Tuesday, February 09, 2010

SONETO CANDILADO seguido de REDESCONSTRUÇÃO DO SONETO CANDILADO

Souto, Casa, madrugada (I) e tarde (II) de 9 de Fevereiro de 2010



I – SONETO CANDILADO


Homem a pé por ponte a ocidente da cidade,
entre biciclistas operários e crianças azuis,
na manhã refrigéria e limpa de desejo,
fortuna de tanto ar alto sem ter de voar.


Castelo lascado de séculos, pedra que lasca pedra,
cinturão de árvores patrulhando a colina,
camiões unindo nenhures a lado algum,
caudal de cães livres esquinando artérias.


Da pastelaria, o ar candilado em vaga morna no rosto,
a bandeira do município murcha pingando,
o louco da terra colhendo beatas no jardim.

Na montra do estúdio noivas de fotografia,
na igreja baptista a palavra do dia
e o homem da ponte não vendo mas lendo.


II – REDESCONSTRUÇÃO DO SONETO CANDILADO

Jovem que é fonte a oriente da idade,
ante onanistas operáticos e tranças anis,
na peanha necrotéria vinda do ensejo,
fartura de canto contralto em ter de cantar.


Costelo lacrado de óculos, Pedro que lacra Pedro,
centurião de mármores entulhando a China,
Camões urdindo lémures, oh fado de um!,
canil de bons livros esquiando brotérias.


Na paz de Leiria, o ir sem bago torna ao mosto,
a ladeira do prepúcio marcha espermando,
o pouco da guerra tolhendo latas sem fim.


Do tonto prelúdio, goivos e fancaria,
à cerveja resista a Laura mas fria
e o jovem da fonte já lendo, já vendo.

Mail (verdadeiro) que recebi hoje - com resposta também verdadeira, juro

Boa tarde,




Gostaria de saber o valor da diária para hospedagem de um cão da raça dálmata de 10 meses para o Carnaval.
Aguardo retorno,


Grata,


Cainá

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Excelente Senhor(a):


obrigado pelo contacto.
Neste Canil, cães - só em verso.
Mas Carnaval - todo o ano.

Grato,

Daniel Abrunheiro.

Monday, February 08, 2010

IMAGINADAS FAIAS ou TELÓNIO DE GORRO, CHAPÉU DEPOIS

Souto, Casa, madrugada de 9 de Fevereiro de 2010



No ecrã, imagens de 1966. Músicos negros cuja música Cortázar amou: Thelonious Monk em quarteto. Desconheço os nomes do baterista do contrabaixista e do sax-tenorista. Conheço porém este encantamento colectivo: a solidão, a quatro embora, desta arte tão futura tantos anos depois, ainda. Como a hora (1h14m), raiada a fronteira medinocturna, que me diz ser amanhã já. Que sono posso conciliar comigo, breve? A boca queimada de café, pulsação escura na boca. Os sapatos de Monk: lisos, bonitos, sem atacadores. Filmam-lhe o direito cortando o compasso. A dignidade desta gente, caramba. A beleza que criaram. Fazer literatura como esta música, quem me dera, esta expressão entre o terreno-matemático e o astro-cerebral. Monk de pé, de costas para o piano, sentindo os outros três com o pé esquerdo a escrever no chão. Tenor sai, Monk senta-se e toca. Um gorro à russa na cabeça barbada. Anel enorme no mínimo direito, unhas abauladas, relógio no pulso direito. Foi isto há quase meio século, volta a ser. Magia. Marco entretanto a lápis palavras do livro que entretenho no colo. Os quatro de fato, quatro fatos escuros, gravatas estreitas e finas da época. Faço-me de distraído, apreso avulsas palavras de Osório: líquenes – diamante – falcão – bácoros – felicidade – lanterna – guarda-rios – peixes – Emily Dickinson – Heitor – embrulho – volúpia – presépio – túmulo – jejum – garbo – amor – cedro – cominhos – Maria Valupi – batida – capela – bombardeamento – desaparecimento – anjo – cisterna – sereias – rostos.
Quando as pernas me levam ao rio de pedra (a cidade no tempo), quando voga esta força, matriz e motriz à vez, que me leva, macieiras e camiões, bemóis e tabuletas, isto que comigo me faz ser, reverberação sem cromia do tenor a preto-e-branco, arco de significação sideral no tremular de imaginadas faias, a Morais Soares levando do Chile ao Alto de S. João, homens magros bebendo café chilro em leitarias tão siderais como vozes sem corpo pressentidas no escuro dos teatros, Monk outra vez de pé, dança, não toca, dança embalado pelo que lhe conta o tenor, Telónio no português possível, grande Monk, ele ali vivo, o anel grande da direita, devem ter mudado de gravação, usa agora chapéu preto, não falha uma nota, um tempo, estes homens assim não falham nunca o Tempo, quando muito adiantam-no, 2h14m de amanhã, Estou a tocar isto amanhã, escreveu Cortázar que Johnny (Ch. Parker, na verdade) disse, desfalece lento na pedra o rubi da lenha, a madrugada sobe como uma sombra vista de cima, paradigmas e sintagmas escalam marés e bares que fecham tarde, imagens de 2010 para ecrã algum e para ninguém.

CATENÁRIAS – PERIGO DE VIDA

Souto, Casa, noite de 8 de Fevereiro de 2010



CATENÁRIAS:
primeira palavra perigosa que conheci.
Desde esse fundo então, tenho colectado tantas outras quantas as maravilhas a cada uma atinente. (De que, pois, é cada uma tenente.)

Fulgor. Carme. Verruma. Nardo. Escarlatina.
Sevícia. Filiforme. Anexo & Anexim. Bulimia.
Borato. Anão & Anião. Doente & Duende.
Tosse. Anacoreta. Jugular. Catenária(s).

Confesso-vos sem rebuço nem pudor donzel a minha felicidade canina com estes ossos vocabulares. Sou feliz por palavreado. Palavra-de-honra-que-sou.

