Thursday, October 19, 2017

Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé! - Rosário Breve n.º 526 in O RIBATEJO de 19 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé!



Ando há tempos para V. dar conta de dois livros intimamente ligados a Santarém cuja leitura fiz com zelo, lápis, agrado e proveito. Ainda não vai ser desta. E ainda não vai ser desta porque a chaga incendiária – que nos mata tanta gente, nos destrói tantas habitações, nos arrasa tantas matas e nos pulveriza tantas empresas – é a recorrente e implacável temática de cada dia, semana a semana, mês a mês.
Pus-me a odiar São Pedro, coitado do barbudo das chaves-do-Céu.
Na minha mocidade (e na Vossa), as estações eram quatro: e começavam à hora marcada do dia certo. A Primavera existia, vinha no bico das andorinhas, o arvoredo rejubilava, a temperatura era suave & adequada. O Verão amarelejava de grandes fenos, extensos trigais, fundia o azul do céu no azul do mar, os rios ainda não eram fossas pecuárias. O Outono? Era todo Vivaldi: revoadas de folhas revoluteando como arcadas de violino, havia o prazer das luvas de lã, as botas de borracha pelas ruas de terra sem macadame. O Inverno era frio conforme a competente e obrigativa disposição legal desse tal São Pedro que, naqueles bons tempos, trabalhava bem & devagar. Tudo isto deu o berro. Tudo isto ardeu.
A estiagem prolonga-se indecentemente há meses de mais. Em plena segunda metade de Outubro, a brutidade solar, sem ozono que superiormente a estorve, esturrica-nos a nossa própria sombra, que, pelo chão, feita carvão, se esbraseia mais do que nós até. É uma coisa intolerável, este calor sem freio nem calendário. É um túnel de fogo sem água ao fundo. E o imbecil do Trump a rasgar acordos pró-climáticos. E o aqueci/esqueci/mento global. E os glaciares a virem por aí a baixo feitos sopa. Porra, porra, meus senhores.
Como poderia eu, pois, cronicar-vos a mote das minhas leituras pró-santarenas? Livralhada agora, agora que por todo o lado só se lê, vê & ouve que “Olha, subiu o número de mortos; olha, mais uns tantos desaparecidos; olha, os feridos não param de aumentar…”? Ná, leiturices para ninguém.
Eu exijo que chova como deve ser. Estamos em Outubro, catano! Quero o frio que nos é devido em Novembro para podermos matar & escorrer com limpeza e sem mosquedo calorífero & putrefactor o belo porco enquanto roemos a bela castanha assada – ou cozida com funcho.
E olha, ó Pedro tão pouco São, vê se te reformas e dás lugar a outro. Olha, dá-o a São Tomé, por exemplo, que só haveria de crer numa política territorial anti-fogos quando houvesse alguma para ver.



Wednesday, October 11, 2017

(f)Actos da minha vida - Rosário Breve n.º 525 in O RIBATEJO de 12 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt



(f)Actos da minha vida



1 Descalço, saltei do muro para a banda do monte, cortei-me no pé direito, sangrei muito – e ainda sangro. Não singro, mas sangro.

2 Abraçava os meus cães & os alheios, beijava-os no rosto, sentia deles o frémito humano, olhos de quem entendia o que se lhes dava: como tão pouca gente-gente entende. Ou é beijada.

3 Aprendendo a fumar (às ocultas do entardenoitecer, encostado ao portão da quinta), volvi-me, até estatu(t)ariamente, uma imitação de adulto. Continuo ambos: fumador & simulacro.

4 Os mendigos batiam-nos à porta muito delicadamente. Se era meu Pai a atendê-los, tinham menos má-sorte. Se era minha Mãe, pobre ela também, tinham boas palavras e não mais que cinco tostões. Se era eu, aprendia a ser delicado no bater às portas. Até hoje.

5 As raparigas: deixando de ser meninas, obrigaram-me a tornar-me rapaz. Em paz elas & eu, agora.

6 A Muda dos Tremoços: esperta, ladina, pobre – mas sobrevivente, criadora de gente, de si mesma banca & fruto & sal & tostão.

7 O Leandro Jardineiro: bêbado, blasfemo, praguejador, admoestador, terror das crianças – um vero santo católico, portanto.

8 Na vertical, era, naquela altura, um colosso: seis pisos de armazenamento industrial. Um deles, de botijas de gás. Deu-se o incêndio. O povo foi ver. Eu também era povo. De súbito, a explosão: foi a nossa Hiroshima. Mais de quarenta anos passados, continua a ser o raso chão a que se viu desfeito. E nós japoneses, por assim dizer.

9 O sr. Eduardo da Rua do Leitão que morreu na linha: vinha apeado da bicicleta para a travessia, deixou passar o primeiro comboio, não contava com o segundo. O povo foi ver. Eu também era povo. Aquele lençol da mulher-guarda-da-linha guardando o mistério do corpo, a escandalosa rosa de sangue florindo o pano: inesquecível floricultura.

10 A minha Irmã, de blusa verde, menina & moça qual rouxinol-bernardino, à janela. Sem pose, alheia ao fotógrafo: rosa verde, antítese daquela que vi no lençol da morte ferroviária.

11 Naquele tempo infante, os Verões não eram a calamidade pública que hoje são. Os Julhos eram passados na Figueira da Foz. A Mãe arrendava a mesma casa. Aos fins-de-semana, o Pai reunia-se-nos. Isso não volta. Eu não era, então, a calamidade privada que hoje sou. Mas a Mãe era o Verão. Em pessoa. E é ao sol dela que escrevo quanto escrevo. O Pai chega sábado.

12 Linda como uma conspiração de açucareiros, aquela Maria dos meus dezassete anos embebedou de clorofila a incipiente árvore púbere do meu coração. Depois, rachou-ma em cavacos imprestáveis até para outros lumes. Habituei-me a sentir-me embebedado. Por Ela. Sem Ela. Contra Ela. E contra mim, em minúsculo pronome.

13 Os Irmãos: seis, todos mais velhos – ou, por assim dizer, os meus mais recentes & mais vitalícios antepassados.

14 A Minha-Rua: era um país. É hoje um desconsolado consulado de marcianos que não falam a Língua nem se lembram dos senhores Nunes, Catarino, Gonçalves, Velindro, Pimentel, Ribeiro, Alcides, Pereira, Morais, Sério, Botelho, Alfredo, Sacramento, Carvalho, Abrunheiro.

15 Quando chovia: o cedro do meu prédio semelhava uma labareda negra de verd’outrora à Van Gogh; as mulheres zumbiam no recolher à pressa das camisas crucificadas do estendal; o senhor Carlos da taberna-carvoaria cainhava gemebundamente: “Estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover-estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover”; e o cedro do meu quintal era o senhor Carlos a cainhar mas em versão Vincent de cinema-mudo.


16 As Fábricas: morreram todas. Corrijo: mataram-nas. Foi então que vieram os marcianos. E foi então que veio a outra Língua, que de nomes antigos nada sabe nem a cedros à chuva entende, quando o céu chove como a olhos acontece, certas vezes. Ou a cães, quando beijados.

