terça-feira, fevereiro 25, 2020

CADERNETA PRETA - 34 (alguns trechos)





34. Atropelamento & Presenças


a) Sábado, 21 de Dezembro de 2019


Há coiso menos coisa de 45 anos, deu-se aqui perto, daqui onde escrevo, um atropelamento quase mortal. Peço escusa de indicação mais precisa da geografia – muita gente me reconhece por estas bandas, pelo que decerto lhe não será difícil fazer o B-A-BA de nomes & circunstâncias gravosas.
Foi pois aqui perto que um carro colidiu com o corpo de um rapaz que usava óculos. Culpa de quem, nunca soube. Soube sim que a vítima saiu maltratada do beijo, tendo dormido coma algumas semanas. Ossos, quebraram-se-lhe alguns: uma perna, bacia, costelas, omoplata do lado da perna.
O choque chocou-nos a todos, que éramos meninos sem cadastro trágico. O rapaz não morreu nem ficou deficiente. Recuperou devagar – mas recuperou.
Quase meio-século depois, é aqui que venho tomar o café de sábado. Estive para não sair de casa, mas precisei de alongar músculos, oxigenar-me um bocado de tanta literaparlapatice ensimesmada, reconfirmar na pastelaria o carácter bovino da digestão social.
Há Portimonense-Sporting para a Taça da Liga, ao cabo do primeiro quarto-de-hora o emblema algarvio vence por 1-0 (g.p.).
No mostrador, o pão, muito branco, apetece. A casa é limpa, há escrúpulo de água & sabão nas coisas. O principal índice é sempre os sanitários: se estiverem limpos, a cozinha não há-de está-lo muito menos. Outros pardieiros que frequento, ah sim, são porquinhos sem favor. O urinol sobe às ventas aquele fedor a peixe-piça, os copos acumulam pele antiga nas rachas, a comida embrulha cheiros gasóleos e fénicos, por assim dizer.
(E à primeira meia-hora, autogolo do Sporting, dois-zero para os anfitriões. Portimão é a terra de uma Noémia muito bonita que conheci na faculdade – e mais nada, que esse conhecer não foi bíblico.)

17h55m, já anoiteceu quase por completo. Calor nenhum lá fora – mas também nada antárctico, convenhamos. Uma coisa sei ter feito bem: trouxe comigo o Fialho de O País das Uvas. Gosto da adjectivação do gajo. Estou portanto aconchegado. Há vozearia derredor: sportinguistas chateados invectivando o sôrárbitro – mas é música portuguesa, o que dizem & o como dizem. Os não-sportinguistas, calados como freiras maliciosas, são todos portimonenses de momento. Intervalo, a altivociferante revolta abranda, vem cerveja, vem tinto, não há-de ser nada – como tudo na vida. Eu – que remédio! – escrevo. Trouxe moedas q.b. Talvez leve até pão para casa. Nada planeio. Vou fumar lá fora, perto, muito perto de onde o sangue do rapaz F. foi promanado num estalar ósseo. No azar, acabou por ter muita sorte. Na altura, não havia teste-do-balão, ninguém pode dizer que vinha enfrascado o condutor. O rapaz atravessava a via, distraído talvez – mas não com smartphone que nem havia então, a deus graças. Era filho único. Conheci-lhe o pai, que julgo ter morrido há dois anos, estou incerto quanto a tal.

Está ali uma velha (deve ter mais uns cinco anos do que eu) engraçada. Vestida & maquilhada de preto modernaço, rosto & olhar tipo Nina Hagen, ar de quem já fumou muito knorr-marroquino, chamemos-lhe assim. Rara coisa hoje em dia: em vez de polegarizar o telecoiso, escreve, ela também, num cadernito parecido com este meu, com uma caneta preta como a minha, embora eu mais lápis por vezes.

Estar vivo – sem ser no hospício ou no presídio – tem por vezes seu encanto. Encanto talvez seja exagero, mas pronto, encanto seja. Pão fresco no mostrador, perfume cafeeiro, cerveja fria, ponche quente, bola na têvê, casal preenchendo o euromilhões enquanto suspira sonhos de mata-mandarins, o Fialho gozando com seu assumido decadentismo caricaturante, eu ter moedas q.b. para miudezas reflectoras da minha própria.

