Thursday, August 04, 2016

Rosário Breve nº 468 - in O RIBATEJO de 4 de Agosto de 2016 - www.oribatejo.pt



Um jantar românticochon 
ou 
Crónicóinc



1 Extravagância rara mas perdoável, a minha Senhora & eu fomos, por uma destas cálidas noites do corrente Estio, jantar fora. Andáramos meses amealhando moedas esquecidas. A hora boa era boamente ora. Lá fomos, carregadinhos das moedas.
Ampla, a esplanada era toda de távolas amarelas com réclame ao chá gelado da moda. Derredor, falava-se muito francês com sotaque de Alpiarça. Hordas gordas pastavam com afinco. Tudo entrava à base de azeitonas roídas de coentros alhados e rijinhas ao dente, queijinhos de saudades do da Serra, pâtés de sardinha moída e/ou de atum cirrótico. Atafulhadas de vaporosa legumagem, travessas-inoxes exclamavam ricas fumegações de cozido não-pobre: unha, costela, morcela, linguiça, orelha, farinheira, pesadelos tudo do maralhal islamita. Bêbedas de vinha-de-alhos, caçoilas de barro preto chanfanavam capitosamente o ar nasal. Nacos de bacalhau, espessos como dicionários do bom tempo pré-AO/90, rangiam fofuras ébrias de azeite. Garoupas & robalos decapitados rogavam tão-só, no que prontamente eram deferidos, que os imolassem sobre cama de arroz-de-espigos levado ao forno. Míseras delícias, enfim, desta vida de uma-noite-só-por-ano, que uma noite não são dias. Estar vivo era quanto bastava para ser um bocadito feliz sem remorso. Foi então que.

2 Foi então que se deu aquilo dos porcos. Estávamos todos tão bem da vida como parágrafos abertos e fechados em torno de um segredo bom. Mas então – os porcos. Passou-se que uma viatura de transporte de animais vivos estacionou à face da esplanada. O frete era de suínos-recos-javardos-grunhos-tós. Uma caminéte de porcos, pronto. E de pronto o ar se saturou do pungente perfume da merda mais viva, mais penetrante, mais perfuradora & menos tolerável da nossa vida. Nossa, de todos. Senhoras começaram a gasganetar a bola da mastigação. Criancinhas ficaram de olhos húmidos como estrelinhas do Natal. A minha Graça começou a dizer mal do casamento que fez. E eu esfreguei as patitas de pateta contente: (“Já tenho crónica, caraças! Já tenho alegoria, carago!). E era que tinha. E é que tenho.

3 Tenho, tenho – esta assim, quereis ver/ler? Sei bem que quereis. Cá vai: a risível mas triste historieta do nosso (meu & da minha Senhora Esposa) jantar romântico é muito cotejável ao que ali por bandas de Torres Novas em má-hora acontece. Mais explicitamente: naquele afluente do Rio Almonda a que por triste ironia chamam Ribeira da Boa Água. A diferença entre o meu jantar à beira de porcos parados e a desgraça criminosa daquelas paragens está nisto: no meu caso, os porcos estavam quietos; no caso do Almonda & demais afluentes do pobre Tejo, os porcos não apenas se mexem como agridem as pessoas de bem que vêem a Natureza não como aterro ou esgoto mas como Casa de Todos. Está dito, está dito: e nas fuças dos porcos bípedes, covardes & covardes & porcos.

4 Moral da alegoria? Nenhuma. Nem tirando o O a alegoria pode dar alegria. É muita tristeza junta. É muita impunidade à solta. É muito ganancioso sem uma cadeirita de ferro pela corneta abaixo. Até que um dia o Diabo se lembre de lhes ser bom.

5 Por falar em Diabo, o diabo do porqueiro lá comeu felizmente depressinha (tinha vindo só para uma bifana no pão com um quartilho de branco-de-cozinha) & cá nos desamparou a loja. A vicissitude mal-odorosa refez-se, rarefez-se &desfez-se. Pagámos & desandámos. Vim para o carro com um sorrisito mefistofélicozito. E a minha Graça assim p’ra mim: “Já tens croniqueta, malandrim!...”.
E era que tinha. E não é que tenho?