Elas dão tudo e para quase tudo. O quase que não dão – é uma chatice, mas não suficiente para torná-las precárias. As pessoas serão precárias – as palavras, não.

A formatação íntima da cabeça é toda língua. Não só a boca é plena de língua, a cabeça também. Penso isto, logo digo-o. Digo-mo-vo-lo, logo penso.

As epifanias glossianas são a música que posso. Mais até: que não posso sem. Algumas, já? Ei-vo-me-las:

Rua de Santa Tereza, um Outono, folhas de árvores-livros revoando o chão que sobe.

Mulher debruçada sobre galinha que vai matar: o alguidar azul-parado, a rápida faca rápido vermelha.

O favo de mel de uma sílaba em garganta amada.

Caligrafia aérea: aves rumo ao sul em céu de papel.

Bar de madeira, projectores vermelhos na linha de garrafas, guinadas de ar frio a cada entrada, Bobby Darin baixinho na rádio, poster da Loren ao lado do caixilho do Benfica 1958-59, o senhor Baptista jogando as damas com o senhor Eurico, os copinhos de ginja irmãos.

Mulheres marroquinas penumbrando o vento da tarde, sobre fundo de dunas sem mar.

Homem triste rindo-se no cinema quase vazio: Chaplin, Hopper, os filhos crescem e esquecem-me.

Escrevo, olho para o lado, assobio baixinho como se fosse o malogrado Darin, a vela treme como uma pessoa friorenta, tudo tão bonito, tão perigoso, tão vivo, tão Chaplin e tão Hopper.

QUATRO HOMILIAS E UMA LITANIA

Souto, Casa, noite de 8 de Fevereiro de 2010

I

O meu primo Joaquim Abrunheiro tem em anexo uma cozinha com tudo de choupana: refúgio, ermida, santuário, tugúrio. Suponho as minhas horas de aqui ali com ele passadas, algumas ao menos. Que catabático vento de palavras nos tocaria o lume? Primos dextros, partilhamos à distância a fonte (o sangue) e a foz (a cinza).

II

Doroteias, clarissas, bernardos, cartuxos: tanto tão inconsolável vulto à caruja de um deus que nem chover sabe.

III

Litania da minha boca cúmplice,
poesia amadora de mortos como de vivos,
emaranhado arbusto mas límpido
a que deponho as glabras lâminas
que uso na guerra: pacíficos canivetes,
versos meus.

IV

Figuras que saem do leite para o vinho,
prolongamentos da terra e da terra cultores,
homens e mulheres de ocultos pés como flores,
escritores de sombras no país mais solar.

Animais dados à metempsicose que os migra
de pais em filhos em tudo renovados,
primaveras de pêlo e cascos outonando
os campos, perto sempre de mulheres e sombras.



V

Homilia de arúspice entranhará as prenhes.
A mim, não.

Custa não Associar o Coração ao Cavalo

© Alfred Stieglitz – Icy Night (1893)



Souto, Casa, noite de 8 de Fevereiro de 2010



Palavroso vento devassa os claustros do coração vinda a noite.
Desânimo de pessoas com meios séculos por idade: ao portão
de fábricas que vão fechar, fecham, já fecharam.
Traineira de breves oito metros e três breves tripulantes naufraga breve.
Difícil, suster este vento no coração que não quer morrer nem viver.

Quem pode, sai um pouco à noite, aluga um filme, volta para casa.
Quem pode, não pensa, antes aceita liquefazer-se lunarmente.
Custa porém não associar o coração ao cavalo, ao convento:
copista de couro, profundo organista, despensa de nossos mortos
vivos por associada cardiologia conventual.

Ajuda humanitária de quem a quem, bacalhau da Noruega, tremoços
de dia de feira em mesas rodeladas de espuma fria, superstruturas
oleodúcteis, cada garganta sendo um privado canal-do-panamá, abuso
católico de crianças sexuais na Irlanda papista, neve e mais neve e mais
neve em Washington D. C., generais, bispos, botulismos, mas fé

muita e peregrina, monástica suástica criadora de emprego na planta
de projécteis em nome do espaço vital, estupros, pesquisa nuclear,
vielas mijadas por senhoras terminais no virar do século cada noite,
cauteleiro é o coração também, de si mesmo terminação e sorte
alguma, insidiosa infiltração da realidade, da obscena realidade

na noite plena de frios comboios parados. Quero outra luz
e outro mundo, já agora, já e agora. Esta luz é povoada de mais
pelos demais, e este é um mundo que não ajudei a fazer assim,
assim obsceno, papista, generalista, arcebispista, terminal.
As crianças num pátio não sabem felizmente de que lhes falo,

pois que lhes custa associar o coração ao cavalo.

19+45 quase 6

© W. Eugene Smith Marine Demolition Team Blasting Out a Cave on Hill 382 in Iwo Jima, 1945







