Thursday, October 19, 2017

Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé! - Rosário Breve n.º 526 in O RIBATEJO de 19 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé!



Ando há tempos para V. dar conta de dois livros intimamente ligados a Santarém cuja leitura fiz com zelo, lápis, agrado e proveito. Ainda não vai ser desta. E ainda não vai ser desta porque a chaga incendiária – que nos mata tanta gente, nos destrói tantas habitações, nos arrasa tantas matas e nos pulveriza tantas empresas – é a recorrente e implacável temática de cada dia, semana a semana, mês a mês.
Pus-me a odiar São Pedro, coitado do barbudo das chaves-do-Céu.
Na minha mocidade (e na Vossa), as estações eram quatro: e começavam à hora marcada do dia certo. A Primavera existia, vinha no bico das andorinhas, o arvoredo rejubilava, a temperatura era suave & adequada. O Verão amarelejava de grandes fenos, extensos trigais, fundia o azul do céu no azul do mar, os rios ainda não eram fossas pecuárias. O Outono? Era todo Vivaldi: revoadas de folhas revoluteando como arcadas de violino, havia o prazer das luvas de lã, as botas de borracha pelas ruas de terra sem macadame. O Inverno era frio conforme a competente e obrigativa disposição legal desse tal São Pedro que, naqueles bons tempos, trabalhava bem & devagar. Tudo isto deu o berro. Tudo isto ardeu.
A estiagem prolonga-se indecentemente há meses de mais. Em plena segunda metade de Outubro, a brutidade solar, sem ozono que superiormente a estorve, esturrica-nos a nossa própria sombra, que, pelo chão, feita carvão, se esbraseia mais do que nós até. É uma coisa intolerável, este calor sem freio nem calendário. É um túnel de fogo sem água ao fundo. E o imbecil do Trump a rasgar acordos pró-climáticos. E o aqueci/esqueci/mento global. E os glaciares a virem por aí a baixo feitos sopa. Porra, porra, meus senhores.
Como poderia eu, pois, cronicar-vos a mote das minhas leituras pró-santarenas? Livralhada agora, agora que por todo o lado só se lê, vê & ouve que “Olha, subiu o número de mortos; olha, mais uns tantos desaparecidos; olha, os feridos não param de aumentar…”? Ná, leiturices para ninguém.
Eu exijo que chova como deve ser. Estamos em Outubro, catano! Quero o frio que nos é devido em Novembro para podermos matar & escorrer com limpeza e sem mosquedo calorífero & putrefactor o belo porco enquanto roemos a bela castanha assada – ou cozida com funcho.
E olha, ó Pedro tão pouco São, vê se te reformas e dás lugar a outro. Olha, dá-o a São Tomé, por exemplo, que só haveria de crer numa política territorial anti-fogos quando houvesse alguma para ver.



Wednesday, October 11, 2017

(f)Actos da minha vida - Rosário Breve n.º 525 in O RIBATEJO de 12 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt



(f)Actos da minha vida



1 Descalço, saltei do muro para a banda do monte, cortei-me no pé direito, sangrei muito – e ainda sangro. Não singro, mas sangro.

2 Abraçava os meus cães & os alheios, beijava-os no rosto, sentia deles o frémito humano, olhos de quem entendia o que se lhes dava: como tão pouca gente-gente entende. Ou é beijada.

3 Aprendendo a fumar (às ocultas do entardenoitecer, encostado ao portão da quinta), volvi-me, até estatu(t)ariamente, uma imitação de adulto. Continuo ambos: fumador & simulacro.

4 Os mendigos batiam-nos à porta muito delicadamente. Se era meu Pai a atendê-los, tinham menos má-sorte. Se era minha Mãe, pobre ela também, tinham boas palavras e não mais que cinco tostões. Se era eu, aprendia a ser delicado no bater às portas. Até hoje.

5 As raparigas: deixando de ser meninas, obrigaram-me a tornar-me rapaz. Em paz elas & eu, agora.

6 A Muda dos Tremoços: esperta, ladina, pobre – mas sobrevivente, criadora de gente, de si mesma banca & fruto & sal & tostão.

