Thursday, April 27, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 503- in O RIBATEJO de 27 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt





É de um gajo ficar plasmado



Fiquei por estes dias a saber que “plasma” significa “história ficcional”. Mentira, portanto. Nem mais nem menos. É coisa dos Gregos, claro. Quando esses tão sábios Antigos se referiam a coisa “moldada”, “modelada”, “trabalhada”, zunga!, chamavam-lhe plasma.
Recentemente também, e ainda, cacei por aí um jocoso trocadilho que alguém, em muito boa hora, inventou: “jornalixo”. Achei um piadão ao neologismo, até por ele ser de sentido tão franco, tão cabal – e tão acertado.
De modo que “plasma” e “jornalixo” são já & doravante justos sinónimos para mim.
O espectáculo da comunicação anti-social é de facto miserável. E a miséria começa pelo idioma. A Língua Portuguesa é uma pérola atirada a (quase) dez milhões de porcos. (NB: Os leitores de O RIBATEJO são o “quase” entreparenteticamente salvaguardado.) Disto, ninguém me tira. As sevícias e o desleixo a que é sujeita são insuportáveis. (Não, não vou dar exemplos. A cama é curta e a manta da crónica é estreita.)
Depois, dá-se a perfeita incapacidade de jornais, rádios, televisões e internetices quanto a distinguir o essencial, isso tão fininho que separa o interesse-público do interesse-do-público. É a rebaldaria total: assuntos mesquinhos, soezes ângulos de abordagem e perspectiva, investigação nula, partidarização subjectiva total, apresentação sabuja. Chego a ter nojo físico, ao nível do eczema, de tais subprodutos do plasma à portuguesa.
O jornalixo é fortíssimo. O jornalixo é tão mais forte quão mais fraquinho é o público. E versas e vices. São já muitos os anos passados sobre o dia em que atirei para remo(r)ta gaveta a minha carteira profissional. Em uso dela, é certo, conheci, convivi e interagi com alguma gente boa, isso é verdade. Tanto do lado de dentro (as redacções), como do lado de fora (o mundo, enfim). Mas essa dimensão era a da excepção. A regra era a ordinarice, o analfabetismo funcional, a desonestidade, o lambe-botismo, a cusquice, a cunha, aquilo de uma-mão-lavar-a-outra resultando em duas patas sujas. Fartei-me.
Ainda bem que me fartei. Vivo hoje um desemprego que só não é paradisíaco por lhe faltarem o fim, o meio e o princípio do mês quanto a guito. Tirando isso, tudo bem. Maravilha, até.
Se tenho saudades de quando o dia-a-dia se media por tantos caracteres incluindo espaços, com ou sem boneco? Não tenho. Perseguir telefonicamente o senhor vereador para uma declaraçãozita sobre a rotunda da fábrica dos fósforos – não me seduz. Caçar o senhor presidente da Junta numa almoçarada de caçadores, pescadores & outros mentirosos como ele – não me arrebata. Perder a manhã de domingo na décima inauguração do mesmo lar de velhinhos terminais a um mês das autárquicas – não me põe na certeza do Pulitzer. Que fazer, pois, em alternativa?
Nadinha. A não ser que.
A não ser que, da névoa, se recorte com nitidez algo que valha a pena estudar. Digo: algo ou alguém. Algo que nada tenha a ver com rebanhos santuário-centenários mas sim com força real, interesse útil, gesta pró-solidária. Ou alguém de vida exemplar cuja cara lavada reitere as virtudes da água, do sabão e da ética, ao invés da porcaria de gente que sobrepovoa as valetas e os montados. A não ser que isto, nada daquilo.
Sim, sim: o plasma é lixado. Aqui, posso dar um exemplo: a um Amigo meu, roubaram-lhe o que tinha comprado por uma catrefada de notas. Fartei-me de o avisar, lembro-me tão bem disso. Eu assim para ele: “Ó Delfim-Zé, tu não compres essa porra, pá, tu não compres essa porra porque essa porra, uma vez ligada à ficha, só dá jornalixo, pá. E mais: se quiseres ver o teu Benfica, tens de ir à spórtévé do Café gastar em bejecas e amendoins o leite da menina. E tu olha-me que coiso, ainda te roubam essa porra e depois já cá não me tens a mim para escarrapachar isso no jornal.” E assim foi, está ali ele que não me deixa mentir.
Mas agora, uma notícia boa: para a semana, prometo-vos uma crónica ainda piorzinha do que esta. E, por pirraça, em 3985 caracteres-incluindo-espaços e a fazer-se ao boneco como esta.


Sunday, April 23, 2017

Ao Sol, Somos de Transparente Nome (republicação)





Ao Sol, Somos de Transparente Nome



Entardenoitecer de 6 de Janeiro de 2009



Ao sol, somos de transparente nome,
também ninguém no-lo pergunta, di-lo
o nosso corpo atirando sombra ao chão
como água preta.
Precisamos de esperar a noite para
que nos seja devolvido o anonimato civil.

Eu agora sei estas coisas de cor a preto-e-branco,
sei porque sei, sei
porque estou vivo ou coisa assim,
tirando o meu corpo.

Sempre fizemos
tanto barulho
em poesia
com o tema do silêncio,
tanto foguete com o da noite,
tanta vozearia bradada a surdos,
tanto pirete à cara dos cegos,
sei que é assim pelos livros que tenho tido e lido e sido,
não sei é porquê,
deve ser daquilo a que se chama a
Condição Humana,
Malraux incluído.

A gente tem de aproveitar o sol, esse foguete perpétuo
que torna tudo agosto e tudo português para sempre,
eu acho que é assim, aproveitar o sol sempre
com o nome todo virado para ele
antes que se faça tarde
e seja noite.









Thursday, April 20, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 502- in O RIBATEJO de 20 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt




É perguntar ao David, talvez




Tenho sonhado mais, ultimamente. Não são pesadelos nem delícias. São farrapos de lucidez entremeada de desconcerto. Algumas pessoas, apesar de mortas, passeiam-se-me pelas arcadas do inconsciente como se aquilo de terem vivido tivesse afinal solução – e continuidade. Outras, apesar de vivas, parecem não crer que as vivo, que as tenho em conta, as considero já tão santas como se me houvessem morrido.
Não sei. Desperto a meio caminho de nenhures, provindo de lado nenhum. De volta, a consciência não me traz especial reconcertação para com a realidade. Vogo. Estendo a garra mole para a cabeceira, onde os óculos cegaram toda a noite. Os joelhos rangem como dobradiças de mosteiro. Uma orelha quente, outra gelada. A bexiga, despontando costuras. A espinha, retesa qual cordame náutico. Iça-me a grua do tem-de-ser. Viro a página do lençol com brusquidão de leitor ingrato. O elástico da cinta do pijama já nem para cingir réstias de alhos serve. Uma pantufa, fiel, escolhe o pé errado. A outra migrou para o azimute mais inalcançável do porão da cama. Rumo à latrina, coxeio à maneira de pombo com noventa quilos. À passagem, o espelho denuncia-me o cabelo em imitação oleosa do David Bowie. A pança faz-me boneco-da-Michelin. Alivio-me em puro aparato filosófico: tudo o que começa por torrente a jacto, sem remédio acaba às pinguinhas.
Na banca do lavatório, as coisitas da mulher da casa pontuam o texto da ausência dela: o secador, a escova, a etérea transparência nocturna amarfanhada no cestinho das sedas, a tesourita das sobrancelhas, os mil truques mínimos que escoram a descomunal beleza dela.
Rumo à cozinha, bocejo cavernames de Mira de Aire. Copo de água para lavar a adega. Cafeteira, caneca amarela, micro-ondas. Sala. Notícias, primeiro cigarro. Palhaçada das presidenciais em França. Grunho: Eliseu dos Recreios (tomar nota do trocadilho para crónica). Atentado não sei onde. Palhaçada da autocanonização geral: refugiados, Papa, de novo na moda os sem-abrigo de Lisboa e o Santana na Misericórdia, Marcelo por todo o lado como os buracos da estrada e as chaminés inúteis das fábricas extintas e a certeza de morrer um dia. Os crimes da, perdão, na CMTV. O próximo Sporting-Benfica a render dezasseis horas por dia desde 28 de Maio de 1926. Desligo à bruta. O café arrefeceu. Micro-ondas. Segundo cigarro. Esquentador. Polibã. Muito melhor. Volto a ser um belo homem. Saio do vapor como um dom-sebastião sem feridas a mais. Prazer delicado da roupa interior lavada de fresco. Camisa fina como segunda pele. Fidelidade do cinto de cabedal no cós. Sapatos leves de busca-rimas. Um meio-dedo de fragrância nas almofadinhas da orelheira. Chapéu de palerma como os há muitos. Pronto.
Já na rua, disponível todo à maravilha exótica da aventura urbana – mas cuidado nas passadeiras. Todo aberto ao encontro de poetas, arquitectos, ecologistas, velejadores olímpicos – mas só os velhos de sempre na pastelaria do costume. Ainda todo crente no ser hoje o dia de dar começo ao Romance Português do Século – mas só o Record de ontem para romancear o Portugal secular. Remédio infalível de cónego velho: ir tomar um doce à choupana atrás dos plátanos, onde o rio espuma as aurículas aos melancólicos. Não para falar com alguém – mas para ter alguém a quem ouvir falar (tomar nota dos ditos para crónica). Décimo-segundo cigarro. O telemóvel chamando. Atendo. Engano de lá. Como sempre. Comprar-me-ei alguma vez um aparelho que dê o meu número correcto a alguém que se não engane tanto comigo? Alguém que me creia vivo, me tenha em conta e me considere santo à guisa de um desses mortos de sonho como, sei lá, o David Bowie?
Adormeço.


