Thursday, February 16, 2017

PILHÉRIA COM PILHAS AU COGNAC - Rosário Breve nº 493 - in O RIBATEJO de 16 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Pilhéria com pilhas au cognac



Na semana passada, dei-vos conta de (in)certa viagem minha para breve. Esta semana, digo-vos que parte desse périplo está cumprida já. Não interessa por ora aonde fui fazer o quê. Não é por rebuço de mistério que fecho isso em copas – é porque (ainda) não vem ao caso. Ao caso, todavia, vem o ganho com que fui remunerado. Digo: os ganhos, que vário me foi o lucro pessoal na & da jornada. Mostro exemplos.
Fui e vim de expresso rodoviário. Anoto: achei-me bem servido. Horário escrupulosamente cumprido. Segurança, conforto, placidez, despacho. Um senãozito apenas: à ida, tive por vizinhança de assento um papagaio ginecológico com quase tantos aniversários quantas camadas de tinta na tromba engelhada. Quase não largou o telemóvel a viagem toda. Ao filho divorciado, para inquirir se o pobre tem ou não tem visto os filhos que co-fez com a inominável outra que o trocou por um dentista do Sabugal. À filha, professora num paul de Portalegre, a demandar se sempre vai com a mamã ao espectáculo do papa Francisco (sessão dupla em Maio numa cova-da-iria perto de si). À amiga Madalena para lhe contar tudo-tudinho do que filho & filha lhe mentiram.
Estive perto – ou antes, não andou ela longe – do estrangulamento, radical remédio a que não dei deferimento por ter alergia micótica a pescoços de galinha velha e por não estar para me chatear depois com o motorista, que era um gordo feliz & sabedor das letras todas das canções todas com que a Rádio Renascença unge o desmiolado rebanho de Deus que é o meu. Lá chegámos, enfim.  
Vieram buscar-me ao ponto combinado. Recebi logo demasias de lorde. Deram-me café & conhaque, tabaco acabadinho de amortalhar, uma fotografia emoldurada do senhor presidente da Câmara a rir-se muito por ter na mão direita um saco cheio de pilhas para o pilhão & na mão esquerda um vereador de barbas oitocentistas também muito feliz por causa das pilhas e das barbas e de estar na mão do senhor presidente da Câmara, uma caneta de tinta mais permanente do que as tretas que escrevo, um CD autografado pelo Tony Carreira com espaço em branco para eu lá fingir o meu nome com a caneta nova, deram-me mais conhaque a pretexto da filosofia maravilhosa que é a de um-dia-não-são-dias, levaram-me ao W Shopping para eu fazer um poema de fazer lacrimejar os calhaus da calçada sobre a pedinte de serviço à porta, fiz o poema e fui muito aplaudido pelos analfabetos do tipo isto-é-um-país-de-poetas, levaram-me aos ombros até um tasco maravilhoso que fez da feijoada de caracoleta uma religião do palato e cujo vinho-da-casa assentava no porão como um colchão de veludo, por estar a chover ficámos deliciosamente sitiados no dito tasco, cujo conhaque-da-casa era servido a biberão aquecido, deram-me conselhos sobre como resguardar o meu desta comédia toda da Caixa Geral de Depósitos, aproveitei para mandar umas bocas impenitentes & impertinentes sobre a mansidão acrítica do vulgo cada vez que há autárquicas, coisa que não foi bem recebida porque o vulgo às vezes percebe que é corno-manso mas não gosta que lho digam nas ventas, valendo-me a intempestiva chegada, a recolher-se da chuva, da senhora que tem uma filha professora em Portalegre ou no Sabugal ou em Fátima, na altura não fui capaz de precisar e agora também ainda não.
Trouxeram-me em carrinho-de-mão de volta à Rodoviária, descalçaram-me de botas porque o inchaço das patas me dava ânsias de morrer sem ter feito mais filhos, nem escrito mais livros, nem urinado em mais árvores, à cautela marcaram-me nova viagem para quando o pus do fígado desse sinais de conformidade com os níveis impostos pela União Europeia, semearam-me no bolso da jaqueta uma de vinte para o táxi entre a gare & a mulher, pediram-me que voltasse para a semana por ser certo que o W Shopping muda de pedinte à porta, havendo pois que fazer versos novos em celebração de tal aparato. Aquiesci, claro que aquiesci.
Se por ora mais não conto, é por me faltarem as pilhas, ao contrário dos barbudos felizes para quem isto da responsabilidade é tudo uma letra vã como a das canções da Rádio Renascença.



