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Monday, April 29, 2013

RIO-FLÚX - 15




15

Leiria, entardenoitecer de
29/IV/2013, segunda-feira

MUNIFICÊNCIA, A INOMINÁVEL

I

Saiba o senhor que chegando Abril, depois Maio, isto do mundo me parece tudo, digamos, uma munificência, quase um motivo cada coisa para euforia.

disse-me o cavalheiro com que eu sempre apenas troquei os bons-dias no Café da Rita. Sorri-lhe à munificência em jeito de, digamos, aquiescência.

II

Amanhece quando as coisas começam a deixar de ser vidro, quando voltam a ser porosas, destrutíveis.
Anoitece quando a hialurgia retorna a reino –e por todo o lado a magia é finalmente humana, isto é, finalmente entregue aos bichos.

III

Aos bichos
da sede.

IV

Sábado passado, pelo entardenoitecer, eu fumava à varanda um cigarro cujo fumo, como eu, esperava qualquer coisa inominável. Talvez fosse música o que cigarro e eu esperávamos. A música veio. Veio merendar comigo. Era a primeira das minhas filhas.

V

Agora toco os objectos com mais simplicidade – como se eles fossem um piano que os anos tivessem tornado humilde, acessível, cordato quase até. A mesa do Café, por exemplo, que é de alumínio reforçado da cor de certas invernias pintadas nos manuais da Primária para ilustração das estações do ano. Outro exemplo, o caderno, que me faz a companhia glauca dos espelhos de papel – e em que o meu rosto pode exercer a idade que quiser, pois que querer é fingir que se quer. E se crê, como eu não creio, nunca cri.

VI

Foi-se embora o Senhor Munificência.
Já a Rita procede à limpeza do estabelecimento.
Sou o último cliente.
As vezes na vida que o tenho sido, c'um caraças.

Sunday, April 28, 2013

RIO-FLÚX - 14








14

Leiria, entardenoitecer de
28/IV/2013, domingo

ESPÓLIO

I

Uma mulher diz:

– Eles falavam sempre um com o outro, eu não os percebia, acabava por adormecer, acordava sozinha, já o meu tinha saído de casa e nem sempre a noite mo devolvia.

A outra mulher faz que sim com a cabeça, entende-a bem, o suficiente para nem aventar um arremedo de consolação da amiga. Está grávida, tem mais de quarenta anos, não sabe se há-de chorar ou se há-de chorar.

II

A penumbra instala-se em câmara-lenta-e-muda, carvão em pó o mais fino, farinha de carvão, pública cegueira de uso privado. As árvores alastram, a mancha delas toma conta das águas múrmuras. E o saibro é crespo, canta estaladiçamente no calfe dos pés peregrinos. Ou fugitivos.

III

Um dia, não já mas não remoto também,
restolho de papéis será o espólio:
sombra de idas sombras,
bálsamo não demandado,
nem resto nem rosto já. 

IV


Um Cecil Trevor Broom de há cem anos à porta de uma estalagem de mala-posta depois do desjejum. Choveu muito durante a noite, a estrada é um arroio de lama que se vai enregelando devagar. De pé, a um passo do pórtico, Broom fuma a cigarrilha dominicana. Pensa no que conversou com o sócio Ralph Neville McPherson, o mais leal dos seus amigos, talvez mesmo o único Amigo. Nem por sombras (sombra de idas sombras) pensa na mulher. Na de McPherson sim, pensa. Está grávida. E isso fá-lo sorrir na penumbra da manhã, espólio do século.

RIO-FLÚX - 13 (agora completo)