Thursday, April 06, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 500 (MAIS UM SÉCULO) - in O RIBATEJO de 6 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt



Rosário Breve n.º 500 (mais um século)



Sim, verdade: esta é a crónica n.º 500 da série Rosário Breve. Parece mentira. Quinhentas semanas aqui. Se é um privilégio não escrever para a gaveta, redobrado privilégio é fazê-lo na e para a última página deste Jornal. Sinto profundamente isto que aqui deixo dito. Faz em Maio próximo dez anos que aqui dei por publicada a primeira coluna. Estranha coisa: uma década esfumada assim, assim como se nada fosse. No entanto, cá cantam, nos ossos e no gasto de tantos lápis, esses dez anos. É com alguma perplexidade que conto cinzas. Quinhentos prumos de fumo, quinhentas miradas, quinhentos grandes-tudos & quinhentos pequenos-nadas. Adiante, todavia.
Adiante neste sentido: por felicíssima coincidência, esta crónica n.º 500 alinha-se em perfeita esquadria com uma outra efeméride que, essa sim, ilumina solarmente a minha vida – segunda-feira próxima, 10 de Abril, é o centenário do nascimento do senhor meu Pai. 500x100, portanto. Esta crónica só poderia ser deposta a seus pés. Mais do que um bom homem, o meu Pai foi um homem bom. A alteração do lugar do adjectivo diz (quási) tudo dele. Daniel dos Santos Abrunheiro nasceu a 10 de Abril de 1917, morrendo a 24 de Abril de 1994. Se em sorte me couber o total de anos que foi o dele, tenho ’inda mais 24 para fazer sombra pelo chão, honrando-lhe o nome até quando, à imitação dele, estiver dormindo.  
Encerro com um texto que lhe dediquei há uns anos já. Antes, todavia, deixo este recado ao meu Leitor: sou-te profundamente grato – sim, a ti, que tanto lápis me fazes gastar em prol de uma gaveta que não preciso de abrir.

Tesouro

Vi os olhos do meu pai na cara de um homem que passava na rua.
Durou pouco, o regresso desse olhar de cão batido.
O homem olhou-me com um olhar que já era o dele.
Fiquei parado na rua.
Fazia sol.
O meu destino, que na altura era ir ao multibanco, tinha perdido o sentido, como todos os destinos.
Os olhos do meu pai, caramba.
Estes anos todos sem ele, e ali estavam os olhos.
Preciso sempre de uma explicação.
Preciso sempre de saber tudo.
Continuei parado ao sol, à espera de perceber.
Não durou muito, a explicação.
Eu tinha parado diante de uma montra espelhada.
O sol devolvia-me todo um corpo de vidro e luz parecido comigo.
Olhei-me os sapatos, os joelhos, a aba do casaco, a gravata, a cara.
Nessa cara alheia, lá estava outra vez o olhar do meu pai.
Nunca mais volto ao multibanco.
Nunca mais vou precisar de dinheiro.
Um tesouro olha por mim.

Thursday, March 30, 2017

CRÓNICA A MODOS QUE POLIPROPILÉNICA - Rosário Breve nº 499 - in O RIBATEJO de 30 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica a modos que polipropilénica



1 Se a estatuária moderna fosse feita do mesmo material que dá corpanzil aos mamarrachos eleitos, poderíamos morrer seguros de nos sucederem tais monumentos. Assim, como parecem ser (e deixar de ser) de polipropileno, de esferovite, de plasticina, de areia e/ou de barro que não viu forno – não.
Sim, andei por Santarém. É de facto uma cidade perigosa. Parece remontar ao constante temor bíblico das grandes calhoadas na mona à passagem pelos sopés das torres periclitantes a que o arquitecto medievo se esqueceu de juntar super-cola. A sério que andei pela bela e desprezada cidade que é Vossa como foi (e para sempre há-de ser) do Bernardo que era António, esse mesmo (Martinho do) Rosário não breve. Está bem, eu conto:
2 Cirandei pelo meio das estreitas artérias. “Pelo meio” – por me ter esquecido de trazer comigo material de desencarceramento capaz de libertar os passeios (os passeios já de si exíguos e opressos como o bafo dos asmáticos) da praga de carros que os juncam em perfeito aparato estacionante de selvajaria anticívica. Tesoura, ferramenta multiusos de acção dupla, rebarbadora, machado, picareta, expansor, extensor hidráulico, tudo à base de grupo energético calibrado e em bom trato de manutenção – a falta que de vós senti! Da próxima vez, talvez não me esqueça de juntar ao estojo do acordeão, à maneira de saca-pipos, o canivete de ponta curva que na puberdade me foi oferecido por um amigo interesseiro cujo pai era patrão de uma recauchutadora de pneumáticos.
3 A estas verdades tristes, junto uma desconfiança não-alegre. Esta aqui: sou capaz de ser eu quem leva tão arrastada invernia ao Planalto. Das duas últimas vezes, assim foi. A mais recente, pior do que a penúltima. Ora leiam:
4 O granizo diagonal vergastava a vetusta Scalabis ao colo de um vento de más horas, acudindo à nuca o arrepio glacial dos que de barriga para baixo esperam o gume da guilhotina. Tinha eu acabado de ser corrido do pórtico do W Shopping por uma faneca de quarenta quilos mas com farda de securita. Atirei o acordeão para dentro do estojo depois de recolher os dezassete cêntimos ganhos a tocar ao sentimento entre as oito e meia e as onze e ¼ da madrugada. Fiquei como estou há coisa de cinquenta e três anos menos 38 dias: sem norte nem oriente. Restavam-me o sul e o ocidente. Decidi-me, claro, pelo sul: indo pela Pedro de Santarém, chega-se num fósforo ao Quinzena.
5 Ainda não era a enchente. Serviram-me um quartilho, mas na condição de não usar o acordeão para tocar o Minho e Galiza, essa estremecedora marcha-de-concerto tão parideira de lágrimas viris e tão própria àquele transe em que o cabo dos forcados e o cavaleiro dão a volta ao arrebol com flores e lágrimas também. Bebi, o senhor Fernando ofereceu-me o gasto e a porta de saída, saí.
6 Cá fora, o mundo continuava imundo. A invernia contrariava o calendário: era já afinal inaugurada pelo relógio a outrora doce Primavera. Andei muito. Eu fiz Vale de Estacas, eu fiz S. Pedro, eu passei à Bonduelle, eu saudei sem abrir a boca os Casais do Mocho, eu desembestei-me pela 114 até Perofilho, eu parei à face de um monturo de lixo espontâneo para desfazer uma desnecessidade, e segui, segui muito, à passagem pela Jorge Cordeiro Automóveis Ld.ª já levava um bofe na mão direita & uma aguda vontade de jamais ter nascido na outra, e foi então que me pus a grande questão existencial que toda a humana pessoa mais tarde ou menos cedo acaba tendo de pôr a si mesma por não ter mais ninguém ao pé a quem pô-la: “Quinta dos Cardeais ou Secorio?”
7 Escolhi o Secorio. Por ser sexta-feira, havia mangusto de bacalhau na Associação Progresso e Recreio. Tiveram pena de mim e deixaram-me entrar, mas na condição de não usar o acordeão para tocar o Hino da Maria da Fonte, que fica sempre tão bem ou quando há bacalhau ou quando o vinho ainda se não acabou. Perguntei qual poderia então tocar para agradecer o extremoso manjar. Disseram-me que tocasse a Chula do Polipropileno, coisa que fiz sabendo o quão efémero é tudo na vida: a começar pela própria vida e a acabar nos conjuntos escultóricos da Santarém moderna, essa arte à la Moita Flores que o Inverno leva e a Primavera não devolve.