Thursday, February 09, 2017

EM MODO DE PRÉ-VIAGEM - Rosário Breve nº 492 - in O RIBATEJO de 9 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Em modo de pré-viagem



Estou em antemão de viagem, cujo montante temporal desconheço mas de cujo benefício vos farei relato aqui mesmo, a ocasião vinda. Isto quer dizer que os pardais residenciais e a pomba solitária da Praça Nova vão ter de desenrascar-se sem mim por uns tempos, quebrada a nossa rotina diária do bocadito de pão & da mãozita de arroz. Não é de extensa geografia, a jornada a que me proponho. A partir de um ou dois marcos geodésicos, traçarei panorama de um meio-século laboral, humano portanto. Mas a seu tempo esse Tempo. Para já e por enquanto, viajo de outra maneira. A outra maneira é, sumariamente embora, recordando certa viagem já muito pretérita que reservou poltrona à lareira da minha lembrança.
No Outono de 2002, fui a Bruxelas. O que me lá levava, foi feito sem pressas nem demora, sobrando-me tempo para caminhar sozinho com o lápis do costume por companheiro. Tinham-me recomendado certo incenso de certa loja na Chaussée d’Ixelles. Acatei o conselho e aviei a encomenda. Não era difícil: fui pela Rue du Prince Royal, claro, subi a calçada não agreste (estava bom tempo, o sol era fresco, adequada a minha roupa, boas as botas e bem atacadas de cordão grosso), muni-me do incenso. Decidi então, como é evidente, procurar um Café de portugueses. Fazia-me falta o binómio bica-bagaço de cuja imprescindibilidade quotidiana os estranjas, Belgas ou não, sabem nada. Encontrei o que desejava no n.º 6 da Rue Lesbroussart: o brioso Café Braga. Adentrei o estabelecimento e, ao balcão, soltei um quase estentóreo “– Atão munto boas tardes ós presentes.” Correu muito bem, como só podia. Tomei quatro chávenas lusíadas à maneirex, nada que ver com a água-de-lavar-cafeteiras a que os Belgas chamam café. Deixei-me por ali estar coisa de hora & meia a parlapiar com os circunstantes sobre benficas-sportings-e-coiso. Só havia um casalito indígena namorando em bárbara língua, o resto era tudo portuga, mormente minhotos. Um rapaz já descriado, que era de Monção (recordo isto como se estivesse sendo agora), ofereceu-me um sorriso manhoso do maior entendimento tácito. Devolvi o sorriso, mas só já na rua percebi o porquê da peculiar simpatia: o magano interpretara a fragrância da embalagem de incenso como sinal de substância para fumar às escondidas, daquele material que ou faz rir ou dá fome ou as duas coisas. Regressei ao hotel sem maior novidade e dois dias depois ao nosso incomparável, egrégio & ínclito torrão pátrio.
Antes da Bélgica, tinha ido a Cabo Verde. Faz Julho próximo vinte anos. Foi também por trabalho, que na altura me não faltava mas hoje não hei nem há. Hei-de talvez cronicar ainda algumas linhas sobre essa demora de três semanas na Cidade da Praia, não agora. Também já fui a Vigo, a Sevilha e a Madrid. Não importa, agora.
Agora, estou fazendo a mala (pequena) para a viagem de sexta-feira próxima. Sou maníaco de indispensáveis, tendo portanto aprestado já no bornal o seguinte (enquanto enumero, colmato falhas): o retrato de casamento dos meus Pais (original de 25 de Julho de 1943), os dez volumes de Portugal Século XX – Crónica em Imagens de Joaquim Vieira et alii para o Círculo de Leitores, um frasco de maçãs cozidas em calda de açúcar, um par sobresselente de atacadores das botas (para não arrastar a marcha em terra alheia), uma carta manuscrita de recomendação da minha pessoa dirigida ao senhor presidente da Misericórdia local (mas a utilizar só em caso de agonia súbita tipo falta de carcanhóis para o regresso), gravata para exibição na Assembleia Municipal (mais o bigode postiço para me não associarem aos gajos do jornal), papelucho com rol de presentes endógenos (tóxicos e inócuos) a adquirir em lojas certificadas, a camisa branca mais a outra que é castanha (mas só usar esta com camisola por ter um rasgão diagonal à altura do fígado), pão & arroz para a passarada de lá e o lápis do costume.
A ver se na lista me não esquece de apontar o incenso, que o belga já se me acabou há uma irremediável eternidade. Isso – e voltar à primeira oportunidade, que a mulher pode habituar-se ao sossego, e depois, posto e vivendo na rua, ainda me arriscar a ser abraçado pelo senhor Professor Presidente Marcelo, de lágrimas os dois qual par de Madalenas tipo andava-a-desgraçadinha-no-gamanço.

