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segunda-feira, setembro 03, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 36. O CANSAÇO DO TRIGO Coimbra, sexta-feira, 9 de Julho de 2010 (trecho)




Na mesa ao lado da minha, uma rapariga atende o telemóvel e diz algo que eu não digo há dezasseis anos:

– Bom-dia, Pai.

Não fui à primeira das procissões penitenciais da Rainha Santa. O calor abrandou muito. Já há muito não via isto: uma mulher com uma fita preta no pescoço. Fica-lhe bem, assim como o vestido verde. Que irá ela tomar? Claro: um chá. Uma mulher vestida de ver é como uma montanha azul: algo grande e distante. Bonitos pés encourados de sandália, fio de ouro subindo o preço do pulso, olhos propícios à lacrimação do êxtase de emprenhada. Estou aqui sentado a vê-la, a vivê-la, a escrevê-la, a escrevivê-la, bela, ela, vela. Depois ela sai do Café e do caderno. Resto. Espero. Penso na cor roxa. Penso no meu Irmão Fernando. Ele também é de Coimbra. Uma vez (mais do que uma), estive com ele numa terra chamada Reguengo do Fètal, assim mesmo, acento grave na primeira sílaba. Nós falamos. E quando falamos, dizemo-nos um ao outro. Dói sempre, mas acaba sempre, também, por ser bom. Temos este presente, dois pretéritos e um futuro qualquer. Não importa. Escrevo. Faço. Espero. Hoje conheci ruas novas. Depois vos falarei delas. Tenho andado com Fernando António Nogueira Pessoa. É um dilema terrível: tenho 46 anos, ele morreu com 47. No outro dia, eu assim para o outro Fernando, o meu Irmão:

– Pá, sou mais velho quinze anos do que o Jorge.

E ele:

– Pois és. Fica sempre novo, ele.


Pois fica. O Jorge acabou-se com menos de 32. Cá anda, aqui pelas frases dos sobreviventes: um pouco de sol-torrado nos lunares que (ainda) (lhe) (o) vivem. 

domingo, agosto 19, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 33 (fragmento com Pessoa dentro)




Não se sabe se determinada carta de Pessoa a Camilo Pessanha chegou ou não a ser enviada e recebida. Data possível: 1915. De um gigante para outro, o mimo do reconhecimento: Fernando gostava muito da poesia de Camilo – e disse-(lh)o. Estiveram juntos, pelo menos, duas vezes, em Lisboa, no “Suíço”. Pessanha leu versos seus a Pessoa. O que eu não daria para ser mosca nessas duas ocasiões! Já em outra carta, mas esta para Mário de Sá-Carneiro, datada de Lisboa, 14 de Março de 1916 (ano do suicídio em Paris do destinatário), Pessoa escreve:

Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça.

IDEÁRIO DE COIMBRA - fim do Caderno I



32. À IMPLACÁVEL LUZ

Coimbra, terça-feira, 6 de Julho de 2010

Páginas maravilhosas, as de uma carta dirigida por Pessoa ao poeta modernista brasileiro Ronald de Carvalho (integrou o clã do número 1 da revista Orpheu). A data-espaço da missiva é Lisboa, 29 de Fevereiro de 1915. Pérolas do gigante português:

– Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e só fixar aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. O resto é só a brisa que passa e não tem outro aroma senão o momento que rouba a imortalidade dos jardins. (…)

– A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os reflexos. Eles são com efeito as melhores horas da água; e decerto que as mais belas são aquelas, em jardins ainda do século dezoito – onde a tristeza de uma civilização morta bruxuleia ainda, como um gesto na sombra, na sombra rápida da água que se dissipa. (…)

– O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; (…)

– (…) no jardim antiquíssimo quando o Mundo não tinha criado ainda a necessidade de ter sido criado por Deus. (…)

– Ficou-nos a alma, como um exílio inevitável, e nós escrevemos versos para nos lembrarmos de que fomos…

*

A implacabilidade da luz é a testemunha mor (não: única) da chegada ao fim do primeiro caderno manuscrito deste Ideário. No Café-Bar S. José, no piso térreo do Girassolum, esperando uma pessoa amiga, AA, que me traz livros que foram da saudosa mãe dela, a D. LA. Receber livros é bom. Destes então, a fundo perdido, como ela diz, melhor. É uma expressão competente para ser sinonima da minha até-ora vida: a fundo perdido. Perdido & achado, seco & molhado – enfim, nada de lamúrias nem de umbilicalismos solipsistas, que são, afinal, a marca-de-água dos pseudo-artistas (coimbrinhas e não só).

*

Falava-te da implacável Luz, ela
toma Ouro-de-Água os corpos todos
da gente viva, esta que comunga
Coimbra e o Mundo em Fogareiro.

É muito um manso esoterismos, isto
de ser Inca-Egípcio no Calhabé.
Fulvas, as Divorciadas ocorrem
como estampidos de Louro-de-Coiffeur.

