Thursday, January 12, 2017

ANDAR AOS PAPÉIS - Rosário Breve nº 488 - in O RIBATEJO de 12 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt




Andar aos papéis


1 Até que enfim fui capaz de sintetizar na perfeição a minha vida: relê o título desta crónica, Leitor(a). Sem mais nem menos, é o que lá está. Talvez eu nem devesse confessar-me assim tão ingenuamente. Quiçá. Não (me) importa. Eu ando aos papéis. Toda a vida and(ar)ei. Daí (e daqui vai outra ingenuidade confessional) o meu cagaço de algum badagaio que um destes dias se me dê na rua, um daqueles fulminantes que fazem a boca ficar ao lado de mais lado nenhum, sabes, um ai-mãezinha do tipo desta-p’ra-muito-melhor-que-pior-também-há-de-ser-fácil. Mas olha: não cuides tu que é por eu ter medo da morte. Não é. Não tenho. Se muito não erro, há-de ser tão irrisória a morte que me leve quão a vida que tenho levado. Não hei-de ser desses grandes mortos de funerais de três dias. Não é por aí. É por aqui: o meu cagaço do badagaio é que pela rua se me espalhem os papéis enquanto se me estica o perfil, perdão, o pernil. Os papéis? Estes a partir dos que aranho & emaranho as babas & os fios da teia de (escre)viver. Exemplos? Muitos. Posso (e vou) referir-te alguns – embora a vergonha me torne escarlate a bochecha do lado são que o chilique ainda não tolheu. São gatafunhos de inquilino de dispensário psicodoido, daqueles de camisa-de-onze-forças-de-varas, de perpétuo desatarraxado ao nível do parafuso neuro-sináptico. Pois serão. Mas sei que os queres ler. Lê, pois:
2 27/3/2011, Taça INATEL, Campo da Esc. Sup. Agrária Santarém / Jogo Juventude de S. Domingos-Raposense (2-1 no final) / S. Domingos é Abrantes, pop. aprox. 1006 hab., freg.ª Carvalhal / Na bancada: sr. Alfredo Duarte, velho, adepto da Juve, foi vendedor peixe congelado, quando jogador levou pontapé num dedo na Azambuja / Ao pé dele, sr. João Canaverde (cunhado?) / No tempo moço deles, prémio-jogo era duas bolachas-maria + copo vinho / Alfredo cozinhou há dias cabeça corvina c/ grêlos / Equipamento da Juve SD: camisola branca, calção encarnado, meia branca / Do Raposense: todo cor-de-laranja (nota poetizante: dizer que é, conforme o topónimo, “de imitação ígnea da raposa natural”) / São Domingos-Abrantes – distâncias aproximadas: Lisboa-160 km, Porto-270 km / Mais pessoal ao jogo: Pedro Sousa (explora rulote de comes-e-bebes como profissão) / Alexandre Branco (come bifana e bebe cerveja e mastigando diz que “crise há sempre crise, mas quando há 49 mil na