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Monday, January 20, 2014

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ, 48, Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado

48

Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado


Para onde vai o mundo, digo, onde se metem
as pessoas que ao meio-dia desertam a feira?
Por que imperioso desígnio fica tudo tão vazio?
Ao cabo de tantos anos de trabalho, adentram-me
a escrita esta preocupação e outras afins, não sou
um narrador de viagens heróicas, nunca fui

tal coisa. Tenho pelo menos essa decência, já não é
mau de todo. Pela tarde, hei-de desertar, eu mesmo,
que feira? Já o Rio me chama, faz sol o ar,
há, ou dá-se, uma brisa decente & refrigerante,
uma pessoa pode flectir pelas bandas do realmente,
a écloga é possível e até provável no sábado.

Numa tenda beira-fluvial cozinham peixe em água-de-tomate,
a álea de freixos fica perfumada como uma sacristia,
muito eu gosto de sentir a felicidade simples das merendas,
que são lentas e lautas e pobres e tão dignas e tão históricas,
é uma bela coisa o anonimato do Povo, nem tudo
pode ser triste, devo insistir que não para sobreviver.

Ponho-me então a grafar sem a fúria já dos primeiros anos.
Daqui a pouco vou para casa algo valetudinariamente.
Sou tão português de aldeia, que chego a adoecer só
de pensar seja no que for, alguma coisa se me avariou
talvez para sempre, mas nem assim o pus do medo
me infecta a constância, o pão das pombas & o Diabo-por-ele.

Thursday, December 26, 2013

Entrada n.º 40 de BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - noite de 10 de Maio de 2013, sexta-feira

40


                                                                                                                                               
                                                         
Aquele homem é lento por causa de uma doença
chamada idade,  acontece muito nesta Cidade.
Queimo a boca de roxo com um cigarro branco.
Apetece-me falar com um amigo, mas não tenho
saldo no telemóvel, é quase tudo 96,
na mocidade era diferente, telefonava-lhes

para casa dos pais, tudo era fixo,
talvez por isso envelhecer seja tão móvel
e tão quieto ao mesmo tempo,
a gente sabe que vai morrer,
afia um lápis mas sabe que vai morrer,
abre-se em livro e depois morre.

Sou muito atento aos ócios preocupados.
As pessoas filosofam nos Cafés a propósito
de coisas como o arroz-doce e o trigo-roxo
e a subserviência e a carreira e os impostos
mas depois na internet borram-se todas,
vê-se-lê-se logo que não sabem escrever.

Eu aqui em Leiria passo muito à porta
da casa onde viveu o Eça-Padre-Amaro,
sinto logo muita pena de mim por causa do naturalismo,
fiz na quarta-feira 49 anos,
coisa que nem o Pessoa nem o Ruy Belo fizeram
mas o Eça sim, o Eça fez tudo em apenas 55, parece mentira.

Sunday, November 10, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 37 (10 de Maio de 2013)


37

Ib.
                                                                                                                                               

Começas criança mas ninguém te diz onde é o cinema.
Acabas percebendo a lata das bolachas, o ter de não estar vazia.
Percebes que a canção é mais do que um poema.
E chega a noite de ontem ao amanhã do dia.
Como cucos, os velhos são relojoeiros.
E nós, ex-crianças, disparamos morteiros.

Começa-se sempre pela louça, água-corrente nem sempre.
Mas há um horror ao lixo, que a limpeza é diferente.
É o mesmo que em pobreza a gente ser gente.
E as vagens-verduras sustentam a Mãe que morrer vai,
sei lá eu se é pecado ser nado ou nada ou d’onde-meu-Pai.
Dez de Maio, duplo-mil-&-treze, entretanto sai

o Sol inclemente, que com a Lua troca, indif’rença p’la gente.
Pela Arregaça antiga, que de Coimbra orla uma sandes paga,
a Matilde de há pouco (a louca dos meus versos) s’apaga,
de coxas varizmarmóreas, ante um viúvo desejoso,
uma ejaculação d’aguadilha, cuja emissão é o gozo
de um homem que não vou ser.