2020? Não faço (nem fosso) ideia. É aguentar os caváis. Muito livro para & por ler – + mais algum(ns) por escrever. O costume não é mau de todo. Mau de todo é todo o mal. O bem? Algum venha aos vizinhos de Espanha.

(O Sporting deu carambola à negativa, acabou triunfante de 2-4. Felicidade local de irmãos & cunhados indígenas. Mutismo granítico dos portimonenses provisórios.)

(...)

Arruamentos vãos – e pouco passa das oito da noite. Chuva, nenhuma – tão-só um bafo frigorífico no favónio que soergue do chão pequenos, legíveis lixos. Passo a demonstrar tal legibilidade: : um rectângulo de papel fotocomposto. Apanho-o. É um ex-afixo mortuário.: “Estela da Conceição – 98 anos – Missa de Corpo Presente – 11h30m – Terça-Feira – 26 de Novembro de 2019.” Guardo a notícia para sempre – pelo menos enquanto esta caderneta se não volver em nunca, como é natural que lhe advenha.

A horas silentes
Da pré-madrugada
Fazem-se presentes
O Tudo & o Nada.

(...)






quinta-feira, fevereiro 20, 2020

retalhos últimos da entrada 33 da CADERNETA PRETA


(...)

(Também) em busca da mãe anda uma rapariga. É em um país nevado, muito a norte deste lápis. A região é belamente desolada, desoladamente bela é a região. A mãe, neurodoente, estava sob internamento compulsivo. O país chama-se Televisão, tenho o meu esfinge-do-nilo entrepernas, sentimos ambos lá fora o baile chamado Depressão-Elsa. Estamos bem, obrigado.


Conta ainda os dias descontados,
olha que o relógio é prestamista.
Dele a usura é de alucinados:
o gajo a descontar é um artista.

Culpa & punição? Borda do prato
com elas. Ou, claro, fundo do copo.
Moralóides é que não, não topo,
sobretudo em natalício aparato.

Conheço papelarias anacrónicas, abertas ainda a uma freguesia extinta. Faço por comprar nelas as ferramentas da minha irrisão: lápis de que ainda não preciso, borrachas de que não vou precisar, afiadeiras que sei já oxidadas, cadernos que apesar de tudo, enfim, sempre se fazem caderneta. Preta, claro.

Belas, belas sílabas por assim dizer azuis tremendo como pó ou prata ou deditos arrefecidos de menina. Quero-lhes mansamente, são quanto acumulei nestes primeiros cinquenta & cinco anos.

Chesterton, católico.
Greene, católico.
Joyce, apóstata.
Kafka, judeu.
Pessoa, sabe Deus.

Pontões adentrando a barra, o mar entrando em glória pujante, pescadores-à-linha perfilam o contracéu, longe-longe vai um titanic miniatural rumo ao respectivo gelo-gigante.

*

28 Ingredientes Inesgotáveis & Disponíveis para Cocção de Iguarias a Saborear no Crepúsculo do Corpo, um Dia Destes Vinda a Noite

1

Farrapos de Dublin sonhados por Nora Barnacle, triste em Trieste, quando sem tostão num banco do parque horas a fio à espera do marido;

2

Capotes inteiriçados de lama congelada, sangue, mijo & desespero, esparsos pelas mil ratoeiras a céu-aberto de Verdun ou do Somme, dá no mesmo.

