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26/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 63 - trechos do POSFÁCIO - 5 a 11 de Julho de 2011



A minha morte pensa em mim, irada,
como amante toda a vida desprezada.

*

Vento que o rio treme no trecho da cidade:
é agradável estar vivo como uma pomba
a ele exposta.
Esta é a única resposta
que tenho e mantenho
na quarta-feira leiriense.
Um quase-frio, um quase-nada,
sabes,
a vida.


*

Agora a cidade continua jade, idade. Ela, jasmim, jaz-me. Estou pronto até para o que não der nem vier. Toda a manhã (10 de Julho de 2011, domingo) por campos que nem um ribeiro avizinha. A pé, em frente, toda a manhã. Respirei eucalipticamente, lavandei-me andante e andando. Tomei café devagar, vi as igrejas presidindo aos casais, as cegonhas às igrejas. Devo ter sido feliz. Pessoas orlavam a ribeira, avançavam na claridade e na clareza do matino-domingo português. Alfaias, máquinas agrícolas, muitos pássaros. Mas as manhãs acabam e as cidades renascem na noite. Acabo o domingo num café mecanizado pela ginástica de ferro da solidão urbana. Um homem lendo sem atenção o jornal já velho, acabado já. Um naufrágio na Rússia, um sismo no Japão, uma tragédia ferroviária, não ouvi onde. O duque de Bragança, não sei quê. A noite muito viva em tudo quanto é sítio, quanto é mundo. Um sítio chamado Mar Báltico, um mundo chamado Mar Morto.
Traficantes de droga, lavadores de dinheiro, pequenos meliantes, poetas de freguesia limitada & concelho limítrofe, jacarandás explodindo viole(n)tamente nas urbes, escrituras & panegíricos, Isabel & Dinis, Demétrio & Nicole, é-apenas-a-morte-é-apenas-a-morte, gritam os arautos da Senhora-da-Boa-Idem, vi as relíquias de Madre Maria do Lado, um fragmento do cérebro, um fragmento do corpete, um fragmento do véu, um monocandelabro: pobre rapariga louriçalense viva & morta em transes da Superstição.
Dois homens caminhando à chuva num cemitério. Vista aérea de uma aldeia de casas feitas de terra. O sol nessa tarde edificada. Rapazes mordendo pão com carne num café de Leiria. Serôdias puberdades, livros que reamanhecem limiares pessoais.
O Sol numa montanha: o festival que isso é, a música disso, a Música que isso é. O sol dando casas de terra com água por vizinhança. Os regueiros, o milharal, o arrozal, as cegonhas. Os corpos exsudando ribeiras, a pé, toda a manhã.
Dinis & Isabel pela linha terras-ribeira. Na cidade, uma mulher tatuada como uma iguana.
Os horrores omnívoros das guerras ecuménico-económicas. A ONU, os agriões da ribeira. A comezinha vida das espécies. Os Grandes Gelos, a tristeza glaciar. Um bigodudo de olhos verdes como duas cegueiras lúcidas de sierra-madre. A iguana sorri servindo bebidas. Leiria, século XXI.
Áreas sobrevoadas por pessoa sonhando. Ribeiras que ribatejam transmontanamente. Piscinas de água-de-olhos. Um novo livro na calha dos escritores mortos, dos passados idos leitores deles. Poupar costelas, não cautelas. Lábios não sábios, que ébrios, nem cúpidos, que sóbrios.
Famílias como quimonos: assombrações de seda & papel & dragões combustíveis carburados. Crianças em vitelina pele, aclarando as vozes da manhã (toda a manhã). Valor da superfície das coisas, agora que vamos morrer. Aventuras marinheiras em terra (mas as ribeiras, Isabel, a água-pele delas, recorda).
Estes dias que vou queimar-me.
Estas manhãs-tão-noites-tão-amanhãs, Senhora. Polícias tresandando a convento. Lápis urdindo filas-formigas no alfarrábio-sensorial.