Souto, Casa, tarde de 7 de Fevereiro de 2010











Demorei exactamente dezanove anos a ser nascido a partir do dia da capitulação alemã, de modo que me foi impossível estar em Lüneburg para receber a boa nova entre a demais gente sobreviva. Os que tinham sustentado e vitoriado Hitler, vitoriavam e genuflectiam agora ante os victores soviéticos, norte-americanos, ingleses e outros. Suponho que a sobrevivência tenha sido mais dura ainda do que a vida nos tempos que precederam a queda do Reich dos doze – não dos mil – anos. Violações, saques, antropofagias, forcas, orfandades, fomes, êxodos sem diáspora esperançosa. Alexander Falkin, soviético, andou por aquelas bandas naquela época, assim como Mickey Dorsey, norte-americano. Algumas fotografias foram obtidas por Dorsey. Viu gente comer os cigarros que as tropas davam. Hospital de S. Jorge, em Hamburgo, Helga Vick era uma enfermeira de cirurgia de 21 anos. A tifóide, a tuberculose, a cólera (a doença como a ira), o pus, as lâminas, as mortes além da capitulação. Sim, cadáveres: de gente, de cidades, de rios, do Tempo mesmo. Dezanove anos depois, a minha vez – inconsequente q.b., à maneira do humano.
Apesar de assim, uma não desistida volta pelos arredores da mente renova a possibilidade da manutenção. Por exemplo: também dezanove anos separam a concessão do Prix Renaudot a dois escribas Franck: Christopher (La Nuit Américaine, 1972) e Dan (La Séparation, 1991). Blocos-assim de assim-Tempo. Na tarde grisalha, encanecida à nascença pela opressão do céu, a chávena de café evola um consolo inofensivo. À colação, o cigarro usufruído devagar, o olhar hialúrgico em seu inverno privado, a louça lavada, enxugada e arrumada, as varandas aguardando vazias os improváveis desfiles da tonta alegria multitudinária. A Norte, o Douro há-de seguir fielmente dele a eternidade mesma, em leal constância inapreensível ao entendimento. Uma rua de Lisboa passa a hora esperando o bulício de segunda-feira, que o domingo não nutre. Ocasião para sofrer a permanência das dicotomias as mais antípodas: passar e ficar, desejar e perder, nascer e esquecer, escrever e atingir. Sintra como um clarão arbustivo, Peniche em ossificação à mercê do vento, todo o vento do mundo todo, Évora pasmando cal secular, Matosinhos chegando a Leça, Leça a Vila do Conde, aonde a onda anda ’inda.
(Como acontece às árvores, isto de ser implica um lento despedir de folhas – daí que escreva.)
Ocasião sempre para receber ao figurativo peito e ao concreto par de mãos as palavras suspensas do ar futuro entre os olhos ledores e as folhas lidas: burel – litania – lictor – victor – elegia – açafata – acanavear – lipograma – açafate – permuta – oliva – desígnio – soledade (sol, solidão, idade e saudade a uma só voz).
Escreviver por clarões, tal um fósforo que se excita para dar à luz a vela.
Ser segundo-trombone, mas ser, na Grande Orquestra.
Vestir um smoking e passar a noite sozinho num barracão de lenha e máquinas agrícolas, não tão sozinho por haver sombras de ratos e labirintos de aranhas dentro do barracão e do pensassentimento.
Jade, ónix, opala, topázio: quatro rainhas minerais em veludo de monte, engastado o Sol que ágatas, rubis, granitos, mármores tauxia à luz da Lua.
Versar a vida é também tergiversar a morte – sinto isso deveras algures no corpo, quando me evado pela floresta vocabular infinita, imarcescível, caprichosa, maravilhosa.
Falei com Ana Graça num bar forrado a azul-azulejos, o balconista era pequeno, usava um colete de padrão escocês, tinha caspa e parecia triste. Ana Graça Abrantes Maranca tomou chá de uma erva com nome difícil, eu pedi café, ela saiu-se com esta: “O Tempo chega sempre. O que se passa, é que nem sempre chega a tempo.” Também pedi, sem saber que pedia, um tempo largo como a luz que pinta mil milheiros de milharais até onde o horizonte se curva como a água do olho, um tempo para compreender a mão além dos livros, algo que Ana Graça acabaria conquistando à custa de não o desejar.
Falei com Conrada Sílvia, Conrada Sílvia Bustos Doravia, que aos domingos ia ver os cavalos da Escola Agrícola e voltava feliz a casa com um embrulho de folhados de canela e queijo para o chá terminal do dia.
Já falei muito com muita gente, difícil é partilhar alguma coisa válida com a pouca muito válida gente que vim conhecendo desde a nascença.
Com Marto João Gomes Correia, falamos da II Guerra Mundial; com Idalino Marco Antunes Isaías, de pintores e de violações célebres; com T. Cristo R. Justine, de enfermagem e de prémios literários; com Saul Governo Dias Lopes, de canto coral e de cavalos e de Conrada Sílvia.
Mas quando alguma coisa me usa para veicular alguma coisa, a poesia está muito bem para isso: pois que nada urge deveras ser dito nem dita.
Clarões escrevem-me botanicamente, por assim dizer – corpos que vi estatelados de branco em enfermarias (clones das do Hospital de S. Jorge, em Hamburgo, onde Helga Vick), peças com mais actores do que pessoas na plateia, poetas que sei mais abundantes do que leitores de poesia, quando um só Sol para tantas árvores, a páginas tantas.
Isto é tudo antes de ir-me embora.
Levado pela máquina voraz e invisível de Lüneburg, a carne da cara em recorte pergaminhoto, as orelhas tufando o pêlo da idade (da soledade etc.), as pernas já magras, cauterizadas enfim as mãos da ferida do gesto.
Sem outra lepra que a desta corrosiva memória, nem assunto outro de momento, sou,



De V.as Exc.as

DE ONDE TUDO VEM E OUTRAS SÍNTESES





© Robert Doisneau – Fox Terrier dans le Pont des Arts (Paris, 1953)


Souto, Casa, noite de 7 e madrugada de 8 de Fevereiro de 2010



1. SÍNTESE NOBRE

Nobreza insigne, insignificante não, a de todos os animais, maior e mais quando à nossa cotejada, que se chama pobreza quanta nobreza nos falta. Por rupias e luíses e ceitis e sestércios, trocar sândalo, azeite, a sombra do falcão e do cão o olhar mais que o nosso humano. Espiga, de trigo ou milho seja, oiro é sempre. Como leão e tigre se acumulam na síntese do gato.

2. HISTÓRICO

Georges Duby é agora tão irreversível e remoto quão o Ano Mil.

3. IMAGEM SULCADA

Imagem figurada (ou figura imaginada) do rasto (ou rosto – ou resto) que deixamos aos vinde-ouros: sulco de espuma do barco ao mar, depois mar, não mais que mar.