Amanhã, a manhã há-de ser de amanhecer.
O meu mais velho cruza morenamente a infância terminal.
Mandaram-no longe matar pretos em nome de Cristo-Portugal.
Tenho pena da Matilde, Gracita, aproveitam-se dela.
Já fez 60 anos, mas é branca de lírio. A beijar, é amarela.
Acontece exactament’agora. Escrevo bem. Acho mal.

Monday, June 03, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 30 (manhã de 10 de Maio de 2013)

30


                                                                                                                                               

E do turíbulo do coração fumega o incenso moral.
Passa-se isto quando Peter “Columbo” Falk já morreu.
E quando o meu (re)conhecimento entra mortos adentro
para celebrar na mera laranja o rubi do fogo-ouro.
Suporto a tarde, é verdade, mas não sou vespertino.
Dirimo a íntima quezília, sou forte sem dados lançados.

Os presidiários conhecem os horrores diários
que aos ventos soltaram aziagamente.
Nem a vida deles paga os assassinados.
Não creio na bonomia da lei.
Quando músico-de-baile, ia ao bufete nos interlúdios.
Tomava o meu cálice e amargava sozinho.

Estou aqui que posso, não matei ninguém
e por vezes duas a alguém ajudei já a fazer.
O meu único pecado mortal,
ao Vosso igual,
é haver nascido.
O mesmo é dizer que uma mulher se me fez nascente.

Ora, acontece que nascer
não deveria ser
tão vinculativo.
Resgato-me na sabença de ler & escrever,
dois afins modos de ser
que me dão o estar, e o ser, vivo.

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 28 e 29 (manhã de 10 de Maio de 2013)



28

Ib.


Deixo o eu-corpo ir dar sem mim uma volta.
Dou-lhe o arroz que trouxe para efeito de pombas.
Em troca, ele deixa-me como de facto sou: em sombra.
Quando penso nos meus Amados Mortos, é o mesmo.
Tenho dinheiro para um par de cálices, meia-dúzia
de cigarros acalentam o bolso esquerdo do gibão.

Ao telemóvel, uma mulher louca queixa-se de quanto
engordou a uma remota outra Heloísa chamada.
Passa-se esta eternidade degradada no Café Colonial,
a que muitas vezes aplico tributariamente o nome de
Café da Rosa,
que hoje me (a)parece um seu tanto nervosa.

E quando as crianças sobem no ar como balões,
a gente madura sente a dor morna do ter-sido
às cores atmosféricas que o deslumbramento do Estio
volve estrelas capturadas em espelho nos fontenários.
E quando o senhor Carlos toma o seu chá & a sua torrada,
o que Leiria merenda é o pousio mais restaurador.

Por isso, podes imaginar em uma espécie de falida Detroit
inçada de motor-fantasmas, riscado o chão de poemas
a óleo. Quando o corpo me voltar, se voltar,
darei com ele a ronda do reconhecimento da luz,
que a 10 de Maio de 2013 tornou em glória franca.
E o Diabo dispara até com uma tranca.

29

Ib.
                                                                                                                                               

O Diabo até com uma tranca dispara
assim nos disse o Alferes Sardinha
em Mafra, Escola Prática de Infantaria,
acabava-se o Inverno de 1987/88.
Éramos homenzinhos verdes na parada,
marcianozitos do Serviço Militar Obrigatório.

O Abreu diz que vai deixar de fumar,
eu não fui ainda à Ereira, a Sesimbra sim.
A Trompa-de-Eustáquio silva o aquário cerebral.
Nada é tão lamentável quanto o viúvo entesoado.
Aqui na Colonial Rosa aparecem muitos,
com a agravante de as esposas serem ’inda vivas.

Leonor, ó minha gardénia clara,
volveste forte a minha vida e rara.
Teresa, jasminzito delicado,
volveste sorte a minha vinda e rara.
Não se pode errar tudo.
Esperar não é remédio.

A 8 de Março de 1988, adentrei o Convento de Mafra.
Nas arrecadações dele vive a tropa.
Aprendi a traçar o azimute & a disparar a tranca.
Cometi a melhor marca nos 80 metros: 9,4 segundos.
Disseram-me que só o Nené do Benfica tinha feito melhor.
Contei isso ao meu Pai, que viu logo que eu era para ser poeta.

