Mostrar mensagens com a etiqueta BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ. Mostrar todas as mensagens

29/10/2019

CADERNETA PRETA - 2






2. Jus aos Nomes

a) Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019



Instantes há em que a ilusão da a-temporalidade me toma conta da casa, planando no ar restrito da respiração, de móvel a móvel, a imaginária imobilidade. Mal, não faz – nem bem. Um marulhar de segmentos vocabulares, pedacitos de talvez-versos, música intransmissível a outros humanos – que aliás nem há. É todavia de autoritária natura que as horas recuperem terrenos que aliás nem houveram (por) perdido. Os nomes voltam, as gaiolas transparentes da mente rangem, referências impõem sua efectividade: a panela com sopa da véspera, o café velho, o pão já não muito novo, o pedaço de toucinho ganhando amarelidão. E a casa pronta para mais instantes no tempo que, vindo mais, se faz menos sem remédio.

No Reino Unido, trinta e nove clandestinos encontrados mortos num camião que dizem provindo da Bulgária: o alegado sonho ocidental, encontraram-no de olhos fechados. Hordas de gente demandando o graal capitalista da velha Ilha. Esquerda & Direita atiram-se sacadas de estrume aos respectivos focinhos. Bocejo ao meio-dia & picos. Fiz café fresco, torrei umas lâminas de pão, a luz da quarta-feira é adoradamente macilenta, faz bem consultar os longes salpicados de brinquedos: casitas, vias rurais, mansidão de mula daquela ponte, observatório, mata nacional, curro hipercomercial, bandidagem obsoleta, autocarros às moscas, moscas de autocarro. Aqui, sala, cozinha.

Sala, cozinha, quarto, retrete, banheira, porta-janela de vidro alto. Mas sobre a mesa vivem, de tantos mortos, obras vivas. Papéis que as tipografias mancharam, prensaram, deram à revoada. Sei-os tesouros, derradeiros como primeiros redutos do que verdadeiramente me interessa, me cativa, me prende & me liber(t)a. Dois rapazes, por exemplo: um Jorge, Adolfo outro. Ou Florencio (sem circunflexo, este), a sós. Orlando, Rosado. Aurora, Magda. Monge, Raimundo. Não esperam, não vão, não pedem de comer, nada pedem. Oferecem, majestáticos, quanto têm. Recolho, de todos, quantas datas os enformam. Dou-me ao que me dão – e, nisto, nisso, cada diz faz-se gomo da Incontável Laranja, fruto de si mesma, Mãe & Órfã.

Agora mas há oito dias: a meio da tarde, lá em baixo, sim, na casa-de-pasto de Lurdes & Aristides, o meu lápis dando-se a –




b) Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019



Estas coisas são, ou foram, do tempo em que o Tempo era de quatro estações ao ano, quatro estações certinhas, vindas & idas à hora em ponto, quatro estações maiúsculas, Primavera-Verão-Outono-Inverno, dava até para acertar o relógio por elas, e agora que o conto já se sabe que não, agora só há dois tempos, só duas estações – calor à bruta e/ou inundações instantâneas como explosões de mercúrio – e às vezes na mesma semana, sol no Natal até às onze da noite & geada ubíqu’aérea em pleno Agosto, é triste, é quase cómico.
Fazia mais ou menos um ano que os manos Crispim tinham daqui debandado, dois coelhos na mesma cartola, fugiam à tropa colonial & refaziam a vida com trabalho duro mas não mal pago como cá, Germano Crispim & Serafim Crispim, filhos ambos do mesmo pai mas de diversas consecutivas mães, o pai-Crispim era Arnaldo, a mãe de Germano era Odette com dois tês, a mãe de Serafim era Celeste Aurora, boas senhoras ambas, não há mal que delas dizer, já ambas lá estão, assim como o que a ambas fez mijar ossos, por assim dizer.
E se agora o conto, é porque mo pede a vida, está claro que a minha vida, a minha vida-moeda de bífida face: a ainda restante & a já dissipada (pouco tudo & muito nada), esta que levo e me traz do sepulcro ao berço sem altar pelo meio, não porque seja importante por aí além mas porque sim, que é razão bastante.
Já o plantel a que pertenci tem mortos, misturam-se-me porém incertezas com notícias seguras, respira ou não Hilário?, talvez que sim Manaca, o melhor talvez seja enumera-los em caderneta não-dicotómica, Matine logo a seguir, Juvenal, Castro, Leitão e Quaresma, Vaz também, Nascimento também, Eliseu, Raul, Horácio e Vaqueiro, é muito triste reiterar por escrito tantos cromos já esmaecidos, amarelecidos, tantos sorrisos invadidos pela cola-de-farinha-cuspida, por escrito a morte parece – e é – mais mortífera, sempre posso ir enfim à rede netcoisa saber mais, mas se calhar não, fico-me com o que prefiro não saber, saber é por vezes uma agonia, aí ond’&quando finalmente sabemos alguma coisa é então que nos vemos descendo já para cromo, para lavado morto, morto de afinal memória bem menos infinita do que o afinal dom esquecimento chamado, mas digo: de tantos outros a cujo escol pertenci, pouco-nada sei, esfumaram-se na bruma nem peso levando consigo través a brisa, digo: Isidro, Capitão-Mor, Sambinha, Quinito, Calado, Ernesto, Vala, Tomás, Belo, Marques, Bento, Mota, Conhé, Mourinho, Móia.
Agora que o escrevo, moro com os nomes acima denunciados e com os que irei delatando, ou relatando, ou atando, ou hei-de contar (contar em número e contar de narração), como por exemplo Rebelo, o canhoto rebelo pai de tanta meninada, valente Rebelo guardador de redes e de linhas que não estas, antes fossem. E dele a Castanho e a Nau, um brevíssimo sopro.
O que de tudo isto é verdade embrulhada em prosa, enfim, não guardo expectativa de alheia confirmação, leitura sequer.
É verdade irem-me rareando os instantes contentes, euforia é mata-ratos que não fumo há trinta & três anos, todavia ontem vinguei-me um bocadito, o caso & a ocasião foram que de repente me apareceram ninguém menos que Pavão e Guerreiro, quase logo a seguir deram-me à costa Damião e Trindade, que vingou na banca até administrador, sacana bonito & de crisóstoma lábia. Pavão vem recuperando como pode de duas mazelas cardíacas, aquilo da neta e do genro mortos em desastre de carro abalou-o fundamente, a filha deu em doida de falar sozinha pela rua sem telemóvel nem nada. Guerreiro faz jus ao nome, tem dentadura até aos olhos, rebenta de saúde camoesa o ladrão, não há bem que se lhe não achegue desde aquele bilhete inteiro da lotaria do Menino-Jesus que lhe deu & rendeu seicentos-contos-seiscentos há tanto ano. Damião, o belo ruivo descoroçoador de tanta cona vadia, mantém-se dandy & tafula & correctíssimo portador de um atavio mata-quem-se-mexa. Quanto a mim?
Quanto a mim, não me mantenho por Voltaire ou Casanova como aqueles burgueses notários do Tiago Belga, tenho sim mas é em pontas, derivo no conto disto, faço por não ser nada comigo, os senhores fazei favor de cuspir para o lado assobiando para o outro.
Escrevo “todavia ontem” a propósito de Damião, Trindade, Pavão & Guerreiro – mas talvez minta sem ser por má-fé de contador, quando digo ontem, enfim, pode ser que há cinquenta anos tudo me apareça ontem (e Outubro também, ou tudo), não digo pareça, digo apareça.
Pode fisicamente a memória atraiçoar-me, que nem por isso lhe serei infiel: refiro-me a Óscar, o alto Óscar (que confundo, sem cacofonia voluntária, com Alhinho) perpetuamente envergado de camisa branca sobre calça preta à maneira do arquetípico criado-de-mesa daquele tempo em que o Tempo era de quatro-estações-certinhas-quatro. Óscar, o elevado Óscar, vencedor da mais crua pobreza, fez-se médico ninguém sabe como nem à custa de quê, o grande Óscar dos passes milimétricos à beira do não-pode-ser, sei lá, cá não sei, o belo Óscar que afinal matou a mulher & a filha naquela quarta-feira em que a Mishima apareceu a Senhora-das-Dores. Ou Reis, história parecida, negra também.
