Mostrar mensagens com a etiqueta Diários. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Diários. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, janeiro 04, 2010

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - VI



© Brad Holland

VI


Matos da Vila, Café Convívio, tarde de 7 de Novembro de 2009



O vento instaura o mar nas ramas mais altas do pinhal. É o mar em terra em pleno ar. O caçador conta como ficou de arma, cães e presas apreendidas por um cabozito da GNR.

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - V



© William Klein - Horn & Hardart - Lexington Avenue (1954-55)






V



Pombal, Café O Rio, tarde de 5 de Novembro de 2009


O vento do país dele é o país verdadeiro dele. Esta tarde, a tarde é alargada em mão pelo vento, que da tarde faz uma espécie de folha de plátano – um acontecimento vegetal. Tudo é muito bonito – até viver. Uma senhorinha de peitilho de andorinha agita no ar a saqueta de açúcar, percussão especiosa de grão de areia doce. Um rapaz de olhos de lúcio cozido pasma ante nada. Na parede, um quadro bucoliza um trecho de rio, uma ramada de choupos, uma camponesinha a trote de mula.


domingo, janeiro 03, 2010

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - IV


© William Eggleston – Red Ceiling – Greenwood, Mississippi (1973)



IV



Louriçal, Café Sol Dourado, tarde de 2 de Novembro de 2009


Ele cresce diagonalmente, sobretudo depois de falar com octogenários sobre o cair-das-folhas, sobre o ser dia-de-todos-os-santos.


FINALMENTE UMA FORMA

, diz-se ele a si mesmo próprio em especial, consultando nada especial. Passam pessoas graves como pássaros, ao ar da terra também grave. A rapariga de camisola tão roxa quão o Senhor-dos-Passos. Aquele divorciado a quem proferem esta expressão:


OLHA, VAI ALI O HOMEM DA TUA MULHER!

O rapaz de brinco luzindo madrepérola ao lóbulo esquerdo. A passagem do tempo também no corpo dos porcos. O lóbulo esquerdo do rapaz substanciando isto da globalização, da mudança de paradigma, de isto disto ser tudo moderno, de quase ninguém assegurar já a correcta locução em língua portuguesa. O professor de música que passa enroupado de flanela em padrão escocês. A senhora freira procurando uma chave neste café mesmo, pedindo por Pedro.

sábado, janeiro 02, 2010

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - III


© André Kertész – Rue des Ursins (1931)

III

Figueira da Foz, Taberna O Gato Preto, tarde de 27 de Outubro de 2009






A pessoa faz-se por vezes ao mar de uma maneira terrível. A pessoa fazer-se – é que é terrível: e o mar torna-se uma circunstância. O duro bico da pomba comendo (bicando duramente) o pão do chão – a natureza, por assim dizer, de comer a pedra. As pessoas podem todas ficar pobres de repente enquanto um homem está sentado num café de província. Algumas pessoas escurecem no Inverno como as recordações. Não é sempre o caso dele, mas algumas vezes assim é. Um rápido desfraldar de albatrozes sobre paisagem marítima – pode acontecer, enquanto tudo, de resto, acontece.



UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - II


© Edward Hopper – Nighthawks (1942)



II

Pombal, Gelataria 2000, 26 de Outubro de 2009







O gás da melancolia pega-se ao corpo, envolve-o do cheiro da madeira velha molhada. Isto acontece enquanto tudo o resto acontece. As crianças são rosas totalmente biológicas – e o gás da melancolia pega-se ao corpo, envolve-o do cheiro da madeira velha quando molhada. A beleza acontece ser sempre extrema; a vida, um pouco menos. As pessoas parecidas com periquitos sentimentais e sem grandes leituras. O abastecimento de víveres, vitualhas. O pequeno comércio da vida pequenina. Ali a farmácia agrícola, ali o Gabriel das Lâmpadas, ali o senhor polícia tão idêntico a um pombo municipal. Esquecia-se ele de dizer:


O destino estelar das mãos.



O destino de estrela de cada mão – diria ele, num café de província, uma manhã de segunda-feira. Ele conhece casais felizes, um dos quais infeliz, casados para toda a vida contra o resto do mundo. Quando chove, quando uma pessoa está sentada em um café de província. Também: quando o que cresce em uma pessoa é um cancro ou uma ideia – ou uma palavra como


MIOSÓTIS



, que é completamente música portuguesa. Ele está sentado em um café de província, uma manhã muito nublada e completamente de segunda-feira. Ele sabe que a vida equivale a Portugal, o que o torna por vezes capcioso, dogmático, infalível e melancólico e madeira velha. As coisas sempre a acontecer todas, um pombo beijando o pão do chão com o duro bico, um senhor decerto Anacleto de camisa comprada aos chineses, a mãe-de-família de blusa castanha e saco dourado do ouro da recordação.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - I