4. DE ONDE TUDO VEM

A surda e falsa paz da noite que nos pensa, certas apagadas horas compressoras, é da guerra de viver provinda, a nós próprios por nós-outros mesmos declarada. Uma vida sossegada é difícil, parece. O corpo inventa-se lanças, elmos, moles armaduras as mais vezes ridículas e não sensatas. De onde tudo vem, vem de viver-se. Lê-se pouco o Aberto Livro Maior, pouco se leva o soldado a colher do rio a recruta mansa de salgueiros, choupos, limoeiros, raparigas sem nome. Nem os mortos escapam à dura contenda: movem-lha os belicosos vivos inseguros. Heranças, partilhas, serventias, logradouros, a mesma terra é arena de feia quezília e querela horrenda, por surda também e também falsa.

Sunday, February 07, 2010

Soneto em Safira

Souto, Casa, noite de 7 de Fevereiro de 2010


Safira que vermelho olha em volúpia de rajá,
ressurrecta de bocas em lácteo colo orvalhadas,
funda alma que altiva foi, mais não já,
ante sumas movediças cinzas repensadas.

A vê-la não saio de casa, que se a sente
no fogo da pedra do lar não perempta.
Rubifacial, qual sanguínea adolescente
sustida de susto e ao custo do amor atenta.


Não mais serei moço, não vale a pena já
a novidade não prescrita do mar de agonias.
Agoni’anisado sim, em fora chovendo a tar-

de, que caduca é perenemente, de gente e dias
que papel transtorno fácil em quanta tinta
sinta. O resto é soneto, safira de catorze estrias.

Para o acordo ortográfico-brasuca, o que acabo de fazer na fralda

Como às Árvores

Souto, Casa, tarde de 7 de Fevereiro de 2010





Como acontece às árvores, isto de ser implica um lento despedir de folhas – daí que escreva.

Beleza das Cores na Ignição Fria da Verdade

Souto, Casa, madrugada de 7 de Fevereiro de 2010



Apesar de tudo, actor e erector de uma casa de papel com portas, janela, telhado e chaminé de tinta.
De cores, palavras novas na mão:
amarelírio,
verdestar,
rubrotar,
negregário,
perlazul,
roxímano,
fobiocre,
rosastro.
Apesar de tudo, estas cores na ignição fria da noite, o duro lápis bicando o chão do livro.
Uma árvore à porta.
Uma tábua esquecida entre ervas apodrece tão devagar quanto pode – assim nós também.
O tempo que se demora a ser belo e o tempo que a verdade demora – são
siameses,
dias,
séculos.

Saturday, February 06, 2010

Em Falta

© Graham Miller - Rhonda and Chantelle, Australia, 2007, from “Suburban Splendor”

Souto, Casa, noite de 6 de Fevereiro de 2010



Não me faltam coisas para ser o homem em este corpo.
Falta-me não ter coisas – e delas não precisar.
A grande (a tão grande) atenção do Sol ao mundo – disso preciso para pessoalizar este corpo que vou sendo até ser desde que hei sido.
Há circo de mais, todo ele inessencial, no foguetório dos adros mundiais.
Quero a pessoa que entre na ideia de, por exemplo, uma papoila no ombro verde de um valado.
Algumas pessoas são, no sentido em que um barco, por um exemplo um barco, é.
A mãe sentada na cozinha desmanchando legumes – ela sente os filhos pela casa, são ainda infantes, não é este o futuro deles, era o futuro da mãe sendo ser agora, ela sente os filhos pela casa, deles o rumor de brinquedos de madeira, deles os estalidos de papel: de modo que a pessoa da mãe não precisa já de pessoas mais, que ela ainda tem, a partir da cozinha, epicentro do mundo a que vai atirar filhos.
E o púbere de corpo arqueando-se em flecha de carne por causa da volúpia inentendível, preso e presa de uma sede de morrer dentro da antimãe, a rapariga.
E anáforas da vida, as manhãs para renascê-la, à falta
de melhor.

Perduração Improvável

Anna Seghers (19 de Novembro de 1900–1 de Junho de 1983), foto de autor que desconheço, e Odin the Wanderer, por Georg von Rosen (1886)


Souto, Casa, noite de 5 e dia 6 de Fevereiro de 2010







Posso a partir de agora recordar Braunsfeld e Erbenfeld, a partir de Seghers, logo depois da Segunda Guerra Grande que as pulverizou com pessoas e animais dentro. Precisarei jamais de lá ir: já lá estive, lendo (= vendo as letras de que são feitas e o pó em que se desfizeram). Waldan e Zeissen já cá contam e cantam. Não é uma geografia desprezível, a gráfica. Sítios como focos de prata na memória – como em noite de luar o lago que olha o céu. Lacus, locus – é isto. Dizer Erbach é o mesmo, suponho. Fica na caderneta do verboso andarilho espúrio. Rimam bem, ânsia e distância. É indiferente ao alheio registo, como o será ao próprio, a geografia (falsa & perfeita ou vera & triste) da pessoa. Inverness (Inbhir Nis, em gaélico). E Gamla Uppsala, onde um tal Saxo Grammaticus garante pernoitas felizes de um tal Odin, cujo nome releva do paganismo nórdico como emanado de fúria, excitação, mente, poesia, magia, sofia, profecia, guerra, caça e vitória. Ou os dias fundos de Malcolm Dent em casa de seu amigo Jaime Patrício Pajem-Página. Ou a enfermagem invencível prestada por Joni James, nascida Giovanna Carmella Babbo, ao morituro marido Tony Acquaviva – mais de duas décadas disso. Non perdurabo, enfim. Nem em Spokane nem alhures. Digo Spokane como se dissesse outro qualquer lugarejo do planeta, isto é, outro qualquer hamlet. E então o tal Saxo Grammaticus recolector da Gesta Danorum, cujos livros Três e Quatro inscrevem o Rei Rørik Slyngebond e a bela Geruth, casada primeiro com (H)Orvendil(l) para gerar Amleth, e depois com o sedicioso irmão de (H)Orvendil(l), Feng(i), o assassino usurpador que não será perdoado pelo órfão justiceiro da Jutlândia. Caim e Abel de outra maneira. E então rumo a Paris, ano 1514, o da impressão da crestomatia de lendas Histoires Tragiques, a ser traduzida em 1570 por François de Belleforest, cuja versão inglesa se indica como de 1608. E então as livralhadas suspiram a possibilidade de o William S. de Stratford-upon-Avon ter recorrido a Ur-Hamlet, versão da lenda nórdica por um tal Thomas Kyd, de que não resta cópia, como de nenhum de nós restará, por mais livresca hajam sido as nossas vi(n)da e (v)ida. Como o príncipe dinamarquês, vinguemo-nos da morte, enfim, em vida. Xavier de Maistre é bem gajo para havê-lo feito, não sei, mas viveu anos largos para tanto. E como ele viveu tanto, tanto viva quem amamos, ainda que nós morramos. Mas só a partir de agora.



