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11/06/2019

Outro fragmento




(O silêncio acaba sempre por falar por nós.)

06/06/2019

Um fragmento recente de livro a publicar quando puder






É muito bonito amar a Cidade em que se nasceu – a ponto de (con)fundi-la com a Mãe biológica que nos deu via para tal nascimento. Todavia, é preciso, ou antes, é impossível não odiar o empobrecimento material da mesma Urbe. Roubaram daqui a(s) indústria(s). Degradaram daqui o(s) comércio(s). O Ensino – aliás à imagem da Globalização – é uma merda. Se levassem daqui a (caduca) Universidade, se fechassem os portões aos Hospitais – Coimbra seria uma Pompeia que de outro vulcão nem precisaria. Assim é, para minha profunda consternação.

10/11/2014

Entrada 56 do caderno 16 da série Leite dos Santos

56


Leiria, tarde de 11 de Maio de 2013, sábado




Um restolho carbónico de estorninhos ferve nata de sombra
em panorama de pinhal-barragem, certo dia além do Tempo
em que estou de pé no esquecimento como um crucifixo
ou um cão dos que aos donos ardeu a casa toda.
Quais duas jóias de vidro preto, as moscas zaranzam
no ar parado, o proboscídeo ar do Verão estancado.

Quando paro para reler a primeira estrofe do 56,
sorrio à evidência demonstrável de como
anda um homem a criar uma folha
ou uma falha
para isto.
Sendo isto

o trabalho dos armadores de ferro nas casas que começam,
algumas arderão de fogo vivo, outras do mero mortal Tempo,
príncipes que bordam o fundamento da cofragem,
um mês entre a Fontela e Vila Verde trabalhei com eles,
um deles ofereceu-me sopa da dele,
retribuí-lhe com um pedaço de queijo-ovelha-cabra,

conversámos na paragem de almoço,
pertíssimo o Mondego morria em pura glória,
pura glória é quando qualquer coisa em ti
se torna atlântica para sempre, qualquer coisa que,
como todos os do ferro, que não de ferro, sabemos,
dura pouco. 

21/10/2014

Entrada n.º 55 (da manhã de domingo, 12 de Maio de 2013) do caderno 16 da série Leite dos Santos

55

Ib.


É raro agora pedestrar-me por Coimbra em podografia,
a vida é ora para mim sinonímia de Leiria e
e, como em toda a parte me aconteceu, o domingo é tristonho,
espécie de solução de descontinuidade entre a morte e o sonho
até as pombas pela Cidade parecem macilentas &
mais lentas, é como se pensassem sentindo que não

gostam do que sentem pensando-se pessoas.
De fêveras fracas é a flausina que veio
aquaminerar-se sem grandes maneiras educadas,
a primeira coisa que fez, ainda nem se sentado tinha,
foi ir à mesa dos três carecas cravar um cigarro,
foi esperta, evitou-me num soslaio por ter percebido logo

que eu estava com cara de pomba ao domingo pensando-se
poeta ou, o que é pior, pessoa normal.
Deu-se já ao deus-das-coisas-para-nada o meio-dia,
hoje o sol já ferra, seria bom ver o mar sem precisar 
dele, como quase tantas vezes nos acontece a quase todos,
ao contrário quantas vezes da vida, de que a gente precisa 

sem a ver.
Pensei há pouco em Coimbra só porque sim,
se fosse como nos meses em que esperei a morte da Mãe,
hoje seria dia de levar ao Café S. Paulo o bornal,
e ao senhor Manuel & don’Adelaide o mesmo,
e sentir a lâmina do Mondego entrando, azul-pomba, no peito.