7 O Leandro Jardineiro: bêbado, blasfemo, praguejador, admoestador, terror das crianças – um vero santo católico, portanto.

8 Na vertical, era, naquela altura, um colosso: seis pisos de armazenamento industrial. Um deles, de botijas de gás. Deu-se o incêndio. O povo foi ver. Eu também era povo. De súbito, a explosão: foi a nossa Hiroshima. Mais de quarenta anos passados, continua a ser o raso chão a que se viu desfeito. E nós japoneses, por assim dizer.

9 O sr. Eduardo da Rua do Leitão que morreu na linha: vinha apeado da bicicleta para a travessia, deixou passar o primeiro comboio, não contava com o segundo. O povo foi ver. Eu também era povo. Aquele lençol da mulher-guarda-da-linha guardando o mistério do corpo, a escandalosa rosa de sangue florindo o pano: inesquecível floricultura.

10 A minha Irmã, de blusa verde, menina & moça qual rouxinol-bernardino, à janela. Sem pose, alheia ao fotógrafo: rosa verde, antítese daquela que vi no lençol da morte ferroviária.

11 Naquele tempo infante, os Verões não eram a calamidade pública que hoje são. Os Julhos eram passados na Figueira da Foz. A Mãe arrendava a mesma casa. Aos fins-de-semana, o Pai reunia-se-nos. Isso não volta. Eu não era, então, a calamidade privada que hoje sou. Mas a Mãe era o Verão. Em pessoa. E é ao sol dela que escrevo quanto escrevo. O Pai chega sábado.

12 Linda como uma conspiração de açucareiros, aquela Maria dos meus dezassete anos embebedou de clorofila a incipiente árvore púbere do meu coração. Depois, rachou-ma em cavacos imprestáveis até para outros lumes. Habituei-me a sentir-me embebedado. Por Ela. Sem Ela. Contra Ela. E contra mim, em minúsculo pronome.

13 Os Irmãos: seis, todos mais velhos – ou, por assim dizer, os meus mais recentes & mais vitalícios antepassados.

14 A Minha-Rua: era um país. É hoje um desconsolado consulado de marcianos que não falam a Língua nem se lembram dos senhores Nunes, Catarino, Gonçalves, Velindro, Pimentel, Ribeiro, Alcides, Pereira, Morais, Sério, Botelho, Alfredo, Sacramento, Carvalho, Abrunheiro.

15 Quando chovia: o cedro do meu prédio semelhava uma labareda negra de verd’outrora à Van Gogh; as mulheres zumbiam no recolher à pressa das camisas crucificadas do estendal; o senhor Carlos da taberna-carvoaria cainhava gemebundamente: “Estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover-estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover”; e o cedro do meu quintal era o senhor Carlos a cainhar mas em versão Vincent de cinema-mudo.


16 As Fábricas: morreram todas. Corrijo: mataram-nas. Foi então que vieram os marcianos. E foi então que veio a outra Língua, que de nomes antigos nada sabe nem a cedros à chuva entende, quando o céu chove como a olhos acontece, certas vezes. Ou a cães, quando beijados.

Thursday, July 20, 2017

PARDAIS ESPERTOS & FANTASMAS BENIGNOS - Rosário Breve n.º 515 in O RIBATEJO de 20 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Pardais espertos & fantasmas benignos