Beleza JJ

Maravilha - Hotter canta Bach

Friday, February 05, 2010

Rosário Breve nº 141 - www.oribatejo.pt


© Emmet Gowin – Nancy Twist, Danville, Virginia, 1969





Olhó bebé a 200!


O Governo de Lisboa prepara-se para comprar os bebés portugueses a 200 euros a cabecinha. Já há frisson nas ginocomunidades marroquina e brasileira radicadas no nosso torrão pátrio. O meu problema é este: como a minha Mãe já vai na segunda infância dos 85 anos feitos, não devo receber grande coisa por ela.
Ouvi dizer que a Madonna paga mais por cada rebento africano que se lembra de adoptar em ademanes de cristianismo o mais puríssimo e desinteressado. Mas o orçamento da Madonna dá sempre lucro, ao contrário do rol de mercearia do Estado Tuga. Ora, pedir às pessoas que façam filhos a 200 é como esperar que o ministro das Finanças acerte na taxa do défice público. Por uma, porque as pessoas já há muito que fazem de borla a filharada. Por outra, porque o ministro das Finanças, mais cêntimo menos cêntimo, menos vírgula nove mais ponto dezassete, também há-de ser filho de alguém.
Nada disto, lamento mas não, me comove. É como acenar com um cheque-dentista a um gajo que usa placa desde os quinze. É como pedir ao Pedro Barroso que não faça canções gordas. É como chegar a Fátima e tentar levar as pessoas a reflectir peregrinamente sobre o totemismo segundo Mircea Eliade ou sobre a angústia dos desempregados de Setúbal que apesar de tudo rezam para que o Vitória não desça.
Nenhuma destas coisas parece ter uma importância por aí além – e de facto não tem. São coisas de que me lembro para preencher esta coluna irremediável de última página. Um bebé a 200 euros à nascença ou um Governo gratuito que nos fica pela hora da morte não são importantes.
Importante era ter escovado sempre os dentes de modo a evitar a prótese ortodôntica. Importante era que cada homem e cada mulher se amassem sem o terror de a Madonna aparecer com o saco para lhes colher o carnal fruto. Importante era que Lisboa se fosse embora e nos deixasse em paz na cama com a dentadura acrílica a repousar no copo de água da mesinha-de-cabeceira, ao lado do transístor atormentado pelo lirismo oleaginoso do Pedro Barroso.

Thursday, February 04, 2010

Vela à Chuva


Pombal, entardenoitecer de 4 de Fevereiro de 2010




I

Numa sala moderadamente iluminada, observa as mãos dos vivos.
Não olhes as pessoas.
Recorta as mãos das pessoas e torna-as alvos únicos da tua atenção.
Exerce piedade.
Tenho feito isso.
Estou a fazê-lo agora, precisamente.
A mão esquerda do homem de camisola verde-musgo: unhas preênseis, dedos poderosos, palma larga e quadrada.
A mão direita do homem de casaco mel-escuro é escritora: usa lapiseira técnica, não usa pêlos nas costas nem anel.
Ambas as mãos da mulher de lenço verde-marinho: de película porcelânica, unhas coroadas de tira branca, um anel de ouro em cada.
A mão direita da mulher de botas de agudo calfe: dedos longos sem desequilíbrio, higiene radiante, anel de licenciatura, extrema elegância pentagramática.
Que me dirás das mãos vivas da sala em que estás?
Destas de aqui, digo-te: aranhas, estrelas, estrelícias, róseas máquinas, textos úteis.

II

Além da linha de montes, um alvor lustral intensifica a global noite das coisas e dos caminhos que a elas já não levam. Café e cigarros à luz da vela, vigília doméstica à boca da tarde. Pelo fim da tarde, choveu.

III

Chuva rápida, ríspida, tépida, intrépida – veio fechar a tarde, dissolvendo dela a luz. Para mim, é uma alegria senti-la tão viva e grácil, espécie de vasta senhora que mais a si transparece quão mais à luz escurece. Tinha, eu, estado em casa afiando lápis, lavando os pratos das gatas, reordenando gladíolos e begónias e cassetes de gajas e dos Yes e dos Joy Division e dos Gaiteiros de Lisboa, cozendo massa, bocejando versos próprios e alheios, esperando coisa alguma do nada do costume. Imperiosamente convocado por telefone, porém, hei tido de fazer-me à rua. Ainda não chovia, quando saí. Dei-me bom andamento. Sobre sapatos de pontas de aço, em calças dúcteis, tenra camisola de gola alta e casaco forte subido a capuz, vim ter a este papel. A meio da ponte, ela veio fechar a tarde. Geral susto pedestre em torno, não meu. Nem pressa, nem receio, nem doença, nem tempo, também, para uma chávena de café muito quente com um pouco de açúcar. Adiei a chávena, mandei fora o cigarro a meio e entrei no posto de trabalho com uma antena dedicada ao que lá fora (ainda) chove. Também gosto da interpermeabilidade das dimensões verbais: Chuva e Europa, Cadeiras de Forro Azul e Imprensa, Liliana e Diversidade Linguística e Cultural, José e Emprego, Hora e Profissão, Número 38 e Cidadania, Sala e Ambiente, Fernanda e Deveres, Roupas e Higiene, Caneta e Etnias, Verso e Processador de Texto, Culpa e Hipertexto, Ganga e Cálculo, Dinheiro e Probabilidades, Pensamento e Equilíbrio Dinâmico, Férias e Trigonometria, Palavra e Sistemas Termodinâmicos, Óculos e Movimentos Ondulatórios, Humidade e Reacções de Precipitação, Pessoas e Equilíbrio Heterogéneo, Knopfli e Outros Materiais. Estas e Outras Coisas Intrépidas, Tépidas, Ríspidas e Rápidas.