06/08/2014

da série Leite dos Santos - entrada 54 do caderno 16 - BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ

54

Leiria, manhã de 12 de Maio de 2013, sábado


Sei de uma mulher e de sua filha, o homem da casa
fugira delas para a venezuela-do-costume,
acabaram as duas, uma sem saber da outra,
por se relacionar com um rapaz de maneiras
& unhas polidas, quando finalmente se descobriram
ambas utentes do abraço dele, chamaram-no a casa

e esquartejaram-no o mais civilizadamente,
ele ocupou o estúdio das águas-furtadas,
deixaram-lhe o domingo de folga,
segundas-quartas-sextas para a mãe,
terças-quintas-sábados para a filha,
ele engordou um pouco, tornou-se algo paxá,

mas no geral a vida ia e corria bem, entretanto
o contrato dele nos Correios acabou,
de modo que elas ficaram felizes até,
tinham e mantinham uma loja de sementes,
despediram a empregada de quase toda a vida
e meteram-no lá a ele a ensacar amostras de girassol

para as feiras e para as entregas ao domicilio,
o problema foi numa destas ele se ter deparado
com Clotilde, uma viúva larga como a vida
de algumas pessoas como ela, ela-Clotilde chamou-o
à pedra da razão, pôs-lhe casa na mansarda do prédio
que todo lhe pertencia a ela, como ele passou a pertencer.

14/07/2014

49 do 31 (Leiria, entardenoitecer de segunda-feira, 14 de Julho de 2014)

49

Com os anos, é possível aprender a ser-se amado.
Passou há muito, felizmente, o tempo das experiências.
A receita eficaz está agora na adoração pachorrenta:
as pantufas irmanadas, o gato plácido,
as andorinhas-de-barro na empena do alpendre.

Os grossos cordames dos navios não logram isto:
são só cordames de navio – e está muito bem.
Em vários istmos portuários eu vi tais cordames.
Daí que, sim-talvez-ou-não me ames,
o que retiro é ter sido o que olhava navios.

Não posso, bem no tente eu embora, deixar-me todo em papel.
Há coisas que são só p’ra dizer aos domingos
– e hoje é segunda-feira na minha vida e
amanhã também.
Penso ter-te posto isto em pratos os mais limpos.

Gosto, como tanta gente gosta, de crianças ao vento.
Sinto-nos cadernos-de-colorir – e elas, as cores.
Mas depois derivo, dou voltas na chuva mesmo fazendo sol.
Nos espelhos das barbearias, ao longo dos meus já tantos dias,
tenho visto mais do que a mera multidão restrita

do barbeiro & eu.
Uma vez, num inverno poderoso como um guante de ferro,
tremi sezões que não provinham de moléstia no sangue.
Fiz por esquecer isso em trovas fingidoras & bem escritas.
Também fiz filhas, nem tudo foram falhas.

Hoje, que é julho por minutos, já recebi sinais,
telepáticos talvez, da nunciatura feliz e descamisada
sempre tão afim dos poetas-de-esplanada.
Isto, à flor como no fundo, vale-me tudo,
por valer nada, ó só minh'(a)prendid'amada.

13/07/2014

Mais quatro entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos - Leiria, tarde de domingo, 13 de Julho de 2014


36

A senhora Gioconda nos olhos nos olha
– e sorri de nós, não a nós.
Sorrirá da pobreza de cada um,
de cada um da escassez a que assiste.

Figura de colo manso, de suave tintura as mãos,
é senhora para isso, disso e de/para muito mais.
Habituámo-nos todos à sua voraz ubiquidade,
estatisticamente símil à do Cristo e à do Che.

Nimbada de ordinário mistério,
parece sacerdotisa de penhoristas,
pois que para sempre de prego pendurada,
a pobre.

Ninguém a requer em casamento,
ninguém aparece que um vermute lhe pague
em algum aprazível balcão do entardenoitecer.
Onanismos, não merece. Erecções, muito menos.

Pode que por ser tão Mona.

37

O corpo sente-se branco na luz completa.
Estas árvores, porém – que sentirão?
À luz toda, subindo água, cada delas, aberta,
abre-se em altura por & à condição.

Panos limpos domesticam a cozinha
que em manhã livre ela lavou.
A sala cheira a qualquer coisa azevinha
que, avezinha, ela (po)voou.

Eu vim à rua. Em casa, ela, de si descuidosa,
cuida das plantas, que dela são prolongamento.
Nunca se queixa, nem se lhe escuta lamento

do que-foi-que-não-foi. Habilidosa,
bricàbraca coisas, abre, fecha, veda, estanca.
Nisto, dá-lhe a luz: ei-la, tão branca.

