sexta-feira, setembro 28, 2018

Outro soneto de sexta-feira, 28 de Setembro de 2018






Inscreve mansidão por ruas breves
O cavalheiro firme & calado.
Sustenta demoradamente aves
E, do que sobra, obra ele dá ao dia.

Domingos há queimado sem remédio,

Conhece o carnaval mais solitário.
Em sono, reconquista as origens
E da morte se serve imitação.

Mansarda com vasos de sardinheiras,

Latadas de cachos gordos suspensos,
Cães serenos guardando a própria sombra:

O cavalheiro é grato à conquista

De horas sem mensagem nem destino
– E assim tem sido sempre de menino.

Soneto de sexta-feira, 28 de Setembro de 2018






Tantos anos volvidos – plena bruma
Adoça amarga a interioridade
Do ser que vai estando na passagem
À bolina de dias repensados.

Já inclinada mais está a ladeira
Que outrora subiu arborizada.
Panos de relva mui estendem sombra
De que aves invisíveis tomam posse.

Silêncios mores estend’ em lençol o céu
Que a névoa sequestrou por estas horas.
Laurindo chega à obra, pousa o saco,

Confere em torno d’ontem os despojos.
Em vinte anos, tudo resolvido:
Nem sonetos, nem doce amargura.


quarta-feira, setembro 19, 2018

Um soneto de segunda-feira, 26 de Julho de 2010






Nem tudo o que vem do coração está certo,
nem tudo errado é quão coração parece.
Ele há coisas que a razão reconhece,
mais longe são umas & outras mais perto.

A gente assim faz: vive. Passam as viaturas,
derredor há sol que esbraseia peles.
Queima-as à boa gente & a outra mais reles,
mas todas de Deus são as criaturas.

O mais que não digo, vem só da verdade,
que ela é ser a mesma vontade
de menos ser que viver, está certo, está certo.

Nem tudo é erro, nem a razão conhece
o que o coração quer e apetece:
está perto, é longe; está longe, é perto.