha pedir esmola em dinheiro mas sim a caridade de alguma coisa para comer – porque não comia há muitos dias, porque tinha sido escravizado em Espanha, porque não sabia o que fazer à ou da vida. E era de facto, na vida, David. David era deveras: fiquei a sabê-lo pelo diário local cá da paróquia na manhã seguinte, quinta-feira, 22 do corrente.
Por tal periódico, aprendi que este pedinte se chama David S., tem 50 anos, há sido trolha de profissão e foi dado como desaparecido pela família. A notícia (com retrato do extraviado senhor) acrescentava que é gente portuguesa de Joane (Vila Nova de Famalicão). A irmã, Rosa S., fornecera às autoridades e ao jornal um número de telemóvel, rogando que lhe ligassem em caso de avistamento do extraviado mano dela. Assim fiz. Liguei à senhora.
Disse-lhe o que Vos conto. Falei-lhe da cena na casa-de-pasto. Falei-lhe de Espanha. Ela disse-me: “É ele. Isso de Espanha é uma história que ele costuma alegar.” (Sim, ela disse “alegar”.) Perguntou-me depois se ele andava de barba (na fotografia do jornal, não a tinha.) Disse-lhe que sim, barba de muitos dias. Barba & casaco de couro acastanhado. E ela: “É ele. Tem de ser ele. Muito obrigada pela sua atenção.” Tinha a voz anestesiada pelo desespero.
Nessa mesma quinta-feira/22, fiz duas coisas: uma, fui à esquadra central da PSP cá do burgo, onde dei conta do facto aos uniformes competentes; antes, porém, comentei o caso com a freguesia & com a gerência da dita casa-de-pasto. Os demais clientes interessaram-se pelo episódio – mas a gerência nem tanto. A gerência nem tanto por pura má-consciência: é que, na véspera, tinha recusado comer ao homem – talvez por receio de tanga ou de ociosa pedinchice parasitária como tanta por aí anda, talvez. Percebendo o embaraço do remorso, não insisti. Paguei o meu copo e fui à polícia.
Tenho agora o recorte de jornal colado no caderno em que escrevivo estas crónicas para Vós. Não sei mais. Desconheço se o senhor de Joane, Vila Nova de Famalicão, foi já ou não ainda encontrado. Redijo estas linhas na sexta-feira, 23 de Março de 2018. Entrementes, a chuva voltou, maciça & massiva. Quarta & quinta foram dias muito formosos, de um azul oceânico feito céu a que o Sol presidiu com autoritário garbo & majestoso esplendor. Mas a chuva voltou, o que me faz temer pelo desaparecido.
Rosa diz que o irmão sofre de “depressão” por causa do descalabro do casamento e que anda “confuso e perdido” desde 11 de Fevereiro último, dia em que se desmaterializou de Joane. São muitos dias, bem mais de um mês ao lento relento.
E agora, Leitor meu, confesso: também eu padeço de má-consciência. Sim, má-consciência. Não reagi a tempo. Na manhã acabando-se de quarta/21, eu tinha duas sandes & uma banana no saco. Não me ocorreu sair à rua, perseguir David, dar-lhe de comer. Eram boas sandes: de mortadela & queijo-creme, uma; outra, de capitoso presunto translúcido & corado a fumo de lenha viva. Não me ocorreu, o que agora amargosamente lamento. Quando me lembrei, era tarde de mais: o perdido reiterara de si a perdição, invisibilizando-se na indiferente luz da manhã terminal.
A comparação seguinte pode parecer-Vos reles ou mentirosa ou lingrinhas ou auto-coitadinha – mas é mais friamente verídica do que meramente verosímil: também eu já me achei perdido. De família, de anos estragados, de projectos calçados a barro, de manuscritos sem tipografia, de animais amados como pessoas singulares & de pessoas não plurais como bichos de estimação. E de sozinhíssimas, insensatas copofonias. Verdade, tudo isto. Não hei-de hoje mentir.
Em lenitivo & paliativo contraponto, porém, a minha salvação tem sido esta mesma janela ribatejana de última-página, que há quase onze anos, em uma hora feliz, se me abriu para Vós. Porquê? Ora, porque não se pode perder tudo: a começar pelo que fazer, David, da Vida.