3

Munthe, inventando um bocadito quanto à proximidade clínico-laboral que diz ter tido para com o doutor Charcot, sorrindo ante as duas sílabas por assim dizer azuis de Capri;

4

Aço das cordas tangidas por António dos Santos d’Alfama resistindo à prevista demora do dono;

5

Cachecol usado por Paul Simon na capa do million-maker LP Bridge Over Troubled Water;

6

Restos em prato de ferro da refeição nocturna, em plena pista & à luz da Lua, ingerida por Jack London algures no ingente Yukon;

7

Secretária alta + cómoda idem a que Eça & Pessoa escrevem de pé in saecula saeculorum;

8

Rol de onomásticas heráldicas entretanto extintas mas em melhores tempos ferreamente liadas à terratenência no Sussex;

9

Pente-da-barba de Victor Hugo quando exilado em Guernsey;

10

Últimos tostões do doutor Souza Martins após visita pro bono a barracas miseráveis da cintura lisbonense;

11

Dois guarda-chuvas pertencentes ao operário-filantropo Adelino Veiga encontrados em inexplicável circunstância na rua conimbricense que arvora o nome dele;

12

Fragmento de papel em que está inscrito o resultado ao intervalo do jogo de basquetebol Sport Conimbricense – Ginásio Figueirense no Pavilhão da Palmeira em 1977;

13

Roupeiro da casa de George Michael no dia 26 de Dezembro de 2016, finda a devassa policial regulamentar;

14

Dedal usado décadas a fio (& agulha) pela senhora minha Mãe;

15

Pincel-da-barba ainda com espuma do senhor meu Pai;

16

Comprimidos caídos esquecidos perdidos sob a cama de Marilyn Monroe & achados após devassa policial regulamentar no dia 5 de Agosto de 1962, domingo;

17

Fundo de café-com-leite na chávena de Roberto Bolaño enquanto escrevia a contra-relógio o calhamaço 2666.

18

Um ramo da árvore à esquerda da entrada da Algonquin Bay Public Library;

19

Garrafa de cerveja vazia consumida por João Miguel Fernandes Jorge nas Ramblas;

20

Cesto de morangos deixado por José Abrunheiro (1880-1930) à mulher um sábado de manhã em 1917;

21

Cartão-de-identidade do aluno João Manuel Arcanjo Dias na Escola Preparatória Rainha Santa Isabel, ano lectivo 1974-75;

22

Sapato branco perdido para sempre por mulher morta em acidente rodoviário na Estrada da Beira no segundo trimestre de 1971;

23

Aparelho de telefone desactivado 039-36356 cor branco-marfim, fio curto, com mancha indelével de verniz escarlate correspondente a impressão de indicador direito junto ao dígito 8;

24

Canhoto-de-bilhete para sessão-matinée do dia 1 de Novembro de 1981 (um domingo) do Teatro Avenida (ex- do Príncipe Real), estando em cena O Homem-Elefante, com John Hurt & Anthony Hopkins (NB: um exacto mês depois dos Maugham a 50 paus em Trancoso);

25

Peruca ros’amarela usada por Maria Valéria, actriz amadora da Trupe Iconoclasta & cabeleira-ajudante do Salão Maria de Lourdes, na peça revisteira Toma Cá Desta, em cena no Centro Popular Operário do Calhabé na Primavera de 1975;

26

Carta do Menino Tiago André Lopes da Fonseca ao Pai Natal, ano 1992, apresentada em tribunal como prova circunstancial no âmbito do uxoricídio que lhe levou a mãe para o céu & o papá para a prisão;

27

Single Hello de Lionel Richie com risco na sílaba “whe” do verso “’Cause I wonder where you are”;

28

Fotografia emoldurada de busto de bisavó cega no dia de seu 101.º aniversário, dois meses antes da morte dela, que ocorreu na paz do sono às 04h04m de domingo, 5 de Setembro de 1999.

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

CADERNETA PRETA - fragmentos de 33 b)


b) Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019


Não, não pude ir a qualquer dos acampamentos-de-férias do obscuro Mr. Billy Butlin – nem Filey, nem Skeguess, nem Clacton, nem Bognor, nem Minehead, nem Pwllhell, nem Mosney, nem Ayr. Fiquei em casa. Não estou a queixinhar-me. Oh Dolly. Oh Norah. Oh Sheila. Oh Joan.