*

A costureira Júlia é casada com o caixeiro Arnaldo.
A Sarmentinha serve petiscos com vinho-do-lavrador.
Na secagem do arroz, andorinhas e cegonhas nidificam.
Eu nada-fico, (d)escrevendo embora renascimentos,

os mínimos renascimentos da cidade sem mar
que no mar pensa, nem saber por-ou-para-quê.

Um homem moreno-ar-livre com um saco de papel:
pão, grão, agrião, feijão.
Ele bebe um copo de vinho, tasquinha um pires
de tremoços.

E na orla marítima, por estas horas, bandeiras:
pinceladas de cor que o vento dá de cor.
Por cá, ruas sem calções nem sandálias, tão-só
o império regional do que-s’afoda-matilde.

Brava alegria, ainda assim: coretos e gares recebem
a convocatória palavrosa da tanta quantas as pessoas
realidade.

Noutro tempo, eu frequentava o Café Ripa, a Cervejaria
Nau, a Bibliografia Steinbeck, o Liceu Infanta D.ª
Maria, o Café Paris, o Barroca, o Haussmann,
o Galego da Rua de Santa Prepúcia – agora
adeus, ó Lúcia!

Um delíquiourazul toma a imaginação,
hei-de manipular como sempre a aguardente
verbal que água se imagina versilivremente.
(No resto, como toda a gente.)


19/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (II-4)



II-4 

Algo na cabeça dele (como que um elemento exterior) lhe diz:

– Quero matar a morte dos meus mortos, querida.

Espera ouvir dela:

– Deixa-os morrer, pois que te amo.

Ouve dela:

– Deixa-os morrer, pois que te amo.

É outra vez terça-feira, ele pára na rua.
Ele é o velho das laranjas, um corvo em cada ombro.
E então: o que é isto, o que é isto, que será isto?
É o frémito das laranjeiras debruadas a azul-chuva na voragem das terças-feiras.
É a beleza olímpica do cavalo.
É a sessão-contínua da consciência.
É ter morado tempo de mais em quartos sem janela.
É ter ido de comboio a caminho de mulheres que não eram a dele, esta.
É eu não ser o elemento exterior mas a tua notícia, a tua sombra, o teu cão.
É isso e é isto e isto mesmo.
Algo na minha cabeça feita coração.

18/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (I-4)




I-4

Andam descalços ambos pela casa dela. Ele veio. Ele veio a caminho dela. Reconheceram-se pelo cheiro na gare ferroviária. Ele apanhou o das 13h38m, chegou às 14h35m. Antes de vir, Dinis acordou na cama de um quarto de uma casa que não sentiu sua – porque Isabel não estava. De imediato, os mortos dele rondaram-no, acossando-o com a amarga doçura da perda. Então, para se livrar do mal, ele telefonou-lhe. Ela não pôde atender logo, devolveu-lhe a chamada uma meia hora depois.

– Amo-te.
– E eu a ti, querida.

E ele viaja de comboio até ela, chega a casa dela, descalçam-se na ronda um do outro, parece mentira ser feliz. A viagem dele (que ele lhe conta) é feita de armadilhas ópticas: o rio, as árvores, as nidificações, os pátios com tanques de lavar a roupa e laranjeiras de lavar a alma, apeadeiros devastados pelo vento de tanto inverno interior, janelas verdes como esmeraldas de peitoril, a ilusória esterilidade do cascalho, a vida, a respiração, a inimitabilidade do amor de cada amor.

16/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (II-2, I-3/fragmento e II-3)




II-2

Ama-se uma mulher viva mortalmente.
Um homem porta dentro seus mortos, que o tornam, também a ele, pedinte.
Este homem deste lado do aqui-agora.
O amor torna-o alguém que chega do futuro.
É estranho – mas assim é.
Choveu de manhã e todo o ontem.
À tarde (é uma terça-feira), o sol deflagrou como uma gardénia sem tutor.
E então a mortalidade é toda floricultora.