Sunday, June 02, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 26 e 27

26

Leiria, manhã de10 de Maio de 2013, sexta-feira


É preciso ter passado, como eu passei, por vilas desertas ao domingo.
É preciso não ter nada em frente senão um salário.
Eu sabia que ia ficar para sempre na Música.
Sabia também que não me sustentaria dela mas para ela.
Suturava feridas invisíveis nascidas da fome de saber.
Como no Verão de 1991.

No Verão de 1991 trabalhei por conta de um homem que eu já era.
Perto, o regato mal respirava,
saturado de sol como estava.
Fazia as refeições num reservado invisível também:
como se celebrasse uma missa agnóstica
à impossibilidade de Deus e ao minério do Corpo.

Derredor, na volta da fonte, mulheres alheias cacarejavam
as notícias vilãs com essa tão portuguesa fúria alegre
que resulta do comentário da desgraça dos outros.
Habitava eu então um quarto muito branco
de cuja janela se me oferecia o mistério simples do dia,
que invariavelmente pintava cegonhas e campos de arroz.

Quando a alguém da Filarmónica morria um alguém seu,
fardava-me para integrar as honras da Música
à pessoa perdida. No fim, embebedávamo-nos sempre,
pois que é ponto assente a libação vínica contra
o desmando escandaloso da Morte.
E o jornal íntimo se me manchava em furor sereno.

27

Ib.


Não eram ainda as sete quando a alva me levantou.
Saí do poço que imita a morte, dei-me ao ofício de renascer.
Procurei no escuro o fato para não despertar a Mulher.
Açucarei água na cozinha, que bebi de pé não devagar.
Senti as escadas desdobrarem para mim a rua.
E depois cumprimentei o senhor Eduardo, que vinha com o neto.

Às tantas de ter 49 anos, uma pessoa já sabe o prémio do dia.
Na mercearia do bairro, caixas cantam alto a fruta.
De coxas gordas, varizmarmóreas, a senhora Juliana beijarica o canário,
que é claro como o limão e como o pão novo.
Nada me custa alcançar o Rio, sabendo nas costas o nascimento.
O nascimento & a morte.

Quando chego, estou de partida.
Assim como toda a gente toda a vida.
Exerço então o lápis qual florete,
esgrimindo o puro minério (a pura chispa) do Verbo.
Almoço a saturação da Música, das casas encerradas
à passagem do rei morto.

Canto para dentro o meu Sá, o meu Garção.
Finjo que não componho qualquer canção.
Ponho-me a arabescar as árvores maiores
enquanto desfloro rosinhas de, digamos, torrão-de-Alicante.
Então, a glória banha-me todo, torna-me lustral
como uma tocha de gelo, como um homem para o fogo.

Wednesday, May 15, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 16 a 20


16

Leiria, tarde de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


É com férrea disciplina que cometo afinal a minha vida.
Colonizei todos os lugares que respirei em presença.
Cedo pouco importância até ao alude dos anos.
No fundo, não tenho medo, facto que me apazigua.
O problema, a havê-lo, estaria na urgência inelutável
de tudo escrever sem o luxo do repouso.

Postulo, por tudo isto, uma verdade pessoal e ínclita
quase. Faço-me livros de que hei veloz necessidade.
Eles acabam adentrando-me a fala, a vida social,
os nervos da flora, a ubiquidade dos animais,
a ventania que desde menino me euforiza aos gritos,
me iça aos ares frios atordoados de azul.

Não posso ser igual a mais nada, a começar pelo espelho.
Quando bebo uma cerveja em atento silêncio, sidero
a solidão gástrica e dela a vocação de entranha
labiríntica, ao fervor da sede que a aridez da esperança
implica e imbúi. Encastoo os meus ferros em oral
veludo, o que é muito para um pobre e nada para o moribundo.