Sim, o Reis, aquele de bigode nigérrimo agrafado à cara pequenina de rato, não, que digo que tão maldigo?, não Reis mas sim o ruivo Romeu, uxoricida ele também, só que magistério, perdão, ministério-público nenhum houve por a lei & por a grei prova-lo à saciedade & à sociedade para lá de qualquer dúvida razoável.
Estes nomes rangem como móveis avoengos tanto na minha casa escurecida como na minha causa escura. Sim: Fraguito-Barros-Toninho-Arménio-Melo-Raul-Baltazar-Bastos-Laranjeira-Botelho-Manoel-Seminário-Nelson-todos-mais-Peres I & Peres II, todos operários da cerâmica, da bolacha, da cerveja, da metalurgia, da carne, dos camiões, sim, vinde todos & deixai-vos ficar um pouco, fervi de fresco uma cafeteira alta, torrei pão-de-centeio, a manteiga é como a daquele soneto do Correia Garção, “O louro chá no bule fumegando”, sim, estes nomes que rangem como ossos em petrificação de leite, toco a ilharga de uma sensação, recebo de imediato outra galeria onomástica, fantástica, (fant)asmática, outra caderneta cruel: Martinho-o-das-bexigas-doidas, Cavém-o-da-mulher-preta-que-no-Algarve-viu-a-Virgem-encarrapitada-num-galo-de-Barcelos, Carvalho-o-que-se-cativou-de-Vítor, Bento-o-que-sofria-de-lembranças-alheias-como-um-repetidor-de- sonhos, Fidalgo-o-que-era-verd’azul-encarnado-no-campo-roxo-da-heráldica-matinal, Delgado-o-que-estudou-para-padre-mas-acabou-escrivão-da-puridade, Faria-o-que-recitava-na-penumbra-da-caserna-versos-puros-como-cisnes-de-cristal-que-o-segundo-furriel-Dinis-dizia-serem-de-Goethe-nisto-sendo-contrariado-pelo-cabo-miliciano-Tomé-berrando-este-que-eram-de-Rilke-mas-nem-outro-deram-na-mosca-posto-que-os-versos-cisn’alinos-eram-de-Faria-ele-mesmo.
Acabo por sorrir sem espelho (nem boca) à vista: meti-me a isto, não me menti isto, sim: os nomes já brilham, os dos vivos nem tanto, os dos mortos muito mais, não é hoje o dia interessante, sê-lo-á o que & quanto este lápis, tinta por vezes, puder. Olhai Camolas achegando-se à praceta, ou Nunes, recém-viúvo, dado à Igreja; e Eduardo, sardinheiro & jovial como um lírio todo sal-de-prata; ou Brito, uma vez na vida, dando de comer ao esfarrapado Isaías.
Podem os pseudofelizes acautelarem-se o futuro ontem. Coitados. Dependem menos da poupança-reforma do que do subo-ou-não-m’-atrevo-? ante a figueira da infância mais baldia (ou bal-de-nuit, mas não quero ir por ’í).
Idílio disse-me gostar muito da terra que mais ajude um homem a dar fruto. Já Carlos, esse poupou-se a demagogias, casou-se cedo com uma fortuna de mamas ambulatórias. Sim: abri a caderneta – ei-la colando-me de reverso-rosto ao que já-fui-antes-de-morto.
Morto não é ainda Peres? I ou II, se sim? Nem Malta. Nem Jorge Melhor. A minha esperança terá sido depois de tanta falta-de-comparência-ao-jogo, digo: fui ter com o homem, boatardei-o, disse-lhe – O senhor não conte mais comigo a partir de Outubro, eu vou-me em vindo as primeiras chuvas.
E assim foi, e fui, deveras. Vitalino, que do balcão mal disfarçava estar ouvindo-me-nos, relatou depois – Aquele gajo pode ser doido, mas não esgana nem engana o parceiro.
Isto foi no British Bar, o das putas-de-luxo geridas por um tal Cardoso que era de Setúbal.
Sim: já resma a esmo se me vem fazendo o conto. Nem em meu auto-infligido desamparo me creria – ou quereria – outra coisa. Então, Moinhos(-o-Verde, o-da-Serra, o-da-Perna-Partida-em-Três-Sítios) diz-me lá das profunduras que ninguém sitia – Tu seguras essa caneca de faiança forte munida de chá-preto abelhado a mel-amargo, tu inquietas o nome, os nomes, pões a ferver a caderneta.
A um canto, Asdrúbal ri-se com as grandes mãos quadradas abertas no ar rarefeito da literatura – C’um carago, habi-ós-mas-era-de-bos-ber-a-dar-serbentia-na-zobras-ma-za-bergar-a-mola-mêma-sério.
O(b)ra isto é o(b)ra, Asdrúbal: Isidoro ou Pires pela esquerda?, Lobo ao centro, Castanho à baliza, alguém Moura ou Bonacho ou Nelo ou China ou Carvalho (I ou dois, como os Peres & os Crispins), sim, ainda onde é quieto até o de-vagar.
Sim, esses-estes nomes ladrando à chuva como cães-d’água. Teimosos na memória como quadros de pintores mortos pela fome chamada realidade, aqui no vagar da espécie, da especiosa humanidade capaz de caderneta.
Também pode ser que alguma mentira haja nisto: digo: caderneta: digo: nomes que ser já não possam senão por essa funda ingénua maravilhosa mentira chamada literatura. E então? Então, Valdemar. Arménio, então. Restritos paraísos de filhos-sós, órfãos à nascença, órfãos à hora crematória. Desconhecer a multidão silenciosa que com a literatura partilha cemitério & lista telefónica? Eu não.
Sair daqui?
Sair daqui, nada.
Sair daqui nada – outra, última, vez.
Falta-me para sempre o n.º 114, esqueci o nome, era do Boavista.