Thursday, July 20, 2017

PARDAIS ESPERTOS & FANTASMAS BENIGNOS - Rosário Breve n.º 515 in O RIBATEJO de 20 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Pardais espertos & fantasmas benignos



1 Há muitos anos que o Verão e eu nos não damos bem. Prefiro-lhe épocas mais moderadas, mais temperadas, menos brutais, menos inabitáveis. Como no entanto ele é que manda, fecho-me mais em casa, cerrando cortinados e estores para que a sombra me proporcione a ilusão de uma frescura que de facto não há.
Faço por não vegetar. Tenho fartura de livros que há anos me esperam a visita demorada. De raro em raro, um documentário televisivo cativa-me a atenção. E há sempre a internet, arca sem fundo de motivos de (muito) interesse, uma vez filtradas as fontes.
O mais curioso de tudo isto é a amálgama. Refiro-me ao emaranhado de informações que chegam, estão e se vão embora, deixando todavia fragmentos que se me incrustam na lembrança e que, aqui e ali, a este (des)propósito ou por aquela sem-razão, arranjam maneira de irromper do olvido para que tudo, afinal, tende.
Se a velhice lograr desarranjar-me os fusíveis mentais, vai ser bonito. Hei-de dar por mim a reportar à senhora auxiliar de enfermagem que o meu pianista preferido, Bill Evans, teve um fim trágico, não sei já bem porquê nem como, acho que droga, senhora doutora, a morte de um irmão, coisa assim. E nisto, a cada 10 de Junho, na minha cabeça não ser Portugal o cerne da efeméride mas a vila francesa de Oradour-sur-Glane, que nesse dia de 1944 foi martirizada pelos criminosos da Divisão Das Reich das Waffen SS. Ou farrapo histórico afim.
Por enquanto, todavia, a coisa vai-se dando & andando. Mormente desligado, o televisor não é capaz de encher de moscas oleosas o ar da casa. (Para mais, tenho de concluir por estas horas uma encomenda de trabalho que eu há muito deveria ter satisfeito. A ela tornarei em concluindo esta crónica.)
2 Concedo-me um breve interlúdio a horas decentes. Vou à pastelaria da praça e fumo dois cafés. Levo pão e arroz no bornal. A passarada conta comigo há anos já. Com discrição, vou atirando bolitas de miolo ao arrebol. A pardalada, esperta, aparelha-se em lugares estratégicos. É um festim que invariavelmente me paga o dia. Hoje, tenho o elogio da agricultura tal como versejado pelo romano Virgílio. No outro dia, foi a galega Rosalía de Castro, senhora que sabe estar. Camões aparece muitas vezes mas já sem pala: usa agora uma lente fumada tipo Ray-Ban que lhe não assenta mal. Outros delicados fantasmas devassam a esplanada. Alguns brincam a correr atrás do pão dos pássaros, fingindo uma fome e uma infância de que há muito se livraram. Guilherme d’Azevedo é um. Gervásio Lobato, outro. Continuam portugueses na eternidade esquecida que os nimba. De chitas humildes, vem a senhora catalã Mercè Rodoreda. Não me falta gente. Livre de corpo físico, é malta que faz bem ao velho que aprendo a ser sem grande esforço nem proveito por ‘í além.
E nisto se vai escoando o Verão assassino dos grandes incêndios e das caloraças irrespiráveis. Que o Diabo o carregue – como a mim me há-de carregar também, sendo tempo disso. E tu não estejas a rir-te.

Thursday, July 13, 2017

CRÓNICA BADAGAIO-GEOLÓGICA - Rosário Breve n.º 514 in O RIBATEJO de 13 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica badagaio-geológica


1 Decidi tornar do domínio público um terror meu que décadas a fio tenho mantido secreto. É um cagaço simples de explicar, embora mui complicado de sofrer: tenho medo de se me dar o badagaio em plena rua – e comigo carregado de papéis privados como sempre ando. Atenção: não é do badagaio que tenho medo. Toda a gente acaba por ter um: merecidamente mais cedo, uns; outros, injustamente mais tarde. Não é por aí que sinto miúfa. É pelos papéis.
2 Os meus papéis. Esses a que aponho a minha caligrafia. Aqueles onde estou todo: diminuído e por rever. E se de repente adorno na calçada, sim, eu de olho já vítreo, já de fio de baba tipo caramelo a sublinhar-me o beiço de baixo, o pernil aos esticõezinhos larilas de disco-dance? E se derrepentemente os meus mil-e-um papéis se põem a imitar as borboletas ao fim do quarto-dia de crisálida? Há-de ser o diabo duas vezes para mim: porque morro ao cabo de tanto me ter habituado a haver nascido e porque nunca mereci Deus, meu Deus.
3 A coisa é que já tenho tido ominosos prenúncios dessa cómica tragédia de morrer de bornal aberto em plena rua. Contexto: eu sou um velho resistente às modernices dos tablets. Para mim, escrito-de-escrever-para-ser-lido é lápis e/ou caneta sobre papel que chie ao ser rasgado ou a limpar alguma reentrância do corpo. Borrão ou borracha, para mim – nada de merdices electronipónicas inventadas na Finlândia e cagadas em massa na China para lucro dUSAmericanos. De modo que papéis – centenas e centenas de verbetes avulso que a granel acarreto na minha sacola por atacado. Dias de vento em que por distracção ande de mochila aberta – rai’s partam isto! – e estilhaça-se o ar do desperdício voador que é tudo quanto tenho escrito.
4 Se fosse hoje, por exemplo. Jesus Senhor. Belzebu meu. Se hoje fosse que os pés se me juntassem com vocação de marmórea tabuleta, contai comigo, contai assim comigo de lábios abertos: 24 verbetes com puerilidades inconsequentes de Ricardo Gonçalves; 72 trechos de primeira-água copiados dos outros cronistas dO RIBATEJO para que pareçam meus daqui a uns meses quando o plágio for já indetectável (ando há dez anos nisto e até hoje ninguém topou a marosca, muito menos os próprios); duas berlaitadas das rijas contra o Ministério Público acusador de 18 agentes da esquadra da PSP de Alfragide por terem (re)agido como se calhar deve ser às insolências intoleráveis dos “jovens” da Cova da Moura, esses inimputáveis santinhos do altar do politicamente-correcto; mais duas gaitadas irreverentes contra os senhores juízes que se esquecem de ser órgão de soberania em hora de greve por mais uma posta de guito e uns reajustes orgânicos de carreira-estatuto, coitados, que só de subsídio de alojamento mamam 750 mensais dele; e mais ainda uma carrada de papéis com marcas de humidade mineral.
5 “Marcas de humidade mineral”? Sim, marcas de humidade mineral. Explico-me bem e depressa: na ânsia de se me não tornarem voadores os papéis quando ocupo a esplanada de meu escrivão costume, junto & ergo do chão, antes de ocupar posto, uma data de calhaus. Deles munido, sento-me. Saco dos papéis. Cada maço, cada pedra. Faço uma figurinha muita jeitosa. Nunca fui conhecido pelo que escrevo. Foi sempre pela quantidade de grotescos tabuleiros de damas que iço ao tampo da mesa. Julgais, todavia, que é só gozo que mereço? Julgais mal. Tomai e comei todos:
6 Aqui há uns anitos, lá vinha eu para uma esplanada parecida com esta de onde vos cronico agora mesmo. Ritual de sempre: mesa escolhida, pedras apanhadas, cu na cadeira, sacola aberta, papéis, pedra-maço, maço-pedra. Naquele dia, eu tinha muito que escrever – para aí uns oito linguados de geologia. Foi então que, out of the blue (como dizem USAmericanos quando uma mulher maravilhosa aparece das periferias do azul com o nosso destino a sangrar das unhas), me apareceu uma morena perfumada de até-que-enfim. Trazia consigo um pesa-papéis de ouro cujo quilate era, à justa, suficiente para a núbil confecção de duas alianças.
Era a Graça. Aceitei. Casámo-nos. É desde então que tenho tido o tal medo. O medo de, morrendo, ser finalmente lido como deve ser pelos calhaus.