Em 1981, Calvino cita Queneau: “A História é a ciência da infelicidade dos homens.”
Em 2019, a manhã é um apagão. À maioria, sei-o bem, repugna esta luz de papelão, esta moinha constante, este ter de libertar o interruptor para que a lâmpada faça de sol doméstico & domesticado. Eu adoro. Não preciso de Mr. Butlin.

Incluindo o mês em que perfiz dez anos de nascido, havia em Londres quem (por escrito) chamasse Henry a quem de facto era Harold, e Worthington a quem afinal se chamava Wilson. Um pouco – mas só um pouco – como tratar David por John e Cornwell por le Carré.

Isto não é Trieste, não vejo daqui o azul-adriático. Da janel’alta vejo, sim, o Bolão, os campos mais além dele abrindo peito a Montemor, Figueira, Jersey, Coventry, o Bering enfim.
Esta é a minha pobrinha ortodoxia: ser não-indo, ir sem-estar. Não, não estou a queixinhar-me – apenas respiro o ar da sala enquanto o Gato dorme.
Dezembro a 2/3, o ano vai expirando. O calendário faz-se Inverno Oficial. Começo no próximo Ano Novo o outro livro. Sei o que quero dele & com ele. Nenhuma ansiedade, pelo contrário.

Na Pensão Berlitz, na Casa Borges Porto, na Biblioteca Conde Catalazete, na Confeitaria Preciosa, na Lotarias Victor, na Papelaria Zurich, na Praça Garrett, no Orfanato Lúcia d’Avon, no Café Dédalo, na Alfândega Norte, na Retrosaria Epopeia, no Círculo Tomista, na Loja Aloysio, na Livraria Calvário, no Presbitério Sauliano, na Esquadra Central, na Churrasqueira Mondego, na Joalharia Rivoli, na minha MaterPaterCasa, na Praceta Verde Pinho, na Marisqueira Neptuno, na Garagem Velindro, no Parque Claro, na Alfaiataria York, no Quiosque Lacobrigense, na Óptica Vénus, na Ferragens Luna, na Mercearia Arcelino, no Salão Astral, na Adega Piedade, na Agência Franco, no Infantário Rosicler, no Colégio Sérgio, no Restaurante Estrel’Azul, na Carvoaria Idalécio, na Bijutaria 2000, na Albergaria Nobre, no Canil 1.º de Maio, na Barbearia S. Paulo, no Jardim Marcel, na Tipografia Pessoa, na Desportiva Albicastrense, no Forte Macedónio, na Torre Basileia, na Vidraria Tarzan, na Coudelaria Ascott, na Miudezas Pequim, no Hotel Império, no Largo Martelo, no Mijacão, no Bairro Aquilino, no Cais Juliano, na Avenida Soeiro, no Velódromo Atenas, no Magistério Filinto, na Cave Altamira, no Edifício Tavarede, na Niquelaria Argentina, na Clínica Amália, no Jacob Penhores, no Condomínio 1986, na Vivenda Diana, na Eléctrica Barata, na Doçaria Milano, na Editora Mistério, na Oficinauto Carvalhosa, na Fluvial Arcada, no Estaleiro Freitas, no Anuário Cavalinho, na Panificadora Reis, na Lanificação Zelandesa, no Talho Cândido, no Laboratório Cruz, na Aeminium Fotos, na Galeria Coimbrália, na Religiosa Lamecense, na Tabacaria Sereia, na Escadaria Conventual, no Convento Purpurino, no Pórtico Almedino, no Ginásio Duby, na Imprensa Republicana, no Estúdio Stig, no Diário Paroquial, na Farmácia Esplendorosa, na Sapataria Lorde, no Minimercado Matateu, na Tijoleira Damasceno, na Metalúrgica Platónica, no Banco Salvador, na Florista Clarissa, na Orquestra Brilhantina, na Maravilha Audiovisuais, no Estuário Fevereiro, na Mandrágora Plásticos, na Frutaria Filoxera, no Bar Rotundo, na Peixaria Saldouro, na Ópera Sevilhana, no Palacete Mayor, na Pneumónica Caramulana, no Teatro Avenida, na Queijaria Colorau, na Amorosa Eclesiástica, no Cinema Trianon, na Sanitários Triunfo
– respondi, quando me perguntaram onde procuro a palavra-justa. – E alhures também – esclareci ainda.