© Walker Evans – City Lunch Counter, 1929







I


Souto, Café A Petisqueira, noite de sábado, 17 de Outubro de 2009






Um sábado à noite, um café de província, o televisor sintonizado numa incursão à Beira Baixa, ares de Monsanto. À tarde, tinha ouvido música finlandesa pela Rádio Nacional. A música passou, levou-a o vento, casa invisível do dia. Nas estantes de vidro, pacotes de bolacha-baunilha, latas miniaturais de sardinha em tomate com molho picante, garrafa de anis, garrafa de ponche, tabaco variado, rifa do presunto pelo número suplementar do totoloto, whisky de Sacavém, sacas de giletes e cartões de pilhas. Uma formosura melancólica, a destes bens expostos ao vidro, ao sábado, à província que se deixou anoitecer sem luta nem agravo. O televisor muda para barcos muito grandes no mar muito maior. As gaivotas gravadas gritam riscos de giz ao ar de moscas do café. A atenção aos barcos no mar traz-lhe uma ânsia fácil, um querer-ir que fica. Os barcos dão lugar a incêndios, fogo-posto em viaturas de polícia, restaurantes, contentores do lixo em jardins da Capital. A patroa do café lava copos, o patrão resolve o descubra-as-diferenças do dia. É o único freguês – do café como do mundo. Vai lá fora fumar um cigarro, conta os poucos carros que regressam à cidade. Reportagem sobre a pobreza nacional. Testemunhos, bairros-de-lata, velhos e crianças em silêncio folha-de-flandres e cartão de frigorífico. Um poster do Benfica de antigamente escurece no canto mais vazio do estabelecimento, Barcelos e Santa Maria da Feira sucedem-se no ecrã, depois Esposende e Moura. Nada finlandês no horizonte. Rostos feios, comezinhos, talhados em pedra-sabão, prestam depoimentos à repórter numa gramática estropiada e irreversível. Recolha de alimentos por caridade, depois o assassínio em Ermelo, Mondim de Basto, do marido da presidente da Junta, uma senhora chamada Glória cuja viuvez comove mais ou menos a Pátria Autárquica. Depois, crimes ambientais lusitanos, cuja sordidez revela e releva em esplendor o pato-bravismo do íncola luso. Um securitas entra no café para bica-e-bagaço. Rapaz de trinta e poucos, casado com uma rapariga que patita entre galhos provisórios: limpezas em creches, em fábricas, em escritórios. Ele, vá que não vá, securitas há já três anos. Outubro, gente na praia aproveita o outono estival que vai fazendo. Depois, um homem com calças de caçador chega para um cone de martini-cerveja. É portador de um bigode cerrado tingido de carvão e espuma. Filmagens submarinas nas Maldivas – outra vez o mar, a ânsia outra vez nele, que fica em terra. Sai de novo ao pátio a fumar, um carro pára, o casal pergunta-lhe pelo Centro de Exposições, que ele indica com delicadeza e segurança, assim tudo lhe viesse e fosse. O boião de chupa-chupas teima colorindo a extrema da pedra de imitação de mármore do balcão. Meias-garrafas de vinho de cooperativa, embalagens de leite achocolatado. Brindes a meia-coroa. Uma criança de olhos velhos fulmina o televisor por dentro. A patroa senta-se à mesa mais próxima da porta, boceja a revista suplementar do jornal. O patrão conversa com o bigode caçador. Riem-se de trocadilhos pueris: dinheiro, velhice, bola, cornos, empregos: tudo os faz filosofar alvarmente. De gajas já não falam, passou-lhes a veneta. Dá-lhe uma pontada de vontade de sopa de agrião, não sabe porquê. No regresso ao quarto da pensão, remediar-se-á com pão, queijo, salsichas de lata em cru e uma maçã. E vinho branco do de temperar carne.



domingo, outubro 18, 2009

A NOITE EM BREVE ou CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS (uma portugalidade delével) - 22

22

Caramulo, noite de 7 de Setembro de 2007

Não só em Lisboa, também em Leiria.

Mudam-se os cinemas em salões de Cristo Brasileiro pago à dízima.

Recordo 1991, uma das noites desse passado numerado e inumerável.

Fui a pé do Louriçal à Guia.

Entrei no Figueiredo, comi pão com carne frita, bebi vinho e pus-me a fazer como os recém-nascidos e os câmar’ardentes: a esperar.

Apareceram-me o Marrazes e o Álvaro, dois rapazes que a noite liberava como a zéfiros e respectivas folhas caídas.

Bebemos umas coisitas e fomos para Leiria.

Passado um bocado, eu estava em Peniche, mas antes fui ao cinema com o Marrazes, em Leiria.

Era um filme com o Kris Kristofferson, tinha a ver com aviões caídos e ficção científica e tal.

Depois, fui para Peniche.

Antes de ir para Peniche, a mãe dele ofereceu-nos um arroz de safio condimentado pela fervura dos anos: ela já cozinhava há muito, nós vivíamos (ou seja: bebíamos) de mais.

Aquilo passou.

Em 1991, eu tinha tudo. Podia sair à noite, como hoje posso. Podia ir a pé, como hoje vou. Podia perder-me, como hoje não deixo de fazer. Podia ler tudo – só que hoje escrevo.