I-3
(fragmento)

Uma revoada odorífera de hortelã acode às narinas dos dois em cidades diferentes no instante mesmo – e ambos, à fragrância, sentem que o nada é tudo, à distância.
Um dos dois (mas qual, se não o mesmo?) vê um octogenário passar. Vai de balde cheio de laranjas. Tem mulher, ainda, em casa, leva-lhe as laranjas. Ambos compreendem a epifania. O velho passa.

II-3

Sou o velho do balde com laranjas.
Vivo ainda a minha vida, o meu amor caseiro.
Pude chegar aqui com o corpo, nem sempre fui eterno.
Tenho uma horta com árvores fruteiras.
Sou um homem no inverno, serei depois outro e ninguém e outra estação: serei uma laranja.

14/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 1 - Coimbra, 8 a 15 de Março de 2011 - (I-1)



Um homem e uma mulher noivam-se – e as pérolas dos olhos sufragam-se-lhes na tarde fluvipluvial. Gaivotas e patos comunicam peixe sobre o rio. É tudo um jazz macio. Dá-se o gregarismo dos elementos em prol de um fim comum. Entre os humanos, faz o amor às vezes de tal instinto gregário. Eles sabem-no – já lá estiveram: ou pensaram estar. Agora, porém, aqui estão: e sufragam a fluvialidade vespertina de Março, a par, em par.

Chávena de café vista de cima com olho de telemóvel




Como seriam as conversas entrecruzadas dos antigamentes? Dois feirantes medievos. Dois caixeiros republicanos em 1898, Lisboa. Uma mulher na fonte com outras duas, século XVII. Ou no Café da Rosa, Leiria, terça-feira, 5 de Julho de 2011:

– Agora não pinga
– Coitadinho é quem precisa
– O gajo, o Ricardo
– Esta mariàmélia que lá vai
– Não é assim, tem de ’tar um cheio
– Tem de ter mais capacidade
– Varões metálicos, há muitos, só de capacete
– Só que ela trabalha ali onde está o trambolho
– Entrei por trás, pela parte da igreja
– Ela falou em oitocentuzónovecentos
– Mesmo que seja ao mês
– Sem teiquezaùêis nenhuns é só pequenalmoço
– Até fiquei azul
– Se calhar são mil&quinhentos
– Uma coisinha bruta, meu, ela mostrou-ma
– O senhor está bem?, moi je n’ai pas faim
– Salvem mas é as gordurinhas
– Percebo onde quero chegar
– Um gajo nunca tem problemas, não é?
– Um gajo nunca está bêbado, o macadame
– Olha lá, meu caga-tacos do caralho
– Seu-quero problemas, arranjo-os já
– Arranjuzá
– Já ’tás a pôr exigências?
– É assim à Lagardère
(Venham as balizas e o Inverno
Venha à pele o que for terno
Eu não tenho, é mortalhas
Mais t’enterras se trabalhas)
– Bem!
– Lixo
– Visual
– S’ ele fosse mas era c’o caralho
– Cop’América
– Trazesmuma-água?
– Corpo, cor, pó
– Da altura dos anjos, nada a fazer
– O Protocolo
– Emanações de Espanha
– Sinceramente, não sabemos
– Com respeito ao jogo
– Um homem experiente
– Matrix
– Emirados Árabes Unidos
– Súbito óbito súbdito por hábito édito
– Ó patrão, posso?
– Impassível e impossível
– Nunca sair daqui
– Nunca sair disto
– Ó Guarda, então não tinha?
– Tinha
– Um dia a energia acaba-se
(Os livros que agora sublinho – uma Voz Aqui Dentro mo pergunta – serão (re)lidos por mim por minha gente?)
– Depois há ocasiões em que as pessoas imaginam coisas
– Vinho rápido-do (do-do-do, dá-dá-dá) lado-direito
– O blusão era para a outra
– Era para onde vai haver aquela treta lá de Coimbra
– Vidal
– Confirma-se que era bem assinalado
– Uma pêra
– A realidade chilena, o corte
– Ao menos tens onde comer
– E muito bem, viste?
– Este é ferro, outro jovem
– Quem pára, pára para
– Muito jovem
– Novamente
– Pela lateral excelente
– Só se já foi
– Não!
– Eu acho que é
– Lance de perigo
– Mais um trabalho
– Mas já com alguma dificuldade
– Longa, a perder-se
– Quatro nazis
– Ouviste falar com apenas dezoito anos?
– A mota, o que eu não dava pela mota
– O que eu não dava pelo corte
– Mais uma corrida
– Isto na Feira de Maio
– COITADINHO É QUEM PRECISA
– Tudo com muita calma
– Numa zona perigosa
– Uma ilha é mesmo assim, uma ilha
– Treina-se a fala mas depois, tu sabes
– Um café
– Pareceu-me para ele na esquerda
– Dolorosa
– México, perigoso, perigosa
– Dona Rosa!
– Vamos ver
– .