Wednesday, March 21, 2018

SIM, ELE FUMA DEPOIS DE FAZER AMOR - Rosário Breve n.º 547 in O RIBATEJO de 22 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt





Sim, ele fuma depois de fazer amor



Onde era o barbeiro velho, é ora a venda de fruta. O barbeiro morreu, a nora é a fruteira. O filho do barbeiro anda nos camiões internacionais desde muito novo, não quis o ofício do pai. Também muito nova, a mãe do camionista foi sem querer que deixou viúvo o barbeiro: qualquer coisa no coração, um repente roxo que lhe deu. A começar pelo filho, já quase ninguém se lembra dela, agora que também o barbeiro se matriculou na galeria do esquecimento. A sobreloja da frutaria está há muitos anos arrendada a um gravador-ourives que já não trabalha. Continua todavia a pagar a renda, não tem onde guardar os apetrechos do ofício. A sobreloja é portanto plena de relógios parados, ao contrário das ruas da vida, digo, da vila. O gravador descia muito ao barbeiro. Conversavam ócios lentos. Sabiam-se co-tripulantes da barca-de-outrora, essa no cais-só-de-ida. Foram sempre de outro tempo, nenhum calendário lhes acertava o passo. É uma sobrinha do gravador que vem pagar a renda, o velho ourives já não aparece. A nora do defunto barbeiro oferece-lhe uma sacada de pêras ou de nêsperas ou de morangos ou de damascos ou de figos ou uma melancia grande e rotunda como as mães, é conforme a idade do ano. Também se pode dizer que o preto-e-branco da barbearia é hoje uma profusa paleta de cores. A renda é paga em contado vivo, não há recibo, palavra é honra, honra nem de palavra precisa. O camionista conhece noruegas, dinamarcas, suécias, finlândias, estónias, letónias, estalinegrados. São a rota dele. Como o caracol, vive de galera-casca às costas. O ofício envelheceu-lhe os ossos. É um homem positivo. Não sofre de mariquices artísticas. Quando morrer como o pai, morreu como a mãe. Não é coisa que o sofra. Não trai a mulher, que o não trai. Só não têm filhos porque um dos dois é estéril. Nunca quiseram determinar pela certa qual. Cada quinze dias, três semanas, ele volta do nada, fica dois dias, às vezes quatro. A máquina lava-lhe a roupa enquanto eles reacertam o amor físico, às vezes tal acontece pelo raiar da aurora, é conforme calha a hora a que o camião dele aparece no pátio a resfolegar como um elefante hidráulico. Ela naturalmente cheira-lhe a ele a pomar. Ele naturalmente cheira-lhe a ela a auroras-boreais. Quando cessa o espasmo e ele sai dela para tactear na mesinha-de-cabeceira os cigarros, ela conta-lhe estar grávida – mas é da sobrinha do gravador-ourives que fala. A parição (ou a aparição) só é própria quando a nossa própria mãe etc. Certa vez, ele teve férias. A Sul, houve então para ambos uma primícia de Verão no pontão de madeira que adentra o mar. À ponta do pontão, fulgurava o coreto onde a graciosa filarmónica lhes concertou ominosas valsas & pasodobles felizes. Tiveram gelados de cone, farturas vivas como enguias fritas: e ante a eternidade do mar usufruíram do inapelável sabor a baunilha dos dias sem horas. E jantares de peixe na brasa com vinho branco apalhetado. E demoraram a lentidão da harmonia. Retornaram antes de a roda-gigante se encerrar ao estimado-público. Ele partia de madrugada para Norte, estranhamente pela Bélgica, esse reino duas vezes violado no mesmo século pelos teutónicos do costume. Foi então que ela lhe sugeriu que adoptassem algum órfãozinho, desses brinquedos portáteis que a caridade estatal e a escaninha Igreja disponibilizam depois de devidamente pedofiliazados. Ele não quis. O barbeiro tinha predilecção pela rádio nacionalista. O gravador-ourives era de outras escutas. O Plano Marshall não invalidou as ditaduras ibéricas. As amendoeiras foram & vieram florindo sua alienígena neve japonesa. Nisto, um perfume de fruta exposta: a chuva dando nas laranjas da banca sobre o passeio. A nora do extinto barbeiro descerrou o toldo. A chuva cessou logo a seguir, o sol abriu o escândalo absoluto da mais régia totalidade, a rua refulgiu de verniz lavado, eu próprio tive de semicerrar as pálpebras ante a radiação de tal tesouro instantâneo – pois que a luz reiterava nos limões o ouro mais ácido da terra mais aérea. Bojuda como um zé-pereira, a muito prenhe sobrinha do velhote da sobreloja vem hoje pagar ao barbeiro que já não há a renda parada de relógios que afinal não param – mas sim param se já nem um camionista faz à mulher um filho como deve ser –, queres assim ou mais curtinho?