Escrevo esse Verão de 1991. Fui até Peniche. O vento tomou-me logo de raiz até os dentes. Tinha uma cassete da Amália. Ajudei um homem estranho a mudar móveis, ele era ou estava para ser pai de um menino também chamado Daniel. As coisas escreviam-se-me sozinhas com uma tinta transparente na mão de ninguém. E a minha entrega era absoluta – porque ali era o berço do mar maior – com o aliás mínimo problema de não saber nem ter eu a quê nem a quem.

Perante a Nau dos Corvos, esfumada a Berlenga Grande a torrão de sal azulado, participei dessa religião de toda a pessoa olhando o mar: mas que carago. Devo ter-me lembrado de Ruy Belo comendo ali um frango pago por João Miguel Fernandes Jorge. De certeza que me lembrei de, na cercania da Senhora dos Remédios, de um autocarro de dois andares que, desactivado de quilometragem, albergava um vendedor de bifanas e de spébócks nas madrugadas do Inverno de 1986-87.

A rapidez da beleza impressiona-me muito, ainda: nascemos bebés bonitos e encarnados, morremos velhos vulgares e brancos. Já não aquilo, ainda não isto, meioidado pela absoluta entrega, ainda e também quê?, a isto. A quem? A vós – e a Ruy Belo papando o frango a JMFJ no restaurante ante a Nau dos Corvos, num dia de decerto vento.





Bookmark and Share

sábado, outubro 17, 2009

A NOITE EM BREVE ou CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS (uma portugalidade delével) - 21

21

Caramulo, entardenoitecer de 7 de Setembro de 2007

Um dia vai-se embora mais, da nossa vida, fazendo-nos remar para o futuro. Continuamos a haurir a áurea luz, antes da noite em breve. Esperamos da Lua um poema de lobos.

Trabalhei de manhã na pastelaria, depois de ir ao barbeiro a que me cortasse o cabelo. Almoçámos sopa e uma lata de mexilhões com pão fresco. Bebemos gasosa. A senhora tinha ido a Viseu, eu nunca saio daqui. À tarde, trabalhei em casa, recebi um telefonema de Pombal, era o Adelino Leitão, fartámo-nos de rir e de dizer mal do (des)Governo da Nação. Então, a tarde inclinou-se sozinha como um lenço de prestidigitador. Saí de casa, percorri como um peixe os cantos aquários da vila-montanha, assentei praça neste caderno e aqui estou ainda, os pássaros pretos nos ombros, saudades do farol que diz aos barcos para não chegarem nuncanuncanuncamais.

Macia e lenta é a macilenta melancolia de quarentão apostólico de sua roma privada, já sem reis nem magos, numa república de coliseus, pão e circo.

Uma mulher morena, de olhos orientamendoados, traz a roupa castanha para o âmbito da visão redactora. É bonita, baixinha, de correcto miudinho andar de gueixa que se não queixa. Bebe chá com nipónica parcimónia, sorri para dentro como os místicos atormentados pelo excesso da Beleza. Não a conhecemos daqui. Pode ser só uma visão (uma epifania) – e, nestes tempos, uma visão pode ser tudo o que é preciso. Um ser feminino, completo, moreno: uma tomadora de chá, um fantasma talvez, que sorri para dentro. Dela tomo nota em ademanes de assexuada hipercorrecção, posto que dela a carnação aura-se nimbada de uma gaze que não é para tocar. Vai-se embora, dissipa-se través a porta, eis que já não é nem há.

Reencontrei e estantei o meu exemplar sem capas de Varanda de Pilatos, de Mestre Vitorino Nemésio. Adquiri-o numa casa semiabandonada das cercanias de Coimbra na tarde do dia 23 de Agosto de 1986, três meses exactos sobre a morte do meu Irmão Jorge. Maravilha: o exemplar foi autografado pelo Autor em 1927. É meu, só meu, só das minhas meninas, um dia. Estou a esvaziar sacos e caixas em casa há quase uma semana. Sou muito feliz. O Hemingway continua a ir a touradas e a matar-se com um tiro de caçadeira. A dispepsia do Antero não o impede de voltar a ser jovem e a moer a cabeça ao vascograçamoura do tempo dele, a besta do Pinheiro Chagas tão elogiado-dá-cá-o-beijo-no-anel pelo cegueta do Castilho. O Juan Ramón Jiménez continua a adorar a humanidade do burro Platero, em insuperáveis prosas capitulares iluminadas a vermelho pelo desenho do grande Bernardo Marques. Tenho livros do Roussado Pinto enquanto ele e enquanto o outro-nele, o Ross Pynn. Idem para o Dinis Machado/Dennis McShade. Tenho o Fuentes de O Velho Gringo, que comprei em Peniche há vinte anos. Gosto desta vidinha de estantes de prédio urbano. Lá em cima, na mansarda da crítica, está o adiposo Gaspar Simões em plena glória: O Mistério da Poesia, exemplar de 1931 para minha glória de filatelista sem selos. Cá em baixo, desconfiam-se duas mulheres do outro mundo: a senhora Woolf e a senhora Yourcenar. Tenho uma data de cowboys: Caldwell, Sinclair (o Lewis), Updike (o Sinclair), Schulberg, Mailer, Capote, Anderson (maravilhoso Sherwood), Faulkner, Fitzgerald, Dos Passos, Heller (o do Catch 22, que deu filme com Art Garfunkel, em muito novo, e Orson Welles, em já não tanto), Hammett, Chandler, Hillerman. Tenho o negro Walter Mosley. Estão lá Pai e Filho Veríssimos: Erico e Luiz Fernando. Edilberto Coutinho, João Ubaldo Ribeiro, José Mauro de Vasconcelos e Fernando Sabino – Brasil profundo. O muito meu Ferreira de Castro dá-se bem com o meu muito Alves Redol. Tenho Torga e Eugénio de Andrade, claro, mas não simpatizo com as poses: que a terra lhes seja leve, enfim. Vingo-me com Bernardo Santareno, Luís Filipe Costa, António Gedeão, Daniel Filipe, Gastão Cruz, António Osório, João Miguel Fernandes Jorge. E dou por mim tirando os olhos da biblioteca e a olhar para toda a Espanha e alguma França: Javier Tomeo e Albertine Sarrazin. Que a vida é breve – quem o nega? Que a escadaria dela pode ser alta – quem o recusa? A minha escadaria é destes degraus feita. Degrau a degrau enche o galeitor o papo, enfim.