Thursday, February 02, 2017

FÁBULA DE INVERNO COM UM BOCADITO DE VERDADE - Rosário Breve nº 491 - in O RIBATEJO de 2 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fábula de Inverno com um bocadito de verdade



Gosto do Inverno. É quando mais franco se me volve aquele verso de Whitman: “Eu estou no meu lugar com os meus dias, aqui.” Rondei o derradeiro dia de Janeiro na condição de amador do tempo que fazia.
Era o império da morrinha. Do céu fosco, do céu sem um brilho, abóbada laminada a estanho, descendia espargindo-se a poalha atomizada. Pelas esplanadas, ninguém. Era como se tivesse caído a Bomba. O esquisito foi depois.
Entrei na tabacaria. Ninguém. Tudo ali à mão de pilhar. Luzes acesas sim senhor, registadora electrónica mostrando a última venda, jornais do dia, revistas da semana, fascículos coleccionáveis, aventais de raspadinhas esperando a moeda fricativa dos tesos de fortuna, copo de lápis, copo de esferográficas, chocolates finalmente baratos, brindes sorteáveis, canecas temáticas, jogos didácticos para crianças do meu tempo, dêvêdês de um tempo que vai deixando de ser meu, flores azuis e de plástico numa jarra feia como a minha cara de quando durmo & como a de quando estou acordado, tudo e menos alguma coisa.
Balbuciei: SôrAnacleto!”. Nada. SôraJudite!”. Túmulo. M’nineIvone!”. Espaço sideral. De imediato, sabendo-me portador de impunidade, do meu ombro direito sopra-me o Diabo encavalitado: “Gama o que quiseres, anjinho, isto hoje é tudo à fartazana.” Menos de metade de segundo depois, do ombro oposto o senhor meu Pai assim e assim só: “Filho.”
Não foi preciso mais nada. Rodei a esquina do balcão, tirei da estante do tabaco o maço da minha marca, deixei as moedas contadas entre o visor e as teclas da registadora. Saí. Saí um bocadito turvado pela sensação de ter ouvido fantasmas tuteadores & tuteladores.
Voltei para casa. Esperei pela minha Senhora. A minha Senhora voltou.
Contei-lhe o que se tinha passado. Ela ouviu tudo sem me interromper. Quando acabei, quis saber o que achava ela. Ela achou.
Achou que “Se o anterior executivo da Câmara do Cartaxo tivesse feito o mesmo que tu fizeste, escusaria agora o pobre Pedro Ribeiro de andar a tapar buracos sem poder deixar grande obra feita.”
Isto foi a minha Senhora a achar, que eu, por mim, não acho nada. Sou achado. Onde? No meu lugar com os meus dias.
Aqui.


Tuesday, January 31, 2017

IMITAÇÃO DE INÊS H. POR RUI B. - Rosário Breve nº 490 - in O RIBATEJO de 26 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Imitação de Inês H. por Rui B.