Os Reformados dos Serviços Públicos
penduram-se do Expresso e da Caras.
Há boniteza em isto, que o Ser Feliz
vem só do Estar Inconsciente Anos a Fio.

Índices: aros de ouro de finos óculos,
arrumadores hepático-tisnados (mourama
do Capitalismo), banhas ventrais de uma
alvura de toucinho, pés enchinelados

atirando unhas cuidadas em spas,
notícias do Nada arribando a nenhures,
bigodes encerados a muco nasal e Marlboro,
dentições acrílicas sorrindo pastéis-de-nata.

FIM DO CADERNO I

sábado, agosto 18, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 31 (integral)


31. UMA MANHÃ EM TONDELA

Tondela, segunda-feira, 5 de Julho de 2010

Sofrer é o estado em lentidão do pensar, pensar é como sofrer calor a mais. Vi hoje águas e pedras, Penacova à passagem, desejei ser algo como um fauno fluvial, um pouco de sopa em uma marmita, um pedaço de pão, uma garrafa de água perfumada de limão, mas não parei à beira-água, cheguei a Tondela e vi a minha vida espelhada nas montras do pequeno-comércio. Talvez um dia vá ainda à Arrábida, talvez algum tempo me seja permitido em Sintra. Eu e os sonhos que me sonham, talvez, assaremos peixe na orla do Desconhecido, barcos fátuos gaseando o horizonte-azul-flúor, libações nos conduzirão à noite perdoada, raparigas e rapazes pintalgando de pequenos sinais vermelhos/amarelos/verdes o âmbar da praia, o mercúrio solar aquiescendo crianças, mas, destas, apenas as feitas por amor. Sofrer também é uma forma de sofisticação – mais sofisticada quão mais subtil. Estes verdes, estes azuis, este céu cujo poder resulta da absolutíssima indiferença ao pensassofrimento das pessoas para-sempre & das crianças em-breve. Azeitonas, cebolinhas, pimentos, orégãos, silveiras, amoras silvestres, olhos de água morna dulcificando o instante de uma pessoa olhada por outra. A Mãe não, a Mãe não está bem. Faltou a luz no Bar das Piscinas, uma espécie de sossego cria moscas na manhã já toda madura, poluo a minha camisa de liquefacção, suo como se pensasse – como se o pensasse fôra não sofrer, nem a Mãe nem o calor. Vi a confeitaria encerrada (as coisas encerram muito, Mãe), vi mulheres bonitas como talos tenros de jasmim, rapazes de lentes fumadas oficiando o incenso da mocidade, velhos homens de chapéu exercendo sombras antigas, pórticos de pedra que são cristalizações do Inverno, a caminho de cá vi o mar reproduzido em ondas florestais, somos os peixes silvícolas desse mar que por vezes arde. De onde surgirá o que vai matar-me? Dos pulmões, da próstata, de uma esquina sináptica, do coração, dos ossos, dos intestinos? Isto vivo, porém e enquanto. Ao entardenoitecer, também eu me volvo veludo – e a minha pele fica prata, e argênteo fosforesço na solidão essencial das ruas que levam ao quarto-casa. Recordarei em frente, escrevendo. Somos de uma pureza endógena impressionante, mas não todos, só alguns de nós. Actores do Guião Orgânico, isso sim todos nós. Gente que adoece de amor, que, por amar, ama e adoece. Frechas de puro ar atravessador de oliveiras, em colina de restolho flavo, enfermo de um ouro que as ovelhas pontuam de lanígera ortografia. Seres instantes, particípios futuros calçados de tamancas pretéritas. Lumes que as velhas acendem em lar, a horta humílima trazida a ser perfume que ferve na panela de ferro tripé. O porquinho cristão, muito róseo, muito lípido, grunhe versos saciados de lavagem. O cavalicoque alteia a campina, o pedreiro regressa de motorizada ao casal branco de arestas tira-linhas, o vinho verde jorra no balcão do bar das bombas de gasolina, 10h51m. Fora de imaginações, sou quase feliz na vizinhança de mesa deste cavalheiro de calções & chinelos rezando o breviário do jornal desportivo, daqueles dois sexagenários que tasquinham amendoins, daqueloutro distraído que unha um dente em remoção do naco de bolo alimentar, daquela grávida apreensiva em atenção vagueando outras paragens nascituras. Bonecos: uma águia-quinquilharia, um preto-cantor-de-jazz, um ET-marciano, uma vaquinha pret&branca de úberes cor-de-salmão, um jogador do Sporting imobilizado num pontapé de plástico, um viking de BD, um duende puritano, um caracol mágico, um mamilo não chupado e uma girafa com dores no pescoço.