Monday, March 27, 2017

MENINAS, VINHO VERDE & HOLANDESES ESQUISITOS - Rosário Breve nº 498 - in O RIBATEJO de 23 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt



Meninas, vinho verde & holandeses esquisitos



Na semana passada, croniquei neste espaço de maneira sentimentalona e ateia. Já depois de ter enviado o texto para a paginação, ainda me ocorreu a possibilidade de vir a ser queimado em efígie pelos fundamentalistas do catolicismo. Não ardi, porém. Aconteceu com a minha crónica o mesmo que por aí acontece: nada. Qualquer protagonismo a que eu tivesse a veleidade de aspirar, na glória efémera da semana de vida útil deste Jornal, teria, de qualquer modo, sido pulverizado por isto agora do holandês esquisito (fisionomicamente parecido com o também esquisito Francisco Assis do PS). Falo do presidente do Eurogrupo, senhor de um nome cujo som parece o do prato do cão ao fazer-se em cacos pelo chão: Dijsselbloem.
Toda a gente sabe o que tal figurão-figurinha disse de nós (Portugueses, Espanhóis, Gregos e talvez dos Italianos também): que connosco é tudo muito bonito mas mais à base de putas & vinho verde. Não é que seja mentira, ó pessoal! Todavia, a acusação peca mais por defeito do que por excesso. Para mais, vinda de um gajo cujo país expõe as prostitutas em montras de pé-alto à maneira de talhos virados para as ruas por onde passam criancinhas. Para menos, vinda de um fulano em cujo país a ganza é mais livre do que por cá as andorinhas. Para tanto, vinda de um parasita cujo salário diário equivale a não sei quantos salários-mínimos cá da parvónia.
Peca por defeito porque não é só em putedo e copofonia que esbanjamos à larga. Não só. Também sustentamos subvenções vitalícias (e milionárias) de políticos como ele, canalha que sabe lá o que seja uma leira, uma oficina, uma escola no cu-de-judas. Também ombreamos a canga de uma dívida externa infinita, artificial e impagável que gajos como ele criaram do nada para sustentação ad æternum de meretrizes de gravata como ele.
Também mamamos o fel das recapitalizações bancárias ordenadas por gajos como ele no dourado dos salões extraterrestres em que vegetam as suas estéreis existências.
Eu sei o que o assusta: é aquilo do Brexit. O Dijsselbloemzito teme que, colando o exemplo, lhe tirem a gamela das fuças. Que nós, os tais pequenitos do Sul, lhe escaqueiremos a manjedoura com o braço do manguito. E que eles, Holandeses acólitos dos Alemães, tenham de ficar com as próprias putas para consumo-da-casa e de se verem reduzidos à vinhaça que, aliás, nem sabem fazer. Não se lembram de terem sido corridos a pontapé do Transvaal pelos Ingleses. Não se recordam de lhes termos nós, Portugueses, estampilhado o focinho a galhetas no Brasil que nos queriam roubar.
Quem prostituiu o sonho de paz duradoura no pós-guerra de 1945, e que esteve na base da concertação de uma pretensa unidade europeia – foram gajos como este imitador do ultra-ortodoxo Francisco Assis. Não fomos nós – que trabalhamos a vida toda por um restolho de migas em malga rachada. Não fomos nós. As nossas putas, senhor, são mais sérias do que as vossas. E a nossa pinga, da Porca de Murça à torreira do Esporão, passando pelo milagre em escada das Encostas do Douro, é incomparavelmente mais encorpada do que a mijoca sensaborona do vosso schnapps. A verdade fala pela minha boca como se um vento profético me arejasse as barbas no deserto, pá.
E ainda: ó pá, foste a três finais do Mundial da bola e perdeste-las todas. O nosso putedo e os nossos bebedolas, pá, são Campeões. Campeões de quê? Dessa mesma Europa que pensas ser tua mas não é. É cá do Sul, carago!


Thursday, March 16, 2017

DA INSANÁVEL INEXISTÊNCIA DE DEUS - Rosário Breve nº 497 - in O RIBATEJO de 16 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Da insanável inexistência de Deus



Foi há mais de trinta anos. O filho de um Irmão meu ficou-nos doente de uma pneumonia séria. Filtrado pela urgência pediátrica, ficou internado com a mãe. Lá fomos todos, em aflita procissão, a saber dele, atulhando a sala-de-espera de uma ânsia inominável. Fazíamos óós com a boca como peixes de aquário não ventilado. Devagarinho, o menino convalesceu. Parecia um lírio transparente. A boquita de morango, gretada pela febre, ensinava-nos o código-de-barras da desidratação. Como sempre sucede em todo o resto de todo o mundo, as mulheres mostraram-se mais fortes. A Cecília não desamparava o filho da vida dela. A minha Mãe, a minha Irmã e as minhas outras cunhadas conluiaram-se num gabinete-de-crise que jamais vacilou no combate ao infortúnio. Nós, homens, meu Pai incluído, parecíamos pardais partidos à pedrada. Foi então que, no decurso da primeira visita autorizada, cometi um dos mais amargos erros da minha vida. Só agora, mais de três décadas depois, me sinto em robustez para contar tal passe.
Era no Pediátrico antigo. As regras de estadia e de circulação eram então muito mais relaxadas do que agora são. Com todos à volta do Ruizinho, dei-me à derivação. Da enfermaria dele, atraído pelo Minotauro da curiosidade, fiz-me ao labirinto. Dei por mim num dédalo sem retorno.
Sem médicos nem enfermeiras que me tolhessem o passo, adentrei uma enfermaria escurecida como noite privada. A um canto alto, uma luz-de-presença tiritava a febre de um amarelo glauco, um amarelo mau de pus quente. Quem me dera, hoje, não ter entrado naquela divisão irremediável. Mas é que entrei. E até hoje dela não saí – por causa deste pecado portátil chamado lembrança.
Era a enfermaria dos casos sem remédio. E era a demonstração mais cabal, mais prática e mais científica da inexistência de Deus. De qualquer deus de qualquer seita de qualquer superstição de qualquer cegueira & de qualquer guerra em Seu Nome.
Era uma menina, a primeira criança incurável que vi. As mãozinhas perfeitas e o rosto da mais desarmada e mais desarmante lindeza eram contrariados pelo capacete da hidrocefalia. O crânio descomunal, eivado de veias azul-cobalto estrangulando uma miríade sideral de róseos riozinhos, tornava aquela filha-de-alguém numa espécie insuportável de extraterrestre dos piores filmes. Senti de imediato a gravidade do meu erro e a indesculpabilidade da minha devassa.
Mais além, um menino. Tinha três anos de vida, apurei depois. Nesses três anos, só chorara. Era cego, era surdo, era de janelas fechadas a todo o exterior. Soube depois que, desenganados pelos médicos de toda a esperança, os pais daquele bambino insanável o haviam deixado ali para o que não desse e jamais viesse.
Não me lembro dos outros quatro, doze ou mil que ali jaziam. Fugi como o covarde que passei a ser até que a morte me chame pelo nome privado que a minha Mãe me chamava para lhe dar um beijo.
Calma, que isto ainda não acabou. Uma década e uns pós depois, encontrei-me no átrio do Hospital Novo com uma amiga. Chocou-me vê-la a chorar sem peias nem remédio. Afinal, ela era ali médica. O problema era ela ser daquelas pessoas clínicas que continuam a ser pessoas apesar do estetoscópio. Quis consolá-la. Não pude. Vinha de avaliar um caso perdido. Uma infantazita de quatro anos. Leucemia infantil.
Viemos, ela & eu, para este Café de onde vos escrevo. Finjo que ela, Dr.ª Maria da Conceição Saraiva Pinto Athayde, está comigo ainda. É fingimento meu. Ela não está. O cancro levou-no-la em Dezembro de 2007.
Escrevo de novo as duas palavrinhas que negam Deus: Leucemia Infantil. Pouso o lápis e faço como o senhor meu Pai fazia, que era isto assim: olho o mundo derredor e não encontro nele sinais quaisquer de qualquer divindade. Do Diabo sim – e por todo o lado.