Somos de Madeira Também

© Lewis W. Hine - Nan de Gallant, Eastport, Maine, 1911



Souto, Casa, noite de 3 e madrugada de 4 de Fevereiro de 2010

I

As casas apodrecem um pouco mais devagar do que nós.
Já não custa sabê-lo agora que as horas se tornam madeira.
Moedas de lilás circundam-nos os olhos urbanos.
Somos de madeira também – e a vida é lume.

O dia-a-dia adia o dia, odeia a ideia do dia
em que todos estaremos sós ao mesmo tempo.
Quando o corpo começa a fenecer, Deus começa
a dizer criancices mortíferas em voz grossa.

A tristeza é outra coisa, outro caso, outra casa.
Nada a contestar à rapariga que envelhec-
eu.

Os casos apodrecem um pouco mais depressa do que a voz.

II

Noites como esta servem-me à maravilha
para confirmar a maravilhosa inutilidade
da poesia.
Ficam algum tempo os papéis, algum tempo
neles a tinta, depois é como todo o antes
de que nada soube nem saberei.

III

Homens e mulheres à ventura dos dias,
tão cansados à noite, à noite tão cansadas,
gente entregue ao rodízio carnívoro do Tempo,
pobre gente acumulando destroços de si mesma
em garagens onde escovas, meios baldes de tinta,
bicicletas quebradas pela espinha, sapatos
que não houve coragem de deitar fora.

Repartições administrativas, creches ferrugentas,
embarcações transeuntes dos sonhos, casotas
sem cão dentro, canários mineiros de cheirar
o gás, anonimatos mais duradouros do que
celebridades, cafés que servem ainda ponche
e anis e refresco de groselha e café-de-saco,
as nossas vidas levadas a sério de mais
ou menos.

Nas prisões, nos quartéis, nas escolas, nos hospícios,
nos cabeleireiros, nos mercados, nos pavilhões, nos adros,
nos túneis, nos parques, nos coliseus, nos esgotos,
nas bibliotecas, nos bazares, nas pistas, nos hipódromos,
nas câmaras, nas confeitarias, nas morgues, nas mercearias,
nas perseguições, nas bolsas, nas fontes, nas pontes,
nos montes, nos viadutos, nos oleodutos, nas fábricas
– a nossa gente somos nós, ninguém um dia,
por ventura.

IV
Quando durmo à beira do mar gelado, em
casa embora, adquiro essa espécie de inconsciência
que se chama felicidade. O mundo deixa
de poder convocar-me à força, sinto para além
do corpo, sem alegria e sem amargura, sem
hora e sem década. Como peixes transparentes
em água-de-coral, vivos e mortos, próprios
e alheios, juntam-se-me à beira do mar
frio. Subo um olhar que não é o da cara
às montanhas brancas, de que sobem árvores
de precisa e preciosa escuridão. É muito bonito, sobretudo
na presença da vela vigilante de quem vai adormecer
não cuidando se acorda, pois que
recorda.



és/ás - sonorizado por Andante Associação Artística


http://conta-meumconto.blogspot.com/


és / ás

és ar /serás fumo
és água /serás terra
és pedra /serás areia

Wednesday, February 03, 2010

Viagem Souto – Caldas da Rainha – Souto

Tarde e noite de 3 de Fevereiro de 2010




1. CARRO NA LUZ



O segundo dia deste Fevereiro trouxe uma tarde de Sol completamente pintor. O mundo aparece simples ouro-branco. A magnificência dos eucaliptais é catedrálica, não tenho nem quero outra maneira de dizê-lo. Vamos no carro entre as demais formigas enlatadas da humanidade viária. A muita literatura da realidade sugere poupança de seis cêntimos por litro às terças e sextas, cerveja Bohemia, alternativas A1-A8-A17, um centro de lavagens auto com a chancela Palomas, posto nº 157 de telefone SOS, apelos à moderação de velocidade em caso de chuva ou nevoeiro, não é hoje o caso. Ver é ler. Vamos em equilibrado sossego estrada afora. A luz dá demãos de verniz no arvoredo vasto. Entre massas vegetais, uma que outra casa: qualidade fantasmática de ermidas. O relógio da estrada marca 15h59m. Uma capela nova atira o giz do campanário à remota ardósia do Céu. Saibro e argila, máquinas amarelas de esventrar terra, azimute da Ribeira de Agudim, sinal do Mosteiro de Alcobaça (Património Mundial), um camião da Companhia Pereira & Pestana, legalidade da roubalheira (informação relativa aos preços dos combustíveis), sinal do Castelo de Leiria (património local), largueza de panorama até para lá da ânsia e da indiferença, Leiria, Ourém, Marinha Grande e Monte Real assinalados à cautela, panos de contraluz estendidos largamente pelos bosques sucessivos, antenas vibráteis como asas de nariz, a N113 leva a Tomar, os nomes dos sítios brotam do ar como aves caligráficas, é mais fácil passar do que ficar, e então as cores deflagram como sílabas ou cerejas, o fulvo, o tijolo, o escarlate, o grená, um dos mil-e-um verdes, Bridgestone e Firestone, New Holland e Tecofix, Lubrifores e Fabory, Alidata e Mater, Socilux e GH, depois mais erva à luz, Corcho e Caiado. À cintura de Leiria, o cordão industrial. Já passámos à vista de Parceiros. A equanimidade operário/operático é de uma evidência por assim dizer metafísica. A oeste, o clarão pressentido do mar. A8 e siga. Números: 8, 22, 23, 128. A Ortigosa capta água: sonda, fura. Às vezes, a vida mente – quando parece que não chegámos ainda a ela. Esta tarde (este Sol) é o perfeito desmentido de tal. Operamos em conformidade com essa (esta) evidência. A8, km 116. Saída para Pataias e Porto de Mós a dois mil metros (N242-4). Sinal de um triângulo sentimental: Nazaré – Alcobaça – Valado dos Frades: peixe – fruta – louça (N8-5). Sobrepassa-se o Rio da Areia (metáfora perfeita para Tempo), comentamos a luz formidável. Dois pinheiros mansos, a estibordo, declinam uma mancha gráfica em absoluto perfeita. Breve aventura: travessia de túnel. Ao fundo dele, todo o ouro branco explode, quando se anuncia já a não lonjura de Óbidos. De modo que Alfeizerão e S. Martinho do Porto são consequências naturais (N242). E Caldas da Rainha a minutos não largos.