Thursday, July 06, 2017

OXALÁ QUE PERGUNTAR OFENDA - Rosário Breve n.º 513 in O RIBATEJO de 6 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Oxalá que perguntar ofenda





1 Sei as respostas, mas faço as perguntas na mesma:
a) Não seria bem mais acertado gastar em bombeiros o que se gasta em tropa, gastando em tropa o que se gasta em bombeiros?
b) Se a tropa nem as próprias armas consegue guardar, a tropa serve para quê e/ou a quem?
c) Um bombeiro vale quantos generais?

2 A pergunta da alínea a) chega a ser pouco discutível. Chega o calor, esfregam as mãos os privados que alugam meios aéreos por uma fortuna. Ao mesmo tempo, as aeronaves da tropa praticam as belas rendas da teia d’aranha (quando não andam ocupadas a queimar combustível caríssimo em solenes aparatos perfeita, absoluta e absurdamente inúteis). E os submarinos, não esquecer os tristemente célebres submarinos-catrinetas de guardar o carapau da costa.

3 À caricata questão escarrapachada em b) há que juntar a rábula das messes roubadas pelos seus próprios (in)fiéis-de-armazém. A credibilidade e o pundonor da instituição castrense são atirados à lama por gente aparentemente incapaz de viver com o próprio pré num País que fora dos quartéis pratica essa ofensa colectiva chamada “salário mínimo”. Brio, decoro, honradez, amor-próprio, dignidade, distinção, decência militar – tudo se esfuma à vista de uma sacada de batatas sobrefacturada à conta do civil. Mais o tal armamento ao dispor do primeiro filho-de-uma-velha que, com conhecimentos lá dentro, passe a horas certas nos intervalos da chuva e das sentinelas na zona do paiol.

4 Quanto à c), calma. Para de todo não resvalar em demagogia fácil, devo dizer que conheço em pessoa alguns bombeiros fraquitos e uns tantos oficiais, sargentos & praças decentíssimos. Como dizia o outro, “nada do que é humano me é estranho”. O problema, todavia, sobrepassa em muito a excepção para consagrar a regra. E cá está: por regra, o bombeiro dá-se todo a uma causa humanitária sem esperar nem mordomias nem alcavalas, antes sacrificando o seu tempo, a sua família, o seu ganha-pão e a sua saúde; o general – sejamos francos de uma vez por todas – tem camaradas a mais para a mesma teta.

5 Variando o tiro e o jacto da mangueira, preciso ainda de dizer-vos alguma coisa sobre o Concerto do Peido. É como muita malta chama àquela coisa muito lindinha dos artistas angariando fundos para acudir às vítimas (sobreviventes) do incêndio de 17 de Junho último. Fiquei (ficámos todos) a saber que a receita de milhão e meio de euros angariada com o tal concerto de solidariedade (mais chamadas telefónicas) foi entregue à União das Misericórdias. Não foi entregue ao fundo especial do Estado. Não foi entregue às autarquias directamente lesadas. Não foi sequer entregue, hélas!, aos Bombeiros. Não. Foi entregue à Igreja, via aquela rede de instituições (tutelada por Santana Lopes) que quer ser banco ou coiso assim.

O autarca de Pedrógão Grande, em solidariedade com os outros dois executivos municipais afectados pela tragédia (Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra), já manifestou revolta e desconcerto perante tal aberração. O peido deu borrada. E tresanda.

6 Já agora que estou numa de acirrar novos inimigos, a greve da enfermagem. Não avalio nem contesto a greve da enfermagem – mas acho perversa a ameaça aos partos. Há limites que a razoabilidade deve traçar – e mínimos limítrofes. Não é a mesma coisa que os professores ameaçarem greve aos exames. Não é mesmo a mesma coisa. Haja juízo. A enfermagem é tão indispensável quanto a classe médica. Dúvida nenhuma sobre tal. Mas calma: o parto é inadiável por sua mesma natureza. Pés na terra, pessoal. E os pés não são para levar tiros.


7 Termino pelo título. “Oxalá que perguntar ofenda” – é mesmo o que eu queria dizer. E ainda quero. E disse. É preciso incomodar quem nos faz mal. Sem medo nem hesitação. É preciso inquietar quem vive de nos comer as papas na cabeça. Eu sei que não é uma croniqueta que resolve o assunto. Careca de saber isso estou eu, que todavia me ponho sempre em cabelo para mandar umas bojardas de se lhe tirar o chapéu.

Thursday, June 29, 2017

HOMO CUNICULUS HOMINI - Rosário Breve n.º 512 in O RIBATEJO de 29 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Homo cuniculus homini





1. Na madrugada do 29.º aniversário de Fernando Pessoa, 14 bombardeiros alemães descolaram de uma base situada algures naquela Bélgica então por eles, alemães, martirizada e ocupada. A meio dessa manhã ominosa, as bombas destruíram uma escola do East End londrino, matando 18 crianças. Pela restante capital britânica, mais 162 súbditos de Sua Majestade Jorge V ganharam direito à eternidade anónima dos cordeiros imolados na ara e na era dos impérios. O bombardeamento de civis é hoje banalíssima coisa de dois minutos entre assuntos de futebol e frivolidades meias-lecas no alinhamento dos noticiários – mas na altura foi excentricidade e aberração que parecia e caiu mal, por nada cavalheiresca nem romântica. O sentimento anti-germânico que já então grassava entre os ingleses tornou-se amotinante fobia xenofóbica, a ponto de a própria Família Real, ela própria geneticamente teutónica, ter de abandonar a pesada nomenclatura dinástica que era a sua para adoptar a hoje ainda vigente. Ou seja: passou a Casa de Windsor ao renegar-se como parente relativa da genealógica House of Saxe-Coburg-Gotha-Hanover-Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg-Hohenzollern.

2. Estes factos de 13 de Junho de 1917 poderiam não ter visto luz nem haver passado à fria História real. Bastaria que o governo britânico de então tivesse como primeiro-ministro, não David Lloyd George, mas Pedro Passos Coelho. O meu raciocínio é simplicíssimo: com o nosso compatriota na posse da chave do n.º 10 da Downing Street, as crianças do East End não teriam escola a que ir – e a Inglaterra do primeiro quartel do século XX subjugar-se-ia sem luta, e com gosto até, aos ditames imperiais e imperiosos da Berlim do Wilhelm II, à exacta imagem & semelhança do que viria a fazer Portugal um século depois aos pés da Berlim da Merkel I. Com o tal Coelho na cartola, claro. Para evitar que a Alemanha nos (dia)rreie morte aérea em cima dos chavelhos, nada como ser muito austeritário, muito obediente, muito “bom aluno”. Numa palavra, muito coelho, não um pouco lobo. Daí o título que encima esta crónica.
3. Agora assim: Passos Coelho é um dos meus cómicos favoritos. Corrijo: Passos Coelho é um dos meus tragicómicos preferidos. Nesta rábula dos suicidas pós-incêndio que afinal se não mataram, o dito senhor foi coerente – ele próprio é, politicamente, um suicídio por confirmar. Usando o mesmo Pessoa que fazia anos a 13 de Junho entre 1888 e 1935, Coelho é um “cadáver adiado”. Só não procria grande coisa. Aquilo não foi uma mera tirada infeliz – aquilo é um modo de vida. E um modo de vida é invariavelmente o que resulta da negociação entre o que somos e o como estamos. As desculpas que depois gaguejou, a mim não me arredaram da profunda repugnância de imediato sentida – nem do invencível asco; nem da psoríase fatal que fatalmente me causa a urticária de politiqueiros destes.