Há uma dúzia de anos entregues à bicharada, vem-nos a calhar um zootécnico. Refiro-me, claro, ao engenheiro Rui Barreiro, que, qual Lázaro, ressuscita do purgatório ribatagano e se propõe reconquistar em 2017 o que em 2005 perdeu: a presidência da Câmara de Santarém. Vem um bocadito tarde – mas vem a tempo, por não haver mais tempo a perder. Se vencer, oxalá faça jus ao nome. Neste sentido: Barreiro resolve barreiras. É trocadilho fácil – mas justo.
Como não voto cá, é libérrimo que me sinto para bitaitar alguns emolumentos à cena (triste) da realidade político-social deste futuro interdito chamado Santarém (Cidade & Concelho). Fá-lo-ei socraticamente: destruindo por ironia, reconstruindo por maiêutica.
Três palavras-chave parecem ser as suas, a saber: “Confiança, Esperança e Coragem”. Deixe-se disso, senhor engenheiro. Temos tido, por excesso que não por defeito, muito abuso de confiança, de desesperança razões muitas – e quanto a covardia (vá, a palavra é forte, troquemo-la por pusilanimidade), e quanto a pusilanimidade, o senhor sabe, o senhor bem saberá. Não é, pois, de palavras-chave nem de intenções-fechadura que precisamos todos – mas sim de actos-abertura, de paredes que mudem de cor quando se lhes der por cima uma chapada de tinta.
Até 25 de Abril próximo (boa data), diz o candidato que apresentará os nomes a si & do seu projecto adjacentes & cúmplices. Oxalá tais nomes sejam, mais do que próprios, apropriados. Não há-de ser difícil: isto aqui é joio, aquilo ali é trigo. Joeire o que for preciso até que espigue o melhor. Não vá pelo menos mau. Vá pelo(s) melhor(es).
É confirmação do senhor engenheiro que fervilham discretamente “conversações com outras forças públicas do Concelho para tentar encontrar entendimentos que permitam uma solução pluripartidária estável”. Bem. Muito bem. Não se importe que o já velho & relho apodo de Geringonça venha a ser-lhe ladrado pelos que temem o passar da caravana. Fale pouco e ouça muito as pessoas de bem, que Santarém as tem também. Vá beber um copo ao Quinzena.
Imperativa como imperiosa lhe seja a noção de a política poder sempre, mas não dever jamais, esquecer ser de/com/para pessoas que trata. Estes doze anos têm sido um deserto maninho, estéril, inculto: e torpe e ignóbil – vil até demasiadas vezes & soez não poucas. Barbudos embora, estes rapazes que estão não passam de imberbes a brincar às gilettes como os mais crescidos. Para eles, progresso é um hipermercado por cada cem habitantes. E se o não é, parece muito sê-lo. Olhe o senhor.
Olhe o senhor aquilo da EN 114, aquilo da balbúrdia viária ao pé da estação: que interminável tragifarsa, verdade? Verdade. O prolongadíssimo encerramento sem remédio à vista daquela via crucial (via crucis, precisamente) é, em si mesmo, o retrato perfeito do corrente executivo municipal. (Mas diga-o o senhor à sua maneira, que eu tenho chovido no molhado e a mão também já me dói um bocadito.)
Outra coisa não propriamente menor: o Tejo. Queira escutar os activistas apartidários que a ele velam & por ele pugnam. Seja incisivo nessa escuta. Insista na revisão equilibrada & pragmática do PDM-de-Santa-Engrácia a cuja procrastinação sine die estes ineptos inaptos nos têm condenado, a nós sem culpa formada mas com trânsito em julgado na (não-)prática. Cá p’ra mim, o lixo real das ruas começa a ser varrido com uma vassourada no lixo metafórico disto-d’agora.
Engenheiro: chateie Lisboa, senhor! É no chatear Lisboa que a coisa se dá. Chateie Lisboa! Vá lá fazer com que lhe passem cartão, ao contrário deste, que ainda piou vaguíssima & inconcretizadíssima ameaça de entregar o cartão. Chateie Lisboa. Incomode. Ralhe salivosamente com a secretária do ministro. Fume muito na antecâmara do ministério. Leve merenda para o Terreiro do Paço. Leve campinos, leve um rancho ou quatro, diga que se vai matar em holocausto público, ameace-os com o terror da continuação do Ricardo. Ou então assim: ande muito, marche muito – olhe, marche depressa & bem à imagem & semelhança da valentíssima Inês Henriques, a gloriosa riomaiorense que, a pé, faz mais depressa 50 km do que eu de bicicleta, eu com 35 anos de tabaco no pulmão ainda em vigor, no hálito, na roupa e na vocação de cinza-um-dia como toda a gente. (Já agora, senhor, dê-me-nos lume.)
A sério, muito a sério, senhor engenheiro: imite a Inês. Desta vez, o senhor não terá como concorrente uma medíocre criatura de televisiva génese – mas sim alguém cada vez mais ninguém neste frei-luís-de-sousa mesquinho de que Santarém não tem de continuar sendo palco.
Confiança, senhor. Esperança, engenheiro. Coragem, Rui. 