Luz a ver um jogo então mas q’ais crise?”) Fátima Amaral (vendedora de rifas, prémios: 1 bicicleta, 1 telemóvel, 1 viagem aonde é que ainda não sabe dizer mas há-de ser a sítio lindo) / Artur Francisco, adepto Raposense, “acredito q’ainda empatamos” / Artesão Herculano Abreu, foi barbeiro, hoje em dia faz fisgas “para atirar engodo na pesca, não é para atirar aos árbitros”, um euro cada fisga. Referir fonte: programa TV “Liga dos Últimos”, report. Ricardo Garrido + Filipe Gomes (imagem).
3 Mais talvez-crónicas: a) Aquela senhoria doida que tive em 1999/00, a dos gatos remelosos que me batia à porta à meia-noite para esconjuro das almas-depenadas & e depois me levava mais 500 paus dos antigos pela botija de gás; b) inventar paleio para dicionário de vidro que, caído ao chão, se estilhaça em o’neill, perdão, mil palavidrinhas; c) inventar guarda-chuva para resguardo da água-dos-olhos que cai sempre quando nos morre alguém (aproveitar sobras estilísticas para crónica do funeral do Avô Carlos); d) gozar c’o Ricardo-pós-Moita da Câmara a pretexto seja do que for; e) citar o Antero naquilo da imitação implicar abdicação: “Um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida”; f) irritar-me mesmo a sério e ladrar mesmo a sério contra a mania inglesóide de coisas portuguesas para portugueses (como os corredores da noite em Santarém se chamarem coiso Night Runners); g) fingir que pedi a um amigo rico que pagasse uma capa-falsa a O Ribatejo mas ao Mirante e ao Correio não; h) em Abril que vem, centenário do nascimento do senhor meu Pai; i) no Maio seguinte, arranjar maneira não egocêntrica de assinalar dez anos de Rosário Breve; j) arranjar maneira airosa de manter viva a memória dos cronistas José Niza, Luís Eugénio Ferreira e Eurico Heitor Consciência mas sem cair no ridículo de imitar de um a acutilância, de outro a candura e de outro a graça; k) aplicar palavras ainda mais difíceis do que às vezes o abrantino & plumitivo tribuno Dr. João Salvador Fernandes; l) referir este par de mamas que ainda agora passou como “bolbosa sugestão dupla do leite de figo cristalizado em morango de bolo-rei” mas de maneira a que a minha mulher não perceba; m) velório do Avô Carlos: a álea de pereiras-de-inverno, as mulheres fazendo café e canja na cozinha da casa senhorial, eu com menos de oito anos a pensar nesta crónica sem saber que também como ele, também a um 3 de Março, a senhora minha Mãe andando por aí, ai-mãezinha, aos papéis.
Ou então, senhor Herculano Abreu, fisgas-canhoto.

