quinta-feira, março 29, 2018

DAVID & DA VIDA - Rosário Breve n.º 548 in O RIBATEJO de 29 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






David & da Vida





Sucedeu numa casa-de-pasto de cujo balcão sou freguês recorrente há bons (e menos bons) anos. Foi pela finimanhã de quarta-feira, 21 de Março de 2018, já o meio-dia não vinha longe. Aos que estávamos, juntou-se-nos um homem perdido. Em segundos velocíssimos, aquela aparição disse ao patrão da casa que não vinha pedir esmola em dinheiro mas sim a caridade de alguma coisa para comer – porque não comia há muitos dias, porque tinha sido escravizado em Espanha, porque não sabia o que fazer à ou da vida. E era de facto, na vida, David. David era deveras: fiquei a sabê-lo pelo diário local cá da paróquia na manhã seguinte, quinta-feira, 22 do corrente.
Por tal periódico, aprendi que este pedinte se chama David S., tem 50 anos, há sido trolha de profissão e foi dado como desaparecido pela família. A notícia (com retrato do extraviado senhor) acrescentava que é gente portuguesa de Joane (Vila Nova de Famalicão). A irmã, Rosa S., fornecera às autoridades e ao jornal um número de telemóvel, rogando que lhe ligassem em caso de avistamento do extraviado mano dela. Assim fiz. Liguei à senhora.
Disse-lhe o que Vos conto. Falei-lhe da cena na casa-de-pasto. Falei-lhe de Espanha. Ela disse-me: “É ele. Isso de Espanha é uma história que ele costuma alegar.” (Sim, ela disse “alegar”.) Perguntou-me depois se ele andava de barba (na fotografia do jornal, não a tinha.) Disse-lhe que sim, barba de muitos dias. Barba & casaco de couro acastanhado. E ela: “É ele. Tem de ser ele. Muito obrigada pela sua atenção.” Tinha a voz anestesiada pelo desespero.
Nessa mesma quinta-feira/22, fiz duas coisas: uma, fui à esquadra central da PSP cá do burgo, onde dei conta do facto aos uniformes competentes; antes, porém, comentei o caso com a freguesia & com a gerência da dita casa-de-pasto. Os demais clientes interessaram-se pelo episódio – mas a gerência nem tanto. A gerência nem tanto por pura má-consciência: é que, na véspera, tinha recusado comer ao homem – talvez por receio de tanga ou de ociosa pedinchice parasitária como tanta por aí anda, talvez. Percebendo o embaraço do remorso, não insisti. Paguei o meu copo e fui à polícia.
Tenho agora o recorte de jornal colado no caderno em que escrevivo estas crónicas para Vós. Não sei mais. Desconheço se o senhor de Joane, Vila Nova de Famalicão, foi já ou não ainda encontrado. Redijo estas linhas na sexta-feira, 23 de Março de 2018. Entrementes, a chuva voltou, maciça & massiva. Quarta & quinta foram dias muito formosos, de um azul oceânico feito céu a que o Sol presidiu com autoritário garbo & majestoso esplendor. Mas a chuva voltou, o que me faz temer pelo desaparecido.
Rosa diz que o irmão sofre de “depressão” por causa do descalabro do casamento e que anda “confuso e perdido” desde 11 de Fevereiro último, dia em que se desmaterializou de Joane. São muitos dias, bem mais de um mês ao lento relento.
E agora, Leitor meu, confesso: também eu padeço de má-consciência. Sim, má-consciência. Não reagi a tempo. Na manhã acabando-se de quarta/21, eu tinha duas sandes & uma banana no saco. Não me ocorreu sair à rua, perseguir David, dar-lhe de comer. Eram boas sandes: de mortadela & queijo-creme, uma; outra, de capitoso presunto translúcido & corado a fumo de lenha viva. Não me ocorreu, o que agora amargosamente lamento. Quando me lembrei, era tarde de mais: o perdido reiterara de si a perdição, invisibilizando-se na indiferente luz da manhã terminal.
A comparação seguinte pode parecer-Vos reles ou mentirosa ou lingrinhas ou auto-coitadinha – mas é mais friamente verídica do que meramente verosímil: também eu já me achei perdido. De família, de anos estragados, de projectos calçados a barro, de manuscritos sem tipografia, de animais amados como pessoas singulares & de pessoas não plurais como bichos de estimação. E de sozinhíssimas, insensatas copofonias. Verdade, tudo isto. Não hei-de hoje mentir.
Em lenitivo & paliativo contraponto, porém, a minha salvação tem sido esta mesma janela ribatejana de última-página, que há quase onze anos, em uma hora feliz, se me abriu para Vós. Porquê? Ora, porque não se pode perder tudo: a começar pelo que fazer, David, da Vida.