4. Na ética jornalística que ainda pratiquei, suicídio não era notícia, a não ser em casos muito, muito especiais. Exemplo-mor: o caso de Thích Qung Ðc. Foi noutro Junho. Em Saigão, a 11/6/1963, este monge budista imolou-se pelo fogo em público e em protesto contra a orientação religiosa de Ngo Dinh Diem, eminência-parda que era, por assim dizer, o Passos Coelho dos vietnamitas em relação a USAmericanos. Tirante casos destes, suicídio continua a ser matéria merecedora de discreto pudor. A não ser, parece, que um obscuro zé-ninguém de provedoria local de misericórdias com veleidades de candidato laranjinha a autarca nos sopre ao pavilhão auditivo um boato maldoso para arremesso político-partidário. Nesse caso, e para o Coelho, um mexerico sem fundamento é cenoura que baste. Daí a tragifarsa acontecida aos olhos de toda a gente. Enfim: Pedrógão é Grande, Passos Coelho é pequenino. Shame on you, sir.

5. Os mortos e os feridos daquela Londres de Junho de 1917 & os feridos e os mortos nossos de um exacto século depois devem ser-nos credores do maior respeito e da mais assisada e mais condoída discrição. Invoquei-os tão-só para ajudar a destruir uma comédia triste – triste e infeliz e coelhamente portuguesa. Foi por isso que fiz por esfrangalhá-la em tiras e em chiste. É que eu nem em criança, por mais bombocas com que tentassem seduzir-me, fui muito de ir com coelhos e pais-natais ao circo. A barraca é que não pára de vir ter comigo. Mas eu sou homem para gostar mais de pão do que de circo. Daquele pão-nosso-de-cada-dia, não daquele circo que se monta e daquela barracada que se arma sempre & de cada vez que o Cuniculus descerra a abertura anterior do tubo digestivo, vulgo boca.


Thursday, June 22, 2017

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALÍVEIS - Rosário Breve n.º 511 in O RIBATEJO de 22 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Todas as generalizações são falíveis





1. O título desta crónica é uma sandice voluntária. Uma necedade. Uma parvoíce, enfim. Será isso tudo – mas não destoa no e do indigente coro geral de atoardas das televisões e das redes sociais da modernidade.
Vivemos tempos reles. Qualquer careta de bicho é chamada ao altar de néon a bolçar as mais banais e mais venais inanidades seja sobre o que for. Porque em tudo isto há uma coisa que não falha, nunca falha: seja qual for o assunto, Portugal é só especialistas – a clínica geral é que é o carago.
Toda uma frenética galeria de zés-ninguéns & marias-nenhumas se acotovela nos corredores dos estúdios e/ou empertiga os bicos das patas nos directos de rua. Tudo passarocos de arribação que, aos olhos da parvónia deles, precisam desesperadamente de ser alguém por quinze segundos. Feito tal, é só copiar o link e esborrachá-lo no Face ou no Twitter. Para quê? Para mais quinze segundos de much ado about nothing, que é como quem diz postas de pescada arrotadas pelo buraco errado do corpo.

2. Os jornais competem na mesma liga. As revistas? Preferível nem delas falar. Estas e aqueles são mal concebidos, mal pensados, mal escritos – e decerto mal intencionados. Clonam-se uns das outras, como se o peixe tivesse preferência quanto a papel de embrulho. O 'jornalixo' tuga é para
o que canadair e vier.
Resta o último bastião: a livralhada. Esta, sim. A livralhada fica. A livralhada vale. Está tudo ali, na livralhada. Toda a livralhada? Não. Não, não vou repetir a boçalidade do título da crónica. Alguma livralhada sim, felizmente muita. Tanto lusa como das estranjas. Mas restrinjamo-nos à lusa. A gente quer Portugal? Eça. A gente quer a cor? Raul Brandão. A gente quer aventura, risco, guerra, sexo, diáspora, epifania, desamparo? Camões. A gente quer risota, escárnio, lucidez, auto-retrato colectivo? Gil Vicente. A gente quer andar aí pelo que, mais do que nosso, somos nós? Garrett. A gente quer na mesma o Correio da Manhã mas em bom? Camilo. A gente quer todos os sonhos de toda gente e mais alguma num corpo só? Pessoa.

3. Diacho. Estraguei a crónica toda. Dou por mim na rua com uma braçada de livros de que ninguém sabe ter necessidade. Pareço os pares de velhas evangelistas, por esses jardins municipais, apontando ao peito do transeunte a pistola de um deus de folheto em ortografia brasuca. A verdade é que nem o escriturário Pessoa, nem o polígrafo Camilo, nem o fino Garrett, nem o sacana de Mestre Gil, nem o zarolho Luiz Vaz, nem o major Brandão, nem o divino José Maria – nem as mãezinhas deles – nos fazem sentido, quanto mais falta. Estamos bem assim, estamos todos muito bem assim, diplomados à pressa todos por um 12.º instantâneo-nova-oportunidade de falcatrua. Até por isto: entre o analfabetismo de há cinquenta anos e o de agora, a diferença está na password, que antigamente era de X-cruz-X e hoje é mais coiso tipo username.

4. E remédio para esta moléstia? Não há. Isto aqui não é a farmácia: nem tenho de tudo, nem sou de receitas falsas. Não há como fazer entender à Judite que aquele cadáver no chão das suas costas é tão digno de dor como de pudor. Não há. Há tão-só o deserto de quase tudo no quase-nada da nossa vida. Aqui, refiro-me à dupla face da moeda: a portátil, que é a nossa vida individual; e a gregária, que é a nossa vida d’enquanto Portugueses. Sobre esta, Eça. Sobre a outra, cada um trate da sua.
5. Despeço-me por esta semana de lágrimas nos olhos. Não é por sentimentalóidismo. É que me engasguei com a passa do cigarro no parágrafo de passagem do quarto ponto para o quinto – e agora é de tossir, escarrar e arfar de carvão brônquico até que o coração se ajeite lugar na boca. Vale-me ao menos que, ao contrário dos tais outros de arribação, não erro o buraco do corpo.
Mas todos os buracos são falíveis.



Thursday, June 15, 2017

INTERVALO(S) À BEIRA-RIO - Rosário Breve n.º 510 in O RIBATEJO de 15 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt






Intervalo(s) à beira-rio




0. Isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma. Posto isto, julgo termos reunidas as condições para haver mais calmex na mioleira. Andarmos de coração de cavalo num peito de periquito, hum, não me parece assisado. O mundo já é doido q.b. sem precisar do nosso subsídio. Isto é paleio de velho, eu sei. Todavia, firmo-o e afirmo-o na mesma. Tenho aprendido alguma coisa à beira-rio.
1. O Fred. Bateu com a porta. Era competente, era dedicado, era assíduo, era pontual, era capaz, era interessado, era o Fred com quem se podia sempre contar. Mas era empregado. Tinha colegas de maior antiguidade. Colegas daquele tipo de instalados na própria mediocridade, de cientistas do “ando-há-muitos-anos-nisto-a-virar-frangos”, militantes do “olha-me-agora-este-ciclista”, práticos do “ai-que-cheiro-ao-leite-deste-caramelo”. Dariam autarcas modelares, os ex-colegas do Fred. Talvez ainda dêem. Em Outubro que vem, se vier.
2. A Vanessa. Enverga unhas de gel escarlate que fazem dela a caricatura da pomba burra. Arqueia o mindinho quando chupa, ai, o cone de gelado. Era para ter ido para enfermeira mas agora a 4.ª Classe de antigamente já não chega para tanto. E no entanto ela lê muito, na família gabam-lhe muito o vício, lê tudo o que for códigos misteriosos, segredos do Vaticano, cenas proféticas & demais pisca-olhos tipo Rodrigues dos Santos. Ainda tentou gostar dos pastelões históricos do Moita, mas ainda hoje confunde os Távoras com o gajo das notas de 500. Ou com aquela tia Ferreirinha dos bailes cor-de-rosa ou coiso ou com’é qu’era.
3. O Anselmo & a Laura. Casados desde aquando mataram o Rei. Ele tem uma colecção de saquetas de açúcar muito jeitosa. O problema foi nunca ter tirado o açúcar das saquetas, modos que a garagem dele é género Pequim versão formigal. Ela, sábado-sim-sábado-não, vai-lhe ao expositor com um spray daqueles tipo casa-e-plantas. Até à segunda-feira seguinte, Pequim torna-se centro histórico de Santarém depois das sete da tarde. Mas lá são felizes à maneira deles. Dali não vem mal ao mundo.
4. O escritor Júlio Diniz. Mentirosão. Em parte alguma há gente tão boa como sequer até a piorzinha dos livros dele? Não há. Penou e finou-se daquela pulmoneira, coitado, depois de muito assobiar sangue. Eu ainda disse à Vanessa que o lesse um bocadito. Qual quê. Não tem cenaça erótica obrigatória à Miguel Sousa Tavares nem pornochanchada p’ra divorciadas tipo sombras-de-grey. Para mais, era do Porto mas sem caralhadas, o que é no mínimo contranatura.
5. O Jolly. Cão do Anselmo. Tem sarna. Coça-se com a pata esquerda de trás num frenesim de bêbado a tentar ligar a motorizada. Deve andar já nos seus dezanove anos. Em idade de cão, e com licença ao respeito, isto fá-lo, muito mais ou menos, contemporâneo em nascimento do passamento do tal autor das Pupilas e da Morgadinha. (– De quem? – grunhe a Vanessa enquanto lacra o dedo dos piretes.) O Jolly é um artista do bocejo. Abre aquela bocarra de céu preto até pontos de se lhe ver por dentro o acordeão das tripas. A língua explode em sonho molhado de solteirona. É maravilhoso. Para mim, o bocejar do Jolly é maravilhoso. E é maravilhoso porque só ele, e mais ninguém, percebe que, quanto e como isto que nos leva do nascer ao morrer é tão-só um intervalo entre nada e coisa nenhuma.
O problema é que depois o programa não segue dentro de momentos, como se via na televisão daquele tempo em que a mera 4.ª Classe era mala-aviada para trabalhar ao pé dos médicos viradores de frangos.


Thursday, June 08, 2017

MAU TEMPO NO CURRAL - Rosário Breve n.º 509 in O RIBATEJO de 8 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt





Mau tempo no curral




1. O curral me(r)diático nacional é sobrepovoado de “homens da embalagem prateada” e de “rapazes do gongo dourado”. Por assim dizer. São reses pífias, gado repugnante a toda a decência cívica e impermeável ao atavio ético das poucas pessoas-de-bem que ainda por aí haja. A corrupção à portuguesa tinha de ter laivos afrobrasileiros. E tem. O colonialismo não acabou – passou mas foi a ser de lá para cá também, relegando-nos o ultramar ao estatuto de província que nunca deixámos afinal de ser. Mas calma. Nem era disto que queria falar-vos. De Agricultura é que sim.
2. De Agricultura”? Sim. Mesmo? Mesmo. Explicando: tenho andado a ler o Virgílio das Bucólicas, primeiro, e das Geórgicas, logo a seguir. Delícias de há dois mil anos e uns trocos. Sabeis bem que me refiro ao mesmo grande Poeta da épica Eneida. Claro, esse mesmo que amou em Teócrito e Hesíodo o que Dante e Camões amaram nele: o verso perfeito, o diapasão silábico, o frescor pitoresco e a rendida gratidão à Natura-Mater. Esse todo. Mas adiante, que já semelho sacristão sonhando com o vinho eucarístico que sobrou do santo sacrifício.
3. E a Agricultura? Que raio a ver com leiturices clássicas e/ou corrupções pindéricas? Calma. Ter, tem. Tem e cá vai: tanto nas Bucólicas como nas Geórgicas (sobretudo nestas derradeiras), elogia-se vivamente o desprendimento filosófico e a serenidade existencial resultantes da sã interacção, pelo trabalho como pela fruição, com o campo, a vida nele, a sabedoria da observação dos índices meteorológico-sazonais (as estações do ano, pronto), o cultivo de tudo: árvores, solos, sabores e aromas, a maravilha cíclica e ritual da dialéctica sementeira-colheita-poda-vindima. Até o omnipotente instintozinho sexual que faz o gado parecer-se com a gente. Ou nós com ele. E as abelhinhas. Não esquecer as abelhinhas.
4. Sim. OK. Porreirinho. Mas – e portanto? Aquilo da Agricultura o quê? O portanto está em que eu, uma destas manhãs, cedo como se nascesse, me achei achando, aos pés de um contentor juncado, um suplemento em papel daquela coisa digital a que a Direita de cá da parvónia chama Observador. Como sempre faço, colhi do chão o lixo. Preparava-me para o esquecer no odre municipal quando, de viés, o título me cativou: Dicionário dos Grandes Negócios, panfleto com textos de um Luís Rosa e ilustrações de um Henrique Monteiro. Já o não sacrifiquei à voragem benigna da reciclagem. Guardei-o no bornal, cheguei à pastelaria, botei café a ferver para a entranha e fumei como quem nunca há-de morrer a tossir. Tinha ante mim um dilema aparentemente fácil de solver: Virgílio ou o pasquinzito das escandaleiras inocentes-até-trânsito-em-julgado? Fraco, vim por estas. Virgílio, sendo eterno, podia bem esperar um bocadito. Lixei-me. Passei o mor e o melhor da matina a tresler, primeiro, e a sublinhar a fluorescente, depois, o coiso achado no chão. Entradas alfabéticas: Azul (Saco), Bataglia (Hélder), Bava (Zeinal), Espírito Santo (Família), Granadeiro (Henrique), Loureiro (Dias), Salgado (Ricardo), Silva (Carlos Santos), Sócrates (José), Veiga (José) e Vicente (Manuel). [Nota relevantíssima: este rol nada tem a ver com as “embalagens prateadas” nem com os “gongos dourados” do paleio figurado do ponto 1. desta crónica. Cuidado com isso, que não tenho dinheiro para prestidigitadores da vara.] Só que, assim de fulminante repente qual trombose terminal, zás! e zinga! – a Agricultura outra vez.
5. Sim. Ela toda. Foi quando lia o item relativo ao Granadeiro. O Granadeiro, sim, que terá preferido enriquecer a ser Henrique. Foi na pág.ª 7: […] Ricardo Salgado (…) classificou Henrique Granadeiro como um dos grandes sábios portugueses na área agrícola.” É que nem para mais nem por menos: Grande. Sábio. E agrícola. Chiça! Quem? O Henrique? Parece que sim. Parece que sumo mestre de herdades de comportas, fábricas de arrozes, herdades vinícolas, marcas de vinhos capazes de vales de ricos homens e de tapadas de barões. Tudo coisas, hoje, de arresto judicial, infelizmente, mas parece que antes de cornucópica, ou pandórica, maravilha. Fiquei de boca artilhada na quarta vogal. Então e o meu Virgílio ganadeiro ao pé deste Granadeiro épico também? Que desgraçado cotejo me o decepava ali cerce? Calma. Lembrei-me a tempíssimo do resgate. Bucólica Primeira, ali onde, ao pastor Títiro, o colega Melibeu fala pela vez segunda: “Não te invejo, me espanto, pois que tudo/pelo campo é desordem. De que modo!/Eu próprio, já doente, a estas cabras/empurro para a frente e à que tu vês/como custa puxá-la, pois que gémeos/pariu por uma moita e aos dois coitados/os teve de deixar em pedregulhos,/ó perdida esperança do rebanho!”.
6. Sim. Perdida. Digo: a esperança. O rebanho soma, que se não some, e segue, que de borla curral lhe damos. Até trânsito em (jul)gado. Diz a abelhinha.