Thursday, January 19, 2017

MAS QUAL CRISE DE QUAL JORNALISMO QUAL QUÊ - Rosário Breve nº 489 - in O RIBATEJO de 19 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Mas qual crise de qual jornalismo qual quê


Considero que a propalada crise do jornalismo não é real. Como pode estar em crise algo que não existe? Hum? É como dizer: “ – Olha, aquele dinossauro está co’ a gripe.”
O jornalismo não existe quando o jornalista d-existe. O jornalismo não existe quando o jornalista não r-existe. De quê e a quem? Do aturado esforço e ao fedelho economês que o patrão nomeou director, por exemplo. Hoje em dia, parasitam as redacções os servis sicários que mataram as notícias para parir os conteúdos. É a praga das sinergias, a maleita dos empreiteiros/merceeiros donos de jornais. Por todo o lado, são analfabetos funcionais a mandar em quem escreve. Gagos mentais a editar o que se diz. Cegos voluntários a dar que ver. Com isto, jornais, rádios e televisões involuíram para monturos de lixo auto-reciclável que, todo o santo dia, esvaziam de qualquer préstimo todo o amanhã que, hoje, tresanda a ontem.
Ter sido ou não ter sido penalty esmaga ou não esmaga, em presença & relevo, o desemprego real? Esmaga. A última do presidente-da-bola é ou não é mais premente do que o esvaziamento curricular do ensino? É. O sufoco fiscal de trabalhadores & empresas vale alguma coisa face aos debates quadrangulares da recente jornada da Liga? Vale nada.
Reitero: a crise do jornalismo não é real porque o jornalismo é irreal e porque a crise é decalcada da financeira de 2008. O cavador deixa de ser jornaleiro no dia em que for tão dono da enxada como do chão em que a crava. Jornalistas, hoje em dia? Bah, jornaleiros! Acomodados a soldo de caciques (nacionais como multinacionais, de Lisboa como regionais – note-se bem), o escrevente verga o espinhaço gelatinoso ao frete – conseguindo do autarca parlapatão a publicidadezinha nojenta capaz de pagar a água do autoclismo. E aí vai ele de cuspinhar em Microsoft Word o marketing da promoção pessoalizada do fabricante de torneiras local. É vê-lo de microfone a louvaminhar por todo o lado “aqueles que se amamentam da Pátria”, meu bom Jacques Prévert.
Foi felizmente breve a minha incursão pelo jornalismo remunerado. Todavia, não foi por ignorância minha que (re)conheci pouquíssimos jornalistas – foi porque eram e continuam a ser poucos os que merecem esse título profissional. Lisboa era um nojo: campeavam os génios esquecidos, as luminárias do croquete, os amásios da fonte-inventada; grassava a cáfila dos romancistas embrionários tipo Nobel-para-a-semana, dos poetas desiquilibristas, dos guionistas de têvênovela. Coimbra? Jesus Senhor, Coimbra! Mais doutores por metro (como eles) quadrado do que honestas pulgas em cão solto. O Porto? Não sei, passei por lá a caminho de Braga mas retornei de barco até à Figueira da Foz. Aveiro & Viseu? Mas isso existe? Leiria? Não queirais que Vos fale de Leiria. Invoco razões higiénicas. Onde o jornalismo sério for embondeiro, Leiria é logradouro de erva rala. Daninha, naturalmente.
Não, não reconheço nem crise nem jornalismo. O que por aí se faz – é lama da digestão. Restos-zero à esquerda & à direita. Sabujices de obra-nada. Coisas de meter em saco plástico a caminho do contentor mais perto de si. Rácio de dez opinadores bêbedos por cada jornalista sóbrio. Terraplenadores da democracia, papagaios da cotação-em-bolsa que estão para os mercados como os freudianos para as mamas da própria mãe.
Ná! Crise nenhuma, jornalismo quase nenhum. Que me resta? Resta-me O RIBATEJO. Resta-me O RIBATEJO porque aqui a enxada é minha. A enxada é minha e o chão é nosso. Sim, o mesmo chão por onde ontem o dinossauro e hoje a gripe.