Os núcleos efervescentes da minha vida têm amor dentro.
Sou um pássaro de calças sobre areias e mirtos
(e mortos também, sempre & para sempre), querida.
Vejo que toda a criança reitera a eternidade caduca.
Vejo o cão que dança de lobo dentro vigiando.
E com férreo disciplinado amor atiro pedras à água da fala.

17

Ib.


Gosto de coisas como a que ora mesmo aconteceu:
um velhote de boina que antes de se sentar
boatardou todos os circunstantes (um homem/uma mesa)
no Café da Rosa. Sim, sou de gostos simples,
como o de gostar de bons-dias, boas-tardes, boas-noites
dadas e recebidas por e de pessoas não conhecidas.

Em este Maio me pergunto quantos Dezembros serei ainda.
E se será em casa que de vez adormecerei.
A minha casa – esse país por onde traficam os meus
Amados Mortos o amor mais estupefaciente em
açúcar cristalizado e violáceo, violento às vezes.
(Sim, estou hoje capaz de verdades.)

Não percebo o aquário como não aceito a gaiola.
Mas em casota caninamente me encerro, pulguento
de tanta poesia ao mundo desnecessária mas a mim
crucial, em Língua Portuguesa de Portugal. E tal.
Sou bonito quando atiro diamantes às pombas, embora
pão seja só, de rosas esmigalhado-diamantinas perfumado.

Sim – e viva o fado. Quando músico de baile, certa noite,
adentrei o bufete no intervalo para rifas em quermesse
pró-pobrezinhos da aldeia. Lá fora, chovia gelo quebrado.
Pedi uma cerveja, que o director em função barista
me serviu com rodela graciosa de tremoços gordos
curados em serapilheira no ribeiro. E eu dei-lhe as boas-noites.

18

Ib.


O Inverno de Queluz sempre me acinzentou a imaginação.
Aquelas pessoas, sabes, a fazer de canários nos andares-gaiolas.
Que luz Queluz não pode ter, dada a taxa de divórcios,
óbitos do amor contratual com que os católicos não-
-praticantes enganam a Deus? Adeus, adeus, não
quero morar jamais em Queluz, nem no Monte Abraão,

que Rui de Moura Belo circum-escreveu como ninguém.
A minha Mãe tinha uma prima velha chamada Clementina
e muito sozinha que morava em Queluz. Nos Julhos de
primórdios de 70/XX aparecia-nos na praia da Figueira da Foz,
a minha Velhota e ela conversavam eternitardes
enquanto eu absorvia as cores mais salgadas da felicidade.

Às vezes falo de coisas assim à minha Graça,
ela não acha estranho que eu continue ao pé da Bola-Nívea,
por isso nos casámos. O meu Pai vinha de comboio
aos sábados, não sei por que terá deixado de fazê-lo,
talvez porque não dêem aos mortos dinheiro que chegue
para o comboio, que naquele tempo eram de cartão

p(r)ensado, os bilhetes da ferrovia. Às vezes a minha vida é
Queluz, outras em que luz. Isto depende dos sais,
que são mancúspias grão-cristalinas como as enzimas
mas um bocadinho menos.
No Verão, o Mar exulta.
E os Campos aureolam-se de ricos fenos.

19

Ib.


É uma espécie de transe.
Uma combustão, um quase-grito.
É um amaciar de coxas.
É como ser flibusteiro.
É lapijar a cores o mapa das laranjeiras.
E é não ter hipóteses.

Respondi exacta-sic-mente assim à pessoa
que no Largo das Forças Armadas, Leiria,
me perguntou em que trabalha o mundo
e que sentido pode haver em que ele trabalhe
e para quê tanta pomba tanta criança
tanta às vezes aflição.

Vi depois um homem todo vestido de roxo.
Talvez fosse o vinho: o meu como o dele.
Sim, pode ser aflitiva a consciência verbal.
É quanto tenho.
Se poderia ter mais?
Não o quereria.

Depois, o carro da polícia passou em frente à Rodoviária.
Um notário filatelista pediu chá de tília.
Pensei nos telefonemas que de quando em vez faço à família.
Sementes agrícolas e ceras apícolas e agonia viária.
Página em frente, trabalha muito, sê gente.
Não escreviver, morrer seria, seria ser igual só, nunca dif’rente.