20/01/2014

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ, 48, Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado

48

Leiria, manhã de 11 de Maio de 2013, sábado


Para onde vai o mundo, digo, onde se metem
as pessoas que ao meio-dia desertam a feira?
Por que imperioso desígnio fica tudo tão vazio?
Ao cabo de tantos anos de trabalho, adentram-me
a escrita esta preocupação e outras afins, não sou
um narrador de viagens heróicas, nunca fui

tal coisa. Tenho pelo menos essa decência, já não é
mau de todo. Pela tarde, hei-de desertar, eu mesmo,
que feira? Já o Rio me chama, faz sol o ar,
há, ou dá-se, uma brisa decente & refrigerante,
uma pessoa pode flectir pelas bandas do realmente,
a écloga é possível e até provável no sábado.

Numa tenda beira-fluvial cozinham peixe em água-de-tomate,
a álea de freixos fica perfumada como uma sacristia,
muito eu gosto de sentir a felicidade simples das merendas,
que são lentas e lautas e pobres e tão dignas e tão históricas,
é uma bela coisa o anonimato do Povo, nem tudo
pode ser triste, devo insistir que não para sobreviver.

Ponho-me então a grafar sem a fúria já dos primeiros anos.
Daqui a pouco vou para casa algo valetudinariamente.
Sou tão português de aldeia, que chego a adoecer só
de pensar seja no que for, alguma coisa se me avariou
talvez para sempre, mas nem assim o pus do medo
me infecta a constância, o pão das pombas & o Diabo-por-ele.

26/12/2013

Entrada n.º 40 de BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - noite de 10 de Maio de 2013, sexta-feira

40


                                                                                                                                               
                                                         
Aquele homem é lento por causa de uma doença
chamada idade,  acontece muito nesta Cidade.
Queimo a boca de roxo com um cigarro branco.
Apetece-me falar com um amigo, mas não tenho
saldo no telemóvel, é quase tudo 96,
na mocidade era diferente, telefonava-lhes

para casa dos pais, tudo era fixo,
talvez por isso envelhecer seja tão móvel
e tão quieto ao mesmo tempo,
a gente sabe que vai morrer,
afia um lápis mas sabe que vai morrer,
abre-se em livro e depois morre.

Sou muito atento aos ócios preocupados.
As pessoas filosofam nos Cafés a propósito
de coisas como o arroz-doce e o trigo-roxo
e a subserviência e a carreira e os impostos
mas depois na internet borram-se todas,
vê-se-lê-se logo que não sabem escrever.

Eu aqui em Leiria passo muito à porta
da casa onde viveu o Eça-Padre-Amaro,
sinto logo muita pena de mim por causa do naturalismo,
fiz na quarta-feira 49 anos,
coisa que nem o Pessoa nem o Ruy Belo fizeram
mas o Eça sim, o Eça fez tudo em apenas 55, parece mentira.

10/11/2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 37 (10 de Maio de 2013)


37

Ib.
                                                                                                                                               

Começas criança mas ninguém te diz onde é o cinema.
Acabas percebendo a lata das bolachas, o ter de não estar vazia.
Percebes que a canção é mais do que um poema.
E chega a noite de ontem ao amanhã do dia.
Como cucos, os velhos são relojoeiros.
E nós, ex-crianças, disparamos morteiros.

Começa-se sempre pela louça, água-corrente nem sempre.
Mas há um horror ao lixo, que a limpeza é diferente.
É o mesmo que em pobreza a gente ser gente.
E as vagens-verduras sustentam a Mãe que morrer vai,
sei lá eu se é pecado ser nado ou nada ou d’onde-meu-Pai.
Dez de Maio, duplo-mil-&-treze, entretanto sai

o Sol inclemente, que com a Lua troca, indif’rença p’la gente.
Pela Arregaça antiga, que de Coimbra orla uma sandes paga,
a Matilde de há pouco (a louca dos meus versos) s’apaga,
de coxas varizmarmóreas, ante um viúvo desejoso,
uma ejaculação d’aguadilha, cuja emissão é o gozo
de um homem que não vou ser.

Amanhã, a manhã há-de ser de amanhecer.
O meu mais velho cruza morenamente a infância terminal.
Mandaram-no longe matar pretos em nome de Cristo-Portugal.
Tenho pena da Matilde, Gracita, aproveitam-se dela.
Já fez 60 anos, mas é branca de lírio. A beijar, é amarela.
Acontece exactament’agora. Escrevo bem. Acho mal.

03/06/2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 30 (manhã de 10 de Maio de 2013)

30


                                                                                                                                               

E do turíbulo do coração fumega o incenso moral.
Passa-se isto quando Peter “Columbo” Falk já morreu.
E quando o meu (re)conhecimento entra mortos adentro
para celebrar na mera laranja o rubi do fogo-ouro.
Suporto a tarde, é verdade, mas não sou vespertino.
Dirimo a íntima quezília, sou forte sem dados lançados.

Os presidiários conhecem os horrores diários
que aos ventos soltaram aziagamente.
Nem a vida deles paga os assassinados.
Não creio na bonomia da lei.
Quando músico-de-baile, ia ao bufete nos interlúdios.
Tomava o meu cálice e amargava sozinho.

Estou aqui que posso, não matei ninguém
e por vezes duas a alguém ajudei já a fazer.
O meu único pecado mortal,
ao Vosso igual,
é haver nascido.
O mesmo é dizer que uma mulher se me fez nascente.

Ora, acontece que nascer
não deveria ser
tão vinculativo.
Resgato-me na sabença de ler & escrever,
dois afins modos de ser
que me dão o estar, e o ser, vivo.

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 28 e 29 (manhã de 10 de Maio de 2013)



28

Ib.


Deixo o eu-corpo ir dar sem mim uma volta.
Dou-lhe o arroz que trouxe para efeito de pombas.
Em troca, ele deixa-me como de facto sou: em sombra.
Quando penso nos meus Amados Mortos, é o mesmo.
Tenho dinheiro para um par de cálices, meia-dúzia
de cigarros acalentam o bolso esquerdo do gibão.

Ao telemóvel, uma mulher louca queixa-se de quanto
engordou a uma remota outra Heloísa chamada.
Passa-se esta eternidade degradada no Café Colonial,
a que muitas vezes aplico tributariamente o nome de
Café da Rosa,
que hoje me (a)parece um seu tanto nervosa.