Thursday, January 05, 2017

NÃO QUEIRAIS QUE CONVOSCO SONHE - in Rosário Breve nº 487 - in O RIBATEJO de 5 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt

Não queirais que convosco sonhe


1 Sou tido entre os meus Amigos, com justiça aliás, por incurável caturra pessimista. Não enjeito o apodo. O esfarelar dos anos tem-me agravado certa misantropia que acaba escorrendo para o que escrev(iv)o. Ontem à noite, por exemplo.

2 Ontem à noite, sozinho na sala, certo canal de televisão de popularucho sucesso escalpelizava ad nauseam (mais) um crime sórdido que metia o que é costume: personagens-faca & personagens-alguidar, violência doméstica etc. etc. Não era uma reportagem sobre factos – era, sim, um (hor)ror de diz-que-disse-parece-me-que-foi-o-que-ouvi-dizer. A aldeiazinha do cenário cheirava a cães magros à chuva. Tractores rebentados esbeiçando os córregos, milharais ferrugentos, poços a céu-aberto, taberna em dia de festa por andar por cá aquela televisão que “fala como nós”, velhas luzidias de óleo-de-fritar espalmando nos peitos bentinhos prantos digitais & criançolas completamente alienadas pela câmara histrionando momices emplastras nas costas dos entrevistados. Tudo, enfim, de uma portugalice irremediável, pobrete, alegrete, de uma frialdade de sacristia esfregada a lixívia pela perpétua irmã falsa do senhor padre.

3 E no entanto nada disto tinha nada de ser assim. Deveria tudo ser o avesso do que é. A minha geração, iluminada à saída da Escola Primária por aquilo dos cravos, só podia embarcar, com ligeireza mas sem leviandade, no culto da liberdade informada, no uso do livro, no pensar (sem penar) pela própria cabeça. Beneficiámos, afinal, da extinção de um regime obscurantista, armado, sentinela, desumano. O mesmo regime cujo sistema escolar publicava sem qualquer pudor coisas deste género:
“A população escolar pode e deve dividir-se em cinco grupos, a saber: Ineducáveis 8%; Normais estúpidos 15%; Inteligência média 60%; Inteligência superior 15%; Notáveis 2%”. Sem tirar nem pôr, era assim que eles impunham que fosse. Ora, quatro décadas depois do 25 de Abril temos todos a obrigação (até moral, até patriótica) de ser, pelo-menos-pelo-menos, médios. Nem Einsteins ao pontapé, nem galinhas bípedes. Mas a realidade é comandada por essa caixa-que-mudou-o-mundo – para pior. É ou não é? É.