Noite feita. Alumbra-se nos lares o fogo das ceias. Gatos vadios a casa domesticam regressos, cheios de fome e de aventura saciada. Os louva-a-deus tiram o chapéu e as botas, patinham pelos soalhos na articulada ergonomia mutante que nunca muda. Deitam-se as árvores, sobe ao lugar delas a sombra delas. O céu presépia-se em inversa bacia côncava: papipipiluzem estrelinhas poderosas de manto de mágico: azul e prata e ouro e frio: tudo siderado, tudo sideral. Vou morrer esta noite, depois de comer e antes de me levantar à manhã, pela alba, amanhã.





Bookmark and Share

sexta-feira, outubro 16, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 13

13

Pombal, tarde de 14 de Outubro de 2009

Uma vez nós éramos amanhã – como ontem.

Rua de S. Lourenço, Rua dos Loureiros, Rua Mancha-Pé, Rua de Coimbra: amanhã como ontem, gerações, terminações ontem como amanhã.

Conversei com descriados homens sobre isto de as estações não começarem já, como dantes, à hora marcada.

Vai quente o Outubro meão, postiço Verão que de maior sal marinho é feito que de outonal açúcar da mascavada castanha.

Sopra-se quanto se respira – e em bafor(n)ada sai a combustão de carbonos, litígio venoso-arterial de pulmonares.

Pingo sal poroso.

Uma série de mulheres não velhas pilotando utilitários comerciais pelas vielas empedradas.

Locução de um Mendaev a propósito da Raposa do Árctico.

História económica do lápis amarelo com borracha no extremo oposto ao do bico: tinta, madeira, mina, metal, borracha: História da Humanidade (mas não na Risco do Rui A. C., por vulgaridade).

Somos todos, cada um e por si, a Construção Civil Ambulatória: como todos somos a História da Humanidade, micenicamente até-mais-ver.

Lapso-relapso individual desde que contumaz.

(Fogueiras do S. João.)

Criancinhas de bibe azul em relvado verde: rositas.

Cassetes com vivos-mortos gravados em fita de leitor rente a laranjeira.

(Hei-de escrever cassetes: projecto lúcido.)

(Integrar o teor de tais fitas em estas

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS.)

Brasileiras de tez de cagalhoto encardindo as/pelas ruas solares de Pombal: superiores a nós todas, coitadas.

Respiração amanhã, hoje tabaco, ontem Maio64-Junho65.

Pedi à Senhora que me digitalizasse a fotografia da Quinta da Machadinha, onde comecei a ser amanhã entre Maio de 1964 e Junho de 1965.

Ela disse que sim, como de costume.

Derivei: S. Lourenço, Loureiros, Mancha-Pé e a de Coimbra.

Cortando a perna direita ao R de

REI DOS FRANGOS,

ficaria

PEIDOS FRANGOS,

o que é sempre bonito.

Chuva castanha invencível: olhar um rio.

Outro homem em mim.

Laranjeira e leitor de cassetes.

Dizer tudo isto de outra maneira em o mesmo

(assim:)

Flor pequena e demorada da minha vida,

distinta assumpção morosa do viver:

vê se convidas p’ra chá a Margarida,

que, moça sendo, muito tem ‘ind’ a saber.

Fala-lhe, flor, de naperons.

Indica-lhe moços bancários casadoiros.

Diz que é séc’lo-XX, pinta-lhe tons

d’oiro-d’igreja, sempre são oiros.

Diz-lhe das lentas coisas de entarde-ser.

Lagos-76, já muitos Retornados

infectando pensões e areais doirados.

Diz-lhe, flor, de envelhe-ser, Margarida.

Isto não tem que disfarçar, é a vida:

anos do porvir – quantos já passados?

E no soneto moro e demoro minutos solares, adamascado hálito de consumptor de engaços.

A cada um, seu monte-olivete.

Prados e prados de duro gelo.