09/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 62 - Leiria, terça-feira, 5 de Julho de 2011(fragmento 2)

Imagem obtida com telemóvel: Sala às escuras com televisor ligado (em negativo)



O corpo conta-me coisas (lances) plenas (os) de mínimos nadas que procuram um sentido, no sentido duplo de rumo e significado. Escuto-as com a tranquilidade possível:
Um homem à pesca do alto da falésia lobrigando o ardor (o milhão de espelhos, o milhão de rubis dourados) do mar;
Um ser envelhecido pedindo cigarros a pares d’enamorados nos jardins púb(l)icos;
A mulher que, perfumada de cânfora, ânfora passa em corpo por áleas oleiras;
A rapariga chamada Raquel digitando nervos púberes numa coisa parecida com um transístor;
Desfazendo-se nas folhas de mármore, até os nomes morrem (as datas, não);
A estridência oftalmológica dos metais ao sol;
Pessoas no chão raso vistas da varanda muito alta: formigas que uma formiga olha;
A Festa de Marrazes;
A Feira de Maio (desolado e poeirento, em Julho, o terrado dela):
A página manu-210-scri(p)ta deste caderno. 

05/12/2011

Gentileza de Amadeu Baptista

http://amadeubaptista.blogspot.com/2011/12/daniel-abrunheiro.html

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 58 - Coimbra, quarta-feira, 29 de Junho de 2011

58. VOLVERÁ

Coimbra, quarta-feira, 29 de Junho de 2011

A árvore sobe da terra, dela os frutos para a terra pendem descendo. É um bonito espectáculo, que aproveito na viragem da hora, acabada (subida do chão) a manhã, fruflorturescendo a tarde já, que à noite da terra volverá.  

03/12/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 56 - Louriçal, Leiria e Coimbra, domingo, 26, e segunda-feira, 27 de Junho de 2011 (fragmento 1)

56. EPIFANIAS E ENDECHAS E EPIFANIAS

Louriçal e Leiria, domingo, 26 de Junho de 2011
Coimbra, segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Entre a aparição e a revelação, a epifania: o que fala no centro-dentro. As minhas epifanias são todas verbais:

As árvores com seus vestidos de Verão.
A elegia eléctrica da Noite-Cidade: estrelas e janelas pespontando o veludo negr’azul.
A brisa cre-tre-pitando-dando palhetas de sol nas árvores fluviais (tontas de frescura ficam elas ressumando).
Florestas em perfume, caça em moção: mosqueado arvoredo, matizados animais em manso pânico.
Consumar e consumir alegrias e alegorias, ternas e tenras analogias sumptuosas, passi-compassivas contemplações: como a escuridão se adensa ao deflagrar do fósforo, o último dobre do sino condensa o silêncio da Aldeia-Mundo: o essencial calamento da vida.
Um vitral consumindo (consumando, ressumando passiva, compassivamente) luz-cor-alegria (como na infância os prospectos dos bailes associo-recreativos): numa face-nave de igreja ou em um jazigo de próspera linhagem acabada.
A música fazendo-se, de vento, luz: ramalhar de faias, álam’oboés, clari’plátanos, viol’amieiros, pinh’arpas.
A germinação fulgurante dos números-cores: as flores.
A irreparabilidade de cada crepúsculo.
Uma vinha enferrujando vermelhamente: vindo o Outono, feita a vindima.
As várias idades de uma pessoa: como cotas geológicas.
E os bosques submarinos tão minerais também, os corais?
A água-viva-em-espelho-transparente que a medusa é.
O descomunal congresso de aranhas que um aguaceiro é.
A trovoada que purifica o ar.
A tempestade no mar.
O cheiro benigno da terra quando a terra arfa como um animal saciado. 