ALEGORIA VENATÓRIA - crónica in Quinzenário TREVIM, edição de 4 de Agosto de 2016







Alegoria venatória




1. Esta que passo a contar-vos para efeito de alegoria passou-se mesmo. Mais do que verosímil, é verídica. Bebi-a de fonte limpa. Passou-se pois o acontecido assim:

2. Por certas matas & brenhas do nosso distrito, um homem tinha por uso andar na companhia de seus cães no intuito de apanhar coelhos silvestres para o tacho. Era caça sem licença e sem espingarda. Os rafeiros, exímios farejadores, davam conta do recado às mil maravilhas. O homem só tinha de fazer de batedor. Do resto, tratavam os patudos. Durante não contados tempos a fio, não faltou chicha orelhuda & roedora àquele caçador sem pólvora nem chumbo. Ora, como tantas vezes nesta vida, o êxito particular foi pai de invejas públicas. Aquela cinegética artesanal, coroada como era de tão clamorosa recompensa petisqueira, caiu mal no goto de uns quantos sicofantas. Como “sicofanta” significa “delator”, os meus Leitores já estão a ver o que aconteceu: o homem foi denunciado às autoridades. Em consequência, veio a Venatória. O caçador passou a caça. Seguiu-se o seguinte: devidamente mandatados para o efeito, dois fiscais puseram-se a pé por aquelas brenhas & matas até darem com ele. Isto é, com eles: o dono dos cães e os cães propriamente ditos. Caçaram-no sem procurar muito. Foram direitos a ele & ao assunto: “Então o senhor anda por aqui aos coelhos sem licença, sem caçadeira e fora de época ainda por cima?”. Arvorando um ar seráfico de virgem que nunca sentiu bafo de macho, o homem contestou-lhes isto: “Eu? Eu népias disso. Ando por aqui às pinhas, só isso.” E os guardas: “Às pinhas? Então e os cães são para quê? Para farejar os pinhões?”. E o homem: “Cães? Mas quais cães?”. E os guardas: “Esses mesmos que estão aí a dar ao rabo junto a si, homem!”. Sem se desconsertar, respondeu-lhes o ladino: “Mas ó ‘sôs’ guardas, os cães nem são meus!”. Insistiram os fiscais: “Não são seus? Então por que raio andam eles por todo o lado atrás de si?”. Foi então que o homem lhes lançou esta pérola: “E ‘atão’? Vossemecês os dois também andam atrás de mim mas não me pertencem, pois não?”

3. ‘Por fas & nefas’, fica o conto contado. Que nos sirva de alegoria. Esta aqui: Também a linha ferroviária dita da Lousã, em tempos idos que não sei se voltam, andava sempre perto do povo que servia. E do povo era ela. Até que vieram os fiscais e lhe levaram os cães. Perdão, os carris. Até hoje.

Thursday, July 28, 2016

Rosário Breve nº 467 - in O RIBATEJO de 28 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



Terrorismos estivais



1 O terrorismo não se esgota nos atentados suicidas, nem no fundamentalismo mascarado de religião, nem no maniqueísmo simplista nós bons/eles maus. Ah pois não. Ele há mais terrorismo. O das famigeradas “sanções” da alegada União supostamente Europeia, por exemplo. Intolerável ingerência na soberania de cada Estado mais “periférico” (isto é: tudo o que não é Paris, não é Bruxelas & não é Berlim), todo este aparato dos “défices estruturais” e da “Dívida” traz água estragada no bico. Para mim, é terrorismo. E não costumo enganar-me nas palavras que uso.

2 Outro terrorismo: a Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara, que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice de certa política. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia, por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade: muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo “esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?