1 Há muitos anos que o Verão e eu nos não damos bem. Prefiro-lhe épocas mais moderadas, mais temperadas, menos brutais, menos inabitáveis. Como no entanto ele é que manda, fecho-me mais em casa, cerrando cortinados e estores para que a sombra me proporcione a ilusão de uma frescura que de facto não há.
Faço por não vegetar. Tenho fartura de livros que há anos me esperam a visita demorada. De raro em raro, um documentário televisivo cativa-me a atenção. E há sempre a internet, arca sem fundo de motivos de (muito) interesse, uma vez filtradas as fontes.
O mais curioso de tudo isto é a amálgama. Refiro-me ao emaranhado de informações que chegam, estão e se vão embora, deixando todavia fragmentos que se me incrustam na lembrança e que, aqui e ali, a este (des)propósito ou por aquela sem-razão, arranjam maneira de irromper do olvido para que tudo, afinal, tende.
Se a velhice lograr desarranjar-me os fusíveis mentais, vai ser bonito. Hei-de dar por mim a reportar à senhora auxiliar de enfermagem que o meu pianista preferido, Bill Evans, teve um fim trágico, não sei já bem porquê nem como, acho que droga, senhora doutora, a morte de um irmão, coisa assim. E nisto, a cada 10 de Junho, na minha cabeça não ser Portugal o cerne da efeméride mas a vila francesa de Oradour-sur-Glane, que nesse dia de 1944 foi martirizada pelos criminosos da Divisão Das Reich das Waffen SS. Ou farrapo histórico afim.
Por enquanto, todavia, a coisa vai-se dando & andando. Mormente desligado, o televisor não é capaz de encher de moscas oleosas o ar da casa. (Para mais, tenho de concluir por estas horas uma encomenda de trabalho que eu há muito deveria ter satisfeito. A ela tornarei em concluindo esta crónica.)
2 Concedo-me um breve interlúdio a horas decentes. Vou à pastelaria da praça e fumo dois cafés. Levo pão e arroz no bornal. A passarada conta comigo há anos já. Com discrição, vou atirando bolitas de miolo ao arrebol. A pardalada, esperta, aparelha-se em lugares estratégicos. É um festim que invariavelmente me paga o dia. Hoje, tenho o elogio da agricultura tal como versejado pelo romano Virgílio. No outro dia, foi a galega Rosalía de Castro, senhora que sabe estar. Camões aparece muitas vezes mas já sem pala: usa agora uma lente fumada tipo Ray-Ban que lhe não assenta mal. Outros delicados fantasmas devassam a esplanada. Alguns brincam a correr atrás do pão dos pássaros, fingindo uma fome e uma infância de que há muito se livraram. Guilherme d’Azevedo é um. Gervásio Lobato, outro. Continuam portugueses na eternidade esquecida que os nimba. De chitas humildes, vem a senhora catalã Mercè Rodoreda. Não me falta gente. Livre de corpo físico, é malta que faz bem ao velho que aprendo a ser sem grande esforço nem proveito por ‘í além.
E nisto se vai escoando o Verão assassino dos grandes incêndios e das caloraças irrespiráveis. Que o Diabo o carregue – como a mim me há-de carregar também, sendo tempo disso. E tu não estejas a rir-te.

Thursday, July 13, 2017

CRÓNICA BADAGAIO-GEOLÓGICA - Rosário Breve n.º 514 in O RIBATEJO de 13 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica badagaio-geológica