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO (trechos finais da entrada n.º 55, datada de Leiria, 4ª feira, 22 de Junho de 2011)

Em levitante translação, aguardo a minha estrela no perveniente veludo da noite. Enquanto não, o azul da manhã fez-se tarde – e uma demorada insolação esprai’alteia-se em campânul’abóbada. Céu de Portugal, Junho de Portugal: esplendor cromático, (f)estival. Sonhei com a Montanha, com a Raposa, com a Laranjeira viva de sentinela ao defunto casario dos Emigrados. Portugal acontece-me muito. Moços rapazes bicicletam-se sem metafísica nem anfetaminas pelas ribeiras-páginas-de-guarda do Lis. Matronas-pé-de-vaca-com-grão-de-bico escarram com discrição oratórias excreções anti-genros. Um “stândér” de automóveis espera patos-bravos pró-BMWs. Num talho, os enchidos auroram paradamente em colorau boreal. Portugal, Portugal, Portugal: nascermos-te não nos faz bem, morrer-te-nos faz-nos mal.

Não só ao sol devo
estar só, ao sol. 

Delidas infantas no tule dos séculos
propagandeiam, da feminil condição,
as carnes, as gomas, urzes e tubérculos
e coisas mais tristes do pé para a mão.

De centro e arredores da vida económica hei sempre sido.
Da vívida vida, não – que a tenho vivido.

Ouvido a um bilharista:

– Não tenho sorte nenhuma. Quando a tenho, estrago-a.

Outro bilharista, a propósito:

– Juro que sim, pela saúde do meu cão.

18/11/2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 52 - Coimbra, quinta-feira, 16 de Junho de 2011

52. MOVIMENTO-VENTO

Coimbra, quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Em movimento-vento, o ar é bom de respirar, mais a mais quando matizado por esta luz que, filtrada de árvores, é uma luz profana e feliz. Cruzei o Lis – eis-me, na outra margem, ante o meu Mondego.
Não é lingrinhas, o meu amor pela minha Cidade. Quando retorno, sinto-me o que & quem deveras sou: uma das pedras, um dos pátios humanos, uma rosa de cabelo com sapatos e lápis: e presa de uma serena ansiedade que é a pedra-de-toque da consciência patriótica entre ter nascido e ir morrer. Coimbra é a Buenos Aires que posso. Esta tarde, na Rua da Sofia, sinto na nuca quanto me seria precioso que os meus Pais me vissem ir do Terreiro da Erva ao Terreiro do Marmeleiro via Rua do Moreno. O coração na nuca. Derivo para Montarroio, suposto o açúcar da amargura: sou um órfão que é pai: um paradoxo natural, conimbricense, có(s)mico. Sorrio, levitação de perfume sustenta a andarilhança (anda, dança). Polícias, matronas, quiosques, a Bandeira Nacional verdencarnando o azul à teste da sede do município, as pombas matriculando a duração perpétua do burgo, fantasmas vivos nos vãos das escadas de madeira, duas esmeraldas no rosto deste homem esperando o verde-peões da passadeira da Caixa Geral de Depósitos, que formoso verde o dos olhos com que ele filma a realidade que lhe pertence, que o nasceu, que o matará.
Girassóis celebram a monarquia mais absolutista: o Sol de Coimbra. A lunaridade local (sabe-o toda a gente daqui) é republicana e namoradeira. Mas o Sol é de um reinado tremendo. E é à luz que esta mulher tão pobre e tão bonita diz ao senhor da casa-de-pasto que a filha foi passar uns dias de água à Torreira, Aveiro.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 51 - Leiria, quarta-feira, 15 de Junho de 2011 (completo)