3 Termino por esta semana com uma confissão: cada ano que acumulo, o Verão torna-se-me mais intolerável. A inflação centígrada dos últimos dias tem-me tornado um bicharoco recluso cozendo à sombra dos quarenta graus. Amanheço a desejar a noitinha. Jornada é fornada. No céu sem fronteiras, o grande Sol, rei ímpar, dardeja uma violência que calcina. Antigamente (falo por mim, só por mim), era uma estação bem-vinda. A trégua escolar chamava & juntava os grandes ócios maravilhosos de ir à fruta, ao rio, à mata, aonde o nariz livre apontasse. Aos 52 anos, sou um velhinho transido de calor que quer tão-só esses estores bem descorridos para baixo, essas cortinas bem encerradas, a casa tornada mosteiro de pedra fechada à violência solar. É como se o Sul da Europa tivesse sido tragado para sempre pelo Norte de África. Ou por Berlim. E ainda temos Agosto aí à porta, raios o partam.

Thursday, July 21, 2016

Rosário Breve nº 466 - in O RIBATEJO de 21 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



De milhões & anos aos trinta de cada vez



1 Se, como desde sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os 77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser, isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já deste Excel muito giro de 30 milhões/30 anos.
Quê? 929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril irresponsabilidade dos miúdos camarários.

2 Entrementes, Passos Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos & da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.

3 Mas por ora, aí o temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa conjuração de violetas à la pintor paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar & platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.

4 Por falar em vida, não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas & milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa & finalmente, em branco.  

Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



De milhões & anos aos trinta de cada vez



1 Se, como desde sempre planeei e planeio, conseguir viver aritmeticamente um ano mais do que os 77 totalizados pelo senhor meu Pai, em 2042 estico os pernis. E hei-de esticá-los pela mesma ordem com que, vivo, os enfio nas calças: primeiro o esquerdo, depois o outro, depois o outrinho. Se assim for & vier a ser, isto significa que hei-de estar bem morto há já três anos quando se cumprir o multimilionário tridecénio de investimentos agora publicitado pela empresa municipal Águas de Santarém. Mas – ou muito me engano ou nada me deixo enganar: ainda por cá hei-de andar de escorreitos costados sem que ninguém por então se lembre já deste Excel muito giro de 30 milhões/30 anos.
Quê? 929 mil ainda este ano? Quê? Milhão e ½ em 2017? Quê? Um milhão vírgula quatro em 2018? Pergunto eu: e haverá ainda Tejo para tanto milhão pingão? Hum. Estou como as galinhas: adoptei esta postura. Hum. Parece-me que isto é mais dar com os burros nas águas (de Santarém) de bacalhau. Hum. Isto parece-me pueril irresponsabilidade dos miúdos camarários.

2 Entrementes, Passos Coelho, ubíquo & exasperante como a micose, anda por aí angustiadamente angustiado à trela das consequências indivíduo-sociais do peso dos impostos & da tonelagem da austeridade obrigatória. Anda, anda. Hum. Cheira-me a ressabiado. Digo(-to) eu, Pedro: é preciso ter(es) uma cara de pau emoldurando essa boca de caruncho. Ou então um coração vácuo. Ou então um sótão craniano sem inquilino encefálico. Ou então isso tu(do) segregando o nada de tu(do) isto.

3 Mas por ora, aí o temos, qual a colossal livro – o Verão, cujos dias facilmente são páginas brancas, que não em branco todavia, antes sim varadas de caracteres iridescentes, antes sim ilumin(ur)adas de mísseis florestais despenhando-se perpendicularmente no mar do céu. As praias fervilham de celulites apetitosas como cascas de laranja espremidas a leite. Pelo entardenoitecer, numa conjuração de violetas à la pintor paisagista, as pracetas juncam-se de vestidos leves à pele de ginotortulhos pesados mas gráceis, mas levitantes, mas torrados do iodo do dia solar & platinados do luar perpétuo-enquanto-dura do comércio sazonal. O Império Salazar-Colonial sobrevive no casamento da sardinha assada com a caipirinha enregelada. Celebridades instantâneas como o AVC & como o Algarve publi’xibem as pernas magriças à maneira de estacas palafíticas & enchumaçam as mamonas moles injectadas em vão de silicone amolgado de tanto zezé-camarinha de taxímetro fodilhão-local. Mas ora mirai: o autarcazito íncola de BTTcicleta fazendo zig-gincana-zag pelas palmeiras de plástico que à pressa mandou plantar à frente do aterro a céu-aberto. Oh sim! O Verão é bom! É bom como um sonho que só há-de acabar quando nos esquecermos de que dormimos a vida.

