Thursday, June 14, 2018

FALA O ENFERMO - Rosário Breve n.º 559 in O RIBATEJO de 14 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt






Fala o enfermo



Tenho sido por estes dias (com suas precárias noites) o alvo involuntário mas resignado de um episódio febril mancomunado com um foco infeccioso em determinada reentrância do corpo, muito jeitosos ambos. Fui às cordas mas não atirei a toalha ao chão. Na mesinha-de-cabeceira, o costume: chá, comprimidos anticoiso, uma carrada de lenços-de-papel amarfanhados de muco & de vagidos, canjas repetidas como ideias fixas & a pagela do Santo Irmão Doutor Souza Martins – tudo através da minha vaga desesperança dos dias saudáveis consolidada no egoísmo-coitadinho-do-doentinho. Isto, é claro, incha, desincha & passa. Há tão-só que aguentar com pachorra de santo estas veleidades do diabo. E há que ser homem vertebrado – o que aliás nem é grande ideia, já que me doem & rangem quase todos os ossos do corpo.
Consequência fatal: nestas condições, o corpo dá ainda muito menos trela ao mundo exterior. Quero dizer: como já sou, em estado são a 37.4 Cº, um pessimista relativizador dos absolutos absurdos do famigerado politicamente-correcto, não é por agora estar com quase 39 graus que vou dar importância à rábula dos compères Croquete de Washington & Batatinha de Pyongyang. Do Sporting pelas ruas-da-amargura, já disse o que tinha a dizer. Pior: só na terça-feira passada tive acesso postal à edição em papel deste V.º Jornal.
Foi na cama que o recebi e assimilei. Não é porém o meu comentário dele que interessa – é o que ele suscita de reflexão aos Leitores mais esclarecidos, que os há e felizmente não tão poucos quanto isso. Marcelo na Feira? Passo. Barreiras/EN 114? Ninguém passa. Benavente/Quercus/nove autarcas? Não me surpreende. Falta de enfermeiros em Santarém? Pois. Sumiço do tartan de Riachos? Se não fosse triste, daria para rir. Só espero que não o tenham transformado & levado para Alcanena, onde apareceu um sintético dado como novo. Para piorar tudo (mais ainda), temos o sinapismo do Mundial à porta: Cristiano, Cristianinho, Dolores Aveiro, treinos da Selecção ao mais enjoativo milímetro, mordomias de hotel, fait-divers parolos sobre aquele rincão da Rússia a partir do qual os nossos jogadores recebem uma escandalosa batelada de euros por dia etc. etc. etc.
Sim, estou doente. Reitero: a paciência, que nos dias normais me é já tão pouca, só me dá para vir aqui enfermar, não para informar. Tenho canja nova ao lume. Consegui um ramito de hortelã para ela. Todavia, a própria água-mineral me sabe a xarope rançoso. Os professores deste País são roubados pelo Governo do mesmo. Ainda tenho mel para a infusão de camomila. Desconheço qual foi o bocado de parede que tenha caído hoje no centro velho da Capital do Ribatejo. Caio eu. De cama, claro – e tendo por única luzinha-ao-fundo-do-túnel a vela acesa ante o benévolo & milagreiro rosto do Santo Irmão Doutor Souza Martins, esse sim nosso, muito mais nosso do que Marcelos feirantes de cá perto e do que Croquetes & Batatinhas de lá, felizmente, longe. 

Friday, June 08, 2018

ANDAMENTO DO RESULTADO (SEM TEMPO PARA DESCONTOS) - Rosário Breve n.º 558 in O RIBATEJO de 7 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt





Andamento do resultado (sem tempo para descontos)