Thursday, March 09, 2017

ENDECHAS ORGULHOSAMENTE SÓ PARA PORTUGUESES - Rosário Breve nº 496 - in O RIBATEJO de 9 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt



Endechas orgulhosamente só para Portugueses



1 Havia a Caixa das bolachas e havia a Lata das bolachas.

As da Lata eram para os filhos.
As da Caixa eram para quando a Avó vinha.
Seguíamos a Mãe: nós filhos nunca tocávamos nas da Caixa.
É talvez isto que é preciso dizer à ladroagem bancária destes dias.
Pena é terem Avó & Mãe morrido já.
Continua a ser preciso ter lata, todavia.


2 Outra coisa que havia, ou passou a haver desde 1975, era Angola independente. Ao empate técnico da guerra, sucedeu-se o reconhecimento, inevitável aliás, da auto-determinação. Mas o povo Angolano não é independente, nada disso, longe disso. O colono de agora é apenas da mesma cor da pele. Uma família com uma quadrilha de “generais” – e está a plutocracia consumada. Mais me custa ter morrido cada homem, preto ou branco, entre 1961 e 1974 – para esta nefanda cleptocracia.

3 Daria dinheirinho, que nunca tive, para ler o mural do Facebook em, digamos, 1940, ano da Exposição do Mundo Português. Gozão, saborearia a preceito os dislates de pasmo, baba & ranho dos meus compatrícios ante as maravilhas de gesso & papelão dos pavilhões imperiais. Em secreto ficheiro, faria copy-paste das hashtags tributárias da magnificência do nosso “Império”, do nosso messiânico Salazar, do nosso nunca desmentido fascismozito-de-paróquia, do nosso Portugal-dos-Pequenitos-do-Minho-a-Timor. Mas quando éramos miúdos não havia Facebook. Havia os nossos Pais vivos. Aprendia-se muita coisa na mesma, que carago.

4 Parece que escrevi um palavrãozito. Já não vou a tempo de substituí-lo por alguma interjeição mais branda. Fica assim. No devido contexto, o calão é-nos tão natural quão uma tachada de feijoada, uma travessazorra a transbordar de cozido, o contentor inchado de lixo a deitar p’ra fora – ou uma écloga definitiva de Camões. Repare-se nisto de o reeleito presidente do Sporting Clube de Portugal ter blasfemado – ou bardamerdado os infiéis ao Leão. Mal nenhum, acho eu. Francamente: mal nenhum. É português, é só nosso. Antes isso do que ser gago. Independentemente de qualquer contexto, a portuguesíssima palavra "bardamerda" não tem rival. Aquilo da "saudade"? A saudade que vá bardamerda.

5 Não faço a mínima ideia do que sejam dez mil milhões de euros.

Não faço a mínima ideia do que sejam mil milhões.
Não faço a mínima ideia do que seja um milhão.
Mas de um gatuno, ah sim, tenho ideia.
De um vezes dez milhões deles.

Porquê? Fácil: porque somos dez milhões de pequenitos que, podendo, roubaríamos também o nosso naco em detrimento do vizinho, quiçá do próprio irmão. Ou do nosso filho, roubando-lhe o neto. Se vos parecer cru isto que digo, ainda bem. A factura falsa é a nossa vocação, não a reivindicação de um fisco mais justo, mais equilibrado, mais pertinente. É como dar uma moeda de dois euros para a-fome-em-Angola. É ou não é? É pois. Ou como ter saudade do tempo em que já tínhamos ido bardamerda mas não sabíamos, como ainda hoje não sabemos e como amanhã nos não lembraremos.
Que carago.




Tuesday, March 07, 2017

LAUR’ÁGUA





LAUR’ÁGUA



In memoriam Laura Maria Macedo Trindade
(Leiria, tarde de Domingo, 5 de Março de 2017)



Morrinha.
Céu fosco.
Último dia do circo na cidade.
Solidão (de) esplanada.
Sem cor, as coisas todas a lápis.
A luz transdesaparece.
A noite é certa.
Morreu, ontem talvez, a Laura.
Laura Maria Macedo Trindade.
Era do Porto.
Deixou filho & filha.
Dorme-se muita em vida.
O rosto dela desatransparecendo.
Morrinha.



Thursday, March 02, 2017

DA FELICIDADE AO CALHAS - Rosário Breve nº 495 - in O RIBATEJO de 2 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Da felicidade ao calhas



Há muitos anos que não resisto às montras das lojas de electrodomésticos. Quedo-me sempre ante cada uma. Fascina-me mormente a esquizofrenia dos televisores ligados a canais diferentes. O melhor daquele aparato, todavia, está na falta do som. São como os aquários. Como os aquários e como as lareiras, manam qualquer coisa de hipnótico que faz a vista não pen(s)ar. Ambulâncias que não gritam, carros da polícia que não uivam, idosos negrejando o granito das luras serranas, velhinhos urbanos aos saltos em fantásticas promoções de linimento milagroso capaz de embalsamar o reuma das articulações, flashes do carnaval permanente do senhor Presidente, planos mais ou menos demorados dos viga(c)ristas que protagonizam a corrupção-ao-milhão do momento, a recentíssima invenção das ondas gigantes da Nazaré, desastres matematicamente fatais ensanguentando as rodovias, rostos de bombeiros exaustos com o ígneo inferno por pano-de-fundo, apreensões de droga a granel, putos com armas, ex-maridos com catanas, divórcios gay de ribalta pindérica, supostos talentos canoros e instantâneos, o malar mineral do senhor ex-PR, a estupefacção ensaiada do senhor ex-PM, coacções preventivas de pais, filhos & Espíritos Santos, imparável afromuçulmanização daquilo a que outrora chamámos Europa, o comunismo evidentíssimo do Papa franciscófilo, o dobermanismo evidentíssimo do mastim da Rússia, os mais recentes tweets da cenoura maluca que USAmericanos entronizaram, a palidez indignada de Angola ante as coloniais suspeições de corrupção, outra vez o senhor Presidente dos Afectos passarinhando à beija-flor o jardim lusitano – e bola, sempre bola, muita bola, cada vez mais bola.
Há muitos anos que, ante as montras electrodomesticadoras, e sem estar sentado, espero a reportagem decisiva, muda embora, que mostre & demonstre a via que leve ao trabalho para todos, à escola deveras instrutiva, à limpeza definitiva dos rios, aos hospitais não sobrelotados, aos sábados de correios, postos de saúde e bibliotecas abertos todo o dia, à energia solar aproveitada em pleno, à capitalização do mar como tesouro sem fundo, à naturalidade do civismo como premissa de cidadania.
Não me parece que sequer uma destas coisas tenha esse televisor para me vender. Para me vendar, terá. Para me vender, não tem. Por conseguinte, lá me consigo soltar do pasmo hipnótico e vou à minha vida. Vou ciente de ser toleima irremediável esperar seja o que for de um País (e de um mundo) de máquinas mudas electrodomesticando um rebanho de surdos. E cegos. E mudos.
E, assim como assim, se calhar felizes – felizes como o senhor, senhor Presidente.