Experimentemos, pois, em nonas:

Prados e prados de duros gelos.

Degelo é viver em duros prados.

Cansados de ser, de sermos belos,

belos e frios de congelados.

Mas o Sol, essa Rosa Termonuclear.

O Sol de Outubro vingando a Tarde.

A Neurologia da Graça, do Riso, da Paciência, da Promoção do Hipermercado.

Entretanto, amanhã como homem-ontem, uma mulher assenta praça de nádegas sobre banco alto de balcão. Pede um bianco com unha de limão. Arrefega o assentamento em gretad’adiposa. Mariposa da tarde. Acento alto-beirão nas sibilantes, tramontano nas africadas. Blusa aurinegra de cavas, de que pesponta o pêlo mal rapado, axilar. Sandália demasiado branca, aliás sangrada a escarlate por duplo pentagrama de verniz: dura onicofilia, aguilar. Na cabeça, rabo: de cavalo alto. Botões de cobre chinês, saca aos pés de comer de gato. Generosa do falar. Decorosa até, quase. Ave de anoite-ser por notas de banco. Apanhada em bianco pela tarde. A tarde de amanhã. A tarde de ontem. Consequência da luxúria de alguém-vezes-dois. Senhora de suas plantas, até genéticas. Sem cartão de biblioteca. Com carta de condução. Em juvenil, o cisne habitou talvez seu perfil-de-peito. Bom momento descritor. (Vivo para isto.) Se fosse uma da manhã, em algum covil comercial de alterne, esta fêmea medusar-se-ia. Desejar ter faria, sirénica, rolhos de cera em os pavilhões auditivos. Agora, não. Agora, é só uma mulher solitária bebendo sozinha. Mariposa vespertina. Bianco. Um canino ligeiramente azul-de-podre crayonando o lado esquerdo do sorriso. Cu largo como uma praça de província, os plátanos sombreando refegos e elásticos-de-calcinhas. Mas – e as memórias eventuais (conventuais) desta mulher? Mas – quem sou homem para capitalizar, em tão magro verbo-literatura, uma presença assim larga, assim nalgal, assim aurinegra?

Cotovia, cotovia,

dá-me um trino de limão.

Se tu vires

a minha vida,

não me queiras,

queiras não

, inventei agora, ao jeito das folcobaladas (compasso ternário, naturalmente) de rancho-de-coimbra-fins-XIX-alvores-de-XX.

Depois (agora: Outubro de 2009) penso em Maio1964-Junho1965. Que quer isto dizer? Nascer da intersecção homem-mulher? Que quer isto ser? Leite de homem, clara-de-mulher-ovo: que? Sou o sétimo-de-sete. Safo-me a bruxo por ser, meu Pai, quinto de nove. Quem quer ser isto? Até, como lobisomem, falhado. Bem. Quem leia, veja: a foto da Quinta da Machadinha.

Casal arriba a casa-de-pasto, talvez ambos roçando a trintena, ele de bola craniana já sem milagres, as suíças por paradoxo hirsutas, a pele da cabeça não, ela de amarelo-cabeleireiro gratinado tipo empadão, a mama murcha, a blusa roxa, a sandália envernizada a preto-mosca. (Estais vendo o casal, decerto.) Ele é de olho azul(m)aguado, camisola-t-shirt-pólo-do-lidl, ela de brincos-de-ananás-que-perde-a-tinta, casaram-se por rendição de escolaridade mínima (EUROPA! EUROPA! EUROPA! EUROPA!), vão ter filhos, o que é sempre grave, além de bonito (COTOVIA! COTOVIA!(…)). Ai-se-ti-de-manga. Sopa em malga com filete azul. Sandes de paio. Pinguins económicos: ex-bibes azuis sobre verde-rosa.

Em visão ou sonho, sonhei ou vi.

Sou do breve país de ter nascido.

Conheço a minha condição:

igual à tua, que é de vida

à de vida ser, ó meu irmão.

Inventar este tipo de coisas enquanto o cancro ou o desastre de carro não. Ser um homem, mesmo que outro em mim, em esta, mesmo que outra, vida. O CARROSSEL MÁGICO não pode ser posto por nós, menin’omens, em tribunal: obedece a razões logísticas de aturar as consequências da luxúri’amor: os filhos que fo-so-mos amanhã, como ontem

(vê a fotografia,

MAIO DE 1964, JUNHO DE 1965, etc.,

entretanto e tantos,

(mas já agora espera por amanhã.)

Depois eu entro nisto, amanhã: talvez a minha vida tenha dado vidas, talvez não tenha apenas sido estéril como literatura.

Digo: algum lapso-relapso de uma frase em Paris, país a que nunca fui, talvez Albergaria dos Doze, talvez Moçambique, talvez, até, Newark, i-u-ésse-ei.

A minha gente é amanhã, Cecília.

You’re shaking my confidence daily.