Thursday, June 01, 2017

COISAS SIMPLICÍSSIMAS - Rosário Breve n.º 508 in O RIBATEJO de 1 de Junho de 2017 - www.oribatejo.pt



Coisas simplicíssimas



1 Junho, aí o temos. Era antigamente um mês claro, lavado, propedêutico da disciplina do Verão. Actualmente, é, como os outros onze seus irmãos, uma época híbrida. As quatro estações, todos o sabemos e reconhecemos, extinguiram-se. Dantes, quase se podia acertar o relógio por elas. Hoje, o gelo e o fogo partilham o mesmo dia em uma espécie de desconcerto global que tanto pode provir da degradação do ozono como das bebedeiras de São Pedro. Tanto dá para tiritar em Agosto como para estrelar ovos no capot do carro em Janeiro. Todavia, não me queixo. O que não tem remédio, remediado está. Suporta-se o que vem. Há coisas que nem a mais fantasiosa imaginação pode contornar. E nós somos criaturas meteorológicas: um luto faz-nos chover os olhos, uma euforia faz-nos dardejar canículas ingénuas e inconsequentes. É como se fôssemos todos, por assim dizer mas não desfazendo, uma espécie de passos-coelhos irremediáveis.

2 Não só o tempo natural é insensato. Santarém faz-lhe companhia, voluntária e/ou não. Agora, é o acesso à rotunda do Cnema. O corte do trânsito na Rua O entre o Retail Park e a sede física deste Jornal parece não ter merecido, aos milhares de “engenheiros” que desmandam cá na chafarica, qualquer veleidade de sinalização. Para quem é, nem bacalhau basta. Estas coisas sérias são tratadas como criancices inimputáveis. A propósito, lembro-me de uma coisa que aprendi quando andava a ganhar o dia nas obras da construção civil. O patrão da obra, verificando que alguém, por desleixo ou preguiça ou incúria ou por tudo isto junto, procedia incorrectamente, atirou a moralidade antes que houvesse mais história: “Ó carago, olha que demora mais tempo o fazer mal do que o fazer bem logo à primeira!”. Infelizmente, não me consta que ele concorra às autárquicas scalabitanas próximas.

3 Enfim. Se calhar, tudo isto é embirranço meu. Talvez seja. Não é grave. Eu nem costumo andar de carro pela formosa e desprezada capital do Ribatejo. Quando aí vou, vou de cavalo rodoviário. À saída da gare, boto-me a pé por praças e vielas. Vou gostando muito daquilo ali e tendo muita pena daqueloutra acolá. Aproveito os grandes ares do planalto. Sinto lá longe a pulsação do Tejo. Encontro gente que é como eu, ao mesmo tempo que faço por ser gente como ela. E confesso: tenho tido muita e muito boa sorte com o maralhal de Santarém. Como não frequento as sessões camarárias, o mais é pessoal decente, malta bípede que pensa de pé pela própria cabeça, usando a boca para dar janela ao que na cabeça se congemina. É mesmo assim como digo. Nas horas mais sós, ambulo sem pressa nem acertado destino em périplo aleatório. Vou no vento, gracejo nas tabernas, cheiro a fruta da hora, miro as esplendorosas mulheres dos outros. Sinto-me português em portuguesa terra: português para o bem e para o assim-assim, que o mal, como dizia o patrão da obra, leva mais tempo a fazer.
Leva mais tempo a fazer – e é tempo perdido. Bastar-nos-iam, a todos nós, estas duas coisas simplicíssimas: sinalizar aquela porra do acesso à rotunda do Cnema – carago! – e obrigar Junho a voltar a ser a criança alta e loira que já foi. E outro Verão nos assoalharia sem tempo a perder.

Thursday, May 25, 2017

DEZ CONTAS DO MEU/VOSSO ROSÁRIO - Rosário Breve n.º 507 in O RIBATEJO de 25 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Dez contas do meu/Vosso Rosário





1 Foi a 25 de Maio de 2007 que vi aqui publicada, neste mesmo bravo jornal de última aldeia gaulesa, a primeira crónica desta série Rosário (afinal não) Breve. Dez anos limpinhos. O Tempo é lixado. Uma década mais brusca e menos luminosa do que um fósforo lixado também. Assim num instantinho.
2 E depois? Quero o quê com ou de tal efeméride? Foguetório? Boné de louros? Jaculatórios espumantes? Quero nada. Eu, nada. Mas a Câmara pode ser que queira alguma coisa. Em que aspecto?
3 Pode ser que queira alguma coisa no aspecto de me patrocinar a publicação de uma antologia daquelas crónicas em que disse mal do Moita Flores, que foram todas as que o tiveram por visado. Essas – e mais aquelas em que disse bem do Ricardo Gonçalves, que até ao momento são nenhumas mas que podem muito bem vir a ser algumas, caso a coisa seja falada bem faladinha numa almoçarada à conta da minha proverbial imparcialidade e das despesas de representação, sei lá. Até ao Outubro das urnas, temos tempo.
4 E esse tempo pode não ser lixado como o outro. Eu sei, de-ouvir-dizer, coisas tão tremendas da concorrência, mas tão terríveis, tão esmagadoras, tão incapacitantes – que nem precisam de ser verdadeiras. Basta que sejam bem gaguejadas. É como digo: temos tempo. Bem coçadinha, a sarna até pode saber a prolegómeno erótico.
5 Digo isto, atenção!, sem ser por interesse. Próprio, quero eu dizer. Foi por associação de ideias, acho eu. Comecei a falar dos dez anos de coiso & tal, e zás!, veio o dito fósforo a lume de assunto. Mas já que estamos nisto, até que poderia dar um livreco giro. Parece que estou a pestanejá-lo já: o Moita a preto-e-branco na contracapa e com a legenda: “Custou mas foi-se”. E na capa (falsa) o Ricardo a cores, a rir-se muito nem ele sabe de quê e todo untado de uma vermelhidão de opa de procissão. Não sei. São cenas a alcavalar bem alcavaladinhas. Nem eu conheço alcavala que não mereça fala.
6 Dez anos! Não posso dizer mal deles. Não há Natal em que a caixa de correio me não amanheça pejada de propostas milionárias de outros jornais (da Cidade e da Região). Respondo sempre o mesmo: “Sair agora do Real Madrid para quê?” E depois, ungido de um fácil egocentrismo, miro o meu busto horrível e palpo-me o priapismo nos calções.
7 Pronto, chega. A 25 de Maio de 2007, a tal primeira crónica intitulava-se Ruínas e Anjos. Primeiro parágrafo dela: “Há um ano (com seus dias e suas noites) que moro numa vila tão despovoada quão uma cama de viúva séria.”
Ora, antes que, por tua (des)obra, a mesma viuvez aconteça a Santarém, vai lá pensando no patrocíniozito, Ricardo. De momento, nada me ocorre, mas ele sempre há-de haver alguma coisita em que prestes para alguma coisa sem que seja para rir.