4 Entretanto, fui visitado por uma outra espécie de notícia. Da minha terra original, informam-me que morreu o senhor Joaquim Pratas. Era um nonagenário de quem todos gostávamos muito. Tínhamos todos a semi-secreta esperança de lhe festejar o centenário. Alto como nem era costume entre os homens da geração dele, tinha sido nimbado pelos anos de uma espécie de aura litográfica de árvore antiga. Pai de uma dúzia de rapazes & raparigas (tudo gente decentíssima, garanto-vo-lo sem logro), levou-no-lo o Ano Novo. E agora digo-vos isto: eu sonhara com ele na véspera. Aliás: não sei se foi sonho, se aquela afiguração semiconsciente de pré-adormecido. Não voltei a pensar nele até me darem a notícia terminal, aquela que tudo salda, resolve, conta, arquiva.
O que daqui retiro, Amigos, é mauzito como a minha literatura: sonhar pode ser mortífero. Se eu fosse a Vós, teria cuidado comigo.



Saturday, December 24, 2016

PALAVREADO COM DISCRETO REMATE PESSOANO - in Rosário Breve nº 486 - in O RIBATEJO de 22 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Palavreado com discreto remate pessoano



1 A páginas tantas da sua História da Literatura Portuguesa, Teófilo Braga cita um tal “Caro”. Trata-se talvez (não tenho a certeza) de Elme-Marie Caro (1826-1887), filósofo francês que escrevinhava na célebre Revue des Deux Mondes. Nesse trecho, depois de enumerar os degraus da tomada de auto-consciência da humanidade (que se desanimaliza instituindo a família, a lei da cidade, a domesticação das espécies animais e das forças da Natureza), acontece uma ressalva notável: “(…) a civilização expulsando a barbaria, mas experimentando retrocessos terríveis desta barbaria, como por uma espécie de lei de atavismo que acorda, segundo nos dizem, de tempos a tempos no homem, os instintos ferozes de avós desconhecidos.”
Anotei a passagem, que agora dou à publicidade por partilha convosco. Para mim, são palavras que vingam pela infeliz actualidade: como se os séculos XIX & XXI se mesclassem os idênticos algarismos romanos por que são nomeados. Veja-se isto da Alemanha, mesmo agora: outro camião, outro assassino, outras vítimas mortais; isto da Turquia, com um assassinato em directo à hora da janta; isto tudo da Síria há tantos anos/séculos. Há pouquito, o Vietname, El Salvador, o Iraque, o Afeganistão, Timor-Leste – e mais uma imparável carrada de etc.
Não acho nada que a religião tenha a ver com isto. Trata-se do costume: petróleo, diamantes, narcóticos & matérias-primas essenciais ao forno devorador das grandes produções e dos consumos multitudinários. Trata-se da voragem do Poder, enfim. Deus, chame-se ele Alá ou Jeová ou Manitou ou Zeus ou Júpiter ou Inti ou Rá ou o Diabo por eles todos, pouco é para aqui chamado. Não alimento quaisquer ilusões quanto a isto. E não, não vou com o Pai Natal ao circo.
2 Então vou aonde? Vou, como os marinheiros fazem ao barco, pôr ao largo o coração. Como o que matou Bruce Lee não foi a brucelose, é descontraído que atiro as passadas aeróbicas rumo à minha doença favorita: ver o mundo local com olhos de lápis. É sempre maravilhoso. Exemplo imediato: passagem do Serafim das Arrufadas a bordo de um transatlântico novo – o titanic do dia é uma brasileira egressa de Goiás que ele conheceu durante um Sporting-Arouca ali naquele alterne logo a seguir às bombas da Repsol, vocês sabem e estão mesmo a ver. Adoro ver o desplante de satisfação reverberando nas trombas do Serafim: de Rôsemére do lado direito & a tilintar do esquerdo o porta-chaves do Mercedes importado de Frankfurt em sétima-mão (como a Rôsemére, aliás – digo: a sétima-mão, não a cidade das salsichas-de-lata). A felicidade é coisa tão pouquinha de tão fácil, pois então não é? O Serafim não é desses lingrinhas dados ao verso-livre ou às maluqueiras da pintura cubista, nem ao dodecafonismo intoleravelmente atonal ou ao polemismo azedo do tal Teófilo Braga. Não. O Serafim é feliz: instituiu família (tem dois filhos da Graciete Cabeleireira e um outro de uma estagiàriazita zarolha do Centro de Emprego), domesticou quatro cães, três periquitos, dois árbitros dos Distritais & uma porca para o S. Martinho que vem, anda contente com a nova Loja do Cidadão ao cabo de cinco anos-sant’engrácios, tem pára-raios no canhão da chaminé – todo ele é, enfim, um civilizado. Não é daqueles tristes que, tendo medo da própria sombra, nem sombra de si mesmos chegam a ser. Népias disso. Como ganha a vida com um esquema de facturas-falsas que não dá trabalhinho nenhum & é sempr’àviar, é muito gajinho para singrar na política, tipo presidente-da-junta ou menos.
Quem quiser provas de que só digo a verdade, toda a verdade & nada menos que a verdade, que vá com o Serafim ao circo: mas do flanco esquerdo dele, que à direita vai a Rôsemére navegando.
E é de coração-ao-largo que navegar continua a ser preciso.