Thursday, January 12, 2017

ANDAR AOS PAPÉIS - Rosário Breve nº 488 - in O RIBATEJO de 12 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt




Andar aos papéis


1 Até que enfim fui capaz de sintetizar na perfeição a minha vida: relê o título desta crónica, Leitor(a). Sem mais nem menos, é o que lá está. Talvez eu nem devesse confessar-me assim tão ingenuamente. Quiçá. Não (me) importa. Eu ando aos papéis. Toda a vida and(ar)ei. Daí (e daqui vai outra ingenuidade confessional) o meu cagaço de algum badagaio que um destes dias se me dê na rua, um daqueles fulminantes que fazem a boca ficar ao lado de mais lado nenhum, sabes, um ai-mãezinha do tipo desta-p’ra-muito-melhor-que-pior-também-há-de-ser-fácil. Mas olha: não cuides tu que é por eu ter medo da morte. Não é. Não tenho. Se muito não erro, há-de ser tão irrisória a morte que me leve quão a vida que tenho levado. Não hei-de ser desses grandes mortos de funerais de três dias. Não é por aí. É por aqui: o meu cagaço do badagaio é que pela rua se me espalhem os papéis enquanto se me estica o perfil, perdão, o pernil. Os papéis? Estes a partir dos que aranho & emaranho as babas & os fios da teia de (escre)viver. Exemplos? Muitos. Posso (e vou) referir-te alguns – embora a vergonha me torne escarlate a bochecha do lado são que o chilique ainda não tolheu. São gatafunhos de inquilino de dispensário psicodoido, daqueles de camisa-de-onze-forças-de-varas, de perpétuo desatarraxado ao nível do parafuso neuro-sináptico. Pois serão. Mas sei que os queres ler. Lê, pois:
2 27/3/2011, Taça INATEL, Campo da Esc. Sup. Agrária Santarém / Jogo Juventude de S. Domingos-Raposense (2-1 no final) / S. Domingos é Abrantes, pop. aprox. 1006 hab., freg.ª Carvalhal / Na bancada: sr. Alfredo Duarte, velho, adepto da Juve, foi vendedor peixe congelado, quando jogador levou pontapé num dedo na Azambuja / Ao pé dele, sr. João Canaverde (cunhado?) / No tempo moço deles, prémio-jogo era duas bolachas-maria + copo vinho / Alfredo cozinhou há dias cabeça corvina c/ grêlos / Equipamento da Juve SD: camisola branca, calção encarnado, meia branca / Do Raposense: todo cor-de-laranja (nota poetizante: dizer que é, conforme o topónimo, “de imitação ígnea da raposa natural”) / São Domingos-Abrantes – distâncias aproximadas: Lisboa-160 km, Porto-270 km / Mais pessoal ao jogo: Pedro Sousa (explora rulote de comes-e-bebes como profissão) / Alexandre Branco (come bifana e bebe cerveja e mastigando diz que “crise há sempre crise, mas quando há 49 mil na Luz a ver um jogo então mas q’ais crise?”) Fátima Amaral (vendedora de rifas, prémios: 1 bicicleta, 1 telemóvel, 1 viagem aonde é que ainda não sabe dizer mas há-de ser a sítio lindo) / Artur Francisco, adepto Raposense, “acredito q’ainda empatamos” / Artesão Herculano Abreu, foi barbeiro, hoje em dia faz fisgas “para atirar engodo na pesca, não é para atirar aos árbitros”, um euro cada fisga. Referir fonte: programa TV “Liga dos Últimos”, report. Ricardo Garrido + Filipe Gomes (imagem).
3 Mais talvez-crónicas: a) Aquela senhoria doida que tive em 1999/00, a dos gatos remelosos que me batia à porta à meia-noite para esconjuro das almas-depenadas & e depois me levava mais 500 paus dos antigos pela botija de gás; b) inventar paleio para dicionário de vidro que, caído ao chão, se estilhaça em o’neill, perdão, mil palavidrinhas; c) inventar guarda-chuva para resguardo da água-dos-olhos que cai sempre quando nos morre alguém (aproveitar sobras estilísticas para crónica do funeral do Avô Carlos); d) gozar c’o Ricardo-pós-Moita da Câmara a pretexto seja do que for; e) citar o Antero naquilo da imitação implicar abdicação: “Um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida”; f) irritar-me mesmo a sério e ladrar mesmo a sério contra a mania inglesóide de coisas portuguesas para portugueses (como os corredores da noite em Santarém se chamarem coiso Night Runners); g) fingir que pedi a um amigo rico que pagasse uma capa-falsa a O Ribatejo mas ao Mirante e ao Correio não; h) em Abril que vem, centenário do nascimento do senhor meu Pai; i) no Maio seguinte, arranjar maneira não egocêntrica de assinalar dez anos de Rosário Breve; j) arranjar maneira airosa de manter viva a memória dos cronistas José Niza, Luís Eugénio Ferreira e Eurico Heitor Consciência mas sem cair no ridículo de imitar de um a acutilância, de outro a candura e de outro a graça; k) aplicar palavras ainda mais difíceis do que às vezes o abrantino & plumitivo tribuno Dr. João Salvador Fernandes; l) referir este par de mamas que ainda agora passou como “bolbosa sugestão dupla do leite de figo cristalizado em morango de bolo-rei” mas de maneira a que a minha mulher não perceba; m) velório do Avô Carlos: a álea de pereiras-de-inverno, as mulheres fazendo café e canja na cozinha da casa senhorial, eu com menos de oito anos a pensar nesta crónica sem saber que também como ele, também a um 3 de Março, a senhora minha Mãe andando por aí, ai-mãezinha, aos papéis.
Ou então, senhor Herculano Abreu, fisgas-canhoto.