38

Que espécie de pureza em leite poderia eu
não prometer-te em vida por mais um dia?
Ouvi falar crianças, foi num outro Inverno. Sucedeu
que aquilo me deu, não sei, uma ’spécie d’alegria.

Em torno de nenhum centro me fiz periferia.
Ah sim, tenho habitado abrigos só mentais.
Contas bem feitas, usei já não sei quantos portugais.
Deles, nenhum a algum outro preferiria.

É mesmo assim como te digo, podes crer.
Vou usando com proveito a ciência da não-espera.
Telefonam-me muito, mas é p’ra me dizer

que este & aquele Amigo não chegam à Primavera.
Porra, chiça, merda, catano!
Já (des)contei cinco, só este ano.

39

Com deliciosa, insuportável quase, lentidão
a do segundo-andar acende dela o cigarro.
De vez em quando pela rua passa um carro
e mais nada se passa, há felizmente quietação.

A mulher disse-me que trouxesse versos & algum pão.
Esqueci-me em casa do isqueiro, peço fósforos à Sónia,
robusta empregada, que seria amazona se fosse da Amazónia.
A luz azula a esplanada. É pouca a frequentação.

No bornal, trago o Ángel Crespo & o Antoine de Saint-Exupéry.
Já me icei duas vezes daqui: uma p’ra fósforos, outra p’ra chichi.
Vai bonita a tarde: luz & brisa são dupla consolação.

Bocejo o meu bocadito, apesar dos três cafés que bebi.
Se calhar fecho ora o caderno, vale pouco o qu’escrevi.
Valha, enfim, o que valer –  desde que me não esqueça o pão.

Três entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos

Leiria, manhã de domingo, 13 de Julho de 2014

33

Humana frota tripula a manhã dominical
ao remanso fresco que a hor’ainda dá.
É uma matina portuguesa, ilesa, meridional:
melhor do que ela é que não há.

Às nove, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra-a-Minha,
rezaram missa por alma e em intenção
do meu ido Amigo José António da Conceição.
Neste sítio mundial, que Leiria é, a luz pergaminha

o fluvial arvoredo, que é de rama umbrosa.
A vida, assim quieta & (c)alma assim, é decorosa,
é rosa de que se não augura o fim.

Mas tem-no. Detém-no. Para tal, não há remédio.
Suficiente & pertinente é, por ora, capar o tédio,
sabendo de ti alguma coisa – e tu, alguma de mim.

34

Desse azul mais escuro
que é veludo noctâmbulo
& da manhã preâmbulo,
reverso dela o mais puro

– desse oferta te fiz & faço.
Lento, cada verso, tipo melaço,
para ti escorre, quer ser, entregar-se.
O melhor do receber ’ind’ é o dar-se.

35

A mulher hoje de azul na esplanada clara
é dessas belezas verticais que ao céu mesmo sublimam.
Duas belas orelhas de viva louça a encimam.
E o rosto é desses rostos a que se não chama cara.

A bacia dá ao torso a sugestão da ânfora.
O pé, a ouro de tiras sandaliado,
tem qualquer coisa de âmbar, digo, de cânfora.
Todo o resto é muito bem ataviado.

Tem marido, claro, que à trela usa ela.
É rapaz de têmporas grisalhadas & de perfil discreto.
Usa camisa castanha com gola amarela

e umas sapatilhas lavadas, sérias, de tom correcto.
Ambos contribuintes, eleitores ambos democratas.
Ele é Rui. Ela é Maria do Amparo Gomes Pratas.





22/05/2014

Dia feriado do Município de Leiria. Ideal para maluqueiras em verso (caderno 30 da série LEITE DOS SANTOS)

19

AQUI NO CAMPO É DIA FERIADO

Leiria, manhã de quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Em pleno feriado, esta calma de campo desertado.
Mais livres me parecem as aves ao fresco.
Mais livros me parecem os campos da ave fresca.
Os toxiarrumadores não têm hoje que fazer.
Aborrecem-se devagarinho sem pão nem ópio.
Friúra de azulejo por gravura.
Estou aqui mui assentadamente contente.
Gosto do campo.

*
**

Durante muito tempo acreditei na dádiva de si
com que cada um(a) finge entregar-se.
Como este homem de carão vermelho-sanguíneo-rubi.
Como a minh’antiga gata nas canelas a esfregar-se.