1 Decidi tornar do domínio público um terror meu que décadas a fio tenho mantido secreto. É um cagaço simples de explicar, embora mui complicado de sofrer: tenho medo de se me dar o badagaio em plena rua – e comigo carregado de papéis privados como sempre ando. Atenção: não é do badagaio que tenho medo. Toda a gente acaba por ter um: merecidamente mais cedo, uns; outros, injustamente mais tarde. Não é por aí que sinto miúfa. É pelos papéis.
2 Os meus papéis. Esses a que aponho a minha caligrafia. Aqueles onde estou todo: diminuído e por rever. E se de repente adorno na calçada, sim, eu de olho já vítreo, já de fio de baba tipo caramelo a sublinhar-me o beiço de baixo, o pernil aos esticõezinhos larilas de disco-dance? E se derrepentemente os meus mil-e-um papéis se põem a imitar as borboletas ao fim do quarto-dia de crisálida? Há-de ser o diabo duas vezes para mim: porque morro ao cabo de tanto me ter habituado a haver nascido e porque nunca mereci Deus, meu Deus.
3 A coisa é que já tenho tido ominosos prenúncios dessa cómica tragédia de morrer de bornal aberto em plena rua. Contexto: eu sou um velho resistente às modernices dos tablets. Para mim, escrito-de-escrever-para-ser-lido é lápis e/ou caneta sobre papel que chie ao ser rasgado ou a limpar alguma reentrância do corpo. Borrão ou borracha, para mim – nada de merdices electronipónicas inventadas na Finlândia e cagadas em massa na China para lucro dUSAmericanos. De modo que papéis – centenas e centenas de verbetes avulso que a granel acarreto na minha sacola por atacado. Dias de vento em que por distracção ande de mochila aberta – rai’s partam isto! – e estilhaça-se o ar do desperdício voador que é tudo quanto tenho escrito.
4 Se fosse hoje, por exemplo. Jesus Senhor. Belzebu meu. Se hoje fosse que os pés se me juntassem com vocação de marmórea tabuleta, contai comigo, contai assim comigo de lábios abertos: 24 verbetes com puerilidades inconsequentes de Ricardo Gonçalves; 72 trechos de primeira-água copiados dos outros cronistas dO RIBATEJO para que pareçam meus daqui a uns meses quando o plágio for já indetectável (ando há dez anos nisto e até hoje ninguém topou a marosca, muito menos os próprios); duas berlaitadas das rijas contra o Ministério Público acusador de 18 agentes da esquadra da PSP de Alfragide por terem (re)agido como se calhar deve ser às insolências intoleráveis dos “jovens” da Cova da Moura, esses inimputáveis santinhos do altar do politicamente-correcto; mais duas gaitadas irreverentes contra os senhores juízes que se esquecem de ser órgão de soberania em hora de greve por mais uma posta de guito e uns reajustes orgânicos de carreira-estatuto, coitados, que só de subsídio de alojamento mamam 750 mensais dele; e mais ainda uma carrada de papéis com marcas de humidade mineral.
5 “Marcas de humidade mineral”? Sim, marcas de humidade mineral. Explico-me bem e depressa: na ânsia de se me não tornarem voadores os papéis quando ocupo a esplanada de meu escrivão costume, junto & ergo do chão, antes de ocupar posto, uma data de calhaus. Deles munido, sento-me. Saco dos papéis. Cada maço, cada pedra. Faço uma figurinha muita jeitosa. Nunca fui conhecido pelo que escrevo. Foi sempre pela quantidade de grotescos tabuleiros de damas que iço ao tampo da mesa. Julgais, todavia, que é só gozo que mereço? Julgais mal. Tomai e comei todos:
6 Aqui há uns anitos, lá vinha eu para uma esplanada parecida com esta de onde vos cronico agora mesmo. Ritual de sempre: mesa escolhida, pedras apanhadas, cu na cadeira, sacola aberta, papéis, pedra-maço, maço-pedra. Naquele dia, eu tinha muito que escrever – para aí uns oito linguados de geologia. Foi então que, out of the blue (como dizem USAmericanos quando uma mulher maravilhosa aparece das periferias do azul com o nosso destino a sangrar das unhas), me apareceu uma morena perfumada de até-que-enfim. Trazia consigo um pesa-papéis de ouro cujo quilate era, à justa, suficiente para a núbil confecção de duas alianças.
Era a Graça. Aceitei. Casámo-nos. É desde então que tenho tido o tal medo. O medo de, morrendo, ser finalmente lido como deve ser pelos calhaus.


Thursday, July 06, 2017

OXALÁ QUE PERGUNTAR OFENDA - Rosário Breve n.º 513 in O RIBATEJO de 6 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Oxalá que perguntar ofenda





1 Sei as respostas, mas faço as perguntas na mesma:
a) Não seria bem mais acertado gastar em bombeiros o que se gasta em tropa, gastando em tropa o que se gasta em bombeiros?
b) Se a tropa nem as próprias armas consegue guardar, a tropa serve para quê e/ou a quem?
c) Um bombeiro vale quantos generais?

2 A pergunta da alínea a) chega a ser pouco discutível. Chega o calor, esfregam as mãos os privados que alugam meios aéreos por uma fortuna. Ao mesmo tempo, as aeronaves da tropa praticam as belas rendas da teia d’aranha (quando não andam ocupadas a queimar combustível caríssimo em solenes aparatos perfeita, absoluta e absurdamente inúteis). E os submarinos, não esquecer os tristemente célebres submarinos-catrinetas de guardar o carapau da costa.