© Louis Daguerre
Estúdio do Artista (daguerreótipo de )1837


51. CONJUGAÇÃO

Leiria, quarta-feira, 15 de Junho de 2011

O ar e a água em árvore se conjugam,
que se faz luz e clarão na sombria terra.
Tudo abre o olhar que a tudo encerra.
Tudo. Só alguns sonhos subjugam
do cidadão o coração sem rebeldia.
E amanhã, como ontem foi, é outro dia.

*

Em menino, descobri quartzo entre as lajes antes da quinta que tinha cavalos ante o Campo. Da Natureza de então, os reinos funcionavam como o ápice da língua, que à palavra babuja em água gramatical. Eu devo ter sido felicíssimo, então: aos pés da oliveira, o panasco, o funcho, o espargo e o fóssil do caracol emitiam a certidão do nascimento perpétuo da terra. Quando a casa tornava, os do meu sangue trompeavam bandarins encarnados sobre alazões e corcéis e tigres mansos como o papel vegetal picotado de santos a pó-de-carvão. A terrina emanava a respiração nefelibata do caldo, o pão estalinhava fissuras que traíam, por rugas, a mocidade do trigo. No eu-corpo aconteciam verosimilhanças, como é próprio das crianças: a integridade moral do Matt Marriott, a lhaneza pessoal do cão chamado Pinóquio, as galinhas altas da Senhora Teresa (chamei Teresa à mais nova das minhas filhas, pago sempre as minhas dívidas, apago nunca as minhas dúvidas), o furor violáceo das madrugadas de Maio, o meu Pai levantando-se às quatro da manhã por causa da majestade da solidão, a comovida cortesia-inês-de-castro dos chorões rés-Mondego, os nomes-em-mármore dos mortos pedindo por-favor-não-me-esqueças-obrigado, os pardais individualíssimos na montra grisa do firmamento, estas coisas que restolham o ex-menino na atabafada tarde da quarta-feira de Leiria.
Iço as minhas pendurezas escadaria a cima rumo a uma loja contrária a esta escrita, posto que, aquela, não esta, de utilidades. Uma espécie de almácega é a pele de água escura com que envolvo as vísceras e estes versos. Estrofo as boas-tardes ao velho senhor e peço-lhe a Luz, ele vende-me uma lâmpada, é quanto pode fazer por mim. Os mortos (não os meus apenas) vivem-me: e comigo demandam & devassam os entrepostos das estações: a Primavera de 1970, o Verão de 1972, o Inverno de 1981, o Verão de 1999 e todos estes outonos que me somam e somem, menino (des)feito homem. Num café, capacíssimo de moscas e atribulações verbais entre técnicos de ar-condicionado e senhores que são proxenetas, aquela furiosa alegria de antanh’outrora reganha foros coevos no meu coração com óculos novos.
Já não estou neste Junho, mas nos outubros mansos que me levavam aos cedros da colina. Além, os silos da Triunfo e a ferrovia, a extensão até à estrada da Figueira, os canoilos de milho e os esparsos rectângulos onde a couve, o nabo, a cebola, a choupana do cavador, o melro bicão (o ouro da boca dele), os ciganos então sem rendimento mínimo ainda, a Vala do Norte fervilhando de enguias, minha Noruega a sul.
Cada Julho eu era atlântico. Revoadas de sal-areia comiam-comichavam a pele aos outros como eu meninos, hoje pré-cinquentões dizimados pela banca e pelo colesterol e pelos matri(de)mónios. Só que eu era atlântico. No Mercado, a Mãe imperava entre as peixe-hortaliceiras, convocando o feijão-verde, a sardinha, a pontiaguda ferrosa cenoura, o polvo estelar como as ramificações bibliográficas-genealógicas, o frango corado rodando no espeto como carrossel de si mesmo, as canecas de café caseiro nos dentros das tendas de louça, o bolo-de-Ançã e a regueifa-de-Coimbra, a estufa de sombra escoltada lá fora pelo sol mais sem amargura de que me lembro.
Hoje, os loucos são menos silvestres, tomam calmantes-placebos, jogam as cartas sem pensar ganhar. Hoje, derivamos na tonsura psicológica do que era para ter sido o futuro mas que de hoje não passou. Quando me descobri no quartzo, soube-me multimilionário da afeição à terra, a partir de que a árvore, a partir da qual a luz, o menino a partir – e a chegar aqui, agora, hoje apenas e até amanhõntem.