13

Leiria, 28/IV/2013, domingo

IMPORTÂNCIA

I

Sou um homem. Ou não. Ou ainda não, talvez não ainda. Sou um dos homens. Ah, assim sim. Um dos. Nem a gilete me distingue de todos quantos outros. É verdade que me exilo quando escrevo. O onanismo literário não é pecado – é só o processo de consumir o Tempo das pastelarias, quando o domingo enverga o peplo merencório. Entre homens do milénio estreado há pouco, parecendo todavia já que há tanto. Se era afinal para isto o nascimento? Por que não, aliás?
Sou o terceiro na fila da registadora para pagar o café e o pão. É de malares limpos, a caixeira que recebe as moedas e, qual fada de salário mínimo, faz soar o sininho da gaveta devoradora de cobres. Já a vi na praça, acabado o turno. É quando solta o cabelo, trocadas as chinelas brancas (como as das enfermeiras aposentadas) por botas de amazona sujeita a transportes municipalizados. Se calhar, toca clarinete na filarmónica da vila onde a segunda-feira da folga é uma eternidade reiterada pela cal do muro cemiterial e pelos velhos sentados no rebordo do fontanário extinto esperando-a, à eternidade. Colecciono cães imaginários que roem os ossos da infância.
Nada é de grande importância.

II

Escrevem os calhamaços por receita, metem-lhes umas cena de sexo para voyeurismo das divorciadas que os compram nos hipers e nos cêtêtês, comentam merdas nas televisões – e assim vamos todos andando abóboras cinderelas à espera da carruagem da meia-noite, três ratos numa panela/outros três num alguidar.

III

Ao calafrio/arrepio de ontologias antológicas, no antípoda de baixo como de para cima: bela maneira de passar a tarde, quanto menos não seja e mais não for. Como este cavalheiro, muito cívico em sua solidão tipo fato-de-treino-dos-domingos, muito bucal de um mau hálito a papel-selado e maneiras vinte-e-cinco linhas vincadas na longitudinal. Chega a ser comovente a evidência do poço tão vão que é no concernente às necessidades afinal mais básicas (o m. q. excruciantes) da vida, i. e.: um pouco de Vivaldi (embora, é claro, Lester Young), as recordações desenfreadas a meio da fala que alguém nos tosse ao rosto, o sabor a outra coisa da água bebida numa cidade onde se não nasceu mas em que é possível morrer – e a possibilidade de morrer agravada pelo desejo de renascer lesto e jovem, ou Lester Young.

IV

O sem-abrigo. Deram-lhe um pão que era para as pombas, não tem mal que um pouco ratados os três – o pão, quem o recebeu e quem o deu.

V

Nem sei que haverias tu de querer mais, se alguma coisa e que coisa, afinal há chá e bolinhos, de canela uns, de noz outros, de manteiga açucarada todos. A verdade é a verdade não ser precisa: nem de necessidade (ou obrigação) nem de acuidade (ou precisão).

VI

Além, entre este caderno e o Rio (flúx, ambos), um rapaz careca com uma mulher vermelha. Ele fotografa postais trivibanais da Cidade, ela vai andando. À noite, ela não anda – alterna. Já deu para ter com lhe comprar a Nikon.

VII

Vai e volta com o vento o olhar as coisas.
Só não é o mesmo, quando ao sítio volta,
o sítio de que com o vento se deixou ir.

Há uma mensagem nisto, mas desconheço
que cifra a emaranha e me a torna
irresgatável. Tenho de volver-me coisa

e ser olhado de eólica mente.


RIO-FLÚX - 13 (I) - domingo, 28 de Abril de 2013




13

Leiria, 28/IV/2013, domingo

IMPORTÂNCIA

I

Sou um  homem. Ou não. Ou ainda não, talvez não ainda. Sou um dos homens. Ah, assim sim. Um dos. Nem a gilete me distingue de todos quantos outros. É verdade que me exilo quando escrevo. O onanismo literário não é pecado – é só o processo de consumir o Tempo das pastelarias, quando o domingo enverga o peplo merencório. Entre homens do milénio estreado há pouco, parecendo todavia já que há tanto. Se era afinal para isto o nascimento? Por que não, aliás?
Sou o terceiro na fila da registadora para pagar o café e o pão. É de malares limpos, a caixeira que recebe as moedas e, qual fada de salário mínimo, faz soar o sininho da gaveta devoradora de cobres. Já a vi na praça, acabado o turno. É quando solta o cabelo, trocadas as chinelas brancas (como as das enfermeiras aposentadas) por botas de amazona sujeita a transportes municipalizados. Se calhar, toca clarinete na filarmónica da vila onde a segunda-feira da folga é uma eternidade reiterada pela cal do muro cemiterial e pelos velhos sentados no rebordo do fontanário extinto esperando-a, à eternidade. Colecciono cães imaginários que roem os ossos da infância.
Nada é de grande importância