Sei hoje que não é preciso um(a) acreditar-se.
Todos antes por nenhum(a), cada um(a) por si.
O de rosto encarnado veio, creio, empanturrar-se.
(& eu interrompo o soneto par’ir fazer chichi.)

Estou de volta. Envelheci. Sofro de catarse,
de gota, de meia rota, de maleitas que nunca vi
sofrer o inimigo, o antipático – nem agora nem aqui.

Componho a braguilha, discreto, por disfarce.
O zíper enferrujou, desdentou-se, vai encravar-se.
Tá-tá-tara-tá, pi-piri-pipi-pi-pi.

*
**

(Conversámos muitas vezes no escuro.
Foi quando melhor nos resultou a conversa.
Em solidão, fui talvez mais puro
– mas de forma inversa.)

*
**

(E de também inversa forma é o soneto que se segue:)

É o que V. dizia: isto aos feriados é campo.
No relvado municipal, beira-Lis, um melro, um santo
melro a invisíveis larvas picotando.

É de retinto carvão, é lustral, é tão bonito.
Refulge de puro oiro o ouro do seu bico.
Em verbo fotograf’olho o nigromante saltarico.

Lá vai ele a seu nenhures ominoso.
Não, espera, poisou adiante, só mudou de sítio.
Por não ser bipolar, não é dado ao lítio.
À minhoca sim, lípido maravilhoso.

Quem bem rimou O Melro foi o Guerra Junqueiro.
Faço o mesmo por menos, que sou só Abrunheiro.
Mas, em a casa chegando, vou ler isto à mulher
- & de crisóstomo bico, como ela prefere.

*
**

A maresia física chegava à cidade portuária
pelo ar das coisas que ao Tempo mesmo suspendiam.
Entre nós-ninguéns, as imagens a gelo ardiam
- & a vida era vária & una & una & vária.

Já então à morte não havíamos por adversária.
Os acontecimentos eram lentos mas aconteciam.
Da barra marítima velejava a ânsia corsária
por ignotos remo(r)tos portos que nunca amanheciam.

Compactas décadas fecharam a noite precária.
O mesmo corpo noutro rosto se fez alimária.
Os que foram, não voltam. Não vêm os que iam

lacrar nestes versos os que se lhes seguiriam.
Calma. A cidade lá mora. Demora, aniversária.
& a morte será vária & una & una & vária.

24/03/2014

Conheci Augusto Mota em pessoa(s) - foi em Leiria, sábado, 22 de Março de 2014. Fiz-lhe um soneto, trouxe um pão.



Com Augusto Mota e Rosa Neves
Fotografia de Ana Ramon



O QUE NOS DER O DIA




XV


Vou hoje ver e ouvir o senhor Augusto Mota.
Isto decorre no sábado, Março-Marçagão.
Ao alto viceja o Castelo, do qual a cota
eu só azimuto por aproximação.

O senhor que é Augusto augustamente persegue
a rosa do dizer ficado por escrito.
Sem dito prescrito, persegue ele a rosa
por ser da Ortigosa & do Portugal pequenito.

Vou vê-lo agora, sentir que nos diz.
Oxalá muitos anos o tornem feliz.
É na Cerca do Castelo, mesm’ ao pé da Polícia.

Eu fui convidado. Venho sem malícia
ser grato & presente & gente por demais.
Poesia é a palavra feita gente. Nem menos, nem mais.

14/03/2014

Mais para o 25: de ontem já e já de hoje

FOTOGRAVURA INSTANTE

Leiria, quinta-feira, 13 de Março de 2014

Manhã.
Uma bambina chilreia na praça.
Entretida com o próprio infinito.
Passarito sideral.
Haja luz.
O Inverno foi de rigor longo.
Uma boa parte da colin’além é ainda verde.
Em campânula, um bom azul-redoma.
Cristalaria da nitidez.
É um referendo ganho.
Isto não morrer nem renascer.
Isto ser isto.
Isto ser isto assim.
Labuta dos elementos concordes.
Do ar, as povoações retalhando a terra.
Ontem, o olho-lua superintendendo.
A tundra gelando até o desejo-taiga mesmo.
Certame dos avindos.
Termos tido manhãs assim sem remédio.
Braço esquerdo, da moç’além, mãe da bambina.
& o bom verd’além em colina.