4 Por falar em vida, não sei se já Vos disse que conto tê-la, à vida, e ela a mim, por mais 26 anos de hoje em diante. Dito assim, parece o que é: pouco. Mas ao menos não me há-de custar um milhão por ano, como parece querer fazer-nos crer aquela miudagem prestidigitadora do Excel (nunca Excelente) que me(n)tem águas & milhões à frente de burros, bacalhaus, coelhos & demais patetas arvoradamente bondosos – tudo malta a quem, malgré tout & enfim, desejo Verões enxutos & sonhos molhados até ao feliz ano 2045 de vez & para sempre sem mim, página que hei-de ser, limpa & finalmente, em branco.  

Republicação de O Caso da Moral da Porca - in Quinzenário TREVIM, edição de 21 de Julho de 2016



O CASO DA MORAL DA PORCA



O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.


Thursday, July 14, 2016

Rosário Breve nº 465 - in O RIBATEJO de 14 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt



Crónica chocalhante



Raramente vou a hipersuperfícies comerciais. Aliás, nunca vou – levam-me. Não é por religião, não é por intelectualite – é só porque não & apenas porque sim. Quando quero ver rebanhos, vou à serra ou ao campo. A frívola transumância humana não me atrai. Na terça-feira, todavia, lá fui a uma hipercoisa dessas. Fui, não – levou-me a senhora minha mulher.
Era o que tinha de ser: um antro plástico cromado, espécie de nave colossal cujas entranhas estão fechadas ao sol. Roupa com palavras inglesas. Crianças clonadas a partir de matrizes tv-formatadas. Casais-carrinhos, todos com evidências de terceiras ou quartas-núpcias. Velhas pintadas como galos-de-Barcelos. Avôzinhos que vêm trocar dois meses de reforma por um par de sapatilhas xispêtêó para o netinho-nike. Máquinas rápidas. Salários-mínimos basbacando ante montras de inutilidades faustosas. Cuecas de marca mais caras do que o meu fato de casamento. Balões sem infância. Nenhuma igualdade, mas tudo igual. Tudo idêntico, mas sem identidade. Aborreci-me.
O paliativo foi ir para a zona dos fumadores, que é na rua. Os imortais, vulgo não-fumadores, ficaram todos lá dentro, enferrujando nos curros inoxidáveis. Cá fora, em torno & no subúrbio dos dois cinzeiros verticais de boca larga, éramos sete.
Éramos os sete: este Vosso servidor, a cavalo de um Camel; mais uma ruiva de mentira-coiffeur que chupava uma palhinha branca de filtro asséptico; mais um gordo de ar triste que levava a cigarrilha-creme à boca como se martelasse uma cavilha nos queixos; mais um magriço com ar de médico arrependido de não ter estudado poesia trovadoresca fumando Português Suave; mais um que trabalha como acordeonista numa escola de cegos & fumador de Kentucky; mais uma mulata esplendorosa (esplendor de rosa) de olhos verdes & de para aí uns sete metros de altura mais uns dois de peito fumando Dunhill; e ainda um rapazito inquieto que esperava acabássemos de fumar sem ser até à beata para poder fumegar, ele também, qualquer coisita.
Era a Modernidade. A Europa. A Social-Democracia-Cristã. O Futuro. O Bocejo. Valeu-me a volta da mulher minha senhora.
Era já o entardenoitecer. A brisa refrescava a visão de salgueiros beira-fluviais. Decidimos não ir logo para casa. Por um destes caprichos que de motivo não precisam & razão não usam, cirandámos a brando gasóleo pelas cercanias pós-municipais. Almejámos um tasco rural onde costumam acender carvão debaixo de peixe fresco. O vinho branco da casa, apalhetado de riscas oblíquas que ouriçam o palato, espuma de capitosa epilepsia pela boca bojuda do jarro de louça. Acampámos cá fora, entre grades vazias e operários cheios de fadiga sã.
Nisto, deu-se música natural. Espreitámos: balindo chocalhos, um rebanho tornava às cortes ao cabo de um dia de prado. Cão & pastor saudaram à passagem – o pastor levando indicador e médio à boina, o cão mijando na roda da carrinha do padeiro.
Pois. É mesmo verdade. Raramente me deixo hipercoisificar. E não é por religião, nem por intelectualite – é só porque nem mé nem meio mé.