E quando as crianças sobem no ar como balões,
a gente madura sente a dor morna do ter-sido
às cores atmosféricas que o deslumbramento do Estio
volve estrelas capturadas em espelho nos fontenários.
E quando o senhor Carlos toma o seu chá & a sua torrada,
o que Leiria merenda é o pousio mais restaurador.

Por isso, podes imaginar em uma espécie de falida Detroit
inçada de motor-fantasmas, riscado o chão de poemas
a óleo. Quando o corpo me voltar, se voltar,
darei com ele a ronda do reconhecimento da luz,
que a 10 de Maio de 2013 tornou em glória franca.
E o Diabo dispara até com uma tranca.

29

Ib.
                                                                                                                                               

O Diabo até com uma tranca dispara –
assim nos disse o Alferes Sardinha
em Mafra, Escola Prática de Infantaria,
acabava-se o Inverno de 1987/88.
Éramos homenzinhos verdes na parada,
marcianozitos do Serviço Militar Obrigatório.

O Abreu diz que vai deixar de fumar,
eu não fui ainda à Ereira, a Sesimbra sim.
A Trompa-de-Eustáquio silva o aquário cerebral.
Nada é tão lamentável quanto o viúvo entesoado.
Aqui na Colonial Rosa aparecem muitos,
com a agravante de as esposas serem ’inda vivas.

Leonor, ó minha gardénia clara,
volveste forte a minha vida e rara.
Teresa, jasminzito delicado,
volveste sorte a minha vinda e rara.
Não se pode errar tudo.
Esperar não é remédio.

A 8 de Março de 1988, adentrei o Convento de Mafra.
Nas arrecadações dele vive a tropa.
Aprendi a traçar o azimute & a disparar a tranca.
Cometi a melhor marca nos 80 metros: 9,4 segundos.
Disseram-me que só o Nené do Benfica tinha feito melhor.
Contei isso ao meu Pai, que viu logo que eu era para ser poeta.

02/06/2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 26 e 27

26

Leiria, manhã de10 de Maio de 2013, sexta-feira


É preciso ter passado, como eu passei, por vilas desertas ao domingo.
É preciso não ter nada em frente senão um salário.
Eu sabia que ia ficar para sempre na Música.
Sabia também que não me sustentaria dela mas para ela.
Suturava feridas invisíveis nascidas da fome de saber.
Como no Verão de 1991.

No Verão de 1991 trabalhei por conta de um homem que eu já era.
Perto, o regato mal respirava,
saturado de sol como estava.
Fazia as refeições num reservado invisível também:
como se celebrasse uma missa agnóstica
à impossibilidade de Deus e ao minério do Corpo.

Derredor, na volta da fonte, mulheres alheias cacarejavam
as notícias vilãs com essa tão portuguesa fúria alegre
que resulta do comentário da desgraça dos outros.
Habitava eu então um quarto muito branco
de cuja janela se me oferecia o mistério simples do dia,
que invariavelmente pintava cegonhas e campos de arroz.

Quando a alguém da Filarmónica morria um alguém seu,
fardava-me para integrar as honras da Música
à pessoa perdida. No fim, embebedávamo-nos sempre,
pois que é ponto assente a libação vínica contra
o desmando escandaloso da Morte.
E o jornal íntimo se me manchava em furor sereno.

27

Ib.


Não eram ainda as sete quando a alva me levantou.
Saí do poço que imita a morte, dei-me ao ofício de renascer.
Procurei no escuro o fato para não despertar a Mulher.
Açucarei água na cozinha, que bebi de pé não devagar.
Senti as escadas desdobrarem para mim a rua.
E depois cumprimentei o senhor Eduardo, que vinha com o neto.

Às tantas de ter 49 anos, uma pessoa já sabe o prémio do dia.
Na mercearia do bairro, caixas cantam alto a fruta.
De coxas gordas, varizmarmóreas, a senhora Juliana beijarica o canário,
que é claro como o limão e como o pão novo.
Nada me custa alcançar o Rio, sabendo nas costas o nascimento.
O nascimento & a morte.

Quando chego, estou de partida.
Assim como toda a gente toda a vida.
Exerço então o lápis qual florete,
esgrimindo o puro minério (a pura chispa) do Verbo.
Almoço a saturação da Música, das casas encerradas
à passagem do rei morto.

Canto para dentro o meu Sá, o meu Garção.
Finjo que não componho qualquer canção.
Ponho-me a arabescar as árvores maiores
enquanto desfloro rosinhas de, digamos, torrão-de-Alicante.
Então, a glória banha-me todo, torna-me lustral
como uma tocha de gelo, como um homem para o fogo.

15/05/2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 16 a 20


16

Leiria, tarde de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


É com férrea disciplina que cometo afinal a minha vida.
Colonizei todos os lugares que respirei em presença.
Cedo pouco importância até ao alude dos anos.
No fundo, não tenho medo, facto que me apazigua.
O problema, a havê-lo, estaria na urgência inelutável
de tudo escrever sem o luxo do repouso.