Brasa. É como se fôssemos corpúsculos parasitários obrigados a viver no pêlo de um cão descomunal. Vaga de forno na cara, corpo suspenso de água quente que resulta do ar, da luz. Fornalha. No Ferrador, em frente ao Tribunal de Tondela. Liquescentes, os sólidos resistem como podem à acendalha de ter nascido. No televisor, essa luminária estranha chamada Jorge Gabriel. A parolice obrigatória de certa portugalidade. A redução a certo estrume “cultural” de uma Nação que exilou, adentro como afora, gigantes como Camilo Pessanha, António Nobre, Wenceslau de Moraes e, sim, Fernando Pessoa, coitado, obrigado a sentir as fodas da mãe viúva com um bigodaças que nada tinha a ver com o Joaquim crítico de ópera do S. Carlos, pai dele(s) Fernando(s). Faço horas (manhã quase feita e desfeita, 12h30m) para ir a tribunal testemunhar em desfavor de uma excrescência orgânica. Cruz solar. Ínfima fracção: cores esmaecidas, fl(u)orescidas, não matinais já e já crepusculares.


Global Ovo Estrelado: a chapa do ar às 14h26m. Tondela, vários espelhos-de-água jorrando escumoso sémen H2O. Desconheço (ou não recordo) o orago da bonita (estreita, alta) igreja de culto católico que encima a Praça Prof. Doutor Qualquer Coisa. Casas perfeitamente talhadas em água-fervente. O Solar fechou-se, já não serve. O Ferrador ainda, mas não já refeições de talher. Está diferente de há cinco anos, Tondela, época em perdi o meu tempo com (alguma, não toda) gente que não vale meia pele de prepúcio. Árvores vivas – dormentes, estivais. À noite, atirarão sombra ao alto, partícipes de estrelas. Uma velha de saia-joelho de cor azul-escura como uma freira estranha, dessas que se tornam enfermeiras de meninos negros por causa de uma falsa caridade mercurocromo. Velhos na sala de espera do tribunal, obra de 1971. Prof. Doutor Qualquer Coisa Anselmo Ferraz de Carvalho. Parecem peixes, os munícipes: babujam frases encalmadas. São elfos de finlândias em chamas. Dividem-se entre o Tartagal e a Cristiânia, equador ao meio. Outros sabem de carpintaria de barcos, outros de fuselagem, outros de heurística, outros de hialurgia – ou o caraças. 

Ainda (Ideário de) Coimbra, ainda essa quarta-feira muito manuscrita de 30 de Junho de 2010


Eduardo não aparece nunca por aqui. Vi-o hoje, reflectido daqui a dez anos em um vidro de montra ante que só eu estava.

*

Ela diz-me assim – Então está de volta.
Eu digo – Sim, como as doenças.
Ela – Não, como o Verão.
Eu – Obrigado.
Ela – Não tem de quê, eu era para dizer Primavera, mas era maricas.
Eu – Verão é macho.
Ela – Pois é.  

O tal dia 30 de Junho de 2010, quarta-feira, foi de muito manuscrito para o Ideário de Coimbra - 29

Cai a noite – e eu que não posso ajudá-la a levantar-se, coitada. Todo o dia rumorei entre árvores, a maior das quais imaginadas. Estes pagãos pés me calçaram relva, não asfaltos – e fui alguém: um corpo, uma dura rosa móvel, um nome desperdiçado e a sombra de uma sombra. É bem assim, minha Amiga. Agora, arvorejo ainda. De veludo, a mansidão de Junho que acaba – como tudo acaba e como é veludo tudo.

domingo, agosto 12, 2012

Coisas (escre)vistas no dia de Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010 - IDEÁRIO DE COIMBRA - 29

Vi um operário portando fluorescentemente uma barra de ferro. Vi uma senhora de lentes fumadas verdes como escuras garrafas das caves de S. João de Anadia. Para a próxima, não trago arroz só para os pardais: vi um rapaz chinês que tem uma loja aqui perto. Um suíço ganhou a Paris/Roubaix/2010. Não vi bem o nome, tenho de comprar lentes progressivas, não há hipótese. Acho que era o ciclista n.º 51. Vi uma chávena muito bonita e muito branca: como se um trabalhado floco de neve em louça.

sábado, agosto 11, 2012

Uma carta de Fernando Pessoa no IDEÁRIO DE COIMBRA - 29 - Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010



Em carta de Lisboa, 29 de Fevereiro de 1915, Pessoa diz isto ao poeta brasileiro Ronald de Carvalho (que, com Luiz de Montalvor, foi um dos directores do primeiro – e penúltimo – número da “escandalosa” revista modernista Orpheu):

Não sei que lhe diga do seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um Poeta que se encontrasse, se é que um Poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos nos seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. De Poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que permanecerem as rosas. Para quê os ramos quebrados, ainda, e partido o caule das violetas?

E ensina-lhe isto de borla:

O Poeta é o que sempre excede aquilo que pode fazer (…) Exija de si o que sabe que não poderá fazer. Não é outro o caminho da Beleza.

Génio, génio, chuva é água.