Thursday, March 15, 2018

RUI & ANA - Rosário Breve n.º 546 in O RIBATEJO de 15 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Rui & Ana



Era mais já que meã a manhã de terça-feira, 13 de Março de 2018, quando me telefonou um Amigo a dar-me conta da morte de outro Amigo. Pior ainda: era uma morte por suicídio. Ainda mais grave: foi um suicídio ferroviário exactamente no mesmo local da linha onde, a 29 de Maio de 2016, voluntariamente se dera à morte uma menina de 18 anos. A tragédia em toda a sua negrura: essa menina era filha deste meu Amigo agora terminado ele também. Ana, ela; Rui, ele. Nestes quase dois anos, o Rui lutou quanto pôde contra a dor – até deixar de poder. Ou de querer – não sei. Duvido de que alguém possa saber.
Sei isto: antes do telefonema, a minha manhã individual acontecia inofensivamente. Muito cedo no dia novo, eu descera em segurança não titubeante uma ínclita ladeira de bairro decente. Dispunha de moedas confortáveis para a chávena de café inauguradora do dia, o caderno de capas pretas albergava já a crónica-para-ser desta edição (em que referia Rilke & o Dr. Pedro Canavarro, entre outros tópicos ribatejanos), o autocarro veio à hora certa, nada de transcendente que não imanente. Apeei-me não longe do hospital, recolhi-me àquele Café muito limpo onde, há sete anos, gastei o interlúdio do velório da minha Mãe, retomei o meu Rilke, revi a crónica que esta semana já não vai ser, devo ter sido mais ou menos feliz até às 11h13m: foi então que o J. me telefonou com a má-nova da passagem-de-nível, a má-hora da terminação voluntária do Rui – com aquilo, enfim, que tanto me magoou e magoa. Mas que, confesso, me não surpreendeu.
Não me surpreendeu porque o esperei desde a primeira hora do acontecimento de 29 de Maio de 2016. Não conheci a menina do Rui. O pai sim, conheci-o. Era cinco anos mais novo do que eu. E eu, como toda a gente de que agora me lembre, adorava-o. Era de uma inteligência desarmante. Aquele olhar fulgurava de entendimento imediato das coisas do mundo. Na mocidade, fôra um exímio jogador de andebol. Em 2014, pude reencontrá-lo numa reunião de “velhas-glórias” daquela modalidade em que ele foi, de longe, o melhor de todos nós. Éramos então vivos todos. Ele brilhou: como (desde) sempre. Jogámos um bocadito, comemos um bocadito, gostámos todos uns dos outros um bocadão. Nada permitia prever aquilo da filha dele dois anos depois.
Eu tenho duas Filhas: tenho, não – a quem pertenço. Não me passa pela ideia (e pelo coração muito menos) seja o que for de semelhante. Não suporto, sequer minimamente, qualquer analogia. Dou-me ao luxo do egoísmo: tenho pena da crónica que já não vai ser. Preferia publicá-la milhões de vezes em vez desta. Havia cheias ribatejanas, havia pessoas sem-abrigo, havia aquele crime de Twickenham à portuguesa, havia a comédia triste & non-stop da EN-114-Santarém-Almeirim, havia citações de Rainer Maria Rilke, havia o jovem octogenário Pedro Canavarro, havia o lixo em Minde, havia o nabantino Mouchão ardendo a frio de poluição fluvial, havia os juniores felizes do futsal do Vitória Clube de Santarém, havia a tragifarsa costumeira deste pífio executivo municipal santareno – havia isso tudo: mas só me restou o “tresloucado acto”, como antigamente se dizia, do meu querido & perdido Amigo Rui. A realidade (s)urgiu outros lumes.
Cotejo: às mesmas sete horas a que me levantei, era encontrado o corpo dele. Na mesma aziaga circunscrição onde outrora a filha. É pertíssimo do casario um pouco mais a norte onde nasceram a minha Irmã & o meu Irmão mais velhos. E sim, eu disse “nasceram”, não disse “morreram” – esse pretérito só de nome perfeito com que o pai Rui julgou ser possível voltar a ver & a viver a filha Ana.
Não volta – mas finjamos todos que sim, que de novo está tudo bem, que a dor arranjou maneira de cessar quando o novo dia nascia.