Thursday, December 15, 2016

22 DEZEMBROS NA MELHOR COMPANHIA - in Rosário Breve nº 485 - in O RIBATEJO de 15 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt





22 Dezembros na melhor companhia



Mantenho desde 1995 um registo minucioso de leitura(s). A esse acervo vou de quando em volta acender lume na obscuridade do tempo que passa. Acontece-me muito, aliás, proceder a re-leituras por causa disso: como lerei nesta idade o que em outra mais moça li? Desta vez, porém, revisito o caderno para dar cabedal retrospectivo à presente crónica. Catarei apenas alguns títulos – e apenas dos 22 Dezembros entretanto acontecidos.
A 15 de Dezembro de 1995, concluí a frequência de Seis Propostas para o Próximo Milénio, do brilhantíssimo Italo Calvino – cá está uma releitura a fazer em breve.
A 12/XII/96, cheguei ao cume da Montanha Mágica, de Thomas Mann. É obra monumental, que relerei também – e sem qualquer receio de me parecer, duas épocas volvidas, menos montanhosa.
Dezembro de 1997 foi mês-Cortázar: leituras de El Examen (a 17) e de Octaedro (30), além da já então re-leitura de Blow Up e Outras Histórias (também a 17). Tal como Calvino & Mann, o grande Argentino é santo cativo do meu bibliómano altar pagão.
Dezembro/98 começou da melhor maneira: a 8, Peregrino e Estrangeiro, da maravilhosa Marguerite Yourcenar.
Na madrugada de 28/XII/1999, concluí a primeira volta integral ao magnífico Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, do nosso boníssimo Manuel António Pina.
O derradeiro mês do ano 2000 foi ocasião propícia para o usufruto de uma obra-prima: a 23, Conversa na Catedral, do peruano Mario Vargas Llosa. Livro profundíssimo, de fortíssima construção.
Na última madrugada de 2001, tive a companhia de uma Senhora. Esclareço: companhia por correspondênciaEngano Astucioso, da ladina Ruth Rendell.
Em Dezembro de 2002, li muito Maigret /Simenon.
Um ano depois, aprendi muitíssimo com um brasileiro que é para aí umas cem (ou mil) vezes melhor cronista do que eu: Luiz Fernando Veríssimo – a 4, Comédias da Vida Privada (101 Crónicas Escolhidas); a 29, Novas Comédias da Vida Privada; nos entrementes veríssimos, papei, a 21, do também brasileiro Fernando Sabino, o excelentíssimo romance O Encontro Marcado.
Acelerando ora o passo antes que o espaço se me acabe:
de Dezembro de 2004, destaco O Ente Querido, de Evelyn Waugh (a 6) e La Symphonie Pastorale (a 21), de André Gide;
XII/2005: teatro do insigne Harold Pinter – O Quarto (a 21); Feliz Aniversário (a 27); O Serviço, a 29;
XII/2006: dentre o mais, a biografia Joan Manuel Serrat, belo cantor catalão (d)escrito pelo gigante, e catalão também, Manuel Vásquez Montalbán (a 26);
XII/2007: andei mormente pelas anglografias – o fantástico (na dupla acepção do termo) E.A. Poe, mais H. Walpole, S. Warren, Prosper Mérimée, E.P. Oppenheim, A. Berkeley, juntando-se a estes insignes senhores o casal Cole (George Douglas Howard & Margaret);
na tarde de 8/XII/2008, li Sobre Não Estares, do nosso Joaquim Jorge Carvalho;
na noite de 28/XII/2009, foi a vez de O Livro da Confiança, de um senhor padre chamado Thomas de Saint Laurent;
o último livro consumido em Dezembro/2010 foi, na noite de 16, de uma estrela literária alemã, Peter Handke de sua graça: Uma Breve Carta para um Longo Adeus;
em 2011, excelentíssimo início do mês terminal: Crónicas de Fernão Lopes (escolhidas e anotadas pela sábia senhora D.ª Maria Ema Tarracha Ferreira).
[Calma, que estamos quase a chegar ao presente.]
2012, dias 4, 10, 13 & 27/XII – viajei pelo Portugal Século XX - Crónica em Imagens, com direcção de Joaquim Vieira para o Círculo de Leitores: é obra monumental que (nos) abarca como Povo de 1900 a 2000, à razão de um volume por década – finíssima síntese documental;
Dezembro de 2013 foi de altíssimo quilate – frequentei com grande proveito, se aproveitamento não, Guy de Maupassant, Brecht, D.H. Lawrence amaila densíssima senhora que houve por nome Virginia Woolf: respectivamente, Bel-Ami (a 6), Histórias de Almanaque (a 12), O Raposo (a 14) & Um Quarto que Seja Seu (a 30);
dos demais de Dezembro/2014, sublinho, do magnífico historiador francês Georges Duby (grande escritor!), As Damas do Século XII (a 12), e a Correspondência 1905-1922 do nosso Fernando Pessoa, a 17.
Já em Dezembro do ano passado, calhou a vez a um bom achado d’alfarrábio que entretanto fizera numa banca de rua (por um eurito): La Crise de la Démocratie Contemporaine, obra ominosamente saída em 1931, ou seja, no imediato pré-hitletarianismo, da autoria de um tal Joseph-Barthélemy.
No corrente mês do ano que, areia entre os dedos, se nos acaba, li finalmente de ponta a ponta Os Simples, do nosso poeta Guerra Junqueiro, lírica precedida de um precioso ensaio de Moniz Barreto intitulado A Literatura Portuguesa no Século XIX.
Hoje, quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016, estou a ler o noss’ O Ribatejo. E tu também. 