*

No amor, o ouro é o ou(t)ro.

*

A senhora chamada Rosa em conversa com a senhora chamada Laura:

– Vi-a hoje na carreira, ainda tem os cabelos pretos. Pretinhos, pretinhos, pretinhos.

E a senhora (cabeleireira agora, mas já foi modista) chamada Laura:

– Essa se deixar de tomar os medicamentos bloqueia.

Entretanto, falei com dois homens chamados Fernando: um é Mendes, o outro é Jorge e Silva. Cortesia, amizade, a volúpia afectuosa da amizade. Às 16h56m, tenho arrecadado o bragal do andarilho: escadarias, lojas, transumâncias, este nó no coração-garganta com que desato o verbo. A Nova Cidade diadema-se, júnica. A minha Leonor tem uma infecção no tímpano. Vou por zonas contraluminosas, abençoado pela respiração e pela qualidade dos sapatos. Um rapaz chamado Rui Fontelas canta no programa tv-espertino da minhoca andrógina chamada Paião, Saião, Raião, não m’alembra agora. “Agora é que vai ser” – canta o pobre rapazelho, cabelote compridote, riscola ao meio. (Também só um Diogo Infame – perdão, Infante) é que se lembraria de chamar ao palco o tal Caião em encenação dA Rosa Tatuada do Tennessee Williams, não é? Era.) Ante a máquina fulcral do desejo de fixar cromos verbais na caderneta dos dias mailas suas noites. Nesse, por esse desejo é que vamos.

*

Não tratando senão de cuidar das flores a que pertenço,
fui indiferente às florações e desfloramentos
com que outros brindam as cidades-(v)idas.  
Hei colonizado meus ramerrames verbosos:
de e à passagem, um regueiro de tinta
(e de tinto, vá) terei deixado à her(d)ança.
Não mais e não menos.

*

Não mais me esconjure a celeste roda
que a astros e pessoas dá destino.
Eu já era, porra!, velho em menino.
Não mais me abjure a agreste rosa.

*

É verbal que tuas de delicada louça mãos
infiro, salvaguardada a utente existência.
Minha Irmã, isto é para levar com paciência:
um húmus de filhos, outro de irmãos.

*

Certa ocasião, eu entrava na papelaria para que o perfume dos papéis impressos se me impregnasse na fala. Eu estorninhava, passaricando entre a cúpida resma do Diário Popular e a galeria (então infanto-juvenil, quando então as crianças ainda liam) da laranjada Fruto Real: Edmondo de Amicis (Coração), R. L. Stevenson (A Ilha do Tesouro), Robinson Crusoe (Daniel, hélas!, Defoe) e A Cabana do Pai Tomás (Harriet Beecher Stowe). Esse tempo não me passou. Adquiri certezas livrescas tão duras quão ósseos punhos. Na esquizomonopolar andança, cheguei ao Calvino que era Italo, ao Carpentier que foi Alejo e doido por música, ao tremendo Faulkner que, William, era afinal Falkner de nascimento, à pandórica Woolf (ou Loobo; ou Virginia sem acento na penúltima sílaba), ao senhor finlandês Paasilina, Arto. Água de água (o vento encrespando uma e outra, marino, ladino, menino, destino), uma torrente de leituras sufraga as fragas marginibeirinhas do estar-vivo: gente escrevendo ainda, ainda falando no papel – e tanta dela morta de corpo, caramba, uma pessoa por vezes nem pode querer nem quer crer.
O meu Pai levantando as quatro da manhã.