IDEÁRIO DE COIMBRA - 29 (primeiros parágrafos) - Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010


29. DA NUNCA MEÃ MÃE E DE OUTROS ASSUNTOS A ELA INFERIORES

Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010

A solidão da Noite levou-me ontem ao Bingo da Académica, ali em frente, vês, no piso raso do complexo do Estádio. Deixei lá cinco euros, uma moeda de cada vez para um pouco mais de tempo em ilusória companhia. Estive quase a bingar no primeiro cartão, só me faltava o 32, saiu a outra pessoa no 74. Lembrei-me do Quim Jorge, ele é um feito muito bingativo, às vezes. Depois, a rua vazia, o caminho para casa, cama e Chesterton/Padre Brown.

*

Esta manhã, nO Nosso, com o meu Irmão Fernando. Sim, falámos da Mãe.
Ele disse: “De todas as vezes que a vi internada, nunca a tinha visto assim.”
E eu: “Assim, como?”
Ele: “Acabada.”
Fui, depois dele, pôr um saco ao quarto-casa. Telefonei à minha Cunhadirmã. Ela falou com a equipa clínica toda: médico, enfermeira, assistente social. O doutor disse-lhe que não é de esperar recuperação da lesão cerebral resultante do enfarte. Nem da mobilidade locomotora. Que deve ir em breve para uma clínica-lar por conta da Segurança Social, talvez um mês, coisa assim. Depois, que nos desembrulhemos para lhe arranjar o onde pré-terminal. A nossa Mãe. a nossa nunca meã Mãe.

*

(Nascer é deveras mais penúltima que primeira coisa na vida.)

*

Ciclistas na televisão. É em França, Prova Paris-Roubaix. O meu Pai gostava muito de ciclismo. Eu também gosto muito de ciclismo por causa de gostar muito do meu Pai. O problema é que agora só existe ciclismo.

*

Um dia, hei-de sonhar ir à Suíça ver o alto de que caiu mortalmente o Professor Moriarty, sobrevivendo apenas, por aliás pouco tempo, Sherlock Jeremy Brett Holmes.

*

Comi um bolo de bacalhau no senhor Zé Carlos do Viaduto. Estava bom. Falámos do golo do David Villa com que os Espanhóis arredaram o seleccionado luso-brasileiro do Mundial/2010. Depois, como saí, não falámos mais.

segunda-feira, julho 30, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 27 (fragmento) - Coimbra, segunda-feira, 28 de Junho de 2010


© Saul Steinberg



Volume, ergonomia e ameaça – tudo apresenta este descriado já corpo de rapariga (quê?, dezanove, vinte anos). Namora aquele rapaz ali, o de cabelo preto escorrido em farpas (gel’ongitudinais, umas, oblíquas outras) e ruído cós de calças em aparato de mostr’elástic’à-cueca. Mas a moçoila é de facial saúde camoesa, de pré-lácteos mamilos, nédia e folhosa qual empada, unhas dos pés envernizadas de cor-de-vinho-do-Porto (tinto), comissura labial em fina sangria, olho esquerdo pequeno e castanho, o direito também, sinal natural na face esquerda evocando Versalhes e amásias do Luís que foi XIV, rapariga (enfim) para engordar de muitos lípidos e um par/ou/trio de crias em futuro não remoto. 

segunda-feira, julho 16, 2012

Ideário de Coimbra - 26 (fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010


Antero de Quental, representado numa "estátua viva". A Questão Coimbrã nas ruas de Lisboa.
© Inês Antunes



Em carta datada de Lisboa, 12 de Novembro de 1914 a Álvaro Pinto (da direcção da revista Renascença Portuguesa e secretário de redacção da revista A Águia), escreve Fernando Pessoa assim:

Compenetrei-me celularmente da absoluta inutilidade de qualquer esforço e da ridícula incongruência do acto fundamental de escrever – expor aos outros cousas que ou são opiniões ou sonhos, como se as opiniões, quando por acaso alguma acção têm, fizessem mais do que perturbar para fora dos seus saudáveis e naturais instintos os pobres cérebros humanos; e como se o destino lógico e nobre dos sonhos não fosse ficarem apenas sonhados dentro de nós, sem a ousada imperfeição de serem expressos. Não podendo ter a maravilhosa e natural saúde de não ter opinião nem sonhos, esforcemo-nos ao menos por adquirir a artificial saúde da renúncia.

Pobre Pessoa, jóia raríssima imersa e ignota num charco de rãs-integralistas, sapos-lusitanistas e girinos-saudosistas. Nem lusitanismos nem integralismos poderiam perceber, sequer de esguelha, o drama estático O Marinheiro. Acrescente-se “apenas” isto: que já a 8 de Março deste mesmo 1914 Pessoa, de pé, sobre uma cómoda alta, recebera a visita mediúnica de um tal Alberto Caeiro, guardador de rebanhos

Já Teófilo, a páginas 100-101 da op. cit., cita, a propósito da chinfrinada da Questão Coimbrã (Bom Senso e Bom Gosto), uma excelente intrusão (tão actual, infelizmente) de Cunha Belém, autor do folheto Horácios e Curiácios:

A facilidade com que entre nós se fabricam as reputações literárias, a impunidade com que se adormece à sombra dos colhidos loiros, o deleite com que tanto os grandes como os pequenos ouvem reciprocamente o canto da sereia denominada elogio mútuo, a má-fé ou nímia condescendência na crítica literária, são decerto a principal origem da astenia que apresenta a nossa boa literatura.