Thursday, February 23, 2017

TENHA MAS É VERGONHA, SENHOR MINISTRO DO TEJO - Rosário Breve nº 494 - in O RIBATEJO de 23 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Tenha mas é vergonha, senhor ministro do Tejo



Três cavalheiros bem apessoados, não moços já, passeiam lentos à face do rio local, lamentando deste, em coro grego, a poluição gravíssima. Dá todavia um deles não contrariado sinal de optimismo. Diz ele que “há quem se ande a mexer – e a mexer-se bem – para que esta infame lástima seja remediada”. “Oxalá!” – considero eu para comigo, que, os não conhecendo, lhes não falo.
Lá vai já o trio, sigo eu em rumo inverno/inverso. Aporto entretanto ao lado poente do quadrilátero da praça. É galeria de arcadas a que se acolhem três estabelecimentos de Café. O meu é o do meio. Acampo nele a ferrugem óssea. D’além, a Sé exala uma largueza fria de calhau grande. A noite é a realidade mais imediata, a mais terminada: & a mais terminante. A meu bel-prazer, isto é tudo descampado deserto. (Falo em concreto da praça, não em geral da vida – mas.) Mesmerizada pelo televisor, a moçoila balconista, de um acne de joalharias, nem pestaneja. Fico cá fora, claro – para fumar & para ser o arquetípico poeta de província ante o cão magro (aquel’além) que fareja a pomba que a estas desoras já não há: lá vai ele, cão de si, sem deus nem amo.
Tipo gambiarra natalícia, luzipupilam-me a mente ideias-pirilampos. Uma é aquilo do Tejo conspurcado por gananciosos pecuário-celulósicos até hoje impunes em barra tribunalícia. Outra – ter relido hoje Daniel Filipe, o ilustríssimo Daniel Filipe, o maravilhoso Daniel Filipe absolut’absurdamente desconhecido de/por este país-zé-pereira-de-arraial que nem à própria mãe reconheceria sobre passerelle de cabras. Outr’ainda – o supino prazer que senti à flagrante leitura da crónica de Fernando Paulouro Neves com data de 9/2/17 deste Jornal, aquela em que ele, como eu, quer mas é que deixem sossegado, em seu dinâmico panteão gastronómico-detectivesco, Don Manuel Pepe Vásquez Carvalho Montalbán. Mais uma: a recordação pueril de um café-beberagem-sítio tomado, em incerta manhã pluvialíssima, no Royal da santarena Rua Capelo e Ivens. Desenvolvo:
Era no Royal Café da santarena Rua Capelo e Ivens, era em Santarém. Chovia, por então, de desalmar o coração. Ia eu de moedas contadas nessa sexta-feira tipográfica. Adentrei o santuário quási exíguo, pedi café-café, de que fui servido por correctíssima matrona. Não é prado de fumadores, aquele posto. Aguentei-me. Para não sofrer tanto o desmame de nicotina, pus-me a pensar: no Tejo cancerigenado à força; ao mesmo tempo, no Daniel Filipe da Pátria, Lugar de Exílio – e isto tudo à mesma luzinha-de-gambiarra no estar fora-de-casa à mercê de uma chuva alheia. Também pensei no abandono ferroviário da Capital do Ribatejo. E no que disse outro Daniel (Matias, este), leitor facebookiano do meu Jornal: “Há cidades do interior [em situação] muito melhor do que esta aldeia grande a 70 km de Lisboa.” E, analógica lampadinha de gambiarra, pensei também, vendo o tanto que chovia à porta do Royal, no que comentou Fernando Prazeres, também ele leitor & também ele pelo Facebook/O Ribatejo: “A porcaria de dormitório que é a nossa cidade. Nada fazem. Estagnou no tempo. Chego a ter vergonha.”
Palavras fortes. Tão mais fortes quão mais justas, valha a verdade. Num estremeção, o pensamento-gambiarra vê-se-me projectado ao número seguinte do Jornal. Desta monta (ou volta; ou mote), Fernando Paulouro Neves surge obituário: morreu Tzvetan Todorov, um senhor que era búlgaro q.b. para só poder ser (re)conhecido em Paris pelos estrutur’existencialistas do costume.
Já não sei em que Café estou – se no das arcadas expostas à frialdade irremediável da queiroziana (e amara) Sé, se no Royal da terra de Bernardo Santareno, que decerto leu Daniel Filipe, que decerto aplaudiu Bernardo Santareno.
O Rio é & será, enfim, o mesmo. Só aliás haverá um rio: a montante, o do nascimento; a jusante, aquele que sabemos. Quereis ver? Vêde:
Três cavalheiros bem apessoados etc.:  Montalbán, Todorov, Daniel Filipe.
Ou três cães sem amo, que afinal conheço e a quem falo.
Nisto, mesmo a desoras, passa a pomba.

Thursday, February 16, 2017

PILHÉRIA COM PILHAS AU COGNAC - Rosário Breve nº 493 - in O RIBATEJO de 16 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Pilhéria com pilhas au cognac



Na semana passada, dei-vos conta de (in)certa viagem minha para breve. Esta semana, digo-vos que parte desse périplo está cumprida já. Não interessa por ora aonde fui fazer o quê. Não é por rebuço de mistério que fecho isso em copas – é porque (ainda) não vem ao caso. Ao caso, todavia, vem o ganho com que fui remunerado. Digo: os ganhos, que vário me foi o lucro pessoal na & da jornada. Mostro exemplos.
Fui e vim de expresso rodoviário. Anoto: achei-me bem servido. Horário escrupulosamente cumprido. Segurança, conforto, placidez, despacho. Um senãozito apenas: à ida, tive por vizinhança de assento um papagaio ginecológico com quase tantos aniversários quantas camadas de tinta na tromba engelhada. Quase não largou o telemóvel a viagem toda. Ao filho divorciado, para inquirir se o pobre tem ou não tem visto os filhos que co-fez com a inominável outra que o trocou por um dentista do Sabugal. À filha, professora num paul de Portalegre, a demandar se sempre vai com a mamã ao espectáculo do papa Francisco (sessão dupla em Maio numa cova-da-iria perto de si). À amiga Madalena para lhe contar tudo-tudinho do que filho & filha lhe mentiram.
Estive perto – ou antes, não andou ela longe – do estrangulamento, radical remédio a que não dei deferimento por ter alergia micótica a pescoços de galinha velha e por não estar para me chatear depois com o motorista, que era um gordo feliz & sabedor das letras todas das canções todas com que a Rádio Renascença unge o desmiolado rebanho de Deus que é o meu. Lá chegámos, enfim.  
Vieram buscar-me ao ponto combinado. Recebi logo demasias de lorde. Deram-me café & conhaque, tabaco acabadinho de amortalhar, uma fotografia emoldurada do senhor presidente da Câmara a rir-se muito por ter na mão direita um saco cheio de pilhas para o pilhão & na mão esquerda um vereador de barbas oitocentistas também muito feliz por causa das pilhas e das barbas e de estar na mão do senhor presidente da Câmara, uma caneta de tinta mais permanente do que as tretas que escrevo, um CD autografado pelo Tony Carreira com espaço em branco para eu lá fingir o meu nome com a caneta nova, deram-me mais conhaque a pretexto da filosofia maravilhosa que é a de um-dia-não-são-dias, levaram-me ao W Shopping para eu fazer um poema de fazer lacrimejar os calhaus da calçada sobre a pedinte de serviço à porta, fiz o poema e fui muito aplaudido pelos analfabetos do tipo isto-é-um-país-de-poetas, levaram-me aos ombros até um tasco maravilhoso que fez da feijoada de caracoleta uma religião do palato e cujo vinho-da-casa assentava no porão como um colchão de veludo, por estar a chover ficámos deliciosamente sitiados no dito tasco, cujo conhaque-da-casa era servido a biberão aquecido, deram-me conselhos sobre como resguardar o meu desta comédia toda da Caixa Geral de Depósitos, aproveitei para mandar umas bocas impenitentes & impertinentes sobre a mansidão acrítica do vulgo cada vez que há autárquicas, coisa que não foi bem recebida porque o vulgo às vezes percebe que é corno-manso mas não gosta que lho digam nas ventas, valendo-me a intempestiva chegada, a recolher-se da chuva, da senhora que tem uma filha professora em Portalegre ou no Sabugal ou em Fátima, na altura não fui capaz de precisar e agora também ainda não.
Trouxeram-me em carrinho-de-mão de volta à Rodoviária, descalçaram-me de botas porque o inchaço das patas me dava ânsias de morrer sem ter feito mais filhos, nem escrito mais livros, nem urinado em mais árvores, à cautela marcaram-me nova viagem para quando o pus do fígado desse sinais de conformidade com os níveis impostos pela União Europeia, semearam-me no bolso da jaqueta uma de vinte para o táxi entre a gare & a mulher, pediram-me que voltasse para a semana por ser certo que o W Shopping muda de pedinte à porta, havendo pois que fazer versos novos em celebração de tal aparato. Aquiesci, claro que aquiesci.
Se por ora mais não conto, é por me faltarem as pilhas, ao contrário dos barbudos felizes para quem isto da responsabilidade é tudo uma letra vã como a das canções da Rádio Renascença.