Foi há quarenta anos. Era partida de futebol a contar para a Zona Centro da Segunda Divisão Nacional. No entretanto demolido estádio municipal cá do sítio, União de Coimbra 0 – União de Santarém 0. Resultado justo para o que se passou em campo. Estive na bancada. Começava eu então a deixar de ser menino. Foram noventa minutos contemporâneos do princípio do (meu) mundo – pois que ninguém grave me havia então morrido.
Dezoito anos volvidos sobre esse manso empate, fui eu a deslocar-me à capital do Ribatejo. Movia-me lá o propósito de uma entrevista com determinado familiar directo do maravilhoso doutor António Martinho do Rosário, vulgo Bernardo Santareno. Obtive a entrevista, que depois radiodifundi para memória, que eu saiba, de ninguém. Santarém 1 – Coimbra 1.
Bem. Passados que foram oito anos mais, e algures nas imediações da tão mal-aproveitada Scalabis, jantei com & a convite de duas jovens senhoras muito bem-postas: Santarém 3 – Coimbra 2. Nesse mesmo anuário, comemorei livrescamente o 30.º aniversário do 25 de Abril no jardim-feito-Casa do doutor Pedro Canavarro (cujo recente livro ainda não tenho mas hei-de ter). Tal foi lá em cima, onde o Sol abre de si as Portas – Santarém 4 – Coimbra 3.
Do tudo disto, (re)tiro & (res)guardo o pequeno-nada de ser verdade tudo. Não me acrescento nem me subtraio: são coisas que, minhas, a outros pertencem também. O ponto está em esta crónica me devir rectilineamente da edição passada (31-5-18) dO RIBATEJO. A manchete desse fértil & festivo número foi: “A Feira está mais ribatejana”. Bom. Ainda bem. Entretanto, e na página 14 da mesma publicação, o meu amigo Arnaldo Vasques cronicava, a benigno preceito como sempre, sob este título: “A nossa Feira”. Como na comum & global vida, presente & pretérito mesclaram-se. Ninguém conhece o porvir – mas o presente é iluminável sem dor mercê de lâmpadas passadas, cuja luz é incapaz de fazer mal a quem não ande aqui só para usar na moleirinha um daqueles chapéus-há-muitos-ó-palerma! Eis pois que, portanto, Santarém 5 – Coimbra 4.
A presente & corrente crónica poderia, já & por aqui, dobrar a finados de si mesma – mas não dobra, que eu não deixo. Tenho mais dela, e por ela, a dizer. Digo: não fui este ano à Feira do Ribatejo. Não pôde ser. Outro ano será, espero. Perda minha: Santarém 6 – Coimbra 4. O facto é eu viver, hoje em dia, outras feiras. Mormente, a feira-do-quotidiano. Hoje mesmo, ao rés-vés (e ao revés) do primeiro autocarro da manhã, uma rapariga branca como um lírio & grávida como um pote deixado à chuva, desmaiou na paragem dos autocarros. Socorremo-la todos, atrapalhando-nos de aflição uns aos outros. A em-breve-mãe recuperou sangue, tensão & consciência, agradecendo-nos a todos o susto & o préstimo. Santarém 6 – Coimbra 6 (o feto também conta).
Termino sem cansativo prolongamento. Assim: pela mesma edição passada deste V.º Jornal, fiquei a saber, a páginas 41, que a União Desportiva de Santarém (UDS) “segue em frente rumo à subida”. Muito bom. Muito bem. Já o recorrente, atento & atencioso leitor Rudi B. comentava, a propósito, que “vamos lá a ver se será desta que a UDS ganha asas para pousar nos campeonatos nacionais”. Oxalá. Nota daqui: o meu emblema local foi rebaptizado Clube União 1919. Tem a ver com a bancarrota a que alguém (ou alguéns) levou o mui formoso & mui operário Clube de Futebol União de Coimbra. Ainda não temos equipa sénior, só camadas jovens – mas lá iremos. Cá estarei, nos entretantos, para novo vitorioso empate entre a Santarém que é minha & a Coimbra que faço Vossa. Parafraseando: cidades que, minhas, vos a Vós pertencem também, ainda, desde & para sempre. Ninguém perde. Ganhamos todos.

Thursday, May 31, 2018

FARTO DE SANTARÉM (?) - Rosário Breve n.º 557 in O RIBATEJO de 31 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt








Farto de Santarém (?)