TOTTENHAM, 0 – BENFICA, 1 AOS 29 MINUTOS
– prosa dos restantes 61’

Leiria, quinta-feira, 13 de Março de 2014 (Noite)

A cidade arrefece a horas certas.
O polvo do movimento anestesia-se a si mesmo.
Não é desagradável sentir o deserto no corpo.
Coladas a cuspo de luz, janelas no cartão dos prédios escur’anoitecidos.
O arvoredo frúi a aragem que arrepia (f)rio.
A oriente de nada, a ocidente de nenhures.
Pasmo das rotundas: como olhos vazados.
Veludo refrigerado, solidão consuetudinária.
Isto do mundo é tabuleiro tudo.
Numa casa-de-pasto de largas altas vidraças, três, não, quatro indivíduos comendo sopa, cada um a sua mesa: peixes humanos em aquário, cada por si, gerindo cada um o orçamento próprio, sem mulher cada um dos quatro, única refeição quente do dia, vão levando o que trazem à vida, deixam-se anoitecer, deixam-se a noite ser.
Numa colina, o Castelo. Ermo.
Noutra colina, o Cemitério. Ermo também, mas de outra maneira.
Nos arrebóis, lumes domésticos, motorizadas encostadas à parede do telheiro, arames para a roupa crucificando camisas e fatos-macacos, no curral o porco repleto sonhando açougues, dia de reunião da Associação, resolver aquilo com o padre e com o patrão da pedreira para a Festa de Agosto.
Talvez.
À beira-rio, as solas percutindo cascalho, como se esmigalhando diamantes, prensando quartzos, incalculáveis tesouros do nascimento do planeta.
Sono das coisas, palidez dos vidros, rasto-rumor (luz-motor) de camiões na via-sacra-rápida muit’além.
Vontade de seguir num deles para qualquer lado.
À porta da pensão, boceja o padeiro, veio tomar café, regressa ao forno, artista nocturno.
Tabuleiro tudo, sim, é isso.
Paredes bem pintadas, a deste reduto.
Ele ainda há operariado com valor.
Gente insigne – mas antes o Castelo, mas depois o Cemitério.
Tem de se viver em obra.
Obra corrente como as águas da pensão, por cujo Lumiar há pouco o padeiro.
Falta pouco para Abril, ou Novembro, ou coisa assim.
De manhã, na papelaria, o homem de colete verde; o balde com rolos de papel-de-parede para quarto de crianças; o aprumo afiado da lapisaria; os cadernos sonhando a tinta do futuro.
Pela finimanhã, revoando pelo chão as folhas de uma revista estraçalhada.
Esquerda cardial, dextra cardial, zénite sideral, nadir do nada-nenhures.
O tempo é este, o vapor, a espuma, a escuma, é este o trabalho, esta a atenção.
Depois não vale já a pena, qualquer pena.
No osso da página tornada possível.
Como os restaurantes da beira-mar no Inverno agreste: aquários também, que do mar temem as águas em revolução.
Dizem que esta foi a mais pluvial invernia dos, digamos, últimos 35 anos.
Em Londres, últimos 32 minutos, o Benfica vai vencendo por 1-2.
Repousar um pouco junto ao candeeiro (cúbica e amarela, a peça luminotécnica).
Ar de enfermeira cansada, a da senhora que entra: encanecidamente entra, olhos aguad’azuleados, joelhos cambos de fadiga, sapatas brancas de couro sintético, sem adornos auriculares, sem anéis, sem verniz onicológico, blusa cinz’água fina, camiseta desmaiad’amarela, bolsa larga mas não atulhada, mãos laborais.
Se a eternidade for parecida com isto, há-de ser aborrecido morrer.
Quando a gente nasce, já os primeiros créditos do filme passaram há muito, passa-se o resto da fita a trabalhar para The End.
Belas palavras, belas frias palavras, minha querida.
Muitos de nós, sabe-se, chumbados à caliça da memória.
Dos idos em nós, persistência ou do nome ou do timbre palato-vocálico, ou da cercadura pisada dos olhos, ou do feitio dos dedos (pés & mãos), ou do ricto comissúrio-labial. Ou quase tudo em um.
Como aqueles, um por um, comedores de sopa. Três. Não, quatro. Só dois agora. Os outros pagaram & desandaram. Não ligam a futebóis. O primeiro a ir-se embora: pode ser Pietra. O segundo a partir: pode ser Arsénio. Os que ficam – Janeiro um; o outro, Crispim.
A sete minutos do término regulamentar, o capitão encarnado, Luisão, averba o terceiro tento da equipa, segundo da conta pessoal.
Se calhar, a reunião da Direcção vai ser só depois do jogo, sempre os homens casados têm desculpa para só regressar pelas meias-noites. Em solo britânico. Em areias de Portugal.
Isto é só uma quinta-feira. Não tarda, é Junho ou Fevereiro.
Infinitude possível: olhar o pano preto que azul foi: céu que dá noite, fabrica sem medida toda gás-vidro e deus nenhum, olha o diabo.
Dão três minutos de desconto, nem a toda a gente é concedida tanta largueza.