Pois é: a trampa é antiga. Do século XIX ultra-romântico do Castilho cego e do deslumbramento revolucionário do Antero suicida – ao nosso XXI, nada de novo debaixo da cloaca. Hoje, os chicos-zés-viegas, o VGraçaMoura (vero Pinheiro Chagas da nossa idade), os peixotos, os possidónios, as pedrosas, os manéisaroucas, os pivôstêvês – tudo é genial por destinal ou asneal de asinino. Bardamerda, enfim, que no país “literário” só a estupidez, o compadrio, a putaria, o piercing e a infecta madalena que os/as pariu a todos/as são vernáculas.
(E isto numa língua que deu um Nuno Bragança – quem?, um Miguéis – quem?, um Sena – quem?, um António Osório – quem?, um H. Silva Letra – quem?, um Wenceslau de Moraes – quem?, um Soeiro – quem?, um Luís Filipe Costa – quem?, um Fernando Pessoa – quem?)

domingo, julho 15, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 25 (conclusão) - Coimbra, sábado, 26 de Junho de 2010



Finitos embora, toca-nos por vezes a graça,
nem tudo que corre nem sempre não pára,
escuta e olha e vê.
Lares se fazem, contrafazem, desfazem
e refazem em outros, mescladas em
outras as pessoas mesmas.
Sempre lograram contemporã existência,
que essência não, a sarjeta com o casino,
a casca de batata com a filigrana.
Por mim, mais sempre cifro que a decifrar
dou, que me até por vezes sucede
saber do que, e a quem,
falo.

*

É uma questão de sobrevivência, versejar. Um gajo mete-se a isto na púbere roupagem – e quando dá conta de si e do que em que se meteu, está tramado: sem poder viver disto, para isto vive. Isto significa: um achado silábico, um jur’assino futuro, um tilintar de cores, uma cegueira com GPS. Não poderia não podê-lo, versejar. Agora já não. Parece que estou daqui a ver o Antero no peitoril da janela, como o memorou Gonçalves Crespo, o Pessoa a almoçar no Restaurante Pessoa, mediante empréstimo de J(oão) C(orreia) de O(liveira), o Vergílio a fumar cigarros para-sempre-até-ao-fim, a besta do Pina Manique a encarcerar gente como se fosse, o Pina, um clone analéptico do McCarthy do zamericanos. Sim, é sobreviver, isto. Não direi, disto, que é apenas isto, nem tudo isto. Sim, no fundo como à flor disto – isto é indiferente. Mesmo a tragédia vertiginosa-lenta de Scott Fitzgerald, de Poe, de Pessoa, de Lowry, de Gomes Leal, de Céline, de tantos ante quem o futuro (agora-isto) só pode indiferenciar nada de coisa alguma. Tenho a minha Mãe doente de tempo. Coração, sangue, sinapses, rins, olhos – pretextos-janelas para o Tempo entrar devastadoramente naquela casa-corpo que me deu nascimento mercê jaculatório amor de um homem hoje morto, ontem mortos, morto há dezasseis anos, dois meses e dois dias. Adiante e siga: finitos embora, toca-nos por vezes a graça, a pulcra graça pueril da Beleza, a uns por coplas, a outros por cópulas: a tudo e todos assiste o direito de algum-pão-algum-circo-algum-poeta-Juvenal-e-juvenil. Sim, Juvenal se chamava, também, um jogador da CUF das minhas primícias lúdicas. E então? Que mal nenhum pode tal (Juvenal) trazer isto à humanidade? Vo-lo recito, de Pessoa, que ’ind’oje à tarde o li – parece que do ano primo de meu Pai, 1917 – isto:

O meu espírito vive constantemente no estudo e no escrúpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade.

Quatro minutos para as zero. Fatigada doçura nos olhos, óculos incluídos. Ferve a caneta já um pouco. Como terá suportado Macau Pessanha tantos anos? E Pessoa, o viver? Três minutos para as. Dois minutos para. Um minuto. Zero.

Entardenoitecer em Coimbra há dois anos (fragmento da entrada 25 do IDEÁRIO DE COIMBRA, intitulada PESSO'ANTER'ANDANDO e datada de Sábado, 26 de Junho de 2010)

20h44m. Entardenoitecer. Delidas, esmaecem da jornada as tintas. Acinza-se o que azul esmaltou a convexa concha, frúem o fresco as aves derradeiras. O burgo range de uma preguiça capitosa, copos de cerveja semelham velas de oiro nos altares das esplanadas. É quando viver ainda não custa. Tilintam de sombra os plátanos, começa finalmente endurecendo a goma das acácias e o visco das raparigas. Se ao menos pudesse ser que, a hora finda, fosse logo a alba! Pré-saciada, porém, a Noite espera ’inda um pouco até coroar-se rainha do hemisfério que em partilha nos coube. E depois (agora) – é tudo Dela, a começar pela nossa vida.

sábado, julho 07, 2012

Ideário de Coimbra - 24 (conclusão) - Coimbra, sexta-feira, 25 de Junho de 2010



Objectos acumulados sobre a mesa, fundindo as respectivas personalidades:


o bloco-notas & a disponibilidade mnemónica;
o cinzeiro & a omnivoracidade escatológica;
a afiadeira & a obstinação recapituladora;
a chávena vazia & o utente de serviços públicos;
o telemóvel & o silêncio primitivo.