3 À caricata questão escarrapachada em b) há que juntar a rábula das messes roubadas pelos seus próprios (in)fiéis-de-armazém. A credibilidade e o pundonor da instituição castrense são atirados à lama por gente aparentemente incapaz de viver com o próprio pré num País que fora dos quartéis pratica essa ofensa colectiva chamada “salário mínimo”. Brio, decoro, honradez, amor-próprio, dignidade, distinção, decência militar – tudo se esfuma à vista de uma sacada de batatas sobrefacturada à conta do civil. Mais o tal armamento ao dispor do primeiro filho-de-uma-velha que, com conhecimentos lá dentro, passe a horas certas nos intervalos da chuva e das sentinelas na zona do paiol.

4 Quanto à c), calma. Para de todo não resvalar em demagogia fácil, devo dizer que conheço em pessoa alguns bombeiros fraquitos e uns tantos oficiais, sargentos & praças decentíssimos. Como dizia o outro, “nada do que é humano me é estranho”. O problema, todavia, sobrepassa em muito a excepção para consagrar a regra. E cá está: por regra, o bombeiro dá-se todo a uma causa humanitária sem esperar nem mordomias nem alcavalas, antes sacrificando o seu tempo, a sua família, o seu ganha-pão e a sua saúde; o general – sejamos francos de uma vez por todas – tem camaradas a mais para a mesma teta.

5 Variando o tiro e o jacto da mangueira, preciso ainda de dizer-vos alguma coisa sobre o Concerto do Peido. É como muita malta chama àquela coisa muito lindinha dos artistas angariando fundos para acudir às vítimas (sobreviventes) do incêndio de 17 de Junho último. Fiquei (ficámos todos) a saber que a receita de milhão e meio de euros angariada com o tal concerto de solidariedade (mais chamadas telefónicas) foi entregue à União das Misericórdias. Não foi entregue ao fundo especial do Estado. Não foi entregue às autarquias directamente lesadas. Não foi sequer entregue, hélas!, aos Bombeiros. Não. Foi entregue à Igreja, via aquela rede de instituições (tutelada por Santana Lopes) que quer ser banco ou coiso assim.

O autarca de Pedrógão Grande, em solidariedade com os outros dois executivos municipais afectados pela tragédia (Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra), já manifestou revolta e desconcerto perante tal aberração. O peido deu borrada. E tresanda.

6 Já agora que estou numa de acirrar novos inimigos, a greve da enfermagem. Não avalio nem contesto a greve da enfermagem – mas acho perversa a ameaça aos partos. Há limites que a razoabilidade deve traçar – e mínimos limítrofes. Não é a mesma coisa que os professores ameaçarem greve aos exames. Não é mesmo a mesma coisa. Haja juízo. A enfermagem é tão indispensável quanto a classe médica. Dúvida nenhuma sobre tal. Mas calma: o parto é inadiável por sua mesma natureza. Pés na terra, pessoal. E os pés não são para levar tiros.


7 Termino pelo título. “Oxalá que perguntar ofenda” – é mesmo o que eu queria dizer. E ainda quero. E disse. É preciso incomodar quem nos faz mal. Sem medo nem hesitação. É preciso inquietar quem vive de nos comer as papas na cabeça. Eu sei que não é uma croniqueta que resolve o assunto. Careca de saber isso estou eu, que todavia me ponho sempre em cabelo para mandar umas bojardas de se lhe tirar o chapéu.

Thursday, June 29, 2017

HOMO CUNICULUS HOMINI - Rosário Breve n.º 512 in O RIBATEJO de 29 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Homo cuniculus homini





1. Na madrugada do 29.º aniversário de Fernando Pessoa, 14 bombardeiros alemães descolaram de uma base situada algures naquela Bélgica então por eles, alemães, martirizada e ocupada. A meio dessa manhã ominosa, as bombas destruíram uma escola do East End londrino, matando 18 crianças. Pela restante capital britânica, mais 162 súbditos de Sua Majestade Jorge V ganharam direito à eternidade anónima dos cordeiros imolados na ara e na era dos impérios. O bombardeamento de civis é hoje banalíssima coisa de dois minutos entre assuntos de futebol e frivolidades meias-lecas no alinhamento dos noticiários – mas na altura foi excentricidade e aberração que parecia e caiu mal, por nada cavalheiresca nem romântica. O sentimento anti-germânico que já então grassava entre os ingleses tornou-se amotinante fobia xenofóbica, a ponto de a própria Família Real, ela própria geneticamente teutónica, ter de abandonar a pesada nomenclatura dinástica que era a sua para adoptar a hoje ainda vigente. Ou seja: passou a Casa de Windsor ao renegar-se como parente relativa da genealógica House of Saxe-Coburg-Gotha-Hanover-Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg-Hohenzollern.

