Tuesday, June 28, 2005

O Sofá Verde

Falei com a mulher do sofá verde. A cor verde ia molhando a natureza da conversa, que alastrava a partir dos joelhos, as dobradiças sobre que podemos, havendo confiança, poisar as mãos. Era de noite, um candeeiro alto cegava de branco o estuque branco do tecto: como numa fábrica.
Era num ano da minha vida, numa noite da vida dela.
Tínhamos histórias recentes e palavras de demora. Com juros de mora: há sempre um notário no coração. Beijámo-nos bem, separando as palavras inferiores às salivas e aos dorsos das línguas. A língua, as línguas, o tomar dos castelos, o coração rendilhando-se de pronto como uma janela manuelina.
Por experiência, cada um despediu-se com separação de bens, tocando-se as barrigas no termómetro certo. A tesão centígrada tem seus gelos de estímulos: um continente sempre novo, desbravado sempre, lá em baixo. Pinguins deslizando, escorregadores de fibra, asa, mergulho, cegueira: a orca da consumpção.
Isto já não era no sofá verde, mas noutra dimensão. Em derredor, blocos iguais, idênticos apartamentos, homens e mulheres e sofás, desencontros e tempo, não me digas o que já ouvi.


Pombal, 2 de Fevereiro de 2005

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