Terminei a primeira leitura de Retrato do Artista Quando Jovem na madrugada de 2.ª-feira, 28 de Março de 1994. A segunda, esta noite mesma, 6.ª-feira, 20 de Dezembro de 2019.
O meu Pai morreu um mês menos quatro dias depois dessa primeira leitura. Arderam, entre as duas viagens ao jovem Stephen Dedalus, 25 anos + 9 meses menos oito dias. A existência como somatório de coisas assim. Mas: E a vida – como quê?

Já fez vinte & oito anos + dois meses + 19 dias: a 1 de Outubro de 1981 (uma quinta-feira), em Trancoso, numa loja diametralmente oposta à Barbearia S. Paulo, compro, a 50 escudos o exemplar, livros de Somerset Maugham. De casa, trouxe os dois volumes do Trabalho Poético de Carlos de Oliveira. Comecei a fumar há dias. Num café da vila, tomo a bica e compro dois maços: um Porto e um Ritz. Assim foi que me iludi homem.

sexta-feira, janeiro 31, 2020

CADERNETA PRETA - 33 - a)





a) Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019


O temporal canta lá fora, não é grave, é como é, cantor. O ar & a água partilham o mundo. Uma parte da atenção, dedico-a à dinâmica dos elementos. Outra parte, a imagens interiores, espiral de recorrências, por assim dizer. O Gato lava-se, minucioso. Eu na Língua, ele com a língua dele. Iço-me de meus escombros, vou fazer chá, chá cá dentro & chuva lá fora combinam-se sempre bem, muito bem.
Aprendi coisas sobre William Booth, cadáver há 107 anos. O vento deu conta dele, como de todos dá. Parece que ele era de Nottingham, como Alan Sillitoe. Tenho de ir verificar se sim. E se ele também nasceu a um 10 de Abril como o senhor meu Pai.

Em um sítio chamado Rocascura, um cavalheiro de chapéu claro fuma charuto depois de se abrigar da chuva num alpendre de solteironas, as Manas Pereirinha. Juro que não sei a numeração do ano. Desconfio que seja pela altura da morte do general salvacionista Booth. É por aí, quando já muito não falta para que estoire a Grande Guerra.
Este senhor-fulano safou-se muito como representante de mercearias-finas. Casou-se mais bem ainda com uma viúva decentíssima, amiga das Pereirinhas. A ex-viúva está lá dentro agora, a chá & à conversa com as irmãs. Por tanto de delicadeza como de fastio, beltrano veio também charutar para o alpendre. É homem de não pensar para lá do suficiente. Contas certas, contas arrumadas – lema dele, no negócio como no resto. O resto, agora que já não negoceia artigos importados de refinado quilate, é a vida de casado com a de lá dentro. Planeia livrar-se dela – pela morte, claro. É nisso que pensa enquanto deixa consumir-se o cubano sem quase o levar à boca.

Certa violência dos elementos exteriores (chamam-lhe “Depressão Elsa”) serve de contraponto ao que, aconchegado em casa, vou tendo de dia, trabalho & pensamento. Faço por abarcar, relacionar, cristalizar átomos de sabença. Há pouco, li um pouco: Calvino sobre Queneau. Poucos trechos de cada vez: tem sido a minha leitura no trono-de-louça durante duas semanas. Cozi vaca com batatas & espinafres, além de cebola. O caldo ficou no ponto: chilro, a pedir a esmola de um fiinho de azeite. Faltou-me nada. Até um resto de broa marchou. Pena não ser da minha ida materAvó Cândida.
A noite já abriu as ingentes asas, tinta preta saraivada de riscos de prata. Vento valente, arvoredo de cerviz vergada. E eu no catre, forrado a flanelas. Falta-me aqui ninguém.

*

Um jovem regressa a casa.
A casa é a do outeiro.
Do outeiro vê-se o mar.
É do mar que ele regressa.