quinta-feira, março 22, 2018

SIM, ELE FUMA DEPOIS DE FAZER AMOR - Rosário Breve n.º 547 in O RIBATEJO de 22 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt





Sim, ele fuma depois de fazer amor



Onde era o barbeiro velho, é ora a venda de fruta. O barbeiro morreu, a nora é a fruteira. O filho do barbeiro anda nos camiões internacionais desde muito novo, não quis o ofício do pai. Também muito nova, a mãe do camionista foi sem querer que deixou viúvo o barbeiro: qualquer coisa no coração, um repente roxo que lhe deu. A começar pelo filho, já quase ninguém se lembra dela, agora que também o barbeiro se matriculou na galeria do esquecimento. A sobreloja da frutaria está há muitos anos arrendada a um gravador-ourives que já não trabalha. Continua todavia a pagar a renda, não tem onde guardar os apetrechos do ofício. A sobreloja é portanto plena de relógios parados, ao contrário das ruas da vida, digo, da vila. O gravador descia muito ao barbeiro. Conversavam ócios lentos. Sabiam-se co-tripulantes da barca-de-outrora, essa no cais-só-de-ida. Foram sempre de outro tempo, nenhum calendário lhes acertava o passo. É uma sobrinha do gravador que vem pagar a renda, o velho ourives já não aparece. A nora do defunto barbeiro oferece-lhe uma sacada de pêras ou de nêsperas ou de morangos ou de damascos ou de figos ou uma melancia grande e rotunda como as mães, é conforme a idade do ano. Também se pode dizer que o preto-e-branco da barbearia é hoje uma profusa paleta de cores. A renda é paga em contado vivo, não há recibo, palavra é honra, honra nem de palavra precisa. O camionista conhece noruegas, dinamarcas, suécias, finlândias, estónias, letónias, estalinegrados. São a rota dele. Como o caracol, vive de galera-casca às costas. O ofício envelheceu-lhe os ossos. É um homem positivo. Não sofre de mariquices artísticas. Quando morrer como o pai, morreu como a mãe. Não é coisa que o sofra. Não trai a mulher, que o não trai. Só não têm filhos porque um dos dois é estéril. Nunca quiseram determinar pela certa qual. Cada quinze dias, três semanas, ele volta do nada, fica dois dias, às vezes quatro. A máquina lava-lhe a roupa enquanto eles reacertam o amor físico, às vezes tal acontece pelo raiar da aurora, é conforme calha a hora a que o camião dele aparece no pátio a resfolegar como um elefante hidráulico. Ela naturalmente cheira-lhe a ele a pomar. Ele naturalmente cheira-lhe a ela a auroras-boreais. Quando cessa o espasmo e ele sai dela para tactear na mesinha-de-cabeceira os cigarros, ela conta-lhe estar grávida – mas é da sobrinha do gravador-ourives que fala. A parição (ou a aparição) só é própria quando a nossa própria mãe etc. Certa vez, ele teve férias. A Sul, houve então para ambos uma primícia de Verão no pontão de madeira que adentra o mar. À ponta do pontão, fulgurava o coreto onde a graciosa filarmónica lhes concertou ominosas valsas & pasodobles felizes. Tiveram gelados de cone, farturas vivas como enguias fritas: e ante a eternidade do mar usufruíram do inapelável sabor a baunilha dos dias sem horas. E jantares de peixe na brasa com vinho branco apalhetado. E demoraram a lentidão da harmonia. Retornaram antes de a roda-gigante se encerrar ao estimado-público. Ele partia de madrugada para Norte, estranhamente pela Bélgica, esse reino duas vezes violado no mesmo século pelos teutónicos do costume. Foi então que ela lhe sugeriu que adoptassem algum órfãozinho, desses brinquedos portáteis que a caridade estatal e a escaninha Igreja disponibilizam depois de devidamente pedofiliazados. Ele não quis. O barbeiro tinha predilecção pela rádio nacionalista. O gravador-ourives era de outras escutas. O Plano Marshall não invalidou as ditaduras ibéricas. As amendoeiras foram & vieram florindo sua alienígena neve japonesa. Nisto, um perfume de fruta exposta: a chuva dando nas laranjas da banca sobre o passeio. A nora do extinto barbeiro descerrou o toldo. A chuva cessou logo a seguir, o sol abriu o escândalo absoluto da mais régia totalidade, a rua refulgiu de verniz lavado, eu próprio tive de semicerrar as pálpebras ante a radiação de tal tesouro instantâneo – pois que a luz reiterava nos limões o ouro mais ácido da terra mais aérea. Bojuda como um zé-pereira, a muito prenhe sobrinha do velhote da sobreloja vem hoje pagar ao barbeiro que já não há a renda parada de relógios que afinal não param – mas sim param se já nem um camionista faz à mulher um filho como deve ser –, queres assim ou mais curtinho?