2. CALDAS DA (D. LEONOR) RAINHA



A esta coroada senhora usurpei o nome da minha primeira filha. Fiz bem. A Pastelaria Machado (excelentes pastéis de feijão, óptimo café à bica) é na Rua de Camões, que a outra Lianor levou à fonte. Tarde abençoada em frente, o Parque D. Carlos I (o Abatido) expõe-se ao Sol que declina já, mas não sem antes exuberar de pardais, coreto, árvores e bancos encarnados. Alguns minitraficantes de haxixe e derivados: peles amarelas, olhares hepáticos. Uma mulher soliloquaz distribui boas-tardes e comeres columbófilos. Mais se apre(e)nde que o arquitecto das termas locais se chamou Rodrigo Maria Berquo e andou vivo entre 1839 e 1896. Há patos no lago em frente à Casa dos Barcos. Há muitas pombas, profissionais da migalha que particulares lhes vêm publicar aos pés. Leopoldo de Almeida fez esta estátua vertical de Ramalho Ortigão. José Malhoa também existe em estatuária. E António Montez, que fundou e dirigiu o museu dedicado ao grande artista nascido nas Caldas da Rainha a 28 de Abril de 1855 e defunto em Figueiró dos Vinhos a 26 de Outubro de 1933. E Soares dos Reis. E uma representação da Dor por Francisco Franco. O Sol contribui para a beleza de estatuárias e outros lances de uma terra elevada a cidade no dia 26 de Agosto de 1927. Algumas datas: Hospital Rainha D. Leonor, 1485; Casa da Cultura, 1837; Parque D. Carlos I, 1799 (ainda o senhor não era vivo, portanto); Balneário Novo, 1855; Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, 1500. Perto, há cavacas e trouxas de ovos. Também se arranja maneira de chegar a requeijões e a morcelas, benditamente. Um nome de artéria: Rua da Amargura. Outra via tem nome de jornal: Diário de Notícias. Paro num café chamado Amarelo. Com a dissolução da tarde, sinto isto de há tantos anos: que as terras portuguesas mais antigas têm uma vocação iniludível para o anoitecimento. E que também escrevem. Leio nesta terra termal as epifanias tristes e os catálogos humildes que resultam da convivência do casario antigo com os ainda-vivos do presente. De que falo? Falo de ginopessoas que vi, delas sendo evidente o comércio de alugar o corpo ao manifesto. De putos americanizados dentro de calças aluídas que deixam ver a matrícula vertical do rêgo do cu. De lojas de tecidos estampados, sempre tão vernáculas à vista e ao trato. De quiosques com carregamento de telemóveis e cópia de chaves. Um cavalheiro careca passa atrelado a um cão enorme, pretíssimo e hirsuto como um arbusto. Há um cavalo branco em fotografia na parede, à esquerda de quem entra, do Café Amarelo. Ele há de tudo, enfim. Há esta mãe-de-filhos de decente e remediado aspecto: mulher-sardinha-portuguesa, pequenina e redonda nos cantos. Olho castanho-económico de pardal-sardinha, sapato de napa sem pelica. Nylon cor-de-carne. E de repente, em conversa com outra portuguesa, sai-se ela com esta: “A nossa mente é tão complexa, tão complexa!”. E quando concordo com ela em perfeito silêncio, sinto o tácito ar humano que faria do Café Vila Faia, à rua 31 de Janeiro, vivera eu nas Caldas, o meu estabelecimento de café quotidiano. Então, finalmente, permito-me a leitura do jornal do dia, o Correio da Manhã, que me evade de cá sem me tirar de aqui. Apre(e)ndo: que há um supermercado chamado Mantinho Bento na Sobreda (Almada); que um jovem de 19 anos foi esfaqueado na cara e na Reboleira (Amadora); que uma “actriz” (todas as gajas são “actrizes” agora, mas só em Portugal) esfaqueou os pulsos à avó (dela) na Avenida de Roma (Lx.); que o Mário Crespo está refodido com a desgovernança socialistóide pátria; que o Armando Vara está vivo e continua a estar; que a Linda Mala-de-Cartão de Suza se queixa de ter sido roubada forte e feio por gente que se aproveitou dela feia e fraca (mas o aparato aparece na página de “Cultura & Espectáculos” do CM, mesminho ao ladinho do jiboiante e irrelevante Fr. Zé Viegas); que o nome completo da Linda é Teolinda Joaquina de Sousa Lança; e que a Teolinda é natural de Beringel (Beja); e que já marca 61 anos no conta-quilómetros; que outros nomes (e outras corruptelas) portugueses (/as) podem ser: Zé Penedos & filho Paulo, Manel Godinho & Maribel sua secretária, Paiva-EDP-Nunes-Imobiliária & João Godinho filho do Manel idem, Guilhermina vereadora Rego do “Conhecimento” e da “Coesão Social” da Câmara (ou Cambra) Municipal do Porto, que-se-diz-que; que o Pinto da Costa tem uma amiga brasileira de 23 anos que-nada-diz-que; que Fernando Graça, dono da Cervejaria Tradicional, em Benfica (Lx.), já não é, ao contrário de Armando (chamado à) Vara, vivo por causa de ter sido baleado na cabeça de um modo definitivo por não se sabe ainda quem; que três irmãos de Caria (Belmonte) furtavam carris da via-férrea de Teixoso (Covilhã); que na minha terra, Pedrulha (Coimbra), dois ex-reclusos um bocado dados ao tráfico e ao gamanço, de 27 e 34 anos, viajaram num carro furtado até por lá terem tido sorte nenhuma; que um gajo sem carta de condução mas com 60 anos pôs vidas em risco a fugir da bófia, mas pronto; que a doença de Alzheimer se esqueceu algures de Manuel Henriques, de 79 anos, que tinha saído do Lar de Dia de Proença-a-Quê?-a-Nova; que uma chibita de 16 anos fugiu de Castelo Branco (o que é normal) para ir ter com o namorado à Guarda (o que é já não é tão normal); que bovinos no valor bruto de seis mil dos antigos contos foram gamados de uma propriedade de Alcafozes, em Idanha-a-Quê?-a-Nova. E o jornal também cansa, não é só “viver sempre”, como escreveu o patusco do José Gomes Ferreira. De modo que a boa ideia é ouvir palavras de gente das Caldas, a saber: “Tenho a água por fora”; “Oitenta, boa tarde”; “Tudo tudo ligado, ali”; “Andam a roubar lenha, mas eu tenho lá doze, treze sacos de cimento ainda”; “É muito tempo, ó Chico!”; “Um caso que lá está, interessado naquele terreno”.