Thursday, July 07, 2016

Rosário Breve nº 464 - in O RIBATEJO de 7 de Julho de 2016 - www.oribatejo.pt





Ver para querer



Revisito com regularidade o século passado. Faço-o menos por nostalgia do que por necessidade de uma arqueologia crítica do presente. É uma demanda – mas não uma demanda temerária ou templária. Chamemos-lhe curiosidade.
Num clarão, eis-me em pleno Terreiro do Paço. Mataram ainda agora o Rei. A barafunda silva de espadeiradas aleatórias da guarda, de desmaios de senhoras, do tropel caótico dos basbaques. A Rainha esbraceja o ramalhete de flores furiosas. A cena sossega depressa – como tudo neste País.
Noutro flash, ardem ao sol cru os latifúndios cerealíferos a Sul. O território refracta a luz intensíssima: é uma insolação de miragem, uma hipnose eléctrica, um estupor de sobrevivência. Freima de cigarras. Pouquíssima gente – e uma árvore solitária aqui, outra quase em Espanha já.
Amordaçadas as carbonárias e as maçonarias, resultou em pleno o contragolpe católico daquilo de Fátima. Ao frenesi esquizo da I República, sucede a paz podre do cinzentismo totalitário. Embarca-se muito para outros morredouros: áfricas, brasis, cus-de-judas sem retorno.
Mas: Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria? Lisboa. Cercar os mouros. Contemporaneidade de cravos & pides. Não matam o Rei, desta vez. Brandura. Ligeiro desassossego dUSAmericanos, que o Carlucci e o Soares consertam depressa. Europa nos Jerónimos. Primeiras hipersuperfícies. Jornais em sacas plásticas. Inteligências idem.
Ano 2000. Afinal não acaba o mundo. Nem a superstição. Acabam só o século & o milénio. Mais máquinas para comunicar, menos comunicação pessoal. Ensimesmamento da tecnojuventude, autismo dos explorados. Um por cento a lixar os restantes noventa e nove. Ná – melhor voltar ao ponto de partida.
Terreiro do Paço. Levaram já para o Arsenal o Rei, o Príncipe Herdeiro e os dois Matadores. Dão sais ressuscitadores às senhoras. Canadas de aguardente fervem nas tabernas. No Tejo, as barcaças amarradas quási não ondulam. Sabe-se difusamente que alguma coisa mudou para sempre. E essa coisa é o fim da inocência que nunca houve.
Vem a Grande Guerra. Mal preparada, mal equipada, lá vai a expedicionária carne-para-canhão. La Lys. Heroísmos de pandeireta. Anonimato dos mortos aos milheiros. Vem a nova Guerra Grande. Desta vez, a populaça abriga-se na frígida sacristia em que o País se tornou. No campanário, o Mocho-Mor treme: que (des)farão do meu fascismozito de missal? Nada. O penico ibérico das duas ditaduras pode continuar a receber a mijoca da indiferença mundial.
Mas: Que será isto tão cedo na madrugada? Carros pesados saindo de Santarém. Aonde será a romaria?
Sim. É com regularidade que revisito as catacumbas. O histórico não é morto. Nem é palavra vã. É preciso saber como foi, como deveria não ter sido. E como pode ainda ser.
Estabelecido isso, é esfregar a vulgata da consciência nas fuças dos Alemães. A começar, pelos Alemães. E a continuar por onde quisermos.
Se quisermos.
Quando quisermos.
 