Em uma manhã que só não se fez perfeita por cometer, ela, o pecado de parecer perpétua, fui feliz como um passarito saciado. O caso foi que, a tempo & horas, me remuneraram generosamente por certo trabalho de escrita algo trabalhosa, pois que de muita letra. Massa no bolso, fui logo almoçar fora. Enfardei toda uma gamela de cozido-à-nossa-pátria-maneira, atulhando-me de enchidos que, garantiu-mo outrora um médico sisudíssimo, são o terror das próstatas cinquentenárias, como é o caso da minha. O serviço foi-me feito pelo Manel, empregado-de-mesa que sofre muito da hérnia inguinal no lado esquerdo do coxear. Sim, foi uma manhã radiosa, durante a qual estar vivo não me pareceu tão mal quão de costume.
À saída da casa-de-pasto, e aquecida a algibeira pelo troco da nota gorda, passei por uma pandilha de corvos perpendiculares que são os capas-&-batinas cá da parvónia. Passei também pela praça: no mercado coberto, benignamente infestado do acre perfume do peixe quási-vivo, zoava a humana algaraviada colectiva de vendedores & compradores, zoeira que me lembrou aquela frenética, aquela eufórica chilreadeira dos pardais nos plátanos do entardenoitecer, hora a que Deus os obriga a algaraviar gratidão & louvor a Ele mesmo, Sumo Criador das Asas Canoras.
Ainda de palito mordido ao canto da beiça, ambulei erraticamente pelo deserto do centro dito histórico (mas afinal velho apenas, por incúria dos mandantes da urbe & por inércia dos mandados do orbe): sapatarias descalças, relojoeiro-ourivesarias ora sem ouro nem hora, mercearias assombradas por fantasmas de fregueses que já vieram mas não voltam já, igrejas encerradas ao culto, ao turista & à beata local, amailos Cafés às moscas – resultando o tudo disto no todo arrasado a quási-nada. Todavia, não permiti que tal ermo me melancolizasse: nem sequer ante a visão de um sem-abrigo que vasculhava abutremente as entranhas de um contentor de lixo. De facto, eu, pleno como um odre, só pretendia ajudar a digestão cirandando aos ziguezagues pelas ruas ainda mais estreitas por obra & desgraça dos carros estacionados nos passeios esburacados. Assim fiz.
Para ajudar ao flato & ao arroto, entrei numa das derradeiras tabernas à portuguesa do mundo, nela mamando um alto quartilho de gasosa. Comovi-me, então: nas prateleirinhas ingenuamente esmaltadas a escarlate, a verde & a amarelo republicanos, refulgiam, à sombra do boneco Zé-Povinho-do-Manguito-Queres-Fiado-Toma, o terno pacotilho de bolacha-baunilha, a pragmática latita de sardinhas-em-molho-de-tomate, a botelha de ginja e a de anis e a de ponche e a daquele porto mais barato que sabe sempre a vinagre com açúcar-amarelo. Ante tais, tantas & tão singelas maravilhas, apeteceu-me logo ser português até morrer. De tanto sentir-me, acabei por sentar-me um pouco. O mesmo é dizer que acabei por comer qualquer coisita a pretexto de beber qualquer coisona. Davam já as quatro da tarde quando me refiz às ruas, de novo pós-prandial que nem roxo & grosso abade.
Impusera-se entretanto à Cidade uma daquelas “tardes claras em que a humidade serve de lente”, como em 1908 escrevia o senhor Conde de Sabugosa, esse mesmo que aludiu à “prata líquida do Tejo”. S. por S., ocorreu-me então o bom Sá, o humaníssimo Sá de Miranda: “Isto que ora ouvis de mim / Não sei se ouvireis de alguém. / Buscai, perguntai sem fim / No desejado Almeirim / No farto de Santarém.
Excelente ocorrência me foi essa. Contentemente fatigado das gâmbias, sentei-me à borda-d’água para, em sossego, fumar pela minha rica saúde. Escrevi ali duas linhas: Passo o tempo a ver o rio. / O rio vê o tempo a passar-me. Recordei outra já ontem antiga: Sou mais um de nós num convosco de ninguéns. Escrevi mais duas frescas: Felizes, os que podem ser esquecidos. / Felizes mais, aqueles que não lembram. E mais uma ainda: A saudade é uma fome que nunca dá em fartura. Todavia, reciclei esta última sentença no seguinte decassílabo: Saudade é fome que não dá fartura.
E foi assim que dei por mim ante o profundo sentido de “farto” que Sá de Miranda deu, como eu uma vez por semana intento dar, por e de mim, a Santarém & a Almeirim.


Thursday, May 24, 2018

LEIAM SÓ O PONTO 4 - Rosário Breve n.º 556 in O RIBATEJO de 24 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Leiam só o ponto 4



1 Só os presidentes camarários de Alpiarça e do Cartaxo, na companhia de um vereador do PS da edilidade de Santarém, estiveram, a par de mais de uma centena de cidadãos eleitores-mas-não-eleitos, em recente apresentação pública do Projecto Tejo. TODOS OS OUTROS (perdoe-se-me a maiúscula exclamação) autarcas democraticamente eleitos do & pelo Ribatejo houveram por bem os pecados de falta, omissão, indiferença & deixa-te-andar. Ajunto possibilidades de explicação para tão gritante realidade: a) Não havia comezaina; b) Não havia procissão com foguetório; c) Não vinha “o” Marcelo. Ou então mais estas três, mas pela afirmativa: d) Estava bom-tempo, bom de mais para coisas demasiado importantes para todos; e) O novo Alqueva é uma seca; f) Os cívicos e os politécnicos percebem pouquíssimo disto. Não lavo no/nem do Tejo as minhas mãos – mas sei quem politicamente eu crucificaria sem sequer olhar para os ladrões do lado.

