Thursday, June 30, 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) - 1

Os verões são poucos. Tive-os eternos, mas acabaram-se-me.
Era o meu corpo tudo de que dispunha para ser, estar, permanecer. Já então, nada de alma. Fui e estive, não permaneci – por isso escrevo.
Escrevo contra o gastar da eternidade, que não cumpre (nunca cumprirá) o prometido, tirando a morte, a vida tirando.
Órfão do Verão, tive de fazer-me à vida. E ela era triste e formosa: cafés de leitura, raparigas de passagem, comboios à chuva, árvores à chuva, cerimónias impuras de iniciação a nada de importante. Isso continua.
Descobri outros. Alguns estavam mortos, a julgar pelas datas taxativas. Mas como tinham pintado, fotografado, escrito e contado, pude conhecê-los. Afinal, o que me sucedeu foi reconhecê-los, a esses claros obscuros outros. Outros homens, outras mulheres, gente exposta a partir de dentro, como no elogio dialéctico de Magritte a Hegel, ou de Hegel por Magritte.
Magritte, precisamente, é um desses outros. Ele, muito belga, tirou-se da eternidade, tornou visível isso que pensávamos não poder dar a ver, isso que cada um pode, a partir de Magritte, ver.
Eu não sabia, em 1967, que via, agora sei que não sabia que via mas via: era o meu corpo, era o Verão, e o meu corpo era tudo aquilo de que o Verão dispunha. Mantenho o corpo, é certo, mas ele adquiriu volumes, reentrâncias, coisas estranhas, madeiras que o tempo deixou na praia. Não é a mesma coisa, daí que não seja eu o mesmo de quando o Verão etc. Não permanecer no corpo é deixar que o tempo desperdice verões.
Depois (antes), Magritte morre quando tenho três anos, há uma fotografia desse ano em que tenho uma guitarra de brincar e uma irmã a sério. A preto-e-branco num cenário de monte. Numa quinta ao fundo (não se vê na fotografia, mas hoje posso dar a vê-la) havia cavalos. Era a oeste, naturalmente, como nos filmes. Ouvíamos os cavalos adormecer, ouvíamo-los sonhar. Talvez sonhássemos com eles adormecendo, não sei. Poder ouvir-se uma fotografia: desejo meu.
Conjugo nós: os que éramos, a família ainda toda. O Verão fulgura mais a preto-e-branco. Supostos cavalos intensificam esse clarão fotográfico, quando os verões eram o império das luzes, a brisa nas rosas, o cansaço delicioso ao entardecer, a carne guisada com arroz, o monte americano, o pátio italiano, a vida portuguesa, os cães portugueses, a melancolia apátrida, a família ainda toda, sua tutela de amor e memória, a sobrevivência no humano galinheiro, a água fresca como nenhum beijo, então – qual carapuça de beijo – água, fresca na boca no interior do Verão.
Enfim, esses verões que o tempo me escreveu no corpo com caligrafia de médico. Devo, farmacêutico, decifrá-los. É isso que faço aqui perante vós.



17 de Junho de 2004

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