Bookmark and Share

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 12

12

Pombal, manhã de 14 de Outubro de 2009

No recreio da creche, pinguins azuis verdejam roseamente pelo relvado. Deflagrou a manhã, não é hora de ouvir mortos em cassete. Agora sou este homem camisazulando través a ponte breve (a ponte-ponte e a ponte-vida través o rio-tempo), o olhar caído ao rio como chuva castanha. E no ent(ret)anto dá-se, ao ar, um sol sem fronteiras que culmina a oriente na serra ruída-roída pela pedreira e a ocidente nos prédios da Charneca.

quinta-feira, outubro 15, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 11

Visão da Quinta da Machadinha, que das Lajes olha Coimbra além, em cujo primeiro andar vivi o meu primeiro ano de vida (Maio de 1964 a Junho de 1965). Memória soterrada no inconsciente.



11

Souto, Casa, madrugada de 14 de Outubro de 2009

Em visão ou sonho, sonhei ou vi que em outra vida fui outro homem, a ponto de nesta ser este.

O outro homem usava gravar vozes de outras vidas, que depois de idas ficavam retidas em fitas, que o outro homem fazia falar à noite, a partir do leitor aos pés da laranjeira do quintal – e as vozes dos mortos viviam para a janela a que em outro homem eu escutava.

Um pedreiro vi que se me aproximava de casa, vinha ele a fazer o muro do quintal – e assim fez e fiz, ele. O pedreiro terminei o trabalho, deixou-lhe o muro pronto, que me sobreviveu, o ofício é o que fica do oficiante – e este homem, de mim.

terça-feira, outubro 13, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 7

7

Pombal, tarde de 29 de Setembro de 2009

A felicidade também me assusta muito, não apenas os cavalos negros e os barcos brancos.

A roda da saúde pica cartões individuais em enfermarias colectivas de propósito para o arrebanhamento das solidões.

Mas é que uma árvore espanejando pássaros e oxigénios pode ser assustadora.

Tenho amigos que negoceiam pessoalmente com o crepúsculo os novelos de andorinhas e os bidões de azeite.

Conheço pessoas que trabalham muito a vida mesma, atiram pontes, trazem sacas de grão, trocam miudezas.

Largueza estrita e estreita do Tempo: via canora, caligráfica, Dele – no meu corpo civil desarmado até os dentes.

Na cidade, a praceta igual a tantas, os prédios iguais a tantas rurais vidas de praceta urbana.

Olho a praceta do meu olhar todo tinta, papel todo.

Uma árvore escarlat’escura, magra, trepa de pedra até primeiro-andar (perspectiva).

Um Dedra a combustível GPL azul-indiga o estacionamento.

Um prédio verde-ranho persiana fechamentos existenciais.

(Ontem vi um cavalo em quase-prosa, vi, escrevi.)

(Não sei por que escrevo todas as vezes que.)

(Escrevo talvez por felicidade, o que é assustador.)

Tenho esfarrapadamente dormido. Os sonhos fragmentam-me. Pássaros de um azul-Dedra soltos a predadores. Inquieta-me uma mulher que vi há muitos anos na Figueira da Foz. Sou acossado (e coçado – e caçado) por cães flamejantes como bicos-de-gás. Sonhei com o Henrique Costa, que nos morreu este Setembro. Entrei no Colmeia e fiz despesa como os outros homens, os adormecidos sonhando-me em paralelo. A prova do sonho era ser Viseu outra vez a minha vida. As mãos do meu Pai crescendo as minhas unhas. Extraordinário florissortilégio de viver-pensando: deixar escrito canora, caligraficamente.

Tempo ido de idas costureiras, amanuense tempo de natais a dever na mercearia, o cromo-da-sorte carimbado no verso (o 114 era do Boavista, estava alfinetado no fundo da caixa para a bola-de-couro-de-papelão). Meu-tempo-mau-tempo de magia e de não arrependida pobreza. Isto que (me) deixo escrito. Sal, moura. Íris, Íbis. Força especiosa da frase tilin-cristal-ti-musical-tin. Deflagração em ouro nervoso da granada sexual. Dar de comer às moscas (agora, calma). Falas azeitelíneas do girassol-em-idioma. Fustigação e vestíbulo. O amor ser fósforo, a vida ser lixa(da). Van Basten, Van Nistelrooy, Van der Elst, Vanguarda, Vã Glória. Florescência lírica. Correia Garção na Fonte Santa. Voltaire e o Terra-17-Moto-55-de-Lisboa. Tocqueville, oui, hélas! A essencial francesice da Independência da Nort’América. Estandarte da arte de estar. Formigar de negócios afinal (tendo em conta a saúde individual) mínimos: Wall Street, canecas de louça com cromo benfica-sporting-porto-académica no bazar do Paulo Figueiredo, greve dos pilotos da TAP, em Almalaguês, Coimbra, três mortos por gaseamento em lagar vinícola, furiosa alegria assustadora, feliz. Massa verbal arborizando papel, vida, tinta, teimosia não cega.

(Lictor vespúcio garrido.

Victor Lúcio Margarido.)

(Canta.

Cantai!)

Vida-verbo. Verbo-vida-devida-à-vida-ávida. Tempo de

o planeta ranger a cada nascimento,

como diz o poeta Paulo Frederico Simão, do Bairro de Queens, NYC – e que recordarei a Rui, pai de Leonor, filha de Cecília (4 de Outubro de 2009).