Thursday, January 05, 2017

NÃO QUEIRAIS QUE CONVOSCO SONHE - in Rosário Breve nº 487 - in O RIBATEJO de 5 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt

Não queirais que convosco sonhe


1 Sou tido entre os meus Amigos, com justiça aliás, por incurável caturra pessimista. Não enjeito o apodo. O esfarelar dos anos tem-me agravado certa misantropia que acaba escorrendo para o que escrev(iv)o. Ontem à noite, por exemplo.

2 Ontem à noite, sozinho na sala, certo canal de televisão de popularucho sucesso escalpelizava ad nauseam (mais) um crime sórdido que metia o que é costume: personagens-faca & personagens-alguidar, violência doméstica etc. etc. Não era uma reportagem sobre factos – era, sim, um (hor)ror de diz-que-disse-parece-me-que-foi-o-que-ouvi-dizer. A aldeiazinha do cenário cheirava a cães magros à chuva. Tractores rebentados esbeiçando os córregos, milharais ferrugentos, poços a céu-aberto, taberna em dia de festa por andar por cá aquela televisão que “fala como nós”, velhas luzidias de óleo-de-fritar espalmando nos peitos bentinhos prantos digitais & criançolas completamente alienadas pela câmara histrionando momices emplastras nas costas dos entrevistados. Tudo, enfim, de uma portugalice irremediável, pobrete, alegrete, de uma frialdade de sacristia esfregada a lixívia pela perpétua irmã falsa do senhor padre.

3 E no entanto nada disto tinha nada de ser assim. Deveria tudo ser o avesso do que é. A minha geração, iluminada à saída da Escola Primária por aquilo dos cravos, só podia embarcar, com ligeireza mas sem leviandade, no culto da liberdade informada, no uso do livro, no pensar (sem penar) pela própria cabeça. Beneficiámos, afinal, da extinção de um regime obscurantista, armado, sentinela, desumano. O mesmo regime cujo sistema escolar publicava sem qualquer pudor coisas deste género:
“A população escolar pode e deve dividir-se em cinco grupos, a saber: Ineducáveis 8%; Normais estúpidos 15%; Inteligência média 60%; Inteligência superior 15%; Notáveis 2%”. Sem tirar nem pôr, era assim que eles impunham que fosse. Ora, quatro décadas depois do 25 de Abril temos todos a obrigação (até moral, até patriótica) de ser, pelo-menos-pelo-menos, médios. Nem Einsteins ao pontapé, nem galinhas bípedes. Mas a realidade é comandada por essa caixa-que-mudou-o-mundo – para pior. É ou não é? É.

4 Entretanto, fui visitado por uma outra espécie de notícia. Da minha terra original, informam-me que morreu o senhor Joaquim Pratas. Era um nonagenário de quem todos gostávamos muito. Tínhamos todos a semi-secreta esperança de lhe festejar o centenário. Alto como nem era costume entre os homens da geração dele, tinha sido nimbado pelos anos de uma espécie de aura litográfica de árvore antiga. Pai de uma dúzia de rapazes & raparigas (tudo gente decentíssima, garanto-vo-lo sem logro), levou-no-lo o Ano Novo. E agora digo-vos isto: eu sonhara com ele na véspera. Aliás: não sei se foi sonho, se aquela afiguração semiconsciente de pré-adormecido. Não voltei a pensar nele até me darem a notícia terminal, aquela que tudo salda, resolve, conta, arquiva.
O que daqui retiro, Amigos, é mauzito como a minha literatura: sonhar pode ser mortífero. Se eu fosse a Vós, teria cuidado comigo.