2 Menino & moço, gostei muito de futebol. Cheguei a praticá-lo, só não tendo chegado a Cristiano Ronaldo por ser Hermínia a minha Mãe e não Dolores. Já não gosto. Deixou de ser desporto, passou a indústria. Poluente, ainda por cima. O futebol de que eu gostei? Mesmo e até com este Clube enorme & meu adversário agora pelas ruas da amargura? Posso dar umas dicas. Sou do tempo de o seguro Carvalho ter tido (que remédio…) de dar lugar a essa gloriosa promessa tão gloriosamente cumprida chamada Vítor Damas (paz à sua alma). Manaca. Nelson (ex-Varzim). Manoel. Keita. Fraguito. Festas. Laranjeira. Bastos. Baltazar. Manuel Fernandes (ex-CUF). Jordão (ex-SLB). Caló. Tomé. Hilário. Lourenço. Marinho. Chico. Ernesto. Dinis, o angolano cujo pé esquerdo tornava invisível a bola. Etcetríssimo. Tantos, verdade? Mentira que tão bons? E logo comigo, comigo que até sou do Benfica por do Benfica ter sido o meu Pai. Não, já não gosto de futebol. A passada semana disse-me que tenho todas as razões para desgostar de uma coisa que foi bonita mas entretanto desastrosamente prostituída por uma espécie de proxenetismo se calhar genético-nacional. E quando tenho razão, ninguém ma dá – mas também ninguém ma tira.

3 O Rio Tejo & e o Sporting Clube de Portugal estão ambos por resolver. Não hão-de ser águas-passadas a solucionar as crises gravíssimas de um nem de outro. Quanto àquele (o grande Rio), autarcas ineptos & inaptos, não. Quanto a este (a grande Instituição de um Francisco Stromp, de um José Roquette/Alvalade), cachopos de esquisita patologia mimalhóide também não. Digo isto sem precisar de ensanguentar o coração nas mãos. Digo isto por ter carradas de razão.

(4 E o Tejo é o Rio do Baptista Pereira. E o Sporting é o Clube do Yazalde.)


Wednesday, May 16, 2018

DEZASSEIS MICROFILMES NESTE ROSÁRIO BREVE N.º 555 - Rosário Breve n.º 555 in O RIBATEJO de 17 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Dezasseis microfilmes neste Rosário Breve n.º 555