*

Uma sala branca. Cadeiras azuis. Tampos das mesas aos quadrados cinzentos e brancos. Porta entreaberta sugerindo um corredor silencioso como via de claustros. Rumor de água invisível dos flancos da atenção. Consciência perorando, arrumando-se como lhe é possível.
Passagem: noção radi(c)al dela.

*

(Fim de manhã. Não permitirei que a penúria financeira seja capaz de impedir-me de escreviver.)

*

Uma mulher de saco com cerejas.
Outra mulher, rosto de morte-da-bezerra.
No meu queixo barbeado, um risco de sangue seco.
Confiança nos Antípodas, aqui só inquietude.
Tempo de ossicalcificação mental.
Sou um movimento que espera,
uma espera que se mexe,
uma cereja num saco.

*

Encontro não combinado com o meu Irmão Fernando nO Nosso Café. Assuntos: a Mãe, o Desemprego/as Expectativas/as Perspectivas/a Falta Delas. A (des)economia das nossas vidas pesando mais do que os anos. Mas irmandade e fraternidade, no nosso caso, rimam de facto e deveras.

*

Esta espera interior, esta estranha acção dos mecanismos neurovolitivos. A “selecção natural”, como me acaba de dizer o Fernando. Desprezo pela sociodeficiência voluntária. Rejeição do jugo pré-conceptual, mesmo algum de cariz familiar (espécie de imerecida ancestralidade obstinada, presente, asfixiante, irracional e irracionada). Esta interior demora: pele de pele, vida de Vida. Corpos jovens residindo numa dimensão paralela/mas visível a olhos-nus/à nossa – mas nossa não já. A poesia ante a realidade: uso de gabardina no Estio. Nos estabelecimentos-bebedouros-da-Noite, mais co(r)pos: penetrando os sacrifícios, cotejando estátuas-de-jardim nas esplanadas, devastando gelados, folhados, granizados, gins, amendoins, rosquilhas, salsaparrilhas & ingentes aguardentes. Esta íntima demora, este morango cardíaco, esta ressoante e ressumante humanidade toda intestina. Falo-Vos de vós adentrando-se sem partilha maior que este crescente de unha que acabo de roer. Uma vida: mel & pus. A um momento lúcido corresponde a percepção da não-gravidade de quase nada. Gomes Leal, por exemplo: cara & coroa de si mesmo, o Gomes da mais completa/abjecta prostração material & o Leal leal ao sonho dos salões do terreal paraíso nobiliárquico. O pelo sonho é que vamos do pobre Sebastião da Gama na Candidinha de A Farsa de Raul Brandão, mas em versão ódio. Estas coisas, estas elucubrações ao tempo genesíacas & apocalípticas. E, ao cabo como ao fim, não-graves.
Espero, sim, por dentro, a consumpção e a assumpção. Agora sou todo já tão-só palavrinhas. Manuais de conversação, breviários gramaticais, cadernetas corocartográficas, sinapses (v)ideográficas do Sul da Hispânia quando os Mouros repousavam o alfange e deixavam dormir as mulheres, Althusser antes de estrangular a dele num acesso de loucura toda sináptica, os gajos em Oxbridge cheiinhos de erudição exegética, de prisma hermenêutico e de paneleirice mal recalcada (o estudante muito louro, muito velocipédico través o extenso relvado gelado na calafria manhã de cinza), o toucinho viático, saudades deste e daquela, o perfil pai-natal daquele homem hirsuto de neves barbibigodeiras, Marlowe escanhoado (um deles dois, ou o detective de Chandler que bebia ou o coevo de Shakespeare que também), José Rodrigues Miguéis como guarda-redes desta quadra de hóquei-em-patins: Hemingway, Faulkner, Fitzgerald e Dos Passos; adversários: guarda-redes Jorge de Sena, em campo Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Steinbeck e Caldwell. Estas coisas já sem gravidade, sem dor já nem remédio. Um poema, portanto –

*

Queremos o que ter vamos
Uma outra vida iluminando uma frase
Que sabe pérsicos os pêssegos
E a boca por primeira das três fontes da cabeça.
Teremos o que querer não vamos
A guarda do cipreste
O coração fátuo-fogueteiro
A estrelícia em vão enamorada do cravo
E uma revolução toda cagada pelas ruas futuras.
Julho não tarda aí nem tarda a ir-se embora
Certo Novembro recebemos uma carta transparente
Tinham proibido as ínsuas e as perdizes e os selos
E tudo aos de então pareceu agora como nunca mais.
Falai-me V. de meu insensato primo
Que à mulher insensatamente desamou
Depois de lhe feitas as filhas e as malas.
Contai-me não salteada a história ponderosa
De quem pinta dos ricos as mansões
E das mulheres a roxo as vistas.
Na mente do suicida, falhei a vida
Mas a morte me não falha,
A terra a quem a trabalha.