Thursday, December 08, 2016

FALA O CRÓNICO - in Rosário Breve nº 484 - in O RIBATEJO de 8 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Fala o crónico



Uma volta sem pressa nem ânsia dei por beira-rio, já a tarde declinava o latim do recolhimento de si mesma. Visto de fora, levava-me um corpo como todos: saco de vísceras atado em cima por um olhar em constante retrocesso daquilo a que os pios chamam alma mas os ímpios, lembradura. Desafeito a procurar o que seja ou a esperar o que for, não levava tema nem me traziam motivo, fito ou assunto para a crónica. Ia por ali disponível às possibilidades combinatórias do mundo local – o qual, por artes & manhas do pensamento matizado de doideiras líricas, nunca é apenas o chão que se pisa ou o céu que se não voa, nem apenas o plátano de que se partilha o ar vertical, nem tão-só a imitação de rio que cada um é porque feito quase todo de água também.
Como os doidinhos-mansos, é verdade que me fui apanhando a sorrir sem interlocutor visível, por exemplo ao ocorrer-me aquilo do ex-casamento que tanta má-língua faz salivar por edis terras de Tomar, ou aquilo do afiar-navalhas-amolar-tesouras pró-Autárquicas-2017 por bandas de Abrantes (na forja laranja mormente), ou pela fatal Santarém em que se pranteia (mais uma) degradação a céu-aberto (cf. pavilhão desportivo), ou aquele anedótico tiro-no-pé da petição anti-vinda do Papa a Fátima, ou in Cartaxo a confessa & assumida desunião que grassa entre as corporações bombeirais do distrito, ou o anacronismo da velha ponte entre a Chamusca e a Golegã mais estreita do que a minha carteira, ou o fétido cancro em que o Tejo se volve mercê de um punhado de gananciosos que se não reconhecem feitos da mesma matéria dos rios, da chuva, do mar – que formas são todas do colostro mater-universal.
A todo este rol enxotei porém como a moscas desalmadas. Se por mim o mundo se não perde, também por mim se não salva. Esperto, fui auferindo a branda brisa que em pleno voo caduco rodopi’anim’ava das árvores as folhas terminais: belo é o strip-tease outonal. Abanquei o rosto-de-baixo em uma afável & amável esplanada servida por & de raparigas. Já o entardenoitecer esp(o)alhava derredor sua sangria de açúcar colorido. Era um daqueles instantes sem data que nos maculam de nostalgia: espécie de eternitarde tardia & não-eterna. Aí te apercebes sem esforço de teres nascido sem que to perguntassem & de ires morrer sem que te respondam.
Por precaução posológica, receitei-me uma cerveja fria, de que me ungi qual cristão mui dado à comunhão da fé-33-centilitros. Fui amainando os meus cavalos íntimos até uma espécie de dormência sem pecado nem humilhação.
Um toque no ombro – fecham cedo, à semana. Paguei com as últimas moedas da terça-feira, rederivei o retorno pelas pègadas da vi(n)da, achei-me recomposto em formato de última-página: é-me crónico que a crónica acabe acontecendo.
Para minha boa-sorte, no postigo da página só se me vê o olhar, não o saco visceral que ele ata com guita de lentes bem mais progressivas do que eu. Do que eu – e do que uns quantos que em Tomar, Abrantes, Santarém, Fátima, Chamusca, Golegã & Cartaxo, de Tejo à vista, etc. etc. etc.


Thursday, December 01, 2016

SIMPLESMENTE MARIA - (republicação) - in Rosário Breve nº 483 - in O RIBATEJO de 1 de Dezembro de 2016 - www.oribatejo.pt