Ir ao mar, a sua orla afinal feliz como os nomes-de-mármore. Aceitar a fumiformigação do comércio, as ondas de açúcar batendo solares nas pestanas, nas têmporas.

O milagre de qualquer foz.

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 8

8

Pombal, tarde de 8 de Outubro de 2009



Cidade mínima de aos pés de pequena serra.
Brandura eólica, refrigerante.
Tempo de mulheres vivas fumiformigando crianças vivas, apáticas.
O mercado alimenta a cidadezinha, o mercadinho mínimo.
Isto da subsistência, isto da subexistência.
Isto de as religiões cobrirem de ideologia os regimes.
A cebola, seu pranto de crocodilo refogado.
O alvar, o lustral, a paneleirice dos bolos-de-anos.
As adegas em sossego de moscas enxofradas, camoesas.
A vida crónica.

Um tempo (um templo) simples e respiratório à sombra de pessegueiros em chovendo: não mais nem nada peço, posso, nem passo.

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 10

10

Ida Souto-Louriçal, tarde de 11 de Outubro de 2009

POSTAL TRANSITIVO

Ao amarelo-torrado dos confins finais da tarde, botámo-nos a viajar um pouco pelo que restava de domingo. Sulcámos o mar aberto, o vertical mar dos pinhais. Altos pentagramas da alta-tensão zuniam música em imitação de ventos. Melancolia e felicidade equivaleram-se-nos, crepusculares ambas, ambos. Milharais convocavam juntos o ouro e a esmeralda. Vacas lentas como navios pontuavam pastos.

domingo, outubro 11, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 9

9

Pombal, tarde de 9 de Outubro de 2009



Serei um dia cinza do teu nome,
ninguém em ti quando alguém antes de ti.
Passos dou a esta cidade mínima (= a minha vida)
dada aos cães, às pombas, às terças-feiras.

Para lá das cinzas que somos desde nascidos, vê,
o nosso nome é mármore de pequenos acontecimentos.
Vivemos sem no saber de mínimos momentos,
que desde nascidos cinzas somos para cá, vê.

Pequena Mãe minha mínima a esta hora em sala
sua sentada caladamente antiga, velha, digo,
minha Senhora original, mãe-de-água, cala,
nosso, meu, matricial amor, meu mais amigo.

Sentadamente, uma quinta-feira, sou o homem
que é preciso não conter em sentada casa.
Que o tomem por homem, calado, não já jovem,
sujeito embora e 'inda a golpe d'asa.

Maravilha: est' arquitectura, esta feira-quinta,
este vivo estar em puro agravo.
Dou-te em mi bemol aguda requinta,
rosa minha - e eu, teu impuro cravo.

quarta-feira, outubro 07, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 6


6

Pombal, manhã de 28 de Setembro de 2009

UMA MANHÃ E OUTRA TARDE, EM TRÓIA

Numa manhã de província em uma manhã de província
toca-me a beleza do rosto com a graça molhada de suas asas,
seus pássaros verdes como esmeraldas atiradas ao erário do ar.
Brilham do chão as pastelarias, sobem os sinais de trânsito,
respiram as massas arbóreas, a máquina amarela da obra
é de uma autoridade de pus.

Olha a bela carroça de lenha!
Olha o poderoso cavalo humano!
Olha o cor-de-rosa daquela casa!
Olha a fogueira do Sol-que-respira!

Gosto muito de pensar que passa esta senhora que passa-pensando
em sua filha quase enfermeira diplomada, como passa o tempo,
quase enfermeira, a menina, quase diplomada!
Como passa, como quase!

Oh rumor de estorninhos pensados em céu de cal
través um bosque de tijolo-burro!
Oh vapor de comboios-barcos de michigan-mississipi nenhum!

Agora calma.
Agora, dar de comer às pombas.
Agora, servir os bons-dias às avós de cera que se derretem a caminho do mercado.
Agora, garantir a paz municipal do Universo Possível.

A estas horas, é noite noutro sítio.
A esta hora, um tubarão aboca um corpo mais lento.
Uma mosca pensa na vida em uma parede de retratos, a esta hora.
Drenam um tumor, a esta hora, ao mediador de seguros que casou cá
e por cá se deixou.

Uma menina vai à loja a buscar à mãe um frasco de feijão vermelho
(será diplomada um dia de enfermeira).

Minha vida de província de barcos sem mar, oh minha vida!

Pleno poder aos frutos que adoçam das árvores o ar.
Ríspida cálida fétida nítida pútrida palavração celebre tudo, célebre, célere,
apátrida embora.

Padres de colarinho-terileno são homens erectos eles também,
os-milagres-quando-nascem-são-como-o-Sol.
Empregadinhos retrosariam muito adamascados os
contadores de madeira com sólidos metros de pano.

E a beleza de isto tudo e disto tudo, a tristeza
aliás suave, aliás morredoura, de filme-
pátio-do-leão-tirano-da-canção-da-estrela-de-lisboa,
Pai!

Sucumba quem possa.
Eu não.

Olha o poderoso cavalo de lenha!