Thursday, June 30, 2016

Rosário Breve nº 463 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Da arte do chá

1 Parece que a última Convenção do Bloco (dito) de Esquerda ofereceu ribalta a uma farsola triste: a da assuada de que foi alvo a delegação, aliás convidada, do Syriza. Achei mal os apupos como o caraças. Para mim, ninguém lhano, ninguém gentil, ninguém cordato, ninguém bem educado – humilha, achincalha, indispõe &/ou enxovalha a quem, chamado por alguém, à casa de alguém acede. Os meus Pais sempre me inculcaram a evidência de ser o gesto a valer a mão, não o anel a valer o dedo. Catarina: o que aos gregos fizeram (pelo menos parte dos bloquistas com assento na plateia), justapõe duas em uma palavra só – má-criação. Não tem a ver com esquerda. Não tem a ver com direita. Não tem, sequer, a ver com política. Tem a ver com um pouquito mais de chá & com um bocadito menos de erva-fumada-para-rir na idade supostamente adulta. A dita assuada apupa-vaiante do BE ao Syriza fez-me, todavia, bem. Fez-me bem ao fazer-me, como me fez, voltar ao convívio do grande Poeta latino que Horácio foi, é & há-de ser. E a Horácio porquê?
2 Porque Horácio escreveu (cf. Epístolas, Livro II, 1.156): “Græcia capta ferum victorem cepit”. Em nosso Português: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor”. Mas fará sentido ser, ante malcriados, citador do imorredouro legado horaciano? Fará. Porquê?
3 Porque citar um latino a propósito de gregos causa sempre certo frisson erudito. Impressiona sempre os coríntios. Engasga sempre os zebedeus. Faz sempre tossir à bruta os fumadores de palha magrebina. E faz sempre estacar em gelo os adoradores do fogo fácil: aquele fogo que queima sem saber que um dia tudo arde. Que um dia tudo arde para pedagogia finalmente adulta de certa parte da plateia do BE.
4 Entrementes, numa certa ilha não longínqua da Convenção catarinista, o Reino (des)Unido pôs-se na alheta/de frosques/vila-diogo do projecto pan-europeu nascido do pós-II Guerra Mundial. Sem pedir licença à miúda do Bloco, o mais vulgar cidadão cockney , nostálgico talvez de bifes de vaca não-louca, procedeu à edição de si mesmo em separata do breviário franco-alemão + ex-soberanias-cachopitas-satélites como por exemplo nós-Portugal. O que os Britânicos referendaram hoje será anteontem no dia a seguir a amanhã. Só isso. Ninguém sabe o que a seguir virá. Só eu sei. Só eu sei por que não fico em casa com o que sei. Saio de casa e venho a esta derradeira página do jornal berrar o que sei. Não é da realidade-Brexit-e-agora,-UE? que falo. É de Horácio. É de Horácio & é para aquela parte malcriada do BE. Trata-se do resto da citação do Poeta nascido a 8 de Dezembro quando faltavam 65 anos para o Cristo da manjedoura. Por causa disto: ao receber tão arruaceira & tão infelizmente em sua própria casa os convidados gregos, parte dos bloquistas neófitos da-coisa-depressa-mas-da-causa-devagar merece saber o latinório todo. O qual é: Græcia capta ferum victorem cepit et artes/Intuit agresti Latio”. Ou seja: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”. Ora, quem diz Lácio, Catarina, diz (des)União Europeia. Porquê, Catarina?
5 Porque, Catarina, a boa-criação é adereço comportamental da arte do chá, arte a que os Gregos, miúda, nem sempre chamavam cicuta

Rosário Breve nº 463 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Da arte do chá