Simplesmente Maria




O título desta crónica é copiado.
Era como se chamava uma fotonovela (tenebrosa como todas as foto, rádio e telenovelas) que na minha infância enfraqueceu as coronárias a muita costureira. Directamente provinda da pobreza, a Maria em questão chegava à cidade montada num burrinho delicodoce, alcançando, depois de peripécias mil ou novecentas, o clímax e o casamento. Não m’alembra o resto da história, pelo que passo a especular.
Tudo acaba quando acaba em casamento. Ou não? Dissestes vós alguma coisa? Não? Posso continuar? Enfim, agora que o meu outono particular começa amarelecendo até as folhas dos cadernos onde lapijo estas histórias irremediáveis, dou por mim pensando em Maria. Deve ser ela, hoje, mulher dos seus cinquenta e muitos. O mais certo é ter-se separado do engenheiro ou médico ou arquitecto ou advogado de sonho com quem, então, aliançou suspiros. Deve ter-se fartado das patilhas dele, do apartamento em Santo António dos Cavaleiros, das pontas arrefecidas de Ritz a boiar no laguinho triste da sanita. Talvez ele lhe tenha prometido um futuro de manteiga que com os anos se volveu margarina, simplesmente margarina. Quase aposto que ele teve e manteve amantes enquanto ela se aborrecia no cabeleireiro a erguer vasos de cabelo à senhora Knorr e à senhora Maggie e à senhora Vaqueiro e à senhora Dabri e à senhora Tokalon e à senhora Creme Byly. Mas também pode ser que, aos cinquenta e tal, se tenha ela arranjado com um rapazinho directamente provindo da pobreza para tentar na cidade uma carreira de cantor pleibeque ou coisa assim. (O bom de escrever é que tudo pode ser.)
O futuro torna-se, com o passar dos anos, menor do que o passado, essa é que é essa. O passado é o sítio mental onde as donzelas pobres, escarranchadas em burrinhos, continuam chegando à cidade pirilampada de reclamos luminosos na noite cosmopolita. E é também, bem mais bastas vezes do que gostaria, o meu sítio. Nele busco, com a ponta do lápis, as referências mais ínclitas, os mais egrégios avós, os heróis de um mar a que basta somar ia para dar Maria.
Maria que, sozinha de novo, liquida o salão de cabeleireira e regressa, não de burrinho mas de Clio, às berças natais. A taberna tornou-se snack, o padre já não é Sacramento mas Eliseu, a primária fechou por falta de crianças, o outeiro onde as cabras pastavam com lenta filosofia está agora crivado de rápidas maisons fechadas onze meses ao ano, a avó de Maria simplesmente morreu de ter noventa anos há mais de trinta, os cães já não comem broa e o pai de Maria, que lhe perdoou a fuga, lacrimeja pingentes de velho comovido à aparição da filha, cujo telemóvel começa a tocar quando ela o abraça.
Estou, sim pois, é assim, agora já não dá, não, se voltar é porque acabaste de vez com essa sirigaita, tu é que sabes, tu é que sabes, só tenho de saber que acabas de vez, é assim, isso e as beatas no laguinho triste da sanita, caso contrário não dá, Bernardo. Bernardo promete que dá.
O passado acaba sempre bem.

Thursday, November 24, 2016

A IDADE DE DEUS & A MINHA - Rosário Breve nº 482 - in O RIBATEJO de 24 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