Um velho espera na gare.
Duas horas até o próximo.
O das 23h19m ruma o norte.
O velho vai para sul.

Casa de Amália face à praia.
O mar sempre, já não ela.
Longe, outra casa.
É a do outeiro.
Do outeiro vê-se o mar.
O rapaz regressa (a) velho.

*

Gente em hotel termal, sem problemas de capital. Purga-se sulfuricamente, come verdes, passeia de manhã e à noitinha pelo saibro ajardinado da cercania. O parque é gradeado, interdito a qualquer público que não hóspede. Poroso, o arvoredo é farfalhado pelo vento nocturno. A fonte original do estabelecimento foi rodeada de altos painéis de azulejos em 1933. O mar dista doze quilómetros em linha recta, dezasseis pela estrada municipal. Os velhos visitam-no pouco, ao mar. Os de meia-idade, um pouco mais. Uma matrona suíça gere o hotel. As criadas são portuguesas e moçambicanas. O recepcionista das 6 às 14 é de Braga. O das 14-22 é de Tomar. O restante faz também de guarda, não sei de onde é. Preciso de versos para demandar algo a tal respeito – de onde (se) é.


quinta-feira, janeiro 16, 2020

CADERNETA PRETA - 32

© Julien Conquentin







32. Lixo Escritor


Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2019


Tremenda, a Beleza. Já a tenho topado em lances que a não sugeriam, muito menos a prometiam. Animais sem fome. O vento nocturno em palmeiras que nem há. O fantasma da criança no velho que a foi. Certas meias-frases de sentido dobrado. Olhos que servem pão pelo ordenado-mínimo e uma refeição diária. A montra de relógios acertados todos pelo passado do relojoeiro. Aquele casal alemão rindo-se como nós – ou de nós – ou para nós. O tapete grená no pórtico do tempo por construir. A gaiola arrombada. Certas cartas encontradas no lixo de que esta tarde, depois da sopa, V. darei recado (1). Um tu descobrir um mim que eu nem sabia ser. O vaso esbeiçado que verte soro vegetal.
(Em Português, Beleza & Tristeza rimam. Mas nem sempre. Só muitas vezes.)

(Adentrou-se-me – notavelmente aliás – a evidência de coisas que não voltarei a fazer, não, que não voltarão a fazer-me. É demasiado simples – ou redutor – chamar a uma de tais idade.)

Vento transitando o mundo próximo. Saí para fazer chegar ao contentor o par de sacos com lixo de dois, não, três dias. Penada ou não, nem viv’alma no trecho de rua. Da outra banda, os da Câmara mandar laquear a tijolo & cimento a casa onde viviam mãe & filho, a mãe foi levada para um lar pré-mortuário, o filho carambolou às nove tabelas até ser encontrado morto num canavial sem dono. Lembro-me deles assando carapau no passeio. Não pareciam desgraçados. Acho que não liam filósofos alemães nem romancistas russos. Sei que não tinham televisor. Não eram daqui, mas também não eram de longe – é tudo. Talvez a mãe seja ainda vivente. A indigência é vacinação robusta, acontece muito haver gente que chega a centenária ao cabo de 99 anos de miséria estreme. Voltei para casa sem sacos nem pressa. Morrinhava, o que sempre me encanta. Isto sucedeu imediatamente antes de V. contar a não-história daquele Guilherme Alpedro. À volta, fiz chá, pus carne a descongelar para dali a horas, o Gato emboscou-me de puro prazer juvenílimo, sacanita maravilhoso. Corrigi segmentos de um poema que mete ao barulho loucas mansas à janela & caiadores de andaime, bispos & boticários, barcas & nascituros de caderneta. Não fui infeliz nem antónimo disso. Forrei o caixote com saco novo para o próximo lixo que escrever.