Por uma esplêndida manhã de Maio, assentei praça, por assim dizer, em um particularmente diáfano recanto da urbe a fim de escreviver o que (Vos) desse & (me) viesse. Fui feliz na escolha: dezasseis microfilmes verbais (já revelados à nascença da obturação) impuseram-se de imediato & sem esforço ao meu lápis. Assim pois:
1. Mulher pobre de criança ao colo – por ter mãe, é de copiosa fortuna a criança;
2. Camisas a enxugar em estendal – crucificados cristos têxteis;
3. Fila de deserdados à porta da sopa-dos-pobres – untado, seráfico, pançudo, freirático angelismo das sopeiras serventes;
4. Gato à janela de quarto-andar – Napoleão desterrado na Ilha de Santa Helena.
Continuei (escrevi)vendo, permeado de uma espécie de êxtase sereno. Eu dormira muito bem a noite, despertando sem amargura nem esperança tolas. Considerando que se, de Lobsang Rampa, que diziam ter três olhos, nada de especial, e que de Camões, com um só, tanto & tão bom – propus-me usar os meus piscos dois a ver o que dava. E é que deu:
5. Semáforos abertos no vermelho franqueando passagem livre a duas ambulâncias & a um carro-funerário – a primeira, rumo à maternidade; a segunda, direita ao hospital; o terceiro, soma das duas;
6. Mulher com braçada de cravos ao colo – nenhuma revolução é órfã;
7. Crente consultando o horóscopo (“Viagem inesperada na sua vida!”) – o azar é que, sufocado por um pedaço mal mastigado de courato, acabaria por esticar o pernil quando desse, como veio a dar-se, o meio-dia a esta crónica, pronto a sepultar na quinta-feira da saída d’O RIBATEJO;
8. Canteiro municipal polvilhado de amores-perfeitos & tomado de assalto por miríades esterlinas de borboletas, essas pétalas erráticas, ébrio-aladas, trémulo-volantes, cuja efémer’eternidade dura quatro dias há milénios.
Dei por mim eram quase dez horas. Extra-caderno, a realidade fulgurava como o diadema de uma palavra oportuna, ou de uma sentença justa, ou de uma ideia clara, ou de um Amigo-para-sempre, ou de uma menina am(atern)ando a sua boneca, ou de um rio não poluído pela ganância dos criminosos.
Longe, a cúpula do Seminário arredondava o céu de-cá-baixo.
A meia-distância, a álea de plátanos conspirava muito muita sombra da mais fresca.
Perto,
9. Carrinha de nove lugares pejada de pessoas idosas, mas tão idosas, que a infantilidade retomada as fazia pasmar de miúdo espanto ante a fabulosa novidade do mundo;
10. Homem de fato-completo-três-peças perambulando a merecidíssima aposentação de professor-primário – o que me comoveu muito, por me recordar Elias Rodrigues Faro, esse senhor meu segundo Pai;
11. Quiosque-tabacaria cujo escaparate estourava frondosamente de publicações multicolores que me pareceram as borboletas do microfilme 8. e a cujo minibalcão velava uma rapariga avelhentada & endurecida pelo calo do celibato involuntário – o que também me comoveu muito, por me lembrar aquela canção da dupla Rui Veloso / Carlos Tê, Saiu para a Rua;
12. Jovem agente da PSP indicando, num inglês fluente, a um casal de holandeses o itinerário mais acessível para o velhinho Mosteiro que foi dos Crúzios.
Nos por-enquantos, porém, volvera-se provecta a minha manhã. Davam já as 11h35m, faltando apenas, por conseguinte, um quarteirão de minutos para que morresse engasgado o fulano astrozodiacómano do microfilme 7.  Sem como nem por nem para quê, recordei essoutro meio-dia de 10 de Dezembro de 2004 (uma sexta-feira) em que adquiri a tradução portuguesa de The Figure on the Carpet de Henry James (trad. de Luzia Maria Martins, ed. Relógio D’Água, Lx., 1988). Foi em Lisboa, metrópole também de si mui capaz de microfilmes. Eis quatro dessa matina dezembrina de vai-para catorze anos:
13. Em um degrau da Igreja de Santa Isabel, aquela pomba morta – morta & esventrada – morta & esventrada & cravejada de varejeiras semelhantes a rubis verdes azulzumbindo;
14. Na farmácia do Largo do Rato, um mocito envergonhosamente ciciando à farmacêutica: “Uma caixa de preservativos dos mais baratos, fàxavôr”;
15. No Largo do Carmo, reencontrei, em corpo-sempre-presente, o capitão Salgueiro Maia: vestido à paisana, parecia-se muito com o homem que eu de menino sempre quis ser quando chegasse a homem;
16. E numa rua a que chamei Rua da Princesa, amei, sem remédio & com cegueira voluntária, um porvir imediatamente desmentido pela força irreparável da (a)parição alheia.
Agora, calma. Tanto microfilme seguido já vai dando longa-metragem. Acabo a projecção da seguinte maneira: como consta do título, esta é a crónica número cinco-cinco-cinco da série Rosário Breve. Dedico-a, com gratidão muito minha, à memória viva de três pessoas que douraram, nele brilhantemente cronicando muitos anos, este Voss’O RIBATEJO: Eurico Heitor Consciência, Luís Eugénio Ferreira & José Niza. Sem misticismos tolos, sinto-os connosco. E tal sentimento dá, a meu ver, um bom filme.

Thursday, May 10, 2018

SÓ ME FALTA O LIVRETE - Rosário Breve n.º 554 in O RIBATEJO de 10 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Só me falta o livrete