Saturday, April 27, 2013

RIO-FLÚX - 12 (I) e 11 (I e II)


12

Leiria, 27/IV/2013, sábado

DIADELO

I

Posso ter quase tudo. Basta não querer. Na manhã que sucede a uma véspera apagada, por exemplo. É agora, a luz é total como o céu. Céu é não haver detalhes: é  tudo de uma só vez a uma só voz. E em azul, o que sempre é bónus. Há horas que espero as pombas. O arroz que trago na algibeira dextra ainda as não mereceu. Eu sofreria mor placidez se elas viessem agora, permitindo-me escreviver sem pen(s)ar tanto nelas. Passando à fase seguinte do sonho. Do sonho – ou da espiral. Não tenho grande coisa porque me encontro em estado de querer. Quero uma ou duas pombas no passeio em frente ao Café da Rita, dar-lhe(s) pão e arroz, integrar a cadeia alimentar, o ecossistema, o formigueiro retributivo. Para adiar (ou aliviar) essa querença, trabalhei um pouco já no Caderno Verde, objecto celulósico em que inscrevo palavras que ou me hão-de ser úteis ou acabarão por morrer-me. ECÚLEO. CONSCRITO. DIADELO. FLAGÍCIO. HIPERDULIA. INÓPIA. ORNATO. A haver problema, o problema está em as palavras precisarem de um corpo para ser. Um corpo que as seja. Sem corpo, as pessoas são só palavras. E sem palavras as pessoas são só a falta do não-querer, são só a impotência.

11

Leiria, 26/IV/2013, sexta-feira

FORMIGUEIRO

I

O mistério da vida da formiga. Não parece individual, tal existência. Parece que o único sentido é o formigueiro. Não é assim, em Poesia. 

II

O Mandador dos Céus procedeu hoje ao encerramento dos ditos. Manhã e tarde fechadas como punhos não solidários. A sexta-feira rodou às cegas como um boi perdido numa lezíria só de cinza.

Friday, April 26, 2013

RIO-FLÚX - 10

Leiria, sobre o Lis, 21 de Abril de 2013




10

Leiria, 24/IV/2013, quarta-feira

COLÍRIO

I

Voltaram as jornadas quentes. Dizer jornadas é dizer fornadas. Por quanto é vista, dá-se da flora a pujança, a furiosa alegria da cor ao ar. Tudo propicia o quase entendimento do para-quê de se ter nascido. A terra bebe quanta água pode, retribuindo em alimento e oxigénio. Os animais aderem à contracena da contraluz povoando o fresco das sombras, saciados de açúcar solar. Isto da vida: esta orquestra que ela é em fervor. Bailo devagar a seu compasso. Isto é: respiro com os gestos. A harmonia é legível. E o de Leiria é o mais bonito dos castelos de Portugal, peço perdão mas é. Quando a casa voltarmos, o meu Irmão Fernando e eu hemos de avançar beira-Lis. Pais jovens com suas crias juvenis veremos que auferem o licor etéreo do pré-Verão. Como feridas boas e brancas, nuvens suspendem o azul muito puro. Há toda e mais alguma razões para crer, seja no que for, sem recorrer à esperança. A esperança é a usança da espera – a evitar, portanto. Mais tarde, quando o crepúsculo tomar todos e cada um (um por um, sem falha nem remissão), a hora será de esvaimento – como é de lei & Natura.

II

Recordo certo instante vespertino, voltava eu de Aveiro ou de Oliveira de Azeméis, não estou certo de onde já.
Viajava sozinho no meu carro.
(Sim, já tive um carro.)
Dei por mim ante um vale maravilhoso.
O Sol parecia subi-lo.
A vegetação era viva de animais minuciosos.
Detive a marcha, suspenso de tanta maravilha.
Recordo isso agora, não sei por nem para quê, enquanto com o Fernando espero que o chamem para a consulta de Oftalmologia.

III

Cavaleiros frúem a fresca álea a manso trote.
Os alazões são de uma nobreza maviosa.
Em V, duas encostas da serra dão-se em decote.
Uma fonte canta cristal sem que se note
tristeza ou euforia nas voltas dadas ao mote.
Respirar é uma arte deliciosa.