Wednesday, March 07, 2018

Diário da primeira semana marciana de 2018 - Rosário Breve n.º 545 in O RIBATEJO de 8 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Diário da primeira semana marciana de 2018



Quinta-Feira, 1Felizmente há chover, embora alguma pontual violência dos elementos humanize de mais a possibilidade de tudo se perder num repente. Na estação-de-serviço defronte, os estandartes da promoção-desconto-litro-combustível fremem como virgenzinhas que tanto sabem ao que vão como ao que(m) lhes há-de vir. Primeiro dia de Março: zune o poder eólico, o céu é chumbo negro, corre de estanho o estranho rio, vale mais ficar em casa a quem tem uma. (Nem toda a gente tem uma.) O Inverno vigora com justiça plena. De sudoeste, uma força aérea invencível carrega gelo consigo. Os penhascos rangem como viúvas ainda disponíveis. O mar traga os afoitos inconscientes. Trump quer os professores com pistolas. A Síria está bem, obrigado. Calor no Árctico, neve em Bragança-Vila Real-Chaves-Viseu. Certo. O meu Amigo Manuel M.M. telefona-me para almoçarmos juntos um dia destes. Sinto-me gratificado pela demanda: somos amigos há quase 39 anos. Recolho-me: o briol já aperta mandíbulas em torno dos ossos cinquentenários (upa, upa).

Sexta-Feira, 2É dia de Porto-Sporting. De nada mais falam as televisões da parvónia. Não sei por que chamam “mau” ao tempo: chove ouro, para mim; para mim, é pão que chove. O grande chumbo de ontem ferra ainda o céu de hoje. A cameleira da praceta, que o sol februário fez florir precocemente, tenta não se deixar despir de todo pelo assédio ventoso: mas há já pelo chão as inumeráveis páginas-violetas de suas folhas-lilases. É verdade: a luz parece toda feita de sombra, isso é verdade – mas não é com(o) tristura que assimilo a invernácea condição do dia. Não, isso não. A terra babuja de água boa, as raízes bebem fartamente, o verdor ainda não ardido deflagra no ar qual postal de seiva instantânea. Nisto, trovoada: um fósforo imenso & mudo, primeiro; segundos depois, o fragor de móveis arrastados na casa de Deus. Fracamente a cameleira diz não ao ar movediço, de súbito reforçado por esses populosos descampados. O tempo fala. O Tempo, também. Dizem-nos coisas – nem todas más, aliás. Espero tão-só que, logo, Porto & Sporting empatem.