Há já muitos anos que não tenho automóvel. Não o digo por choramingona auto-lamentação. Digo-o como reiteração da ironia da vida. E a ironia está no que se segue: cimentei amizade com uma viúva rica. Melhor da festa – não tem filhos nem irmãos, nem sobrinhos sequer: apenas & tão-só uns vagos afilhados não de sangue. Idade de senhora, não se pergunta nem se escarrapacha em crónica. [E não, não poderia ser minha mãe – não exageres na descúnfia, ó Leitor(a).]
Disse mal: a ironia não está propriamente na amizade com a viúva. Está nisto: meteu-se-lhe na cabeça oferecer-me uma roulotte. Em vão lhe redargui que não possuo carro que a puxe. Com a tenaz obstinação dos portadores de ideias-fixas, contestou-me ela: “Uma coisa de cada vez, menino. Roma e Pavia…” Ou seja: passei por ganancioso, quando a verdade purinha é eu ser o mais humilde desinteresseiro dos homens – pelo menos dentre aqueles que raspam a barba ao espelho da minha casa-de-banho.
Eis-me, pois & assim, futuro possuidor (que não utente) de uma roulotte com matrícula de 1972. Comprou-a então, novinha em folha, o dinheiroso falecido dela. E com ela, o casal fez peripatéticos gerêses, ibizas, côtesd’azures, pompeias, odessas, florestasnegras, vienas – e figueirasdasfozes. O carro que a tractorava, esse espatifou-o mortalmente o marido ao cabo de infortunada noite no Casino do Estoril. Desencarcerou-se da vida encarcerado nesse glamoroso Opel Manta de fatal memória.
Nota importantíssima: não é de cariz pornográfico – mas gráfico sim – a relação que tenho & mantenho com a dita dama de copiosa abastança. É gráfica porque ela adora sonetos à Bocage, que eu imito, até nem mal de todo, com caralheira brejeirice. Recebo dela uma nota de cinquenta por cada posta tonitruante de catorze versos, o que não é mesmo nada mal pago. Modos que ando poupando em sonetos no fito de comprar uma carroça em segunda ou terceira-mão que me ponha a roulottar por aí afora à guisa do caracol de choupana às costas. E já matuto numa coisa maravilhosa.
Maravilhosa, sim. Esta aqui: plantar o carro, a roulotte & o meu “cadáver adiado” algures no troço da EN 114, a desditosa via há tantos anos estrangulada. Como o mais certo é não ser reaberta ao livre trânsito antes de 2100, o sossego da minha nova residência parece-me sobejamente garantido. Até me proponho plantar gerânios em vasos em cerca ao acampamento. E ter cá fora um cão-de-louça. E andorinhas-de-barro agarradas às janelas. E um estandarte altíssimo do Sport Lisboa e Benfica. E bustos em plástico do Cristiano Ronaldo, do Che Guevara, do Ricardo Gonçalves, da Madre Teresa de Calcutá & do Leitor e/ou da Leitora que lá me for esmolar conservas & garrafões.
De resto, muito agradecido, ando feliz da vida. Faço os sonetos soezes, alimento-me em tascos de bifanas, atiço inglesas velhas à mercê da machíssima desenvoltura dos meus aparatos musculares, durmo sem remorsos & acordo sem lembranças.
A viúva telefona-me às terças, adora-me com comichosas palavrinhas pejadas de uma emurchecida lubricidade, ameaça-me de novo com o carago da roulotte & encomenda-me mais uns quantos sonetos geni(t)ais, a Deus graças.
Não tenho ido ao médico nem à farmácia. Prefiro ir pela mata para assistir ao voejar alucinatório das andorinhas de Maio. Também me costuma dar para ficar descalço até ao pescoço estirado na varanda que dá para o cemitério hebraico. São gozos inócuos mas cá muito meus. Bem pior seria drogar-me com lixívia.
De quando em vez, perco os óculos. Passo então dias de visão aquária, as pessoas tornam-se peixinhos glaucos, o sol fere-me termonuclearmente, é uma porra das antigas. Logo que arranjo uns novos, a realidade readquire o teor absurdo de que é primaz absoluta.
Escrevo isto a uma terça-feira. E não, a viúva ainda me não telefonou hoje. Vou lapijando sonetos entre cigarros rimados & cálices de tinto da Quinta do Falcão. Nos entrementes, coco as mulheris formosuras que o bom-tempo despe pelas ruas. Tento não me arrepender das más escolhas que a minha inconsciência fez por mim. Mas olhai: a vida é só enquanto cá estamos. Só me turva o sossego uma coisa. E tal coisa é – toparei eu sítio, algures na EN 114, onde ligar cabo a tomada eléctrica? Vou precisar de frigorífico, computador, máquina-cafeteira, ventoinha refrigéria etc. Nesse aspecto tão técnico, a minha viúva não pode ajudar-me. Nem ela, nem o Ricardo Gonçalves. Ou seja: nem Roma, nem Pavia.