Friday, May 19, 2017

GRAMÁTICA VADIA - Rosário Breve n.º 506 in O RIBATEJO de 18 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Gramática vadia



Circunstâncias minhas concatenam-se de quando em vez de modo tal, que me surpreendo vogando em, ou por, uma espécie de extratempo da lei da gravidade liberto. Não é fenómeno feio nem bonito – é só o que é: tropelias da serotonina na noz cerebral que trago enroscada no estojo do casco craniano.
Desta feita, achei-me em trânsito pedestre por ruas de uma Cidade de cuja existência eu não dispunha já de provas incontestáveis. Era de manhã ou de noite? Para melhor literatura, é preferível dizer que não sei. Era o que era: da jornada e do périplo, a própria cronologia mistificada pela autoridade da solidão que se me agarrava à roupa como um cheiro cego.
A vendedeira de tremoços & pevides estava já abancada ao lado dextro da velhíssima catedral onde dizem que fui baptizado, logo eu, filho que fui de pais ateus que, fazendo-me baptizar, cortavam ao regime quaisquer suspeições de heresia foice-e-martelo. Caixotes de livros em segunda-mão liam já também o chão do quiosque: voluminhos ingénuos que li no século último de um milénio que não volta. Além, era o estúdio fotográfico em cuja montra de há quarenta anos os donos expuseram, acreditai-me, a fotografia do cadáver do próprio filho, vítima de uma das primeiras doses mortais de heroína das primícias pós-25 de Abril. Fizeram-no como alerta pungentíssimo aos outros pais & mães da Cidade. Resultou pouquíssimo.
Vielas esconsas e húmidas como porões de caravelas aceitaram-me os passos. A fragrância a mijo de gato chegava a ser comovente, fazendo-me arder de lágrimas piscas os olhos pitosgas. Fantasmas prostibulares em forma de mulheres septuagenárias fumavam em assentamento no degrau de pedra das portas anãs de janêlo como nas fotografias do Gageiro. Uma frutaria salvava de cor & perfume o instante. Com um surdo e muito simples bater de asas, alcandorei-me à varanda do Rio, esse todo & mesmo que há oitenta mil anos os meus Irmãos nadaram, sem mazelas, sem medo e sem futuro, vestidos tão-só de uma nudez desprovida de pecado.
Dizem que naquele hotel dormiu uma noite o imperador do Japão. Ainda não confirmei a validade de tal asserção. É, de gloriosa arquitectura, o velho e formoso Astória, cujo A desenha e ensina em grande estilo, a bronze na parede, o número da porta: 21. Passei, como tudo passa.
Acre e capitosa, uma fumarada de sardinhas no carvão instaurava a neblina de Londres entre o Bragança e o Oslo, mais precisamente no largo que liga o Café Angola ao meu livro de 2008, uma estapafurdice paginada a que chamei Terminação do Anjo e que felizmente ninguém comprou e muito menos leu.
Por essas mediações, fui tomado pela incerteza. Salvei-me caçando o primeiro autocarro. Tive de comprar dois bilhetes: um para o coração, para a cabeça outro. A memória viajou de borla.
Desci na paragem do viaduto que gemina a fonte luminosa ao bairro cuja hierarquia onomástica tombou de marechal a general: Carmona para Norton de Matos. O corpo pediu-me cafeína e engaço prensado. Satisfi-lo a preceito. Rodando o cálice nos três dedos do lápis, eu já então me apercebera de apenas poder existir dentro da crónica. Não opus resistência a tal gramática.
Aqui estou. Não sei é onde. Muito menos quando.


Saturday, May 13, 2017

Um fragmento de 27 de Setembro de 2013








Estendi passadeiras já de mais talvez à circunspecção.
Tenho legumes em casa, tenho mulher, tenho casa.
Nicotino os meus versos à razão do alcoolímetro.
Mas gosto de pensar cavalos, não os tendo em granja.
Eu gostava muito de ouvir rir-se a minha Avó.
Parecia uma criança ilesa: mas o não era, foi antes

uma mulher batida, uma analfabeta violentada
por dois terços de século, invencível, porém,
fazedora campeã mundial de broa-de-milho e de leite-creme,
lembro-me dela agora e não sei que fazer dela,
sempre de preto desde os meus oito anos,
e no entanto a claridade daquele riso.

Thursday, May 11, 2017

A GENTE B.-B.Ê-SE POR AÍ - Rosário Breve n.º 505 in O RIBATEJO de 11 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt



A gente B.-B.ê-se por aí





1 Maio também serve para desaparições pouco místicas. Terça-feira, 9 do corrente, foi a vez da de Baptista-Bastos, ao cabo de 83 anos de nascido. Foi um cultor da Língua de subido mérito. Gostava de jornais bem escritos e de livros bem lidos. Era pessoa e personagem. Conhecia milhares de histórias, foi protagonista de milhentas ele próprio. Correu todas as redacções, percorreu todas as ruas de uma Lisboa que, sua de nela nascer & de em ela morrer, poucos terão conhecido tão bem. Deixa admiradores, indiferentes e rancorosos. A mim, deixa-me vontade e pretexto para mansa releitura de alguma da sua literatura, que noutra idade abordei talvez sem a atenção mais proveitosa. Penso que o ângulo do obituário pode ser mais justo se, em vez de “Morreu Baptista-Bastos”, assentarmos que – B.-B. viveu. Ora, como é sabido, não se pode dizer o mesmo de toda a gente.

2 Não se pode dizer o mesmo de toda a gente porque há mortos-em-vida que por aí andam a roer broa muito mal empregadinha em tais dentuças. Ocupam os poleiros e mamam as mordomias que lhes presta a populaça pobrete & alegrete da nossa espécie de fatalidade. Parasitam todas as áreas da sociedade. Infestam, da mesma, todas as secções produtivas – volvendo-as improdutivas. Política, desporto, ex-cultura, culinária, turismo, jornalixo, hidráulica, estiva, transportes, câmaras, clubes de caça & pesca, lares da última idade, bombeiros, saúde, correios, eléctricas, esplanadas – a tudo esterilizam. E reproduzem-se muito, gerando criancinhas estupidificadas pela electrónica amestradora deste século em que a incomunicação pessoal está na razão inversa da profusão de máquinas de bolçar bitaites. Não sofro dúvida: o nosso é um tempo sem eira, sem beira e sem ramo de figueira. Mas quê? Chateio-me muito com isso? Cada vez menos. Sobrevivo e deixo sobreviver. Reciclo o dia antes que o ontem se faça tarde. Ainda agora.

3 Ainda agora, na esplanada de mesas daquele amarelo da publicidade ao chá de palhinha, estava o maralhal muito sossegado a estiolar à torreira de um sol bruto como as derrocadas mineiras. Nisto, uma inquietude assolou a assembleia de desirmanados. Uma ansiedade esquisita, um latejar de próstatas, uma ânsia de ganir à Lua vespertina. A causa? Uma mulher. Apareceu-nos ali sem azinheira nem aviso. De vestido justo a ponto de segunda pele, era um clarão de champanhe. Manava uma fragrância de peixe fresco alimentado a fruta e a leite, decerto por rabejar de cintura qual sereia profissional. Esfíngica, muda, impositiva & incómoda tipo mulher-do-fraque, fez-nos ranger a prótese dentária como se de repente tivéssemos começado todos a sorver esferovite. O B.-B. não lhe perdoaria. Nós perdoámos-lhe. Demorou-se pouco, ficando-nos portanto para sempre. Abençoada posta não-pescada. Milionàriazinha de sua avó. Bisontezinho de Foz Côa em diferido de Paris. Vontadezinha de ter um porta-chaves de BMW. Santa & Senhora. Tive de forçar com conhaque o açude represo do gasganete. De volta a casa, ainda estive para contar à minha mulher. Já nem sei porquê, não contei.
À aparição, dei apenas, cão velho que sou entre flores, um secreto adeus.