PLANO(S) QUIETO(S)

Leiria, sexta-feira, 14 de Março de 2014

I

Duas mulheres goelando ante chás-gelados-palhinhas, os telemóveis ao lado como pistolas de prevenção.
De manhã recordei-me da tarde abrasiva, foi no Verão de 2010, a Mãe no Lar assim para mim:
– E tu, quem és tu? –
e eu, escrevivente, fazendo, ainda & sempre, por ter o que responder-lhe.

II

A outra mesa, um rapaz esbranquicela de cabeleira à rasta. Vai enfardafarinhando-se de um mil-folhas crepitante. À frente do falso jamaicano, um rapazola parecido com o Marc Anthony cantor. Mosca-pêlo no sublábio. Bebem ambos coca-colas.

III

Além: a pomba de peito-madame-pompadour. Pombadour, portanto. Mais além: o estádio feio, o estádio absurdo. Entre estádio e pomba, o Lis, veia a tudo indiferente menos à ânsia pelo mar da Vieira.

IV

Quieto, aqui. Calmo. Um ligeiro toque de ansiedade, sim, mas perfeitamente dominável. Bolo de chocolate em casa, café feito de fresco. Pesadumbre palpebral. Não ceder à vocativa sesta. Alinhar linhas novas na máquina-info, arrancá-las ao manuscrito.
E então, isso feito, esperar por as que a noite queira dar.

Linhas para o Caderno 25/Leite dos Santos - todas de Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014

Q’À MESMA (COMO A LESMA)

Não oro
Não coro
Não corro
Não choro
Nem imploro
Que à mesma
Um dia
Morro.



CUIDADO CO’ HOPPER

Não fundarás, sequer fundearás, esta noite, qualquer diferença entre teus pares. Olhada de perto (i. e., de dentro), a realidade pode ser o desert’esespero, tem cuidado. Este homem é só como o poste-lampião público: quão privada é a malga de sopa que ele ingere contra o futuro. Numa casa-de-pasto pelas mesmas moscas habit(u)adas há décadas. Cuidado: que Hopper te não vassale a cabeça-em-visão.



SONETO DO NOME DA MÃE

Já que nesta série de cadernos me dispus
a dispor (de) alguma coisa da minha vida,
dou-as, vida & série, à própria luz
que branqueia muita coisa anoitecida.

Saúdo por dentro os leais amores fiéis
que berço me acalentaram sem preço.
Meço por meu nome os outros Daniéis,
que assim nos ’inda tratam, por bom apreço,

na terra onde gente me fiz quando feito.
É a norte da Coimbra-Pátria, é na Pedrulha.
Conheço cada pedra, cada braço direito,

cada pomba que ladra, cada caderno que arrulha.
Sítio da nascitura Hermínia: Maria Luísa
era p’ra ter sido. Não foi. De nome já não precisa.



BUCO(O)LISMO

Continuam elipsemente bonitas
as andorinhas que aos céus de Portugal
pintam de tinta-dita-da-China, catitas
& gaiatas quais crianças sem igual.