Já me aconteceu sentir que fui, talvez anos de mais, exasperante & exasperadamente jovem. E que talvez tenha confundido tal com, sei lá, a felicidade – ou afim rótulo. Uma dessas vezes foi há poucos dias, no sábado talvez. Quando olhava a montra da papelaria-livraria chamada Pérola? Sim, julgo. Havia um livro do Musil e outro do Durrell, ambos a cinco paus. (Voltou a chamar-se pau à unidade monetária corrente – a nostalgia é engraçada, sobretudo quando se pensa que o escudo antigo tem de ser multiplicado por duzentos para dar um euro novo. Novo, antigo. Etc.

Deitado, na cabeceira a chama quase extinta, duram pouco as velas encarnadas, o sono ainda me não manieta, o vento no solilóquio dele lá fora, grande bilhar joga ele, pobre dele, sem companheiro. Apagador de velas, ainda por cima.

Este ano, não pude hospedar-me no Albion Hotel, ou na Meldreth Guest House, ou naquela boarding-house de que de momento se me varre o nome mas que recordo ser a cinco guinéus por semana, ou no simpático Littlewold Private Hotel, onde no século passado conheci o casal Britten, descendentes do célebre compositor tão dos Brits. Para o ano, o mais provável é continuar a não poder. A há muito apeada aristocracia austríaca também por lá conversei. Candy floss, jugs of tea, o Smoky’s Punch & Judy Show etc. O mais certo é nunca-mais. Ou nevermore, como por lá se diz, recordando Poe.

Com Francine Rosso, de Metz, Karlheinz Goth, de Saarbrüken, Paloma Vásquez, de Navarra, Guido Ferrara, de Firenze – noite-de-variedades no Casino Olimpo, a dez milhas do aldeamento fundado pelo neto do plutocrata Lobstein. Acrobacia, funambulismo, prestidigitação, comédia. Uma noite próxima já do ocaso da estação-dita-alta, essa recordo-a bem, estiveram lá Jack Warner (locutor), James Balfour (cameraman), Bob Saunders (sonoplasta), Allan Tyrer (editor), Pamela Bower & Richard Cawston (guionistas/realizadores/produtores). Norman Swallow não apareceu. Assim foi, que a ser não volta.

Homem de 42 anos em 1957. Salvacionista, parece – isto é, membro do Salvation Army (SA). THE SALVATION ARMY / SPA HOME / HOSTEL FOR MEN’S SOCIAL WORK / 122 SPA ROAD, BERMONDSEY, S.E. 16. Cama em dormitório.
O filme foi televisionado a 6 de Setembro desse 1957. Eye to Eye – I Was a Stranger, realizado para a BBC pelo tal senhor Norman Swallow que não vi no Olimpo.
Charlie esteve doze anos no exército. Deram-lhe trabalho no SA. Deriva na & da pobreza. Melancólico documentário. Toda a gente morta, em 2019. Só pode.

Henrique Marechal Esteve Canvas. Homem de trabalho penosíssimo: porta-a-porta oferecendo calendários a troco do-que-quiser-e-puder-dar. Aceita um prato de sopa, algum par de calças do falecido, nos natais até fatia de bolo-rei & um cálice de porto. Este homem é mais real & menos mentiroso do que eu, juro-Vo-lo.

(Mas lá dizia o outro: “A poética da liberdade humana está indissoluvelmente ligada à mentira, essa mentira que, ao assumir as suas formas mais nobres, que são a ficção, o poema e a utopia, nos permite viver.” O “outro” é George Steiner, que assim se expressa em quatro Entrevistas que cedeu a Ramin Jahanbegloo, ed. Fenda, Lx., Junho de 2000.)

Afloraram-me à mente, hoje que bem chovia neste rincão de mundo, nomes que me são solares. Jacques Tati foi um. Wim Wenders (e por natural adjacência Peter Handke), outro(s). O meu Eça nunca anda longe. Nora Barnacle. Georges Duby. Winston Churchill. O Vala da Académica também, já falecido. E Patxi Andión, que morreu hoje, aos 72 anos, de um acidente de viação. Elevada figura, triste imerecido fim. Deixa canções formosas & fortes, como Padre.
Esta é pois a primeira noite de que Patxi não despertará. Seguem-se infinitas outras.