A estufa pós-prandial é obra solar.
Estio em plen'Outono.
Luz farta e forte.
Sismo e miasma, istmo e aquilo.
Força da palavra, de cada uma palavra: forte e farta.

Terra de tempo, esboroar de b(o)roa.
Ligação à terra do indivíduo palavroso, em linha com a
respiração-éter:
sombra, treva, névoa, campânula de catedral aos pés:
visão, visão, interior, visão.

Em Tróia
(qualquer lugar é e não é Tróia),
o poeta
Sebastião da Gama sente de barco,
o médico
António Martinho do Rosário fuma sem filtro,
bom sítio para levar ao Canadá
o velho
Lowry
e ao México
o jovem
Malcolm.

Em Tróia,
esta tarde,
fumegam cornetas de sétimo-de-cavalaria,
de autárquicas-little-big-horn,
de quem-nasceu-primeiro - a Indochina ou o Kosovo?

Quem me dera fosse de manhã nascer outra vez!
Que a religião católica fosse uma desobriga como o laxante,
a ida-às-putas e os poemas-do-torga!
Que a creolina das ferrovias não acendesse nas crianças a óli-úde
da emigração perpétua!
Que a secreta veneza de cada rapazinho não cheirasse nem oleasse nem vazasse -
mas antes fosse fluída e doce e para sempre até que desde sempre
fosse Verão!
(E há quanto tempo não usara sinal de exclamação!)

Do lado de fora da vida - que é o dos outros sempre, sempre
que um não é como nós - o Sol alardeia
arrogâncias aliás pobres de feirante. Isto tudo por conta
dele.
Quando, por-exemplo-sem-exemplo, vemos dois portugueses
falando português um com o outro sem
sermos eu nem tu.
Quando, exemplar, a minha Mãe é por exemplo
a Tua.
C'um carago!
- diz o português -
teimando em pagar ele.
Derredor, a massa arbórea.
Derredor'idem, café-chicória.
E a elementar pobreza dos ricos meninos de pátios-estádios,
estádios-de-graça
(por assim dizer).

Em Tróia,
as que leram a sina da Lua usam os anéis de Saturno.
A poesia,
ou por ela a vida,
é quando Emídio Navarro não é homem,
mas avenida.
A Emídio Navarro é uma avenida de Tróia,
de Helena Sá da Bandeira,
de Telémaco Dias da Silva,
de Aquiles Fernão de Magalhães,
de Homero 24 de Julho,
de José Afonso dos Aliados,
de Zé Ninguém Duque de Loulé.

Uma província alaga o coração de cada homem-pessoa,
de cada homem-mãe, de cada negociante dado por força
ao comércio de lenha de cavalo.
Uma vida corresponde a tanto engano quanto possível:
a ortografia, quando possível como o futuro ou o Universo,
pode dar uma ideia.

Como, Deus houvera, dissera Deus:

- Venham daí esses ossos!

Mas Deus,
que o Diabo não,
a Tróia é posterior.
Deus é ulterior sempre - ou sempre que nunca mais.

Helena, nome de enfermeira.

Que a Senhora D'Arbyville tratava tão bem os cavalos quão
os criados.
Que eternamente aqui andamos todos enquanto não nos
acaba.
Que os derradeiros livros à espera
de um lado
dos primeiros homens
do outro.
Que o pus das máquinas é amarelo na névoa do
trabalho e dos dias.

Sucumba quem eu.
Não possam.

Linha de Sintra, Byron para porcos.
Correnteza de aldravas, ferrões e aloquetes.
Cascotoques de cavalartelhos.
Comatoso palavrar do adormecido.

Linhas e linhas e linhas de horas e linhas por viver,
costurar,
entre gente.

A inconsciência do desespero é que faz as pessoas
falar alto,
nos cafés de Tróia.
Ou nos bares dos comboios,
entre tróias.

Tantos portugueses há na grécia-possível-do-universo-de-província!
Tanto tempo para o espelho não mentir,
em Tróia.

Agora, derivo em calma, caminho do mercado.
A nossa morte de todos nós na minha vida, voz.

Tempo de perfumadas areias refazendo dígitos,
meninos que foram a-ver-o-mar,
camartelos económicos que prensam cachorros familiares
em casotas de urbanização,
cúspide, áspide, céspede, hóspede.

Meu quase-nada atraso em ir ver as lavandeiras fluviais.
Nossa Rainha Tão Santa Clara a Velha.
Nossa Dispepsia-Cola.
Bombaim e Tavarede: multitudinário deserto à colecta.

Tempo-burro de tijolo-tróia:
um dia por pessoa,
não mais,
nunca menos.

(Os cafés são pequenos,
a conversa ouve-se quase toda,
as mulheres salt'alt'usam,
dedo-de-verniz a furar p'ra fora.)

(Ronda-Williams pelos pubs escoceses de há vint'anos,
não é preciso mais - atira,
Tróia,
atira, interior, atira!)

Entretanto, faz-se noite.
Agora, calma.
Cavalo dorme cavalo dorme Tróia dorme tempo
enorme dorme verme, exemplar.

Atira, cavalo.