3. NOITE CULTURAL NAS CALDAS MAS POR COISA DE UMA HORA SÓ



O título deste capítulo final é menos pretensioso do que semelhará a olho menos atento e mais de pé atrás como o Senhor dos Passos. Porque em verdade me e vo-lo repito que não conheço noite não cultural. Mais nas Caldas – e mais na Rua José Pedro Ferreira, em decente estabelecimento de pronto-a-comer postado ante o todo modernaço Centro Cultural e (de?) Congressos local. O acontecimento definitivamente maior da noite é a noite mesma. E cada noite funciona como uma máquina propiciadora de encontros. Não apenas os irrisórios acasalamentos – não apenas esse lixo humano mas lixo mas humano. A noite das Caldas (por exemplo das Caldas) é muito boa para pensar nas crianças cortadas pela II Guerra Mundial: as holandesas, as polacas, as alemãs, as romenas, as norte-africanas, as japonesas, todas elas. É muito boa, também, para suportar os coices da retrospectiva, que numa idade como a que me vai acontecendo, enfim, é muita e é assaz. A Senhora Anna Seghers pode ser nomeada, defunta embora no dia primo de Junho de 1983, aqui mesmo, no pronto-a-comer Xaneca III. Há arroz de feijão, polvo, frango assado (na compra de um, oferta de um pão), bacalhau-à-Brás. Dois operários da construção civil vêm liquidar duas cervejas. Um pró-pintor de esquerda e de província (boné à Che) também liquida umas tantas. Uma mulata magra vem ao pão sem frango. Felizmente, o televisor ladra baixinho. (E, só aqui entre nós, isto pode parecer-se tanto com o desespero como com outra coisa qualquer.) Ele trabalha nas linhas. As linhas, uma por uma, surdem e surgem em mancha. Surge é título de disco de uns senhores chamados New York Jazz Quartet. (Cá está: a noite é cultural.) Há salada de porco, há salada de orelha: 30.00 euros/kg a de porco, 10.00 a de orelha. Entra um maduro careca parecido com o do cão-arbusto de há bocado. Vem comer sozinho. Traz fios auriculares ligados ao telemóvel. Quarentas. Parece rapaz asseado. Divorciado. Arquitecto ou coisa. Bi, de certeza. O tipo da televisão diz que morreu a Rosa Lobato Faria. Fez novelas e assim. Escrevinhou umas livrices e poemas e coiso. Era magra e não feia, o tipo-senhora. Orientou-se, julgo que bem. Televisão e tal. Chegou aos 77. Não foi mau, posto que viver anda sempre pela hora da morte. O Herman José é dos que vão comover-se. Quando o José Hermano S. morrer, o Herman José também vai comover-se, caso ainda ele não etc. Depois é isto: a noite na cidade, o februário teor delas, cidade e noite. Ronda pela visão do pequeno comércio. Uma certa apatia já ante a inframediocridade do autarquismo. A Senhora Seghers, cuja impressão reconfirmo como acabada na minha terra, Pedrulha (Coimbra), aos nove dias de Junho de 1975: oito anos menos oito dias antes, portanto, de sua defunção. O careca auricular termina o prato de arroz de polvo, encomenda uma coxinha de frango e café, que “pode ser ao mesmo tempo”. Ele é, portanto, colega meu, para quem tudo nos é simultâneo. E a outra senhora do Café Vila Faia? – “(…) tão complexa, tão complexa!”. Beleza disto. Devagar, penso ter composto uma “Canção na Surrey U.” Para nada, claro. Melhor do que a cantiga, isto que leio colado a uma caixa distribuidora de electricidade: “LIMPEZA DE CHAMINÉS NÃO SUJA A CASA (depois dois números de telemóvel) MONTAGEM DE GIRÂNDOLAS DAMOS GARANTIA NOS SERVIÇOS”. Beleza disto, também. Um cigarro, por favor um cigarro, mesmo que na rua. E depois, linha por linha para linha para lenha. Um sentimento de verdade de tudo isto decorrente: a frialdade da pedra, a inconsequência pessoal das estátuas (não entendi as datas aos pés de Ramalho Ortigão), a mocidade reciclada dos verdes naturais, o pano de preto-cenário da Noite Nova, esta, aqui, de que a natural abstenção solar resulta em a ausência do Pintor.

DIVINA MÚSICA - Antologia de Poesia sobre Música

Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música é uma edição comemorativa do 25.º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu. A organização coube ao poeta Amadeu Baptista. Colaboram:

Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.

Canzoada Assaltante

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