20

Ib.


Um rapaz representante de vasilhames
teve à nossa frente sua quebra-de-tensão,
demos-lhe todos água açucarada
e face-palmadinhas de cristão carinho,
o moço rearribou,  é de calvície precoce,
pele tipo cor-de-sobrinho-filho-de-padre.

Depois, a Celeste, que usa e abusa daquela blusa
que lhe acarna o seio adiposo de amamentadora
profissional, quis saber qualquer coisa que não ouvi,
não me sendo portal, perdão, por tal
possível poetar seja o que for
com Celeste sextilh’ adentro.

Três-euros-e-meio são setecentos-paus dos antigos.
Há já quem consumo-minimize isso a senhoras
nos bailes-das-velhas que são
a mais admirável circunscrição
desta como de muita re(li)-
gião.

Aguardo activamente o Poema que me resgate,
qualquer coisa tipo
Os-Lusíadas-como-os-diz-Molero.
Ainda não será hoje.
Pego nas manchas de tipografia.
(Não há dia em que te não deseje bom-dia.)

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 13 a 15


13

Leiria, manhã de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


Como se deveras tivesse sido músico,
porto em corpo a moléstia da atenção.
Cultivo no rio mesmo a serradura sideral:
se ele espelha das miríades a miopia estelar.
Vale-me o, tendo que dizer, não mandar
dizer por ninguém.  Por algo cresço ’inda.

Quebrei já muitos vidros na imaginação.
Teima em mim o infante de outro início.
E em partitura para harpa a velha chuva.
Adormeci ontem no sofá enquanto os Marx Brothers
iam ao circo emaranhar ingénuos  enredos.
A alegada Civilização precisa de Irmãos.

Volto ainda a aldeias apenas entressonhadas.
O avô e o neto extraem água ferrosa do poço.
O cão é o mesmo de quando Teixeira de Pascoaes.
E o frágil japão da geada matinal, a mesma
de quando o bondoso Wenceslau de Moraes.
Sim, estas coisas podem ser.

De limitada edição é o amor lácteo.
Começa-se pela Mãe, chega-se à Mulher final.
Panifico-me todo em óbolo de pombas,
columbina é minha ronda pela Cidade.
E duas rolas são as filhas que pude,
no gás das esferas, na noite aldeã.

14

Ib.


Quando talvez músico outror’ um dia,
mais do que saber o que fazia, eu vivia.
Ainda assim me é o expediente respiratório
na consumpção do quase semisséculo pessoal.
O meu Cunhado José Maria faz hoje, 9, anos.
Foi com a minha Irmã ao Lidl de Eiras,

apanhei-os por telefone tomando café, uma
na companhia de outro, é bonito saber tal.
O resto da manhã, vou ardê-lo na composição
destas canções, ofício que desempenho com mais
pertinácia do que talento, eu sei, mas outro
remédio me não sobra que o da contumácia

mais relapsa. Saindo daqui da Rita, vou ao
Lagoa, aproveito para atirar ao Lis o olhar
ambulatório de músicozito provincial,
sendo meu natural um coração manual.
Se alguma vez de novo em seio de floresta,
refarei de cada passada uma festa,

pois que tudo a passado passa.
O oficial dos Correios, ao lado, vozeia
caladamente as missivas por frinchas
de alumínio à face dos prédios.
Já o vi com a mulher às compras no
hipermercado da Gândara, comprou sardinhas de lata.

15
Ib.


Supina amabilidade, gentileza a mais grácil,
tudo me conforma a mulher que tenho e de quem
sou na espiral das horas que dias e anos
engessam sem remédio mas a azul-marinho.
Quebram-se-me os dentes de não lascivo desejo
quando a bom-dio, a desperto e a beijo.

De pantanas, ex-relicários, que mover me fizeram,
me não comovem já, fruto que mordi mas não
lamento, não mais & já não, podeis crer.
Procedo em paulatino crescimento, vergando as horas
como se dobrasse duros ferros em fundação de casas,
sim, trabalhei já de adjunto de mação.