quinta-feira, março 15, 2018

RUI & ANA - Rosário Breve n.º 546 in O RIBATEJO de 15 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Rui & Ana



Era mais já que meã a manhã de terça-feira, 13 de Março de 2018, quando me telefonou um Amigo a dar-me conta da morte de outro Amigo. Pior ainda: era uma morte por suicídio. Ainda mais grave: foi um suicídio ferroviário exactamente no mesmo local da linha onde, a 29 de Maio de 2016, voluntariamente se dera à morte uma menina de 18 anos. A tragédia em toda a sua negrura: essa menina era filha deste meu Amigo agora terminado ele também. Ana, ela; Rui, ele. Nestes quase dois anos, o Rui lutou quanto pôde contra a dor – até deixar de poder. Ou de querer – não sei. Duvido de que alguém possa saber.
Sei isto: antes do telefonema, a minha manhã individual acontecia inofensivamente. Muito cedo no dia novo, eu descera em segurança não titubeante uma ínclita ladeira de bairro decente. Dispunha de moedas confortáveis para a chávena de café inauguradora do dia, o caderno de capas pretas albergava já a crónica-para-ser desta edição (em que referia Rilke & o Dr. Pedro Canavarro, entre outros tópicos ribatejanos), o autocarro veio à hora certa, nada de transcendente que não imanente. Apeei-me não longe do hospital, recolhi-me àquele Café muito limpo onde, há sete anos, gastei o interlúdio do velório da minha Mãe, retomei o meu Rilke, revi a crónica que esta semana já não vai ser, devo ter sido mais ou menos feliz até às 11h13m: foi então que o J. me telefonou com a má-nova da passagem-de-nível, a má-hora da terminação voluntária do Rui – com aquilo, enfim, que tanto me magoou e magoa. Mas que, confesso, me não surpreendeu.
Não me surpreendeu porque o esperei desde a primeira hora do acontecimento de 29 de Maio de 2016. Não conheci a menina do Rui. O pai sim, conheci-o. Era cinco anos mais novo do que eu. E eu, como toda a gente de que agora me lembre, adorava-o. Era de uma inteligência desarmante. Aquele olhar fulgurava de entendimento imediato das coisas do mundo. Na mocidade, fôra um exímio jogador de andebol. Em 2014, pude reencontrá-lo numa reunião de “velhas-glórias” daquela modalidade em que ele foi, de longe, o melhor de todos nós. Éramos então vivos todos. Ele brilhou: como (desde) sempre. Jogámos um bocadito, comemos um bocadito, gostámos todos uns dos outros um bocadão. Nada permitia prever aquilo da filha dele dois anos depois.
Eu tenho duas Filhas: tenho, não – a quem pertenço. Não me passa pela ideia (e pelo coração muito menos) seja o que for de semelhante. Não suporto, sequer minimamente, qualquer analogia. Dou-me ao luxo do egoísmo: tenho pena da crónica que já não vai ser. Preferia publicá-la milhões de vezes em vez desta. Havia cheias ribatejanas, havia pessoas sem-abrigo, havia aquele crime de Twickenham à portuguesa, havia a comédia triste & non-stop da EN-114-Santarém-Almeirim, havia citações de Rainer Maria Rilke, havia o jovem octogenário Pedro Canavarro, havia o lixo em Minde, havia o nabantino Mouchão ardendo a frio de poluição fluvial, havia os juniores felizes do futsal do Vitória Clube de Santarém, havia a tragifarsa costumeira deste pífio executivo municipal santareno – havia isso tudo: mas só me restou o “tresloucado acto”, como antigamente se dizia, do meu querido & perdido Amigo Rui. A realidade (s)urgiu outros lumes.
Cotejo: às mesmas sete horas a que me levantei, era encontrado o corpo dele. Na mesma aziaga circunscrição onde outrora a filha. É pertíssimo do casario um pouco mais a norte onde nasceram a minha Irmã & o meu Irmão mais velhos. E sim, eu disse “nasceram”, não disse “morreram” – esse pretérito só de nome perfeito com que o pai Rui julgou ser possível voltar a ver & a viver a filha Ana.
Não volta – mas finjamos todos que sim, que de novo está tudo bem, que a dor arranjou maneira de cessar quando o novo dia nascia.