Postulo, por tudo isto, uma verdade pessoal e ínclita
quase. Faço-me livros de que hei veloz necessidade.
Eles acabam adentrando-me a fala, a vida social,
os nervos da flora, a ubiquidade dos animais,
a ventania que desde menino me euforiza aos gritos,
me iça aos ares frios atordoados de azul.

Não posso ser igual a mais nada, a começar pelo espelho.
Quando bebo uma cerveja em atento silêncio, sidero
a solidão gástrica e dela a vocação de entranha
labiríntica, ao fervor da sede que a aridez da esperança
implica e imbúi. Encastoo os meus ferros em oral
veludo, o que é muito para um pobre e nada para o moribundo.

Os núcleos efervescentes da minha vida têm amor dentro.
Sou um pássaro de calças sobre areias e mirtos
(e mortos também, sempre & para sempre), querida.
Vejo que toda a criança reitera a eternidade caduca.
Vejo o cão que dança de lobo dentro vigiando.
E com férreo disciplinado amor atiro pedras à água da fala.

17

Ib.


Gosto de coisas como a que ora mesmo aconteceu:
um velhote de boina que antes de se sentar
boatardou todos os circunstantes (um homem/uma mesa)
no Café da Rosa. Sim, sou de gostos simples,
como o de gostar de bons-dias, boas-tardes, boas-noites
dadas e recebidas por e de pessoas não conhecidas.

Em este Maio me pergunto quantos Dezembros serei ainda.
E se será em casa que de vez adormecerei.
A minha casa – esse país por onde traficam os meus
Amados Mortos o amor mais estupefaciente em
açúcar cristalizado e violáceo, violento às vezes.
(Sim, estou hoje capaz de verdades.)

Não percebo o aquário como não aceito a gaiola.
Mas em casota caninamente me encerro, pulguento
de tanta poesia ao mundo desnecessária mas a mim
crucial, em Língua Portuguesa de Portugal. E tal.
Sou bonito quando atiro diamantes às pombas, embora
pão seja só, de rosas esmigalhado-diamantinas perfumado.

Sim – e viva o fado. Quando músico de baile, certa noite,
adentrei o bufete no intervalo para rifas em quermesse
pró-pobrezinhos da aldeia. Lá fora, chovia gelo quebrado.
Pedi uma cerveja, que o director em função barista
me serviu com rodela graciosa de tremoços gordos
curados em serapilheira no ribeiro. E eu dei-lhe as boas-noites.

18

Ib.


O Inverno de Queluz sempre me acinzentou a imaginação.
Aquelas pessoas, sabes, a fazer de canários nos andares-gaiolas.
Que luz Queluz não pode ter, dada a taxa de divórcios,
óbitos do amor contratual com que os católicos não-
-praticantes enganam a Deus? Adeus, adeus, não
quero morar jamais em Queluz, nem no Monte Abraão,

que Rui de Moura Belo circum-escreveu como ninguém.
A minha Mãe tinha uma prima velha chamada Clementina
e muito sozinha que morava em Queluz. Nos Julhos de
primórdios de 70/XX aparecia-nos na praia da Figueira da Foz,
a minha Velhota e ela conversavam eternitardes
enquanto eu absorvia as cores mais salgadas da felicidade.

Às vezes falo de coisas assim à minha Graça,
ela não acha estranho que eu continue ao pé da Bola-Nívea,
por isso nos casámos. O meu Pai vinha de comboio
aos sábados, não sei por que terá deixado de fazê-lo,
talvez porque não dêem aos mortos dinheiro que chegue
para o comboio, que naquele tempo eram de cartão

p(r)ensado, os bilhetes da ferrovia. Às vezes a minha vida é
Queluz, outras em que luz. Isto depende dos sais,
que são mancúspias grão-cristalinas como as enzimas
mas um bocadinho menos.
No Verão, o Mar exulta.
E os Campos aureolam-se de ricos fenos.

19

Ib.


É uma espécie de transe.
Uma combustão, um quase-grito.
É um amaciar de coxas.
É como ser flibusteiro.
É lapijar a cores o mapa das laranjeiras.
E é não ter hipóteses.

Respondi exacta-sic-mente assim à pessoa
que no Largo das Forças Armadas, Leiria,
me perguntou em que trabalha o mundo
e que sentido pode haver em que ele trabalhe
e para quê tanta pomba tanta criança
tanta às vezes aflição.

Vi depois um homem todo vestido de roxo.
Talvez fosse o vinho: o meu como o dele.
Sim, pode ser aflitiva a consciência verbal.
É quanto tenho.
Se poderia ter mais?
Não o quereria.

Depois, o carro da polícia passou em frente à Rodoviária.
Um notário filatelista pediu chá de tília.
Pensei nos telefonemas que de quando em vez faço à família.
Sementes agrícolas e ceras apícolas e agonia viária.
Página em frente, trabalha muito, sê gente.
Não escreviver, morrer seria, seria ser igual só, nunca dif’rente.

20

Ib.


Um rapaz representante de vasilhames
teve à nossa frente sua quebra-de-tensão,
demos-lhe todos água açucarada
e face-palmadinhas de cristão carinho,
o moço rearribou,  é de calvície precoce,
pele tipo cor-de-sobrinho-filho-de-padre.