Ao fervor das tripas me marulha a humanidade,
o dia chegará em que de vez se me prateiem os gestos,
um pratito de massa com carne me sustenta
enquanto vejo aquela série-reality-show dos polícias
detendo traficantes e afins gafanhotos da heroína,
lá fora o dia não abre o jogo do sol.

Ali em São Romão, uma mulher atropelou de carro
uma criança e fugiu do local, a criança morreu,
ela já foi detida, a vida não é uma festa porque
a gente abandona o local dela, imagino o que por São Romão,
Leiria, vai, ou não, nem imaginar quero,
ele há músicas que se não dança, só se chora.

Tuesday, May 14, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 6 a 10


6

Ib.

De anémonas um rosário eu possa,
ora que ’inda é hora de escre’viver.
Um cântico é um ladrar solitário,
quantos palcos de associações recreativas
venci na penumbra de anos esboroados,
tangos, valsas, fandangos & fados.

Operática nudez me convoco sem pranto,
nas salas-de-espera dos apeadeiros concebi
a inconcebível solidão moral do músico,
já então me adornava de cadernos impublicáveis,
lia com minúcia os mapas-horários,
meu era o fervor da ópera, da tragicomédia.

Coimbra, sim, mas Peniche, mas Aveiro,
mas o Caramulo com seus fantasmas hécticos,
Viseu com seu brasiledo de putas,
a por vezes inumana (inumada) Lisboa,
pensões de cinco tostões cuja humidade
fervia peixes frigidíssimos de agora-que-me-será-?,

fecho os olhos, canto (tom e meio sobre a linha melódica)
a Montanha, a Lua Fanal da Montanha,
canto a Grande Rapariga de Prata no Tempo,
canto a poliglotia dos animais mais mudos,
só não canto o quanto uma pontada de desespero
pode furar coração adentro um desejo simples.

7

Ib.

Quem ainda trabalha no meu ex-negócio é
o José Cid, coitado. Compreendo-o bem,
é afinal um português que gosta de cavalos
e de falar de D. Sebastião, o cachopo realengo
que se foi fazer ferrar a África. Falei
uma vez com ele – o Zé Cid, não o Sebastiãozito.

Fora & tirante o Cid, não mantenho grandes ícones.
Talvez o Conjunto Maria Albertina.
A Hermínia Silva. O Max da Madeira.
Um pouco de Händel, concedo.
Uns pós de Vivaldi na sensibilidade, vá lá.
E Paulo Frederico Simão do Bairro das Rainhas, NYC.

Tudo quase quanto hoje sei, é onde há pombos,
pombos e laranjeiras e cabeleireiras sós
como peúgas desirmanadas em marquises,
troco às vezes a serenidade por uma botelha,
uma botelha daquele bagaço que sabe a evangelho
todo cagado dos pombos.

Verdade é, também e porém, que isto tudo deriva
da habit(u)ação: às marés terrenas sufragadas
pelo vento de música dos bailes da mocidade,
quando eu era para não ter sido, não ’inda,
uma calota polar do que se junta, janta &,
irrefragável, se dispersa – cinzas quase tudo.

8

Ib.

Delego na memória fabril o febril produto,
que operário sou da articulação dita,
que não falada, da indústria poética.
No Largo do Cónego Maia, Leiria, anos-ora-depois,
Inscrevo a sombra confessa do meu Inverno,
o meu portátil Inverno de rapaz português.

Sou, em verdade mo repito & crocito, um órfão.
Tenho uma experiência venatória, pelo lado
do gamo. D. Fuas Roupinho não m’ enjeitaria.
E do meu tempo de infante pedonagem
reservo a pedraria viva de gafanhotos, sardaniscas,
ouriços, raparigas lácteas, primeiro desejo

de ver o universo em verso.
Evoco às vezes um vocativo que não há,
como se em palco de associação recreativa
me dirigisse em rogo a um público
de namorados zundapp-motorizados
e costureirinhas perfumadas de bolacha.

Quan/d/to assim escrevo, deponho. Não é o mesmo
que enlouquecer – não ainda, minha linda.
Eu sou do Verão de 78, da Primavera de 74.
Mas também do Mondego, que o Pavia e o Lis
me repetem em aquífero eco.
Não me quero par de qualquer badameco.