quinta-feira, março 08, 2018

Diário da primeira semana marciana de 2018 - Rosário Breve n.º 545 in O RIBATEJO de 8 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Diário da primeira semana marciana de 2018



Quinta-Feira, 1Felizmente há chover, embora alguma pontual violência dos elementos humanize de mais a possibilidade de tudo se perder num repente. Na estação-de-serviço defronte, os estandartes da promoção-desconto-litro-combustível fremem como virgenzinhas que tanto sabem ao que vão como ao que(m) lhes há-de vir. Primeiro dia de Março: zune o poder eólico, o céu é chumbo negro, corre de estanho o estranho rio, vale mais ficar em casa a quem tem uma. (Nem toda a gente tem uma.) O Inverno vigora com justiça plena. De sudoeste, uma força aérea invencível carrega gelo consigo. Os penhascos rangem como viúvas ainda disponíveis. O mar traga os afoitos inconscientes. Trump quer os professores com pistolas. A Síria está bem, obrigado. Calor no Árctico, neve em Bragança-Vila Real-Chaves-Viseu. Certo. O meu Amigo Manuel M.M. telefona-me para almoçarmos juntos um dia destes. Sinto-me gratificado pela demanda: somos amigos há quase 39 anos. Recolho-me: o briol já aperta mandíbulas em torno dos ossos cinquentenários (upa, upa).

Sexta-Feira, 2É dia de Porto-Sporting. De nada mais falam as televisões da parvónia. Não sei por que chamam “mau” ao tempo: chove ouro, para mim; para mim, é pão que chove. O grande chumbo de ontem ferra ainda o céu de hoje. A cameleira da praceta, que o sol februário fez florir precocemente, tenta não se deixar despir de todo pelo assédio ventoso: mas há já pelo chão as inumeráveis páginas-violetas de suas folhas-lilases. É verdade: a luz parece toda feita de sombra, isso é verdade – mas não é com(o) tristura que assimilo a invernácea condição do dia. Não, isso não. A terra babuja de água boa, as raízes bebem fartamente, o verdor ainda não ardido deflagra no ar qual postal de seiva instantânea. Nisto, trovoada: um fósforo imenso & mudo, primeiro; segundos depois, o fragor de móveis arrastados na casa de Deus. Fracamente a cameleira diz não ao ar movediço, de súbito reforçado por esses populosos descampados. O tempo fala. O Tempo, também. Dizem-nos coisas – nem todas más, aliás. Espero tão-só que, logo, Porto & Sporting empatem.

Sábado, 3Estreia absoluta na minha vida: cortei o cabelo a alguém. Esse alguém, nascido a 11 de Janeiro de 1959, é o meu Amigo Jorge C. Vive sozinho num apartamento quase exíguo e é dono de um pente-lâmina eléctrico. Ele mesmo escolheu no dispositivo a velocidade “pente-3” (acertos & retoques finais a “pente-zero”), sentando-se depois, de toalha-babete sob o queixo como um bambino veterano, de costas para a janela do terraço. Vacilei um pouco, a princípio: responsabilidade assustadora. Devagar, porém, lá lhe fui desbastando & devastando o crânio. No fim, a coisa não ficou mal: pareceu-nos a ambos que era atavio ex-capilar digno q.b. para voltar com dignidade à recruta militar. Como disse, eu nunca tal houvera feito. Foi poupança de seis, sete, talvez dez euros até, no barbeiro profissional. Enquanto o tonsurava, pensei em fixar o episódio por escrito – pode ser aqui mesmo.