Depois, a Celeste, que usa e abusa daquela blusa
que lhe acarna o seio adiposo de amamentadora
profissional, quis saber qualquer coisa que não ouvi,
não me sendo portal, perdão, por tal
possível poetar seja o que for
com Celeste sextilh’ adentro.

Três-euros-e-meio são setecentos-paus dos antigos.
Há já quem consumo-minimize isso a senhoras
nos bailes-das-velhas que são
a mais admirável circunscrição
desta como de muita re(li)-
gião.

Aguardo activamente o Poema que me resgate,
qualquer coisa tipo
Os-Lusíadas-como-os-diz-Molero.
Ainda não será hoje.
Pego nas manchas de tipografia.
(Não há dia em que te não deseje bom-dia.)

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 13 a 15


13

Leiria, manhã de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


Como se deveras tivesse sido músico,
porto em corpo a moléstia da atenção.
Cultivo no rio mesmo a serradura sideral:
se ele espelha das miríades a miopia estelar.
Vale-me o, tendo que dizer, não mandar
dizer por ninguém.  Por algo cresço ’inda.

Quebrei já muitos vidros na imaginação.
Teima em mim o infante de outro início.
E em partitura para harpa a velha chuva.
Adormeci ontem no sofá enquanto os Marx Brothers
iam ao circo emaranhar ingénuos  enredos.
A alegada Civilização precisa de Irmãos.

Volto ainda a aldeias apenas entressonhadas.
O avô e o neto extraem água ferrosa do poço.
O cão é o mesmo de quando Teixeira de Pascoaes.
E o frágil japão da geada matinal, a mesma
de quando o bondoso Wenceslau de Moraes.
Sim, estas coisas podem ser.

De limitada edição é o amor lácteo.
Começa-se pela Mãe, chega-se à Mulher final.
Panifico-me todo em óbolo de pombas,
columbina é minha ronda pela Cidade.
E duas rolas são as filhas que pude,
no gás das esferas, na noite aldeã.

14

Ib.


Quando talvez músico outror’ um dia,
mais do que saber o que fazia, eu vivia.
Ainda assim me é o expediente respiratório
na consumpção do quase semisséculo pessoal.
O meu Cunhado José Maria faz hoje, 9, anos.
Foi com a minha Irmã ao Lidl de Eiras,

apanhei-os por telefone tomando café, uma
na companhia de outro, é bonito saber tal.
O resto da manhã, vou ardê-lo na composição
destas canções, ofício que desempenho com mais
pertinácia do que talento, eu sei, mas outro
remédio me não sobra que o da contumácia

mais relapsa. Saindo daqui da Rita, vou ao
Lagoa, aproveito para atirar ao Lis o olhar
ambulatório de músicozito provincial,
sendo meu natural um coração manual.
Se alguma vez de novo em seio de floresta,
refarei de cada passada uma festa,

pois que tudo a passado passa.
O oficial dos Correios, ao lado, vozeia
caladamente as missivas por frinchas
de alumínio à face dos prédios.
Já o vi com a mulher às compras no
hipermercado da Gândara, comprou sardinhas de lata.

15
Ib.


Supina amabilidade, gentileza a mais grácil,
tudo me conforma a mulher que tenho e de quem
sou na espiral das horas que dias e anos
engessam sem remédio mas a azul-marinho.
Quebram-se-me os dentes de não lascivo desejo
quando a bom-dio, a desperto e a beijo.

De pantanas, ex-relicários, que mover me fizeram,
me não comovem já, fruto que mordi mas não
lamento, não mais & já não, podeis crer.
Procedo em paulatino crescimento, vergando as horas
como se dobrasse duros ferros em fundação de casas,
sim, trabalhei já de adjunto de mação.

Ao fervor das tripas me marulha a humanidade,
o dia chegará em que de vez se me prateiem os gestos,
um pratito de massa com carne me sustenta
enquanto vejo aquela série-reality-show dos polícias
detendo traficantes e afins gafanhotos da heroína,
lá fora o dia não abre o jogo do sol.

Ali em São Romão, uma mulher atropelou de carro
uma criança e fugiu do local, a criança morreu,
ela já foi detida, a vida não é uma festa porque
a gente abandona o local dela, imagino o que por São Romão,
Leiria, vai, ou não, nem imaginar quero,
ele há músicas que se não dança, só se chora.

14/05/2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 6 a 10


6

Ib.

De anémonas um rosário eu possa,
ora que ’inda é hora de escre’viver.
Um cântico é um ladrar solitário,
quantos palcos de associações recreativas
venci na penumbra de anos esboroados,
tangos, valsas, fandangos & fados.

Operática nudez me convoco sem pranto,
nas salas-de-espera dos apeadeiros concebi
a inconcebível solidão moral do músico,
já então me adornava de cadernos impublicáveis,
lia com minúcia os mapas-horários,
meu era o fervor da ópera, da tragicomédia.