(1)     Uma dessas cartas reza assim (nomes e topónimos fabricados por mim):

“ Sr. Dr. Juiz

MÁRIO RELVAS
RUA DO PARDAL BAIXO
ANCORADA

1-     Venho por este meio informar Vossa exmo, que não tenho nada aver com os factos que me são atribuidos pela Etelvina Margarida Mestre.
2-     Dado que eu lhe entreguei a minha filha Soraia Mestre Relvas no dia 23-10-20…, e que a partir desta data estou proibido de a ir buscar e visitar na risidencia, cita, Rua da Abadia N.º 2 Ancorada., pelo companheiro desta Juliano Cavaco Anes, assim que por este tribunal, dicidi de a visitar na escola Primária de Ancorada aonde a encontrei, e constatei que a criança esta doente, e traumatisada, tais factos podem ser justificados pela Professora.
3-     Visto que a minha residencia é cita em Rua do Pardal Baixo, há 44 anos e que hoije vejo-me oubrigado a sair desta residencia, assim que proibido de visitar a minha filha.
4-     Não só me retirarão a minha filha, depois de a ter comigo 18 meses, e de me sacrificar por esta, a meter na pré-escola escola Primária, deixar o trabalho de motorista mas, agora Proibem-me de a visitar.
5-     Caso estranho, mera considencia bastou entregar a criança à mãe, para as queixas acabarem.
6-     A minha filha está doente, traumatisada foi soubmetida a vários feitiços, praticados pela mãe, e uma senhora da Guarda, assim que uma de Alter, Senhoras ditas corandeiras e feiticeiras.
7-     Sou conhecido na freguesia pela população, aonde detive uma Garagem de electromecanica, como um homem honesto, trabalhador, convivente, tal o podem afirmar o Snr. Carolino Pedrosa, ex presidente da junta, Emanuel Netos Silões empresário, e agente de seguros Ponderosa, para não citar mais nomes; e não como um criminoso, um delicoente.
8-     Pedi o poder paternal, assim como um inquerito, au sujeito de Etelvina Margarida Mestre, por saber que esta, nem éra mulher e ainda menos mãe competente para educar uma criança, este inquerito não foi executado devidamente.
9-     Etelvina Margarida Mestre arranjou a meter uma criança à nascença, porque esta era filha de um pai casado e com filhos, esteve enternada numa casa para menores sem pais, em Prega com a idade de 15 anos, porque a mãe Maria do Patrocínio Mestre alcòlica na altura, analfabeta, doente metal a trasia de Café em Café, aonde homens sem, consciencia, nem respeito abusavam da mãe, e da filha, até que idade de 11 Anos foi violada com o consentimento da Mãe Maria do Patrocínio Mestre, pelo padrasto hoije falecido.
10-  Como posso provar atrés de facturas de telefonemas detalhados, cartas de homens, de testemunhas, não é uma Mãe compativel para educar a minha filha Soraia Mestre Relvas, mas sim uma, mentirosa, uma Garota, uma Psycopata.
11-  Quanto au companheiro desta  Juliano Cavaco Anes, fugido da justiça Belga, aonde deixou uma mulher com dois filhos, uma amiga com uma crianca filha dele deficiente, devido aus maus tratos causados por este, desgraçou a vida a varias menores, e enclusivamente a uma da Covilhã.
12-  Hoije satorado de sofrer, amiaçado de morte, proibido de visitar a minha filha, vendo a minha filha, viver numa barraca de 30 m² com duas familias, de Café com Café com a mãe, a ouvir aquelas palavras “Grande mula não me emportava de ser o cavaleiro”, assim como outros palavrões, vendo-a avisada pela mãe, assim como pelo companheiro desta, para fugir de mim, assim me afirmou a minha filha na ultima visita que lhe fiz.
13-  O Que eide fazêr contra esta injustiça, que aceita uma mãe deficiente Mental, como testemunha, um namorado pouco a desejar perante a Sociedade, um padrasto o complôt está feito só falta ao tribunal me meter a croua na cabeça assim como a minha filha, assim aconteceu a Cristo.

Sem mais os meus simseros cumprimentos
Mário Relvas”