A idade de Deus & a minha

Uma boa maneira de haver menos idiotas no mundo é não fazermos mais filhos às mulheres deles. Digo-o eu, assim um bocadito co’s nervos. Mas só um bocadito: na minha idade, é bem mais curial cansar-me galgando escadas do que dando fôlego à globalizada imbecilidade que pelo mundo campeia e ao mundo infesta.
Ah, tivera eu hoje menos uns vint’anitos no couro que decerto me indignara mais & com mais férrea força ante tanta incomunicação-dita-social do jornaleirismo-croquete em voga. Sabeis? A gula dos mirones ante as sessões de porrada Carrilho-Bárbara. A gosma dos voyeurs perante as neonamoradas do Futebol Pinto da Costa & do Sporting Carvalho do Bruno. O frisson do galinhedo paraliterário cacarejando o-Dylan-merece-o-Nobel-porque-sim-sim-senhores e/ou por-causa-disso-é-que-o-Leonard-Cohen-morreu-de-desgosto e/ou/ainda com-a-azia-o-Lob’Antunes-já-deve-andar-a-sonhar-com-pelo-menos-um-Grammy-para-o-ano-que-vem.
E depois, aquela farruscada toda da questão dos taxistas (de Lx., note-se) co’ a Uber & a Cabify, a qual só me desperta uma ilação de pronto & evidentíssimo teor homofóbicoiso e que é a seguinte: nunca é de confiar num gajo que nos deixa ir atrás. Ou então aquela que mete meninas: o Instituto Nacional de (ment’)Estatística revela que em Lisboa existem 189 meninas virgens por cada taxista sério – mas só há prova confirmada de 188.
Mais: a clara & flagrante certeza de as praxes estarem para a dignidade académica como o Relvas para a mesma. Isto por causa de uma equivalência que me parece clara como aquilo à volta da gema do ovo: se o analfabetismo funcional fizesse ondas, o ensino-dito-superior português seria um tsunami de alto-lá-co’-baile-e-pára-o-charuto.
E a carneirada das selfies? Não V. faz impressão, nas tragicomediantes redes-alegadamente-sociais, aquela malta toda só com um braço? O problema de tanta clonestupidez é afinal napoleónico: por causa do seguidismo, vai tudo para (o) maneta.
E a rábula do declara-não-declaro-nada-o-património dos indigitados (tu)barões daquela Caixa que dizem ser nossa? Ide por mim: fornicar os ricos não é sexo – é amor.
Ainda há pouco, era voz-corrente esta barbaridade acéfala: “Taxar os gajos de 500 mil euros p’ra cima é matar o investimento.” Ai é? Ai é? E fomentar o desemprego é o quê, ó cáfila de cornúpetos descalcificados?
Cá p’ra mim, a pessoa deixa de ser criança quando cessa de acreditar no Pai Natal. E volta a sê-lo quando começa a acreditar no Sócras. Foi como com aquilo das entrevistas do juiz Carlos Alexandre – só achei mal ele ter escolhido a SIC e o Expresso. Sim, mal: então duas vezes o exclusivo para o PSD-à-la-Balsemão porquê? Não há mais papagaios nas outras gamelas partidário-jornaleiras? Há. Então, quid juris?
Ai, estranha és, ó Madre-Língua-Portuguesa minha. Estranha mas bela. Bela mas estranha. Quando decides elogiar alguém, dizes: “Não há pai para fulano.” Ou seja, valorizas o fidapu. Há mas é que não confundir o burkini raso com o Burkina Faso. E saber que a frieira rebenta a pele por vir da geada islâmica. E topar de antemão que a melhor maneira de abrir buracos num green novo é praticar o golf pérsico. O Deus de cá sabe que eu nisto tenho toda a razão, o (a)lá deles é que não. Quanto a mim, só sei que a fé & a ignorância são unha-com-carne vezes de mais. E que não é solução roer as unhas até fazer carne-viva.
E agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver? Agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver, retenhamos do brexit ao menos uma coisa boa, muito boa, pelo menos uma: são maiores as hipóteses de vermos menos por cá os execráveis McCann.
Ó pessoal, por favor atenção: apesar de todo o desarrazoado supra, sou muito menos esquisito do que o mundo em geral & do que a TV-por-cabo em particular. Ainda agora. Olhai-m’esta: acabo de ver uma série com cenas de vampiras lésbicas. Sim. Vampiras. Lésbicas. Coitadas! Devem namorar uma só vez por mês. (Como eu aqui em casa, aliás, num mês bom.) Ai, saudades do tempo da ditadura da RTP-única….Em casa de meus saudosos Pais, certa vez. Certa vez, em casa de meus saudosos Pais, o som do televisor pifou-se. A imagem, na mesma. Mas o som, népias. Eu era então tão moço, que cri com esperança naquilo resolver-se por si só. Continuei a ver. Nisto, aparecem as Doce. Lembrai-vos das Doce? Sem som embora, gostei muito de vê-las cantar. Idade feliz, essa minha. Não é como a idade de Deus. Deus perdoa, a idade não.
Nem eu.