9

Ib.

Cantei uma vez a solo, andava adoentado o cantor.
Desempenhei-me na função como canário tristímano.
Uma mulher dentre a assistência quis saber mais.
Não havia telemóveis na altura.
Quando me apareceu com um copo de Dimples sem gelo,
Agradeci-lhe, primeiro, questionando-a depois

se era mordoma de alguma festividade religio-fogueteira,
dessas de aldeia que Agostam a portugalidade,
disse-me que não, que gostara de me ouvir cantar,
que se eu compunha,
disse-lhe eu que ainda não,
que só em Maio de 2013

me atreveria a compor um Baile mas Sozinho,
redarguiu-me ela, em aquiescência, que sim,
que compreendia, que às vezes se sentia sozinha
entre tanta pomba e tanta laranja,
& que sentido é haver por aí tanta ourivesaria
e tanto cantor e tão sozinho dela ser o dia.

Isto não é verdade. Nunca aconteceu. É só um livro-só.
É apenas como se eu tivesse integrado o Trio Odemira.
E só o Bailinho-da-Madeira em quádruplas sucessões
de sextilhas em estilhas verbais.
É só um ter-nascido-e-já-sido.
É não saber mais.

10

Ib.

As linhas cantadas atiram lírios aos pés descalços
que a alma usa quando a desnuda a música.
Senti vivamente isso em certos desempenhos bailadores,
quando o conjunto menos era movido pelo dinheiro
do que pela urgência de partilhar a chaga-viva
da rima tónica, em C-cortado, tipo slow.

Outra coisa são as linhas contadas.
Essas que em família soliloquamos nos invernos.
Essas que nodulam (ondulam) a garganta à saída de casa
para a vida definitiva, essa morte da canção,
vê se me percebes, vê
pelo menos se me ouves.

Recordo entre bailes
(entre livros, sobretudo)
certo hepático cavalheiro
cuja amarelidão traía
muito granel de aguardente
e muito hectare de tabaco acre.

Era Serafim:
a mulher traía-o.
O bairro via-o (e, casquinho, escarnecia-o).
Não nascera amarelo. Foi fugazmente, por bebé, até belo.
Gostava da música que a gente fazia,
mas no fundo só queria tão-só companhia.

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 1 a 5


BAILE SOZINHO
ou
O INVERNO DE QUELUZ





Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior – a memória mortal.

HERBERTO HELDER, in Doenças de Pele (apud OS PASSOS EM VOLTA)


De 30 de Abril de 2013, terça-feira,
a 14 de Maio de 2013, terça-feira


1

Leiria, noite de 30 de Abril de 2013, terça-feira

Em invernia antiga, uma vez em aldeia
de que não guardo o nome, chovia
debilmente través a pouca luz
pública, a noite vinha armadurada
de veludos frígidos, cheirava das casas
a caldo e a cães e a mato.

Dormiam já os animais maiores,
já os humanos seniores dormitavam
sentados à face do brasido, eu não
tinha aonde entrar, esperava que me
viessem buscar, tinha tocado no
conjunto que deu baile, tudo acabara.

Muitos eram os quilómetros a cumprir
no regresso a Coimbra, músicos éramos
quatro mais a noiva do baterista,
que era bonita e estudava então
para enfermeira ou professora, não
guardo bem o que me não pertence.

Fomos desenrolando a fita preta
da estrada, não havia então icês
nem tanta auto’strada, eram beirãs
as curvas apinhadas de pinheiros,
não nos largou a plúvia até ao Café
do Silva, onde libávamos o fim do contrato.

2

Ibidem

Levantava-me cedo ao outro dia,
que não sei já qual, refeita a manhã.
Se no sincelo atentava, gostava daquele
vidro ge(r)ado sobre a flora simples
da Cidade: planava sobre essa arte do
cristal chamada Frio.

Tinha algum dinheiro no bolso quando
o cantor pagava, era ele quem tratava
do metal não assim tão vil, naquele
tempo em que comer uma sandes e
beber café-com-leite sabia à música
que se tinha tocado num salão recreativo.