Domingo, 4Nunca simpatizei com domingos: o vazio existencial é menos disfarçável, talvez/decerto por isso mesmo. (“Tinha dias e noites idênticos, mas o que mais lhe pesava eram os domingos.” – J.L. Borges, in O Livro de Areia). Recorro à “omnipotência” da escrita para o dar por terminado à nascença.

Segunda-Feira, 5Por instância do meio-dia, um breve dilúvio benigno sitia a Cidade. O ar, varejado a vapor frio, volve-se glauco. A grelha pluvial, harpa sem mesura, aponta-nos a insignificância física nossa. Eu, sob escarlate toldo de lona, miro & aguardo. Lixo urbano é arrastado pela torrente das sarjetas. Agarradas sempre aos inúteis chapéus-de-chuva, já pessoas levitam a alguns metros de altura. Depois, Deus (ou o Diabo por Ele) põe-se na brincadeira: a primeira nesga de sol dá primeiro no campanário da Igreja de São José, fazendo-a bronzear a prima meia-hora da tarde. Envernizados pela plúvia rija, os cedros & as laranjeiras daquel’além tão antiga mansão senhorial reverberam como olhos sadios. Entretanto, das catorze pessoas içadas aos ares pela intempérie de há pouco, só doze voltam à terra: duas aproveitaram a boleia – ou para morrer ou para migrar, o que dá no mesmo. Digo eu daqui, nas lonas, escarlate & toldado.

Terça-Feira, 6Hoje é dia natalício (1927) do gigante Gabriel García Márquez (m. 17 de Abril de 2014). A esse descomunal Colombiano devo muitas horas muito felizes, mesmo (ou sobretudo) nos anos mais tristonhos. Por contraponto, anos bons foram aqueles que me viram contemporâneo & companheiro deste moço aqui mesmo, o Paulo C., que de repente, e ao cabo de mais de 30 anos, encontro no autocarro matinal. O Paulo está fisicamente óptimo. Noto-lhe todavia certo ar fatigado. Ocupa-o & preocupa-o a vida, decerto – como a (quase) todos nós. Foi porém uma breve alegria revê-lo. Apeei-me duas paragens (ou dois parágrafos) depois. Oxalá nos revejamos algures, nem que apenas daqui a mais três décadas.

Quarta-Feira, 7Não sei: nem como vai ser para mim esse amanhã, nem como foi para o meu Leitor esse ontem – o Jornal sai às quintas, eu envio a crónica às terças. Só sei que São José badala, precisamente agora, nova meia-hora: para mim, passada; para o meu Leitor, futura. Outra brincadeira do Diabo, enfim. Ou do Compadre de São José por Ele.  

quinta-feira, março 01, 2018

MARIA & MAIS NINGUÉM - Rosário Breve n.º 544 in O RIBATEJO de 1 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt








Maria & mais ninguém



Entre princípios & fins do século passado, nasceu, viveu & morreu a senhora minha Tia-Avó Maria da Conceição dos Santos.
Morreu de fome – esclareço. Atenção: de fome, sim – todavia não por miséria, pois que um cancro gástrico a extinguiu, condenando-a à impossibilidade de absorção nutritiva & queimando-a, por dentro, de carvões frios cuja brasa gelada a filtrou até à última transparência da cera. Eu vi isso acontecer, foi mesmo assim, acreditai-me Vós por uma vez na vida.
Herdei dela a cama-de-ferro em que dormi a adolescência, essa terra-de-mais-ninguém daquela idade em que todos somos a única pessoa viva & importante do mundo.
A minha Tia-Avó Maria era uma proscrita: nascida virgem & solteira, solteira morreu mas sem já o outro atributo hímen-original. Consta que namorou fisicamente algum inconsequente aproveitador de seus/dela mucosos vinténs. A família (minha: mas anterior ao meu nascimento) soube dessa cópula infeliz & estéril – e nunca lhe perdoou o devaneio, ostracizando-a inexoravelmente sem sombra de perdão: o fascismo vestia chita.
Morreu sozinha como um cão feminino numa casita miniatural de sem-marido, ou tugúrio de boneca sem príncipe, que eu visitava aos sábados dos meus 17 anos sem atender a cadastro sexual, sem inquisição católica & sem resquício sequer de censura moralóide. Talvez me atraísse nela o meu próprio retrato futuro: este de cão masculino auto-exilado em casota mental.
O irmão dela, pai da senhora minha Mãe, nunca a visitou sequer uma vez, como eu tantas vezes fiz: que a terra lhe seja, a ele tal bruto, pesada como chumbo.
E no entanto a minha pobre Tia Maria permanece como a mais alta glória cinematográfica do meu clã: é dela a voz agudinha que se ouve, em pregão cantado, no filme portuguesíssimo chamado Capas Negras [de 1947, com realização de Armando de Miranda e protagonizado pelas maravilhosas pessoas & vozes de Alberto Ribeiro & Amália Rodrigues, naquela cena da Estação Velha (ferroviariamente falando, Coimbra-B actual)]: era ela, na vida dita real, a vendedeira de arrufadas de quem, na dita película, se escuta o chilreio de ave fininha.
Recordo ante Vós a casa-de-boneca que era a dela: ao fundo do Lagar Velho, na propriedade dos Rodrigues, e à esquerda de quem desce a caminho do Cardal cemiterial onde há muito dormem (o sono de que se não acorda) os meus Pais & o meu Irmão, dava para uma eira gretada de ervas sem jardineiro – mas além da qual vicejava uma horta farta miraculada pelas humílimas verduras da terra nutriente & portuguesa: couves, nabos, o episcopal & rubicundo tomate, a terna & tenra alface, a leira de batata gorda que os porcos adoram e os humanos não desestimam.
Entrava-se naquele casinhoto celibatário pela cozinha imediata, acabando-se de imediato a visita no quarto-de-dormir mais sozinho do mundo, esse onde branquejava, qual cisne negro da solidão mais irremediável, a tal cama-de-ferro lacrada a branco-cor-de-asa-de-anjo que depois herdei mas hoje pertence ao meu Irmão Fernando, gémeo do extinto Jorge nosso.
Na cozinha de livro infanto-juvenil para duendes, gnomos invisíveis haviam pregado ripas de pinho, das quais se penduricavam utensílios cozinheiros de menina-velha: o pucarito esmaltado (como esmaltado no quarto o bacio), o tachito breve para aqueles arrozes-brancos que provisionam o jaquim frito, a panela mínima em que ela, da horta, fervia a couve em ração de anã, a faiança cromada de rosas cerâmicas abrilhantada pelo filete-de-ouro do pintor-porcelanista anónimo que o senhor meu Pai toda a vida foi – e a colher-de-pau do tempo da Senhora Dona Maria II. A todo este enxoval presidia a litografia glauca que perpetuava a efígie do senhor Papa Paulo VI.
Paulo VI veio à Cova da Iria em 1967. Foi pelo meio-século da falcatrua fatimista. Na cozinha da minha Tia, porém, e sem que sumopontificemente o pudesse ele augurar, o Papa presidia também ao vero pretexto que a casa de Maria da Conceição dos Santos me levava cada sábado: namorar T., sobrinha do senhorio. Essa adorável T. era uma rosa vertical erguida a partir de dois caules-pernas, factor anatómico que a volvia flora ambulatória. De olhos enormes como lagoas expostas a um luar de prata para que ainda não fora inventado adequado firmamento noctívago, manteve-se pura & ilusória à maneira daqueles natalícios globos de cristal que basta agitar para que a neve & o Natal suspendam perpetuamente os sais e os flocos da mais pueril felicidade eterna. (É certo porém que, no viço nubente, T. acabou casando-se numa cidade estranha com um rapaz fininho, católico como ela, cujas presteza & decência até hoje eu seria incapaz de emular – de modo que.)
Tinha-lhe passado a fome terminal: de modo que inumámos entretanto a senhora minha Tia-Avó em tão campa tão rasa (ou tão rosa) quão os já nonagenários três nomes dela para ninguém. Levei-lhe papoilas ao mármore.
Tenho pensado entretanto na casita que ela deixou devoluta. Talvez se T. voltar desquitada, não sei, sobrinha que continua do senhorio, ali ao Lagar Velho, não sei, sei lá, lá onde a eira, a horta, os fantasmas das bonecas e o pucarito de esmalte, tudo a que eu aporia logo a cama-de-ferro que um dia destes o meu Irmão Fernando vai ter de me devolver, talvez, não sei bem, Maria.