Thursday, February 09, 2017

EM MODO DE PRÉ-VIAGEM - Rosário Breve nº 492 - in O RIBATEJO de 9 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Em modo de pré-viagem



Estou em antemão de viagem, cujo montante temporal desconheço mas de cujo benefício vos farei relato aqui mesmo, a ocasião vinda. Isto quer dizer que os pardais residenciais e a pomba solitária da Praça Nova vão ter de desenrascar-se sem mim por uns tempos, quebrada a nossa rotina diária do bocadito de pão & da mãozita de arroz. Não é de extensa geografia, a jornada a que me proponho. A partir de um ou dois marcos geodésicos, traçarei panorama de um meio-século laboral, humano portanto. Mas a seu tempo esse Tempo. Para já e por enquanto, viajo de outra maneira. A outra maneira é, sumariamente embora, recordando certa viagem já muito pretérita que reservou poltrona à lareira da minha lembrança.
No Outono de 2002, fui a Bruxelas. O que me lá levava, foi feito sem pressas nem demora, sobrando-me tempo para caminhar sozinho com o lápis do costume por companheiro. Tinham-me recomendado certo incenso de certa loja na Chaussée d’Ixelles. Acatei o conselho e aviei a encomenda. Não era difícil: fui pela Rue du Prince Royal, claro, subi a calçada não agreste (estava bom tempo, o sol era fresco, adequada a minha roupa, boas as botas e bem atacadas de cordão grosso), muni-me do incenso. Decidi então, como é evidente, procurar um Café de portugueses. Fazia-me falta o binómio bica-bagaço de cuja imprescindibilidade quotidiana os estranjas, Belgas ou não, sabem nada. Encontrei o que desejava no n.º 6 da Rue Lesbroussart: o brioso Café Braga. Adentrei o estabelecimento e, ao balcão, soltei um quase estentóreo “– Atão munto boas tardes ós presentes.” Correu muito bem, como só podia. Tomei quatro chávenas lusíadas à maneirex, nada que ver com a água-de-lavar-cafeteiras a que os Belgas chamam café. Deixei-me por ali estar coisa de hora & meia a parlapiar com os circunstantes sobre benficas-sportings-e-coiso. Só havia um casalito indígena namorando em bárbara língua, o resto era tudo portuga, mormente minhotos. Um rapaz já descriado, que era de Monção (recordo isto como se estivesse sendo agora), ofereceu-me um sorriso manhoso do maior entendimento tácito. Devolvi o sorriso, mas só já na rua percebi o porquê da peculiar simpatia: o magano interpretara a fragrância da embalagem de incenso como sinal de substância para fumar às escondidas, daquele material que ou faz rir ou dá fome ou as duas coisas. Regressei ao hotel sem maior novidade e dois dias depois ao nosso incomparável, egrégio & ínclito torrão pátrio.
Antes da Bélgica, tinha ido a Cabo Verde. Faz Julho próximo vinte anos. Foi também por trabalho, que na altura me não faltava mas hoje não hei nem há. Hei-de talvez cronicar ainda algumas linhas sobre essa demora de três semanas na Cidade da Praia, não agora. Também já fui a Vigo, a Sevilha e a Madrid. Não importa, agora.
Agora, estou fazendo a mala (pequena) para a viagem de sexta-feira próxima. Sou maníaco de indispensáveis, tendo portanto aprestado já no bornal o seguinte (enquanto enumero, colmato falhas): o retrato de casamento dos meus Pais (original de 25 de Julho de 1943), os dez volumes de Portugal Século XX – Crónica em Imagens de Joaquim Vieira et alii para o Círculo de Leitores, um frasco de maçãs cozidas em calda de açúcar, um par sobresselente de atacadores das botas (para não arrastar a marcha em terra alheia), uma carta manuscrita de recomendação da minha pessoa dirigida ao senhor presidente da Misericórdia local (mas a utilizar só em caso de agonia súbita tipo falta de carcanhóis para o regresso), gravata para exibição na Assembleia Municipal (mais o bigode postiço para me não associarem aos gajos do jornal), papelucho com rol de presentes endógenos (tóxicos e inócuos) a adquirir em lojas certificadas, a camisa branca mais a outra que é castanha (mas só usar esta com camisola por ter um rasgão diagonal à altura do fígado), pão & arroz para a passarada de lá e o lápis do costume.
A ver se na lista me não esquece de apontar o incenso, que o belga já se me acabou há uma irremediável eternidade. Isso – e voltar à primeira oportunidade, que a mulher pode habituar-se ao sossego, e depois, posto e vivendo na rua, ainda me arriscar a ser abraçado pelo senhor Professor Presidente Marcelo, de lágrimas os dois qual par de Madalenas tipo andava-a-desgraçadinha-no-gamanço.

Thursday, February 02, 2017

FÁBULA DE INVERNO COM UM BOCADITO DE VERDADE - Rosário Breve nº 491 - in O RIBATEJO de 2 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fábula de Inverno com um bocadito de verdade



Gosto do Inverno. É quando mais franco se me volve aquele verso de Whitman: “Eu estou no meu lugar com os meus dias, aqui.” Rondei o derradeiro dia de Janeiro na condição de amador do tempo que fazia.
Era o império da morrinha. Do céu fosco, do céu sem um brilho, abóbada laminada a estanho, descendia espargindo-se a poalha atomizada. Pelas esplanadas, ninguém. Era como se tivesse caído a Bomba. O esquisito foi depois.
Entrei na tabacaria. Ninguém. Tudo ali à mão de pilhar. Luzes acesas sim senhor, registadora electrónica mostrando a última venda, jornais do dia, revistas da semana, fascículos coleccionáveis, aventais de raspadinhas esperando a moeda fricativa dos tesos de fortuna, copo de lápis, copo de esferográficas, chocolates finalmente baratos, brindes sorteáveis, canecas temáticas, jogos didácticos para crianças do meu tempo, dêvêdês de um tempo que vai deixando de ser meu, flores azuis e de plástico numa jarra feia como a minha cara de quando durmo & como a de quando estou acordado, tudo e menos alguma coisa.
Balbuciei: SôrAnacleto!”. Nada. SôraJudite!”. Túmulo. M’nineIvone!”. Espaço sideral. De imediato, sabendo-me portador de impunidade, do meu ombro direito sopra-me o Diabo encavalitado: “Gama o que quiseres, anjinho, isto hoje é tudo à fartazana.” Menos de metade de segundo depois, do ombro oposto o senhor meu Pai assim e assim só: “Filho.”
Não foi preciso mais nada. Rodei a esquina do balcão, tirei da estante do tabaco o maço da minha marca, deixei as moedas contadas entre o visor e as teclas da registadora. Saí. Saí um bocadito turvado pela sensação de ter ouvido fantasmas tuteadores & tuteladores.
Voltei para casa. Esperei pela minha Senhora. A minha Senhora voltou.
Contei-lhe o que se tinha passado. Ela ouviu tudo sem me interromper. Quando acabei, quis saber o que achava ela. Ela achou.
Achou que “Se o anterior executivo da Câmara do Cartaxo tivesse feito o mesmo que tu fizeste, escusaria agora o pobre Pedro Ribeiro de andar a tapar buracos sem poder deixar grande obra feita.”
Isto foi a minha Senhora a achar, que eu, por mim, não acho nada. Sou achado. Onde? No meu lugar com os meus dias.
Aqui.