2. Estes factos de 13 de Junho de 1917 poderiam não ter visto luz nem haver passado à fria História real. Bastaria que o governo britânico de então tivesse como primeiro-ministro, não David Lloyd George, mas Pedro Passos Coelho. O meu raciocínio é simplicíssimo: com o nosso compatriota na posse da chave do n.º 10 da Downing Street, as crianças do East End não teriam escola a que ir – e a Inglaterra do primeiro quartel do século XX subjugar-se-ia sem luta, e com gosto até, aos ditames imperiais e imperiosos da Berlim do Wilhelm II, à exacta imagem & semelhança do que viria a fazer Portugal um século depois aos pés da Berlim da Merkel I. Com o tal Coelho na cartola, claro. Para evitar que a Alemanha nos (dia)rreie morte aérea em cima dos chavelhos, nada como ser muito austeritário, muito obediente, muito “bom aluno”. Numa palavra, muito coelho, não um pouco lobo. Daí o título que encima esta crónica.
3. Agora assim: Passos Coelho é um dos meus cómicos favoritos. Corrijo: Passos Coelho é um dos meus tragicómicos preferidos. Nesta rábula dos suicidas pós-incêndio que afinal se não mataram, o dito senhor foi coerente – ele próprio é, politicamente, um suicídio por confirmar. Usando o mesmo Pessoa que fazia anos a 13 de Junho entre 1888 e 1935, Coelho é um “cadáver adiado”. Só não procria grande coisa. Aquilo não foi uma mera tirada infeliz – aquilo é um modo de vida. E um modo de vida é invariavelmente o que resulta da negociação entre o que somos e o como estamos. As desculpas que depois gaguejou, a mim não me arredaram da profunda repugnância de imediato sentida – nem do invencível asco; nem da psoríase fatal que fatalmente me causa a urticária de politiqueiros destes.

4. Na ética jornalística que ainda pratiquei, suicídio não era notícia, a não ser em casos muito, muito especiais. Exemplo-mor: o caso de Thích Qung Ðc. Foi noutro Junho. Em Saigão, a 11/6/1963, este monge budista imolou-se pelo fogo em público e em protesto contra a orientação religiosa de Ngo Dinh Diem, eminência-parda que era, por assim dizer, o Passos Coelho dos vietnamitas em relação a USAmericanos. Tirante casos destes, suicídio continua a ser matéria merecedora de discreto pudor. A não ser, parece, que um obscuro zé-ninguém de provedoria local de misericórdias com veleidades de candidato laranjinha a autarca nos sopre ao pavilhão auditivo um boato maldoso para arremesso político-partidário. Nesse caso, e para o Coelho, um mexerico sem fundamento é cenoura que baste. Daí a tragifarsa acontecida aos olhos de toda a gente. Enfim: Pedrógão é Grande, Passos Coelho é pequenino. Shame on you, sir.

5. Os mortos e os feridos daquela Londres de Junho de 1917 & os feridos e os mortos nossos de um exacto século depois devem ser-nos credores do maior respeito e da mais assisada e mais condoída discrição. Invoquei-os tão-só para ajudar a destruir uma comédia triste – triste e infeliz e coelhamente portuguesa. Foi por isso que fiz por esfrangalhá-la em tiras e em chiste. É que eu nem em criança, por mais bombocas com que tentassem seduzir-me, fui muito de ir com coelhos e pais-natais ao circo. A barraca é que não pára de vir ter comigo. Mas eu sou homem para gostar mais de pão do que de circo. Daquele pão-nosso-de-cada-dia, não daquele circo que se monta e daquela barracada que se arma sempre & de cada vez que o Cuniculus descerra a abertura anterior do tubo digestivo, vulgo boca.