Retomo uma dessas manhãs de invernias
nessa Coimbra desses acabados dias:
saía muito cedo da cama, muito cedo
do quarto arrendado ali perto de S. José,
nada longe do Liceu onde me preparei –
para ser só isto.

Outro trabalho não tinha nem procurava.
Dava pontualmente explicações de francês
a meninos capciosos que queriam era
ser músicos como na televisão viam eles
que havia, e tantos. Mas trabalho-
-trabalho, não tinha nem demandava.

3

Leiria, manhã de 1 de Maio de 2013, quarta-feira

Com discrição era que devagar olhava
os silfos aéreos terrenamente ditos
Mulheres, vaporosos génios de que Coimbra
é tão profusa, tão fornida.
Ubiquista quase fui e decerto me senti,
sem magia e sem anátema.

Foi de certo modo um tempo perfeito.
Havendo por certa a morte, a vida
parece uma prenda fora do aniversário.
Outras vezes, todavia, cruzando pela
ponte diagonal do Calhabé para o Norton,
o absurdo ganhava transporte por meus pés.

Quando fui músico para comer, comia
também das muitas laranjeiras que havia
por aqueles pátios ferrugentos onde
casotas desertas chamavam em vão
por cães antigos e donos que já não
eram, viúva marquesinha, viúvo conde.

Cheguei, claro, a falar sozinho, praças
e ruas por meu auditório o mais
surdo. Chegado o Natal, tremiam
as gambiarras em os pinheirinhos
de plástico para os matrimónios sintéticos
& suas crias de celofane.

4

Ib.

Transido transito ’inda, em pleno Estio mesmo, pelo trânsito
de imagens desse tempo músico. Ensaiávamos num anexo
de ferramentas que pertencia aos pais do pianista,
era perto daquela via de S. João que leva
à Portela, à Lousã, a Espanha, ao Mediterrâneo.
A mim nunca me levou, valha a verdade.

Penso que o António Nobre por ali refrescou
ante uma criança a gentileza de papoila
(vermelho tossido de héctico, fatal cor).
Sá de Miranda, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro,
Camões até, podem (devem) ter sabido
onde ensaiávamos, perto o Mondego claro.

O cantor e eu íamos depois aos bilhares,
o guitarrista era já casado então,
o baterista morava mais longe e não podia,
o último comboio levava-o para os campos de arroz
que as cegonhas regiam como fadas vorazes,
dessa voracidade lenta de que o amor é feito.

E se hoje isto recordo e assento em letra de canção,
é por hábito imorredouro, eu fazia a segunda-voz,
tom e meio acima da linha do vocalista,
ficava bem, as pessoas gostavam, pelo menos dançavam.
Íamos aos bilhares, conhecíamos raparigas,
algumas por vezes ficavam, por festa.

5

Leiria, tarde de 8 de Maio de 2013, quarta-feira

Muitos anos são volvidos já desse (m)eu-corpo,
ainda canto mas em surdina só, e cambaleada,
por ruas & praças de cidades acumuladas,
outras de si mesmas, como mesmas e outras são
as jornadas em salmoura de literatura,
nem outra coisa me surge que isto de escre’viver.

Procuro talvez tão-só a serenidade, não importa
que mais do que ela cinzas coleccione, pouco
é deveras o que ainda importa, uma saúde
razoável, moedas para cigarros e refrigerantes,
algum trabalho de vez em quando que eu possa,
saiba e queira fazer, sim, pouco importa.

Gostaria ainda, claro que sim, de ser olhado pelo mar
no Inverno, quando os penhascos se apalaçam
à monarquia de gaivotas & albatrozes, caiado
de sal e juncado de naufrágios equivalentes
aos despojos das vidas, quais vidas?, todas elas.
(Ou quase todas elas, há casos que felizmente não.)

Em poucas meias-dúzias de anos, os leitores
chegarão à foz do espelho terminal no Inverno
de Portugal, país que a infância soube perder
por todos os lados menos pela Língua, os leitores
terão frio, não será já amanhã nenhum,
entretanto penso no Baile que toco sozinho.