1 Parece que a última Convenção do Bloco (dito) de Esquerda ofereceu ribalta a uma farsola triste: a da assuada de que foi alvo a delegação, aliás convidada, do Syriza. Achei mal os apupos como o caraças. Para mim, ninguém lhano, ninguém gentil, ninguém cordato, ninguém bem educado – humilha, achincalha, indispõe &/ou enxovalha a quem, chamado por alguém, à casa de alguém acede. Os meus Pais sempre me inculcaram a evidência de ser o gesto a valer a mão, não o anel a valer o dedo. Catarina: o que aos gregos fizeram (pelo menos parte dos bloquistas com assento na plateia), justapõe duas em uma palavra só – má-criação. Não tem a ver com esquerda. Não tem a ver com direita. Não tem, sequer, a ver com política. Tem a ver com um pouquito mais de chá & com um bocadito menos de erva-fumada-para-rir na idade supostamente adulta. A dita assuada apupa-vaiante do BE ao Syriza fez-me, todavia, bem. Fez-me bem ao fazer-me, como me fez, voltar ao convívio do grande Poeta latino que Horácio foi, é & há-de ser. E a Horácio porquê?
2 Porque Horácio escreveu (cf. Epístolas, Livro II, 1.156): “Græcia capta ferum victorem cepit”. Em nosso Português: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor”. Mas fará sentido ser, ante malcriados, citador do imorredouro legado horaciano? Fará. Porquê?
3 Porque citar um latino a propósito de gregos causa sempre certo frisson erudito. Impressiona sempre os coríntios. Engasga sempre os zebedeus. Faz sempre tossir à bruta os fumadores de palha magrebina. E faz sempre estacar em gelo os adoradores do fogo fácil: aquele fogo que queima sem saber que um dia tudo arde. Que um dia tudo arde para pedagogia finalmente adulta de certa parte da plateia do BE.
4 Entrementes, numa certa ilha não longínqua da Convenção catarinista, o Reino (des)Unido pôs-se na alheta/de frosques/vila-diogo do projecto pan-europeu nascido do pós-II Guerra Mundial. Sem pedir licença à miúda do Bloco, o mais vulgar cidadão cockney , nostálgico talvez de bifes de vaca não-louca, procedeu à edição de si mesmo em separata do breviário franco-alemão + ex-soberanias-cachopitas-satélites como por exemplo nós-Portugal. O que os Britânicos referendaram hoje será anteontem no dia a seguir a amanhã. Só isso. Ninguém sabe o que a seguir virá. Só eu sei. Só eu sei por que não fico em casa com o que sei. Saio de casa e venho a esta derradeira página do jornal berrar o que sei. Não é da realidade-Brexit-e-agora,-UE? que falo. É de Horácio. É de Horácio & é para aquela parte malcriada do BE. Trata-se do resto da citação do Poeta nascido a 8 de Dezembro quando faltavam 65 anos para o Cristo da manjedoura. Por causa disto: ao receber tão arruaceira & tão infelizmente em sua própria casa os convidados gregos, parte dos bloquistas neófitos da-coisa-depressa-mas-da-causa-devagar merecem saber o latinório todo. O qual é: Græcia capta ferum victorem cepit et artes/Intuit agresti Latio”. Ou seja: “A Grécia dominada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”. Ora, quem diz Lácio, Catarina, diz (des)União Europeia. Porquê, Catarina?
5 Porque, Catarina, a boa-criação é adereço comportamental da arte do chá, arte a que os Gregos, miúda, nem sempre chamavam cicuta