Prestam-se bem à melancolia
do nosso País os regatos inter-rurais.
Cantam prata noite & dia,
são frescos tenores sem rivais.

As mulheres dos homens, essas
fazem-lhes casa, tornam-nos lar.
Sem que eles o cheguem a topar,
montam o puzzle, unem as peças
(as doenças, os domingos, quebra-cabeças
que a sós eles não sab’riam juntar).



SONETO DO PRÍNCIPE REAL’VENIDA

Eu tive um pátio-quintal em Portugal.
Eu era então outra idade.
O tempo por demasia veio, mudei de cidade
– como quem idem de camisa ou de mulher, qual

inocente idiota malabar de bar em bar.
Ainda nessa vida (des)ando idiot&nocente.
É a minha forma de, só, ser só gente.
Aquele, olha, é casado, está p’ra s’divorciar.

Isto tem só de ser música, não precisa
sequer de haver plateia, balcão ou frisa.
Havia (era em Coimbra) o Teatro Avenida,

do Príncipe Real nomeado à fundação.
Foi quintal, foi pátio, teatro foi. Já não.
A vida a ter atém-se, pois, à vida (t)ida.

12/03/2014

TROCO ESTAS DEZ ESTÂNCIAS POR OUTRAS TANTAS ANDORINHAS DE BARRO P’À PAREDE DA MINHA VARANDA (Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014 - para o caderno 25 da série Leite dos Santos)



Talvez um cais fluvial, suave ave
arejando a doçura do entardenoitecer,
o corpo veicular fazendo-se nave
a singrar / a sangrar às contas co’ ser.

Barcarola do improviso à bolin’arreata,
depois do café-com-leite & do pastel-de-nata,
confortado, requentado, frequentado,
corpo-eu-meu dando o dia por rimado.

Além, no adentr’olhar, as coisas atlânticas.
Acima, o pesponto respigado sideral.
Não ser isto nada Paris, mas algures-Portugal,
terra de patrícias mel-mil-maravilhas semânticas.

Macerados laranjais de ouro-sangue a poente
incendeiam da visão escrita a bonomia.
Fez calor até & esteve de sol o todo-dia,
em lânguida euforia transou a comum gente.

Agora uma mulher pintada-capilar neva perto:
parece seu quê de cegonha, qq. coisa de M.ª Alberto.
Fufa talvez. E talvez não. E vai daí,
aquilo serve para o que é amailo pró chichi.

Pintalga a retina o cosculhar cromático
dos diamant’esmigalhados na aquasfera.
Na paragem do autocarro, ’ma mulher espera
o dit’omnibus, cujo atraso é luso e matemático.

Vacum galinhedo brasileiro já manobra
em mariposante aproximação do bar-alterne.
O putedo é profess’oss’ofício perene
– e mais tomos tem do que eu obra.

Casal tisnado, sessentão, abastado
acampa de mesa à dextra minha.
A ela seu chá frio alimonado.
E ele, olh’ó proleta!, c’a bela cervejinha.

Rêgo mole de nata-banha, as mamas dela.
Canetas-canelas agudas, o passarão.
Ele ’tá bem reformado, arrecebe um dinheirão.
Ela nunca fez nada, tirante uma q’outra mijadela.

Estou aqui deposto em sossego. Barbarizo.
Apanhei jeito escrevente, mas não juízo.
Do mais que não conto, por ser já tarde,
conto contar amanhã. A malta q’aguarde.

Três de hoje para o caderno 25 da série LEITE DOS SANTOS

ORATÓRIA DO NOME

Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014

O nome dele levo e trago no meu corpo.
Pertenço todo a esse nome como dele todo fui.
Agora é entre outros papéis que me deixo.
Moro longe do mar mas é barcos que vejo.
Cerrar os olhos me basta a ser náutico.
Dele o Irmão Alberto hoje faz cem anos.
Faz sem fazer, morto profissional desde 1980.
Mas digo eu que faz, cerrados os olhos, serrado o olhar.
O nome dele leve enquanto trago.
Enquanto o amargo vinho trago fora dele.