Vamos rumo a oeste tecendo loas
à bolina da brisa que, zéfira, é favónia.
Ver com a mente faz bem à cachimónia.
Aquela é Albertina, a outra é Lurdes; vão c’Antónia
beber chá frio e comer as doces broas.

Compressa de bons campos, a velha Cidade
parece remoçar-se, ladina qual pardal.
Deriva-se por ela em andor de Portugal.
O passo é leve e lento em liberdade.

Sou por vezes agraciado de sonhos cuja simplicidade
chega a ser movente, comovente – e tocante.
Ontem sonhei, veja-se cá, com bacalhau.

Despertei sorrisonho, o que não é nada mau.
Refrescado, de atavio aprumado, dei-me levante

e fui à Rita, que serve a melhor bica da Cidade.

IV

Às imagens do mundo acresce o vidente.
O nada não é a ausência das coisas mas
a do sujeito.
Não é, ainda não, o nosso caso, valha-nos isso.

À orla litoral uma quase-alegria do corpo.
O iodo penetra as frinchas do estar-em-ser.
Se feminil figura lacra a luz o passeio marítimo,
então o caso é mirar com educada discrição
a gino-estesia patente andante adiante.

Regueifada de boas chichas, Maria Eduarda
adentra-me, lípida & boazonamente, o campo visual.
Foi ninfeta outrora. É ora matrona.
E, como disse, boazona.

Puxa-me entretanto a obrigação para casa.
Espécie de doce fadiga me torna seda a pestana.
Hoje, francamente, nem vou com o grão-na-asa,
tenho-me portado bem toda a semana.

V

Lacrimeja colírio a arrependida,
beija em delírio seu saudoso.
Foi escolha dela, o ter esta vida.
Regressa ao futuro o passado danoso.

É de mamas moles e palavras duras.
Não é má pessoa, a vida é-lhe avessa.
Enfuna o decote, assim tipo condessa.
Mas chora no escuro ’mas mil amarguras.

Chama-se Yvette, o que não ajuda.
Tem quatro afilhadas, mas co’ elas não fala.
Vive mais na cozinha, sem visitas na sala.

Namorou-se em tempos de um sargento casado
que nunca a estimou e a cobriu apressado.
Amanhã vai para um lar. E já fez a mala.

Wednesday, April 24, 2013

RIO-FLÚX - 8 - (caderno-livro em construção andante)


8

Leiria, 23/IV/2013, terça-feira

ORÁCULO SOLAR

I

Muito sol anda no ar, hoje.
Terrível chega a ser, tanta beleza.
As mulheres beneficiam muito do dia.
A tarde espaneja-se toda bandeira.
Fixo nas coisas um olhar serenado.
Espero a pomba das três horas.
Trouxe-lhe pão novo, é claro.
Envernizadas, coruscam as árvores.
Até a amargura vale um esmalte.
Por onde seguiria, se não por dentro?

O trabalho daquele cão é ladrar aos carros.
Que irada irritação o excita?
Ulcerado de sombra, o muro humedecido
é escrito a hera povoada de pardais.
E um gato tomado de sono bebe sol.
E eu quase não existo, quase não hesito.
Amarela como um recado alegre, esta mulher.
Esta mulher aloirada de seiva passando.
Passando e levando com ela a gardénia macerada.
Tudo vale tanto, melhor do que nada.

Desertada de gente, a casa antiga apodrece devagar.
É à face do Rio, que sereno brilha & vai & fica.
Falo com a senhora mãe do Eduardo.
Conta-me ela de quando a mãe dela era caseira.
Que nada lhes faltava na quinta:
criação, horta, fruta, sardinhas, azeite.
Conto-lhe a infância da minha Mãe.
Conto-lhe dos pais da Mãe, caseiros de quinta também.,
Azeite, sardinhas, fruta, horta, criação.

Do milho, a broa-pão sustentando gerações.
Tinta permanente: ingénuo, perecível adjectivo.
Olho em qualquer direcção cardial: a tudo pertenço.
Quando a noite visita os olhos, apossa-se deles.
Não agora.
Agora, a claridade instaura o País.
A claridade faz bem até aos desgraçadinhos.
Os desgraçadinhos que andam no gamanço e os outros.
E nos solares os fantasmas são familiares.
E o Senhor Engenheiro tem uma amante em Lisboa.