Coimbra, sim, mas Peniche, mas Aveiro,
mas o Caramulo com seus fantasmas hécticos,
Viseu com seu brasiledo de putas,
a por vezes inumana (inumada) Lisboa,
pensões de cinco tostões cuja humidade
fervia peixes frigidíssimos de agora-que-me-será-?,

fecho os olhos, canto (tom e meio sobre a linha melódica)
a Montanha, a Lua Fanal da Montanha,
canto a Grande Rapariga de Prata no Tempo,
canto a poliglotia dos animais mais mudos,
só não canto o quanto uma pontada de desespero
pode furar coração adentro um desejo simples.

7

Ib.

Quem ainda trabalha no meu ex-negócio é
o José Cid, coitado. Compreendo-o bem,
é afinal um português que gosta de cavalos
e de falar de D. Sebastião, o cachopo realengo
que se foi fazer ferrar a África. Falei
uma vez com ele – o Zé Cid, não o Sebastiãozito.

Fora & tirante o Cid, não mantenho grandes ícones.
Talvez o Conjunto Maria Albertina.
A Hermínia Silva. O Max da Madeira.
Um pouco de Händel, concedo.
Uns pós de Vivaldi na sensibilidade, vá lá.
E Paulo Frederico Simão do Bairro das Rainhas, NYC.

Tudo quase quanto hoje sei, é onde há pombos,
pombos e laranjeiras e cabeleireiras sós
como peúgas desirmanadas em marquises,
troco às vezes a serenidade por uma botelha,
uma botelha daquele bagaço que sabe a evangelho
todo cagado dos pombos.

Verdade é, também e porém, que isto tudo deriva
da habit(u)ação: às marés terrenas sufragadas
pelo vento de música dos bailes da mocidade,
quando eu era para não ter sido, não ’inda,
uma calota polar do que se junta, janta &,
irrefragável, se dispersa – cinzas quase tudo.

8

Ib.

Delego na memória fabril o febril produto,
que operário sou da articulação dita,
que não falada, da indústria poética.
No Largo do Cónego Maia, Leiria, anos-ora-depois,
Inscrevo a sombra confessa do meu Inverno,
o meu portátil Inverno de rapaz português.

Sou, em verdade mo repito & crocito, um órfão.
Tenho uma experiência venatória, pelo lado
do gamo. D. Fuas Roupinho não m’ enjeitaria.
E do meu tempo de infante pedonagem
reservo a pedraria viva de gafanhotos, sardaniscas,
ouriços, raparigas lácteas, primeiro desejo

de ver o universo em verso.
Evoco às vezes um vocativo que não há,
como se em palco de associação recreativa
me dirigisse em rogo a um público
de namorados zundapp-motorizados
e costureirinhas perfumadas de bolacha.

Quan/d/to assim escrevo, deponho. Não é o mesmo
que enlouquecer – não ainda, minha linda.
Eu sou do Verão de 78, da Primavera de 74.
Mas também do Mondego, que o Pavia e o Lis
me repetem em aquífero eco.
Não me quero par de qualquer badameco.

9

Ib.

Cantei uma vez a solo, andava adoentado o cantor.
Desempenhei-me na função como canário tristímano.
Uma mulher dentre a assistência quis saber mais.
Não havia telemóveis na altura.
Quando me apareceu com um copo de Dimples sem gelo,
Agradeci-lhe, primeiro, questionando-a depois

se era mordoma de alguma festividade religio-fogueteira,
dessas de aldeia que Agostam a portugalidade,
disse-me que não, que gostara de me ouvir cantar,
que se eu compunha,
disse-lhe eu que ainda não,
que só em Maio de 2013

me atreveria a compor um Baile mas Sozinho,
redarguiu-me ela, em aquiescência, que sim,
que compreendia, que às vezes se sentia sozinha
entre tanta pomba e tanta laranja,
& que sentido é haver por aí tanta ourivesaria
e tanto cantor e tão sozinho dela ser o dia.

Isto não é verdade. Nunca aconteceu. É só um livro-só.
É apenas como se eu tivesse integrado o Trio Odemira.
E só o Bailinho-da-Madeira em quádruplas sucessões
de sextilhas em estilhas verbais.
É só um ter-nascido-e-já-sido.
É não saber mais.

10

Ib.

As linhas cantadas atiram lírios aos pés descalços
que a alma usa quando a desnuda a música.
Senti vivamente isso em certos desempenhos bailadores,
quando o conjunto menos era movido pelo dinheiro
do que pela urgência de partilhar a chaga-viva
da rima tónica, em C-cortado, tipo slow.

Outra coisa são as linhas contadas.
Essas que em família soliloquamos nos invernos.
Essas que nodulam (ondulam) a garganta à saída de casa
para a vida definitiva, essa morte da canção,
vê se me percebes, vê
pelo menos se me ouves.

Recordo entre bailes
(entre livros, sobretudo)
certo hepático cavalheiro
cuja amarelidão traía
muito granel de aguardente
e muito hectare de tabaco acre.

Era Serafim:
a mulher traía-o.
O bairro via-o (e, casquinho, escarnecia-o).
Não nascera amarelo. Foi fugazmente, por bebé, até belo.
Gostava da música que a gente fazia,
mas no fundo só queria tão-só companhia.

Canzoada Assaltante