Sábado, 3Estreia absoluta na minha vida: cortei o cabelo a alguém. Esse alguém, nascido a 11 de Janeiro de 1959, é o meu Amigo Jorge C. Vive sozinho num apartamento quase exíguo e é dono de um pente-lâmina eléctrico. Ele mesmo escolheu no dispositivo a velocidade “pente-3” (acertos & retoques finais a “pente-zero”), sentando-se depois, de toalha-babete sob o queixo como um bambino veterano, de costas para a janela do terraço. Vacilei um pouco, a princípio: responsabilidade assustadora. Devagar, porém, lá lhe fui desbastando & devastando o crânio. No fim, a coisa não ficou mal: pareceu-nos a ambos que era atavio ex-capilar digno q.b. para voltar com dignidade à recruta militar. Como disse, eu nunca tal houvera feito. Foi poupança de seis, sete, talvez dez euros até, no barbeiro profissional. Enquanto o tonsurava, pensei em fixar o episódio por escrito – pode ser aqui mesmo.

Domingo, 4Nunca simpatizei com domingos: o vazio existencial é menos disfarçável, talvez/decerto por isso mesmo. (“Tinha dias e noites idênticos, mas o que mais lhe pesava eram os domingos.” – J.L. Borges, in O Livro de Areia). Recorro à “omnipotência” da escrita para o dar por terminado à nascença.

Segunda-Feira, 5Por instância do meio-dia, um breve dilúvio benigno sitia a Cidade. O ar, varejado a vapor frio, volve-se glauco. A grelha pluvial, harpa sem mesura, aponta-nos a insignificância física nossa. Eu, sob escarlate toldo de lona, miro & aguardo. Lixo urbano é arrastado pela torrente das sarjetas. Agarradas sempre aos inúteis chapéus-de-chuva, já pessoas levitam a alguns metros de altura. Depois, Deus (ou o Diabo por Ele) põe-se na brincadeira: a primeira nesga de sol dá primeiro no campanário da Igreja de São José, fazendo-a bronzear a prima meia-hora da tarde. Envernizados pela plúvia rija, os cedros & as laranjeiras daquel’além tão antiga mansão senhorial reverberam como olhos sadios. Entretanto, das catorze pessoas içadas aos ares pela intempérie de há pouco, só doze voltam à terra: duas aproveitaram a boleia – ou para morrer ou para migrar, o que dá no mesmo. Digo eu daqui, nas lonas, escarlate & toldado.

Terça-Feira, 6Hoje é dia natalício (1927) do gigante Gabriel García Márquez (m. 17 de Abril de 2014). A esse descomunal Colombiano devo muitas horas muito felizes, mesmo (ou sobretudo) nos anos mais tristonhos. Por contraponto, anos bons foram aqueles que me viram contemporâneo & companheiro deste moço aqui mesmo, o Paulo C., que de repente, e ao cabo de mais de 30 anos, encontro no autocarro matinal. O Paulo está fisicamente óptimo. Noto-lhe todavia certo ar fatigado. Ocupa-o & preocupa-o a vida, decerto – como a (quase) todos nós. Foi porém uma breve alegria revê-lo. Apeei-me duas paragens (ou dois parágrafos) depois. Oxalá nos revejamos algures, nem que apenas daqui a mais três décadas.

Quarta-Feira, 7Não sei: nem como vai ser para mim esse amanhã, nem como foi para o meu Leitor esse ontem – o Jornal sai às quintas, eu envio a crónica às terças. Só sei que São José badala, precisamente agora, nova meia-hora: para mim, passada; para o meu Leitor, futura. Outra brincadeira do Diabo, enfim. Ou do Compadre de São José por Ele.