*

A mão dela instiga as cortinas da casa.
Um vento assoma estas quatro paredes.
A comida dá-se fragrâncias, dormiremos
juntos como pétalas da flor unificada.

É preciso ter uma casa a que chegar ontem.
Os clássicos compendiam os temas fundamentais,
os quais são: o direito a ver estores azuis,
a galeriar sardinheiras e a ser português.

Ela irmana-se da louça antiga que colheu
dos da morte do Pai despojos, uns anos já há.
Esparge panitos, receitas, mnemónicas
(leite, pão, graxa, azeite) que me comovem.

(A casa é ela, claro, é o seu organismo.
Eu ando aqui a pensar num chapéu.
Às vezes, rio-me ou choro ou cismo:
isto de ela em quadras é pôr-me ao léu.)


*

– Ponha-se na rua

– disseram-me o dono do café e o professor de literatura.

Assim fiz e tenho feito e farei.

*

O condor peruano ainda passa:
hammer, nail; sparrow, snail.

*

Eu da vossa não sei nem posso falar
Mas a minha vida é pura e involuntária
Como um rio vizinho de zona industrial.

Eu do vosso nenúfar não falo nem faroeste
Mas ver passar senhoras em galeria
É alegria ainda, alegri’inda para mim.

Eu da Sylvia Plath digo nada já que os bailes
Da minha terra nunca que eu saiba dançaram
De tremoços pasodobles pevides e tanguédias.

Eu nem falo por mim nem por nós
Falo com uma garganta de cidadão breve
Que tanto um dia foi como deixará de ser.

*

Sentar(sentir)-me-ia aqui um pouco mais
Ante a glória têxtil das pessoas pobrezinhas
Que cumprem as gerações leite-mármore
Urbe-orbitais ao empalidecer do dia.

Está fresco, quem diria? Junho não é já quem foi.
Sói é dizer que em Leiria, Maio foi e Junho dói.

Julho etc.

*

Subia eu, em outras dimensão e cidade, a Dias da Silva. Árvores escoltavam vivendas de médicos, solicitadores, professores reformados no bom tempo. Um ar pespontado a ginjas, a barros vermelhos. Uma possibilidade de negar o não-querer-ser. Eu era em Coimbra um autor de canções, J. M., como esta:

Quem sobe ao alto da Cruz
Que de Celas é nomeada,
Sobe ao alto da luz,
Morouços e Cumeada.

Dá-se a pessoa em doce
Clara que é santa de Inês:
Quem será que foi que a trouxe,
Dá-se o recado: 1, 2, 3:

(refrão:)

Vibra Coimbra ligeira,
Eira de mil gerações.
Timbra sem eira nem beira,
Pátria (talvez) de Camões.

(repete refrão.)

E Lordemão, Rocha Nova,
E a Pedrulha até Eiras.
Muito mais sofre quem trova,
Trovam até as carpideiras.

Dá-me a flor d’ Arregaça.
Traz do Tovim o perfume.
E se não for por desgraça,
Não te recases por ciúme.

(refrão:)
(repete refrão.)

(A próxima quadra é falada, volta-se ao canto depois:)

Um perfume de comboios
Como quem cheira, como quem lê,
É como a Mata dos Lóios,
Coimbra-A, Coimbra-B.

Há um sintoma de chuva
Perto de São Bartolomeu.
A Praça Velha é uma luva,
Digo-te a ti, to digo eu.

(refrão:)
(repete refrão.)

Desce a longa do Brasil
’té Casa Branca, traz mais um.
Sai do Norton do Carmona!
Viv’à Solum, viv’à Solum!

Ó pracita Oito de Maio!
Ó coração sacro Jesus!
Ó doce Ferreira Borges,
Ó meu Visconde da Luz!

(Se as putas não s’assustarem,
Nem entrar desassossego,
’inda vou, se me chamarem,
’té à beira do Mondego.

(Etc. e tal.)  

Canzoada Assaltante