Ai aqueles olhos verdes, perdição da carne, fúria do leite.
Amazona preclara, intangível, mosqueada.
Matizada a cordões nervosos à flor de álacre lacre do mamilo.
Rebentação de escumas, penhasco dulcíssimo.
É se calhar casada com algum advogado.
Ou pior.
Que bem se embalsama ela de cremes franceses.
Ai que água de azeitonas chilreia ela.
Escrevo as minhas décimas à indiferença dela.
Boa para levar para uma ilha mais uns livros.

Tem sido na prática assim a minha vida adulta.
Digo: a minha adúltera vida adulterada.
Escarneço a vida, mas ainda sou laborioso tipo rã.
Pedem-me do Louriçal um entreacto jocoso.
Escrevê-lo-ei amanhã, entre bebidas e fumos.
Ponho isto aqui, sentido lhe não demando.
Chega-me hoje p’lo fim da tarde o Fernando.,
É meu Irmão – mais não há que dizer.
O Sol é todo uma Gréci’Antiga.
Afio o lápis, vou fazer outra cantiga.

II

– Mais uma que não vai à missa – diz a mãe
do Eduardo, referindo-se a uma brasileira-de-esquema
que surde pela Avenida 22 de Maio de telemóvel
(“célúlá”) na orelha pingona de cera.
Sorrio à expressão, contentinho dos rins.
Uma alforreca tisnada carrinho-bebéa a cria,
Um cão boceja no separador relvado da via.
Segrego o pus benigno e inócuo dos versos.
Deveria talvez fazer sopa para a ceia.
Sei-a de cor já (à vida ávida).

Volúvel, o Rio arde além dele a febra fresca.
Aquilo é tudo um marulhar de cristais.
Sempre que qual um ferrete a estupidez das
pessoas genuflectidas ante o não-mistério,
passo-me da mona, a estupidez desmona-me todo.
Sobra porém Bach, sobra todavia Ruy Belo.
Português qual pardal, tenho muita pena de não ser católico.
O Senhor perdoar-me(doer-me)-á, estou certo.
Ínsua de tangerinas face à Vala do Norte:
infân’Mãe’distân’cia: verdade, que bem na sei.

Quanto tempo hei ardido para aprender a escrever?
Todo ele.
Sentido para isto?
Nenhum em peculi’particul’ar.
Mal que isto faça?
Idem.
(Cospe as pevides, não as tasquinhes.)
Às vezes, em Casa, abro o caderno.
Abro o caderno, dou à Mulher conta do dia.
Ela escuta, raposa vegetariana na floresta carnívora.

Não há-de ser assim para sempre,
a não ser que por escrito fique.
É outra das albardas da Poesia:
querer ficar, crer ter-sido.
A gente masculina ante um par de mamas:
boquiabre-se o eterno efebo ante a
Mãe-Ressuscitada.
Ou, como há pouco diss’escrevi:
Tudo vale tanto, melhor do que nada.
Nada.


A pomba da tarde com(a)pareceu às 15h36m.
Miguei-lhe o pão, fiz-me revoador alcoo’eólico.
Atirei-o-esmifrei-o ao ar.
Ela comeu-o de boa-bom boca-bico.
Acabaram-se-me os cigarros.
(A infância também, por mais que eu.)
Lavanda nórdica eucalipta-me a fala.
Falo com a mãe do Eduardo no Café da Rita.
Há muito tempo não pinto casas a lápis.
Excepto ontem.

Excepto ontem porque a Graça quis saber.
Arejámos a sala, sentámo-nos, havia água fresca.
Toma-cá-dá-lá, li-lhe o lápis.
Ela ia reiterando com a cabeça o próprio Pai.
O dela, que fez casas onde ’inda hoje outras pessoas.
Tardou nada, era noite.
Eu assim para ela: – Vês?
Ela assim para mim: – As orquídeas, há que mudar-lhes a terra.
E eu assim: – As orquídeas. E ela: – A Grécia (a Graça), às vezes tenho saudades desse tempo.