Thursday, May 04, 2017

Crónica à luz-roxa - ROSÁRIO BREVE N.º 504- in O RIBATEJO de 4 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica à luz-roxa


Vejo mais pessoas a pé do que de pé. Curto e grosso: a pé, os do embuste anti-republicano de Fátima; de pé, as pessoas que (ainda) comemoram o 25 de Abril e o 1.º de Maio.
Por essas estradas, pirilampos bípedes de coletinho fluorescente: por essas praças, homens e mulheres livres por conta própria. Talvez sejam dois mundos irreconciliáveis. O mais certo é que o sejam de facto. Já me importei mais com isso. Já cheguei, até, a indignar-me com isso. Felizmente, os anos acumulados tornaram-me mais simples e mais bruto. Tenho repentes de ferocidade incendiária que um copito de branco fresco apaga sem grande esforço. Na base do que V. digo, está isto de eu vir do funeral de um Amigo. Aos 58 anos, o Tónio foi para nenhures. Daqui a uns tempos, o canteiro dos mármores resumi-lo-á a um nome entre duas datas. Pronto.
Na volta, vim impregnado da inútil revolta do costume. Entre gares rodoviárias, fui inútil e triste como uma biblioteca encerrada. As marcas quilométricas da auto-estrada sucediam-se sem fadiga, estúpidas, inocentes e branquinhas à maneira de cordeiros da Páscoa. Não pude ler. Não consegui escrever. Fui assistindo aos eucaliptos velocíssimos da vidraça. O vento que neles dava era o mesmo que me varre as ideias e as atitudes positivas. Senti-me, naturalmente, tramado: tenho mais coração do que cabeça. Para a cabeça, ainda há uns paliativos. Para o coração é que não há remédio.
E lá a minha terra, como estava a minha terra? Mais cansada, pareceu-me. O meu envelhecimento projectava-se nela como uma espécie de luz-roxa, dessa que antigamente, nas matinées dos “clúbios” recreativos dos pobres, punham os dentes e as fibras sintéticas da roupa a brilhar no escuro. Troquei com essa minha gente as palavras costumeiras. Alguma dessa minha gente é da classe “a pé”. Outra (minoritária, claro) é gente “de pé”. Não sei se me faço entender. Gosto dela toda, para bem dos meus pecados.
Lá deixámos o Tónio sufocado de flores de celofane. Fazia um calor mortífero. Lá fomos ao copito de branco fresco. Foi até ser meio-dia. Depois, cada qual foi para casa, fiquei eu sozinho no largo, dono tão-só de uma sombra vertical e implacável de toldo sem mesa nem cadeiras por baixo. A incerteza tomou conta de mim sem resistência. O branco fresco a sós é um bocadito pró triste. Um quase-terror assolou-me: “E se deixei de saber ler? E se nunca mais conseguir escrever?”
Pelos vistos, não aconteceu. Está um dia bonito, nesse mundo a que às vezes pertenço. Encerrei-me em casa, estores corridos contra a reverberação implacável de Maio. A realidade funciona sem meu concurso. Olha, telefona-me agora mesmo um dos meus Amigos ainda vivos. Tesouro, para mim. Dizemos chalaças. Dou por mim a rir-me como um chimpanzé num bananal.
Mas ai, Tónio. Ai, António Alves dos Santos (1958-2017).

Thursday, April 27, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 503- in O RIBATEJO de 27 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt





É de um gajo ficar plasmado



Fiquei por estes dias a saber que “plasma” significa “história ficcional”. Mentira, portanto. Nem mais nem menos. É coisa dos Gregos, claro. Quando esses tão sábios Antigos se referiam a coisa “moldada”, “modelada”, “trabalhada”, zunga!, chamavam-lhe plasma.
Recentemente também, e ainda, cacei por aí um jocoso trocadilho que alguém, em muito boa hora, inventou: “jornalixo”. Achei um piadão ao neologismo, até por ele ser de sentido tão franco, tão cabal – e tão acertado.
De modo que “plasma” e “jornalixo” são já & doravante justos sinónimos para mim.
O espectáculo da comunicação anti-social é de facto miserável. E a miséria começa pelo idioma. A Língua Portuguesa é uma pérola atirada a (quase) dez milhões de porcos. (NB: Os leitores de O RIBATEJO são o “quase” entreparenteticamente salvaguardado.) Disto, ninguém me tira. As sevícias e o desleixo a que é sujeita são insuportáveis. (Não, não vou dar exemplos. A cama é curta e a manta da crónica é estreita.)
Depois, dá-se a perfeita incapacidade de jornais, rádios, televisões e internetices quanto a distinguir o essencial, isso tão fininho que separa o interesse-público do interesse-do-público. É a rebaldaria total: assuntos mesquinhos, soezes ângulos de abordagem e perspectiva, investigação nula, partidarização subjectiva total, apresentação sabuja. Chego a ter nojo físico, ao nível do eczema, de tais subprodutos do plasma à portuguesa.
O jornalixo é fortíssimo. O jornalixo é tão mais forte quão mais fraquinho é o público. E versas e vices. São já muitos os anos passados sobre o dia em que atirei para remo(r)ta gaveta a minha carteira profissional. Em uso dela, é certo, conheci, convivi e interagi com alguma gente boa, isso é verdade. Tanto do lado de dentro (as redacções), como do lado de fora (o mundo, enfim). Mas essa dimensão era a da excepção. A regra era a ordinarice, o analfabetismo funcional, a desonestidade, o lambe-botismo, a cusquice, a cunha, aquilo de uma-mão-lavar-a-outra resultando em duas patas sujas. Fartei-me.
Ainda bem que me fartei. Vivo hoje um desemprego que só não é paradisíaco por lhe faltarem o fim, o meio e o princípio do mês quanto a guito. Tirando isso, tudo bem. Maravilha, até.
Se tenho saudades de quando o dia-a-dia se media por tantos caracteres incluindo espaços, com ou sem boneco? Não tenho. Perseguir telefonicamente o senhor vereador para uma declaraçãozita sobre a rotunda da fábrica dos fósforos – não me seduz. Caçar o senhor presidente da Junta numa almoçarada de caçadores, pescadores & outros mentirosos como ele – não me arrebata. Perder a manhã de domingo na décima inauguração do mesmo lar de velhinhos terminais a um mês das autárquicas – não me põe na certeza do Pulitzer. Que fazer, pois, em alternativa?
Nadinha. A não ser que.
A não ser que, da névoa, se recorte com nitidez algo que valha a pena estudar. Digo: algo ou alguém. Algo que nada tenha a ver com rebanhos santuário-centenários mas sim com força real, interesse útil, gesta pró-solidária. Ou alguém de vida exemplar cuja cara lavada reitere as virtudes da água, do sabão e da ética, ao invés da porcaria de gente que sobrepovoa as valetas e os montados. A não ser que isto, nada daquilo.
Sim, sim: o plasma é lixado. Aqui, posso dar um exemplo: a um Amigo meu, roubaram-lhe o que tinha comprado por uma catrefada de notas. Fartei-me de o avisar, lembro-me tão bem disso. Eu assim para ele: “Ó Delfim-Zé, tu não compres essa porra, pá, tu não compres essa porra porque essa porra, uma vez ligada à ficha, só dá jornalixo, pá. E mais: se quiseres ver o teu Benfica, tens de ir à spórtévé do Café gastar em bejecas e amendoins o leite da menina. E tu olha-me que coiso, ainda te roubam essa porra e depois já cá não me tens a mim para escarrapachar isso no jornal.” E assim foi, está ali ele que não me deixa mentir.
Mas agora, uma notícia boa: para a semana, prometo-vos uma crónica ainda piorzinha do que esta. E, por pirraça, em 3985 caracteres-incluindo-espaços e a fazer-se ao boneco como esta.