Thursday, June 23, 2016

Rosário Breve nº 462 - in O RIBATEJO de 23 de Junho de 2016 - www.oribatejo.pt

Querendo, leiam só o ponto 6

1 “Recapitalização”. É novo eufemismo para “reiteração de roubalheira”. Aplica-se, agora, à Caixa Geral de Depósitos. A coisa pública. Até agora, parecia coisa exclusiva dos bancos privados. Aqueles que, havendo outrora lucros, gozavam privadamente deles. Aqueles que, havendo agora prejuízos, gozam publicamente da tal “recapitalização”. Um vento de insanidade devasta sem obstáculos a banca à portuguesa. E vai tudo dar ao mesmo. E vai tudo dar aos mesmos.
2 Uma mulher desconfia de andar a ser corneada pelo marido. Vai daí, afoga o próprio filho de ambos. Não consigo descortinar a relação causa-efeito. É como se, de repente, a realidade portuguesa se tenha posto toda a imitar o Correio da Manhã.
3 Recentemente, uma senhora apontou-me o dedo indicador: “O senhor só escreve coisas pessimistas.” Foi o que o dedo me disse. E eu, que tenho por norma não chamar “idiota” a uma senhora, acabei sofrendo a desconfiança de ter começado este mesmo ponto 3 chamando “senhora” a uma idiota.
4 Sem convite, uma recordação irrompe-me redacção adentro: a daquele dia em que a minha Senhora & eu fomos a Santarém visitar o meu cunhado Zé Carlos. Dei uma volta anónima pelo burgo. Fixou-se-me à retina o lixo, o mesmo que agora é bárbara moda incendiar nos contentores. Pelas ruas, as imundícies voavam baixinho como os crocodilos. Garrafas de plástico. Sacos da mesma matéria. Cascas de melão. Fotografias rasgadas. Livros do Rodrigues dos Santos e do Paulo Coelho. Alarmes internos da Caixa Geral de Depósitos. Classificados de massagistas do tal Correio da Manhã. Esse dia já lá vai e cá não volta. Recordo todavia o regresso: deu-se por terras mais limpas, mais lavadas, menos sujeitas à incúria insensata que propicia comportamentos de intolerável vandalismo anti-cívico.
5 Devagarinho e silencioso como um gato, o Verão acabou chegando. É como se o nosso vizinho Norte de África tivesse de repente escancarado o portal do forno. Toda a gente sabe que Outono & Primavera são coisas que já não existem. A Madre-Natura já só exerce o maniqueísmo: ou invernia agreste, ou estiagem canicular. A moderação temperada esticou o pernil. Sofro pena disso. À brutalidade centígrada, prefiro o que já não podemos ter: a sombra humanista da rendilhada latada de cachos, o suavíssimo favónio beira-fluvial de ir ali com a mulher às cerejas. Mas o real não é dado a versos. Nem para eles caminha.
6 Caminho eu para sábado próximo. Será 25 de Junho. Pelas quatro da tarde dessa jornada, procederei à apresentação pública de um livro chamado Júlio Dinis – As Pupilas do Senhor Escritor. A obra tem autoria do nosso Joaquim Jorge Carvalho, que no também nosso O RIBATEJO assina semanalmente, a páginas cinco, a coluna Zona dos Perecíveis. É a tese de doutoramento deste meu máximo Amigo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Acontecerá no esplendoroso Café Santa Cruz, paredes-meias com o vetusto templo do mesmo nome. Em boa hora, por bom motivo. E por à meia-dúzia ser mais barato, neste exacto ponto 6 dou provimento de fecho à crónica – quanto menos não fosse, para contrariar a senhoril idiota do ponto 3.




CONTRA OS CANHÕES n.º 5 - in Quinzenário TREVIM de 23 de Junho de 2016

Assunto com janela

Era um homem que tinha e mantinha um gato. O gato era velho, o homem também. Ambos respiravam, comiam e dormiam numa casa do extremo da aldeia. Pela chaminé descia a voz dos pássaros. O gato, enroscado na cama de jornais, abria um olho e recordava caçadas jovens. O homem tinha umas chinelas de pano onde guardava os pés magros. No fogão a lenha, cozia um pedaço de carne entre feijões e couve. Dividia o caldo e a carne com o gato, fazia café, que o gato não apreciava, ficava-se a ver as brasas com um cachimbo de ébano na boca. No mundo de fora, o vento levava a chuva e as folhas a passear pelas alturas.
Um dia, o homem ficou muito doente. O gato percebeu logo. Enroscou-se-lhe aos pés e esperou. O homem não melhorava. O tempo, sim. Cá fora, o sol fazia filmes com os pinheiros, a brisa embebedava as andorinhas, o cheiro da resina tomava conta da madeira perpétua das horas.
O gato levantou-se, saltou da cama e procurou uma saída. As portas e as janelas estavam fechadas. Todas elas. O gato falou, então. Emitiu aquela frase crescente que sobressalta o coração. Há um tigre em cada gato. O homem não reagiu porque estava todo ocupado a morrer. O gato cheirou a presença autoritária do fim do homem. Eram velhos, tinham tido tempo para compreender que se morre de tanto estar vivo.
Pulou para a cómoda e atirou-se pelo vidro. Na rua, entre cacos, o gato olhou a esquerda e a direita. Tinha de decidir-se por um lado.
Na cama, o homem sentiu o ar que entrava pela janela partida. Louvou intimamente a sabedoria do seu gato. Deixou-se estar, não lamentando nada, esperando apenas que a sua noite interior arranjasse maneira de fechar aquela janela, levando-o para longe de uma primavera que já não era para ele, uma primavera que, exclusivamente, era um assunto de tigres.