Tuesday, January 31, 2017

IMITAÇÃO DE INÊS H. POR RUI B. - Rosário Breve nº 490 - in O RIBATEJO de 26 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Imitação de Inês H. por Rui B.



Há uma dúzia de anos entregues à bicharada, vem-nos a calhar um zootécnico. Refiro-me, claro, ao engenheiro Rui Barreiro, que, qual Lázaro, ressuscita do purgatório ribatagano e se propõe reconquistar em 2017 o que em 2005 perdeu: a presidência da Câmara de Santarém. Vem um bocadito tarde – mas vem a tempo, por não haver mais tempo a perder. Se vencer, oxalá faça jus ao nome. Neste sentido: Barreiro resolve barreiras. É trocadilho fácil – mas justo.
Como não voto cá, é libérrimo que me sinto para bitaitar alguns emolumentos à cena (triste) da realidade político-social deste futuro interdito chamado Santarém (Cidade & Concelho). Fá-lo-ei socraticamente: destruindo por ironia, reconstruindo por maiêutica.
Três palavras-chave parecem ser as suas, a saber: “Confiança, Esperança e Coragem”. Deixe-se disso, senhor engenheiro. Temos tido, por excesso que não por defeito, muito abuso de confiança, de desesperança razões muitas – e quanto a covardia (vá, a palavra é forte, troquemo-la por pusilanimidade), e quanto a pusilanimidade, o senhor sabe, o senhor bem saberá. Não é, pois, de palavras-chave nem de intenções-fechadura que precisamos todos – mas sim de actos-abertura, de paredes que mudem de cor quando se lhes der por cima uma chapada de tinta.
Até 25 de Abril próximo (boa data), diz o candidato que apresentará os nomes a si & do seu projecto adjacentes & cúmplices. Oxalá tais nomes sejam, mais do que próprios, apropriados. Não há-de ser difícil: isto aqui é joio, aquilo ali é trigo. Joeire o que for preciso até que espigue o melhor. Não vá pelo menos mau. Vá pelo(s) melhor(es).
É confirmação do senhor engenheiro que fervilham discretamente “conversações com outras forças públicas do Concelho para tentar encontrar entendimentos que permitam uma solução pluripartidária estável”. Bem. Muito bem. Não se importe que o já velho & relho apodo de Geringonça venha a ser-lhe ladrado pelos que temem o passar da caravana. Fale pouco e ouça muito as pessoas de bem, que Santarém as tem também. Vá beber um copo ao Quinzena.
Imperativa como imperiosa lhe seja a noção de a política poder sempre, mas não dever jamais, esquecer ser de/com/para pessoas que trata. Estes doze anos têm sido um deserto maninho, estéril, inculto: e torpe e ignóbil – vil até demasiadas vezes & soez não poucas. Barbudos embora, estes rapazes que estão não passam de imberbes a brincar às gilettes como os mais crescidos. Para eles, progresso é um hipermercado por cada cem habitantes. E se o não é, parece muito sê-lo. Olhe o senhor.
Olhe o senhor aquilo da EN 114, aquilo da balbúrdia viária ao pé da estação: que interminável tragifarsa, verdade? Verdade. O prolongadíssimo encerramento sem remédio à vista daquela via crucial (via crucis, precisamente) é, em si mesmo, o retrato perfeito do corrente executivo municipal. (Mas diga-o o senhor à sua maneira, que eu tenho chovido no molhado e a mão também já me dói um bocadito.)
Outra coisa não propriamente menor: o Tejo. Queira escutar os activistas apartidários que a ele velam & por ele pugnam. Seja incisivo nessa escuta. Insista na revisão equilibrada & pragmática do PDM-de-Santa-Engrácia a cuja procrastinação sine die estes ineptos inaptos nos têm condenado, a nós sem culpa formada mas com trânsito em julgado na (não-)prática. Cá p’ra mim, o lixo real das ruas começa a ser varrido com uma vassourada no lixo metafórico disto-d’agora.
Engenheiro: chateie Lisboa, senhor! É no chatear Lisboa que a coisa se dá. Chateie Lisboa! Vá lá fazer com que lhe passem cartão, ao contrário deste, que ainda piou vaguíssima & inconcretizadíssima ameaça de entregar o cartão. Chateie Lisboa. Incomode. Ralhe salivosamente com a secretária do ministro. Fume muito na antecâmara do ministério. Leve merenda para o Terreiro do Paço. Leve campinos, leve um rancho ou quatro, diga que se vai matar em holocausto público, ameace-os com o terror da continuação do Ricardo. Ou então assim: ande muito, marche muito – olhe, marche depressa & bem à imagem & semelhança da valentíssima Inês Henriques, a gloriosa riomaiorense que, a pé, faz mais depressa 50 km do que eu de bicicleta, eu com 35 anos de tabaco no pulmão ainda em vigor, no hálito, na roupa e na vocação de cinza-um-dia como toda a gente. (Já agora, senhor, dê-me-nos lume.)
A sério, muito a sério, senhor engenheiro: imite a Inês. Desta vez, o senhor não terá como concorrente uma medíocre criatura de televisiva génese – mas sim alguém cada vez mais ninguém neste frei-luís-de-sousa mesquinho de que Santarém não tem de continuar sendo palco.
Confiança, senhor. Esperança, engenheiro. Coragem, Rui. 

Thursday, January 19, 2017

MAS QUAL CRISE DE QUAL JORNALISMO QUAL QUÊ - Rosário Breve nº 489 - in O RIBATEJO de 19 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Mas qual crise de qual jornalismo qual quê