Quididade me basta e sobra: de Coimbra camponês.
Hoje enfim mais dado ao operariado a lápis.
Distribuidor de pão-de-pombas.
Pardais às vezes, quando a mansa brisa amansa.
Nada de muito importante, um deix’andar.
Açucaro o vasto deserto ilegível.
Chamam-me pelo nome dele.
Viro-me, é afinal só comigo a sós, que é dele.
Sem fazer ondas, sem senão aflorar o precipício.
Ainda não é a cegueira, ainda não é já renascer.



POR AQUI NÃO HÁ INGLESES NEM INGLESAS MAS

Id., id., id.

Três homens, um de cada vez.
Nenhum deles é Drake.
Nenhum deles, Clarke.
Nenhum, Greene.
Portugueses, estes.
Um é bancário.
Outro também mas de outro balcão.
O derradeiro é senhorio, vive do ar dos outros:
respirar torna-o rico.
Homens como casas: tarjados a azul por baixo.
Tenho comigo uma libra para gastar em vinho & biscoitos.
Sendo menos amargo no nome: roxeando a boca.
Posso passar-ser o resto da vida a fazer isto.
Isto: a diluir o deserto que vai.
O deserto que vai da palavra
cara
à palavra
rosto.
Uma malga de sopa à
face
da lareira, numa tarde fria comida a sós.
Agora que a Primavera se conjura/conjuga.
Copo de água açucarada pela garganta.
Até ao fosso do estômago, águ’açúcar.

Estas três mulheres agora na tarde.
Nenhuma é Maureen.
Nenhuma é Cora.
Nenhuma, Rosie Ann.
Portuguesas como telhas vermelhas, todas.
Duas prostituem-se tipo deLuxe.
Éguas caras de montar, a avaliar pelos adereços.
A outra gosta de ler porcarias: Danielle Steel, MST.
Antes de as receber neste caderno, fui-me a casa.
A essa hora ninguém nela, só os retratos.
Tenho algum tempo agora.
Na praça calçada à portuguesa.
Na praça, um restolho de cadeiras-mesas azuis.
Humanos entorpecidos derredor.
Lagartam-se ao bom sol de Março.
Jibóiam as falas.
Uma das de aluguer diz a palavra
parábola.
Esta deu aquela em étimãelogia.
Rapazes de gravata mal-acabados de criar.
Cheiram ainda a cueiro púbere.
Professoritas envelhecidas com água mineral.
Uma careca reverberante como um farol.
Pertence àquele cavalheiro de casac’antílope.
Ao longe (mas perto de mais) o alarme de um carro.
Passa uma rapariga silfidesca.
Cabelo-caril, túnica roxa à Senhor-dos-Passos.
Sandálias douradas, em que dois pés sem peso.
Escrevive-se aqui em razoável qualidade de vida.
Posso (&passo) o resto da vida em anotação.
Quase nem crio: o mundo dá de si.

Cerro os olhos, cedo à epifania voluntária.
Epifania voluntária: vento penteando trigais.
Ouro maduro. Chapéus lenç’atados ao pescoço.
Ar-vidro-ardente reverber’ondulando fornalha.
Talvez tome outro café, veio morno o primeiro.
Cálidas maravilhas para trazer à boca.
Agora um homem de cachaço vermelho.
Afogueado seu bafo, seu baço: gostador de bagaço.
Como eu, menos a parte do cachaço, a cachaça.
O Inverno de 81 foi fronteiriço na minha vida.
O Outono de 86 também.
Em Janeiro de 85 um dente ia dando-me cabo.
Em 89 abri uma janela ao vasto nada.
Foi uma década interessante.
Ainda bem que está morta.
O Maradona senhoreava então o mundo.
Não sei para nem por que falo nisso.
Tudo irrisório, risível tudo.
Uma friúra de convento nos ossos, às vezes.
Progressão na carreira – digo: no bolor.
Namoradas profissionais.
Aquelas duas, digo.
Digamo-las: Maureen Drake & Cora Clarke.
Mais do que as duas esperta, a Rosie Ann Greene:
senhoria, a magana.



CÉLERE SÍLFIDE

Id., id., id.

Donairinha rapariguinha
levezinha avezinha
passa paira pára espairece
decide-se pela esquerda
& desaparece.

Canzoada Assaltante