Thursday, June 22, 2017

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALÍVEIS - Rosário Breve n.º 511 in O RIBATEJO de 22 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Todas as generalizações são falíveis





1. O título desta crónica é uma sandice voluntária. Uma necedade. Uma parvoíce, enfim. Será isso tudo – mas não destoa no e do indigente coro geral de atoardas das televisões e das redes sociais da modernidade.
Vivemos tempos reles. Qualquer careta de bicho é chamada ao altar de néon a bolçar as mais banais e mais venais inanidades seja sobre o que for. Porque em tudo isto há uma coisa que não falha, nunca falha: seja qual for o assunto, Portugal é só especialistas – a clínica geral é que é o carago.
Toda uma frenética galeria de zés-ninguéns & marias-nenhumas se acotovela nos corredores dos estúdios e/ou empertiga os bicos das patas nos directos de rua. Tudo passarocos de arribação que, aos olhos da parvónia deles, precisam desesperadamente de ser alguém por quinze segundos. Feito tal, é só copiar o link e esborrachá-lo no Face ou no Twitter. Para quê? Para mais quinze segundos de much ado about nothing, que é como quem diz postas de pescada arrotadas pelo buraco errado do corpo.

2. Os jornais competem na mesma liga. As revistas? Preferível nem delas falar. Estas e aqueles são mal concebidos, mal pensados, mal escritos – e decerto mal intencionados. Clonam-se uns das outras, como se o peixe tivesse preferência quanto a papel de embrulho. O 'jornalixo' tuga é para
o que canadair e vier.
Resta o último bastião: a livralhada. Esta, sim. A livralhada fica. A livralhada vale. Está tudo ali, na livralhada. Toda a livralhada? Não. Não, não vou repetir a boçalidade do título da crónica. Alguma livralhada sim, felizmente muita. Tanto lusa como das estranjas. Mas restrinjamo-nos à lusa. A gente quer Portugal? Eça. A gente quer a cor? Raul Brandão. A gente quer aventura, risco, guerra, sexo, diáspora, epifania, desamparo? Camões. A gente quer risota, escárnio, lucidez, auto-retrato colectivo? Gil Vicente. A gente quer andar aí pelo que, mais do que nosso, somos nós? Garrett. A gente quer na mesma o Correio da Manhã mas em bom? Camilo. A gente quer todos os sonhos de toda gente e mais alguma num corpo só? Pessoa.

3. Diacho. Estraguei a crónica toda. Dou por mim na rua com uma braçada de livros de que ninguém sabe ter necessidade. Pareço os pares de velhas evangelistas, por esses jardins municipais, apontando ao peito do transeunte a pistola de um deus de folheto em ortografia brasuca. A verdade é que nem o escriturário Pessoa, nem o polígrafo Camilo, nem o fino Garrett, nem o sacana de Mestre Gil, nem o zarolho Luiz Vaz, nem o major Brandão, nem o divino José Maria – nem as mãezinhas deles – nos fazem sentido, quanto mais falta. Estamos bem assim, estamos todos muito bem assim, diplomados à pressa todos por um 12.º instantâneo-nova-oportunidade de falcatrua. Até por isto: entre o analfabetismo de há cinquenta anos e o de agora, a diferença está na password, que antigamente era de X-cruz-X e hoje é mais coiso tipo username.

4. E remédio para esta moléstia? Não há. Isto aqui não é a farmácia: nem tenho de tudo, nem sou de receitas falsas. Não há como fazer entender à Judite que aquele cadáver no chão das suas costas é tão digno de dor como de pudor. Não há. Há tão-só o deserto de quase tudo no quase-nada da nossa vida. Aqui, refiro-me à dupla face da moeda: a portátil, que é a nossa vida individual; e a gregária, que é a nossa vida d’enquanto Portugueses. Sobre esta, Eça. Sobre a outra, cada um trate da sua.
5. Despeço-me por esta semana de lágrimas nos olhos. Não é por sentimentalóidismo. É que me engasguei com a passa do cigarro no parágrafo de passagem do quarto ponto para o quinto – e agora é de tossir, escarrar e arfar de carvão brônquico até que o coração se ajeite lugar na boca. Vale-me ao menos que, ao contrário dos tais outros de arribação, não erro o buraco do corpo.
Mas todos os buracos são falíveis.