Considero que a propalada crise do jornalismo não é real. Como pode estar em crise algo que não existe? Hum? É como dizer: “ – Olha, aquele dinossauro está co’ a gripe.”
O jornalismo não existe quando o jornalista d-existe. O jornalismo não existe quando o jornalista não r-existe. De quê e a quem? Do aturado esforço e ao fedelho economês que o patrão nomeou director, por exemplo. Hoje em dia, parasitam as redacções os servis sicários que mataram as notícias para parir os conteúdos. É a praga das sinergias, a maleita dos empreiteiros/merceeiros donos de jornais. Por todo o lado, são analfabetos funcionais a mandar em quem escreve. Gagos mentais a editar o que se diz. Cegos voluntários a dar que ver. Com isto, jornais, rádios e televisões involuíram para monturos de lixo auto-reciclável que, todo o santo dia, esvaziam de qualquer préstimo todo o amanhã que, hoje, tresanda a ontem.
Ter sido ou não ter sido penalty esmaga ou não esmaga, em presença & relevo, o desemprego real? Esmaga. A última do presidente-da-bola é ou não é mais premente do que o esvaziamento curricular do ensino? É. O sufoco fiscal de trabalhadores & empresas vale alguma coisa face aos debates quadrangulares da recente jornada da Liga? Vale nada.
Reitero: a crise do jornalismo não é real porque o jornalismo é irreal e porque a crise é decalcada da financeira de 2008. O cavador deixa de ser jornaleiro no dia em que for tão dono da enxada como do chão em que a crava. Jornalistas, hoje em dia? Bah, jornaleiros! Acomodados a soldo de caciques (nacionais como multinacionais, de Lisboa como regionais – note-se bem), o escrevente verga o espinhaço gelatinoso ao frete – conseguindo do autarca parlapatão a publicidadezinha nojenta capaz de pagar a água do autoclismo. E aí vai ele de cuspinhar em Microsoft Word o marketing da promoção pessoalizada do fabricante de torneiras local. É vê-lo de microfone a louvaminhar por todo o lado “aqueles que se amamentam da Pátria”, meu bom Jacques Prévert.
Foi felizmente breve a minha incursão pelo jornalismo remunerado. Todavia, não foi por ignorância minha que (re)conheci pouquíssimos jornalistas – foi porque eram e continuam a ser poucos os que merecem esse título profissional. Lisboa era um nojo: campeavam os génios esquecidos, as luminárias do croquete, os amásios da fonte-inventada; grassava a cáfila dos romancistas embrionários tipo Nobel-para-a-semana, dos poetas desiquilibristas, dos guionistas de têvênovela. Coimbra? Jesus Senhor, Coimbra! Mais doutores por metro (como eles) quadrado do que honestas pulgas em cão solto. O Porto? Não sei, passei por lá a caminho de Braga mas retornei de barco até à Figueira da Foz. Aveiro & Viseu? Mas isso existe? Leiria? Não queirais que Vos fale de Leiria. Invoco razões higiénicas. Onde o jornalismo sério for embondeiro, Leiria é logradouro de erva rala. Daninha, naturalmente.
Não, não reconheço nem crise nem jornalismo. O que por aí se faz – é lama da digestão. Restos-zero à esquerda & à direita. Sabujices de obra-nada. Coisas de meter em saco plástico a caminho do contentor mais perto de si. Rácio de dez opinadores bêbedos por cada jornalista sóbrio. Terraplenadores da democracia, papagaios da cotação-em-bolsa que estão para os mercados como os freudianos para as mamas da própria mãe.
Ná! Crise nenhuma, jornalismo quase nenhum. Que me resta? Resta-me O RIBATEJO. Resta-me O RIBATEJO porque aqui a enxada é minha. A enxada é minha e o chão é nosso. Sim, o mesmo chão por onde ontem o dinossauro e hoje a gripe.

Thursday, January 12, 2017

ANDAR AOS PAPÉIS - Rosário Breve nº 488 - in O RIBATEJO de 12 de Janeiro de 2017 - www.oribatejo.pt




Andar aos papéis


1 Até que enfim fui capaz de sintetizar na perfeição a minha vida: relê o título desta crónica, Leitor(a). Sem mais nem menos, é o que lá está. Talvez eu nem devesse confessar-me assim tão ingenuamente. Quiçá. Não (me) importa. Eu ando aos papéis. Toda a vida and(ar)ei. Daí (e daqui vai outra ingenuidade confessional) o meu cagaço de algum badagaio que um destes dias se me dê na rua, um daqueles fulminantes que fazem a boca ficar ao lado de mais lado nenhum, sabes, um ai-mãezinha do tipo desta-p’ra-muito-melhor-que-pior-também-há-de-ser-fácil. Mas olha: não cuides tu que é por eu ter medo da morte. Não é. Não tenho. Se muito não erro, há-de ser tão irrisória a morte que me leve quão a vida que tenho levado. Não hei-de ser desses grandes mortos de funerais de três dias. Não é por aí. É por aqui: o meu cagaço do badagaio é que pela rua se me espalhem os papéis enquanto se me estica o perfil, perdão, o pernil. Os papéis? Estes a partir dos que aranho & emaranho as babas & os fios da teia de (escre)viver. Exemplos? Muitos. Posso (e vou) referir-te alguns – embora a vergonha me torne escarlate a bochecha do lado são que o chilique ainda não tolheu. São gatafunhos de inquilino de dispensário psicodoido, daqueles de camisa-de-onze-forças-de-varas, de perpétuo desatarraxado ao nível do parafuso neuro-sináptico. Pois serão. Mas sei que os queres ler. Lê, pois:
2 27/3/2011, Taça INATEL, Campo da Esc. Sup. Agrária Santarém / Jogo Juventude de S. Domingos-Raposense (2-1 no final) / S. Domingos é Abrantes, pop. aprox. 1006 hab., freg.ª Carvalhal / Na bancada: sr. Alfredo Duarte, velho, adepto da Juve, foi vendedor peixe congelado, quando jogador levou pontapé num dedo na Azambuja / Ao pé dele, sr. João Canaverde (cunhado?) / No tempo moço deles, prémio-jogo era duas bolachas-maria + copo vinho / Alfredo cozinhou há dias cabeça corvina c/ grêlos / Equipamento da Juve SD: camisola branca, calção encarnado, meia branca / Do Raposense: todo cor-de-laranja (nota poetizante: dizer que é, conforme o topónimo, “de imitação ígnea da raposa natural”) / São Domingos-Abrantes – distâncias aproximadas: Lisboa-160 km, Porto-270 km / Mais pessoal ao jogo: Pedro Sousa (explora rulote de comes-e-bebes como profissão) / Alexandre Branco (come bifana e bebe cerveja e mastigando diz que “crise há sempre crise, mas quando há 49 mil na Luz a ver um jogo então mas q’ais crise?”) Fátima Amaral (vendedora de rifas, prémios: 1 bicicleta, 1 telemóvel, 1 viagem aonde é que ainda não sabe dizer mas há-de ser a sítio lindo) / Artur Francisco, adepto Raposense, “acredito q’ainda empatamos” / Artesão Herculano Abreu, foi barbeiro, hoje em dia faz fisgas “para atirar engodo na pesca, não é para atirar aos árbitros”, um euro cada fisga. Referir fonte: programa TV “Liga dos Últimos”, report. Ricardo Garrido + Filipe Gomes (imagem).
3 Mais talvez-crónicas: a) Aquela senhoria doida que tive em 1999/00, a dos gatos remelosos que me batia à porta à meia-noite para esconjuro das almas-depenadas & e depois me levava mais 500 paus dos antigos pela botija de gás; b) inventar paleio para dicionário de vidro que, caído ao chão, se estilhaça em o’neill, perdão, mil palavidrinhas; c) inventar guarda-chuva para resguardo da água-dos-olhos que cai sempre quando nos morre alguém (aproveitar sobras estilísticas para crónica do funeral do Avô Carlos); d) gozar c’o Ricardo-pós-Moita da Câmara a pretexto seja do que for; e) citar o Antero naquilo da imitação implicar abdicação: “Um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida”; f) irritar-me mesmo a sério e ladrar mesmo a sério contra a mania inglesóide de coisas portuguesas para portugueses (como os corredores da noite em Santarém se chamarem coiso Night Runners); g) fingir que pedi a um amigo rico que pagasse uma capa-falsa a O Ribatejo mas ao Mirante e ao Correio não; h) em Abril que vem, centenário do nascimento do senhor meu Pai; i) no Maio seguinte, arranjar maneira não egocêntrica de assinalar dez anos de Rosário Breve; j) arranjar maneira airosa de manter viva a memória dos cronistas José Niza, Luís Eugénio Ferreira e Eurico Heitor Consciência mas sem cair no ridículo de imitar de um a acutilância, de outro a candura e de outro a graça; k) aplicar palavras ainda mais difíceis do que às vezes o abrantino & plumitivo tribuno Dr. João Salvador Fernandes; l) referir este par de mamas que ainda agora passou como “bolbosa sugestão dupla do leite de figo cristalizado em morango de bolo-rei” mas de maneira a que a minha mulher não perceba; m) velório do Avô Carlos: a álea de pereiras-de-inverno, as mulheres fazendo café e canja na cozinha da casa senhorial, eu com menos de oito anos a pensar nesta crónica sem saber que também como ele, também a um 3 de Março, a senhora minha Mãe andando por aí, ai-mãezinha, aos papéis.
Ou então, senhor Herculano Abreu, fisgas-canhoto.