*

Sim, espero dentro esse dia já ontem.

*

Fitzgerald, pág.ª 87, perto do final da história intitulada Tarquínio de Cheapside:

O hóspede voltou para ele um rosto pálido como pergaminho, no qual dois olhos perturbados ardiam como duas grandes letras vermelhas.

sexta-feira, julho 06, 2012

Ideário de Coimbra - 23 - três trechos de Coimbra, quinta-feira, 24 de Junho de 2010


© Asca S.R. Aull – Wall Street


A solidão confere invisibilidade ao seu portador. Uma espécie de força, também.

*

Cerro os olhos para subir a esta falésia povoada de ovos de aves marinhas. O veludo-eléctrico azula o mar de um verde novo todo cinza, giz, âmbar e nácar. Os ventos reorganizam a cada instante a altura e o mundo. A praia é uma tiara infinitesimal. O ar satura-se do cheiro vivo dos peixes, dos crustáceos, dos barcos e dos bivalves. Sentir-me-ia feliz, se alguma coisa pudesse sentir – mas não posso, pela razão de que tudo é belo de mais para ser negociado pela razão. Não sinto sede sem fome – nem isso sinto. Sei que estou vivo, mas não tão furiosamente como quase sempre antes desta escalada. Então, cadeiras de café crescem de sob os ninhos onde os ovos se dissipam. A agreste vegetação cimeira da falésia cede corpo e terreno ao soalho de mosaicos pisados e repisados por gerações de cafeinómanos. O Sol tem agora lustre – e as nuvens coalhadas aos ombros do mar volvem-se ponche, anis, laranjada, batatas fritas, maços de tabaco, calendário, relógio e Há Caracóis. Devo ter-me aberto os olhos – mas à felicidade, não.

*

Possibilidade de uma descoberta, na Noite: a de que o nome genuíno das pessoas não é aquele que está mecanografado no BI, na carta de condução, na cédula militar, na licença de porte de arma e/ou afins. Não – essa mecanografia onomástica é o anverso do nome vero, primo e último. O genuíno está nos olhos e no olhar que produzem o rosto.

Aquela senhora não é Magda. É mulher para se chamar isto: Cansada de Servir Bolos e de Ter Amado mais a Minha Filha do que ela Me Amou.

Aquele rapaz não é Anselmo. É rapaz para se chamar assim: Gosto mais de Filmes do Vietname do que de Estudar Gestão mas Tem de Ser.

As cercanias do nome pestanejam, sobrancelham, sublinham a água-de-cor-que-fala-e-diz.
Acho ter firmado isto, esta Noite. 

terça-feira, junho 26, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA -) 22 (outro trecho de 22/6/2010)




Transversal à dos Combatentes, Rua Vilaça da Fonseca (vice-presidente da Câmara e presidente da Associação Comercial, sécs. XIX e XX); também esta, transversal também: Travessa Francisco Arnaut (proprietário – bela profissão -, 1888-1982); belo painel de azulejos sobre a porta do n.º 145 da Rua dos Combatentes da Grande Guerra – com cercadura a cores, representa a Sagrada Família a azul-e-branco e tem estes dizeres: J.M.J. MCMXXX; (subida custosa, encalmada, não rápida); ah, ah, ah, ah! – no pedestal da estátua do Desordeiro, vulgo papa João Paulo II (entre os Arcos do Jardim e a rua Castro Matoso /magistrado/sécs. XIX e XX), alguém escreveu isto:

JOANA
COME


PAPA

IDEÁRIO DE COIMBRA - 22 (um trecho desse dia na Cidade, terça-feira, 22 de Junho de 2010)



Pausa à sombra no Café Abadia. Início da leitura de (mais) um livro de Fernando Namora: Casa da Malta. Tem prefácio do Autor datado da Ereira, Agosto de 1961. Digamo-lo clara e frontalmente: o Namora romancista e o Torga poeta são medíocres. (Escrever/dizer isto do Torga em Coimbra – pode resultar, e oxalá resulte, em indignação e excomunhão coimbrinha; que se lixe, que até – esse sim bom poeta – Armando Silva Carvalho me disse aqui há coisa de três anos, e em plena Coimbra, que “o Miguel Torga não [me] interessa nada”.) Já li muito Namora, isso já. Entretém-me. O Rio Triste até está bem esgalhado. Resposta a Matilde é uma história até bem contadinha. Mas aquela denúncia do Luiz Pacheco lixou-o à fartazana. Nos Textos de Guerrilha (acho que no volume 2, não estou certo já), o Pacheco demonstra à sociedade e à saciedade que o Namora plagiou à força toda o Vergílio Ferreira. Enfim, já morreram todos – Namora, Vergílio, Torga e Pacheco. Eu, como ainda não, vou lendo esta Malta. Nisto, uma boa frase do A. no prefácio:

Nunca se regressa a parte alguma – a não ser quando um homem é já agonia.

sábado, junho 23, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 21 (trechos)



21. LEARNING PERSONAE

Coimbra / Pombal / Coimbra, segunda-feira, 21 de Junho de 2010

And if I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

(Duran Duran)

*

(…)

Em frente à casa-de-pasto Viaduto, depois da banca de fruta (para quem sai do Calhabé na direcção da Casa Branca), toalhas de relva concentram as máculas benignas da sombra. A tal sombra atiro pão migado, afastando-me depois para que melros e pardais, sempre na descúnfia matreirinha, comam à vontade e sem ter de agradecer.

*

Nem sempre penso nele. Sinto-o por aí (por aqui, na cabeça rumorosa), vivo e improvável, autor de cortesias e de inoportunidades, mas vivo, improvável embora. Pois, nem sempre penso nele. Acontece-me sentir dele a espessura refractária, a transigência defuncionada, a participação da natureza ao tempo solidária/solitária do homem-árvore na humanidade-bosque. Sinto-me parte da parte que ele é e em que está, não estando nem sendo. Nem todas as ruas nem todos os estios são dele. O Mondego é meu e não é meu – a mesma coisa. O que provavelmente mais do que ele e que eu existe não se chama Eduardo nem Daniel, mas Rua do Xisto, Quintas da Várzea e das Lajes, Gorgulhão, Póvoa de S. Martinho (onde o Rui Pereira Marques), Almegue, Rua Coelho da Rocha, Rua Capitão Salgueiro Maia, Casa Azul, Alto dos Barreiros, Rua Cidade de Salamanca, Bairro António Sérgio, Ruas da Figueira da Foz e de Aveiro, Arnado, Rua Luís António Verney, Couraça de Santa Isabel e Rua Mendes dos Remédios, Estrada de Lisboa, Rua Mário Pio, Avenida Professor Gouveia Monteiro, Olival de S. Domingos e Alameda da Conchada, Rua da Sofia e Pátio da Inquisição, Avenida João das Regras e Choupalinho, Rua das Parreiras, Quintas dos Cedros e do Vale Meão, Rua Nicolau Chanterene (grande artista a que Coimbra muito deve em pétreo memorial), Rua Padre António Vieira, Jardim Botânico, Paço Episcopal, Lapas da Corrente, Praça Machado de Assis, Rua Augusta, Rua Trindade Coelho, Rua Antero de Quental, Rua de Tomar, Rua de Santa Tereza, Ladeira das Alpenduradas, Lomba da Arregaça, Fonte da Talha, Quinta da Nora, Ruas Teófilo Braga e Miguel Bombarda, Quinta das Sete Fontes, Rua da Infanta D. Teresa, Rua Gomes Freire, Rua Bernardim Ribeiro, Travessa do Espírito Santo, Rua Júlio Dinis, Praça dos Açores, Rua Dr. Paulo Quintela, Avenida Manuel Luís Leite, Calçada do Gato, Rua da Mãozinha, Ruas da Caravelha e da Painça, Quinta da Maia, Rua Almirante Gago Coutinho, Casal da Eira e Fonte da Cheira, Rua da Condessa Ameal, Rua Câmara Pestana, Quinta de Marrocos, Brejo, Casal de S. Nicolau e Casal do Trovão, Largo e Calçada de S. Sebastião, Rua do Cedro e Travessa da Liberdade, Ruas Afonso II e Afonso III, Rua Damião de Góis, Ruas Vicente Pindela e Octaviano de Sá, Rua da Portelinha, Vila Pereira, Casa Pequena, Portela da Cobiça, Quinta da Romeira, Quinta da Cruz do Areeiro, Palheiros do Zorro e Carvalhosas – nem Daniel, nem Eduardo.

*

Há pessoas (ou personagens – ou personae) para quase tudo: para desejar biografias anotadas de Sampaio Bruno, para gostar do Atlético de Madrid e do Aliados do Lordelo ao mesmo tempo, para saber o nome daquele que ficou na cápsula na primeira alunagem, para acumular âmbar e ossículos de frango no sótão, para funcionar mal do sótão que preside aos ombros e ao resto do cadáver, para esmifrar uma criança obrigada a pedir nos degraus da Igreja de S. Tiago, para confundir Ângelo de Lima com Michelangelo, para sonhar com a mulher nórdica do Luís Figo a assar sardinhas, a beber tinto, a cuspir na direcção da palmeira de plástico e a dizer caralhadas, para ser das Alhadas, para fazer fisgas fracas com os elásticos das cuecas e figas fortes com os índexes-médios-anulares embolados de ácido úrico, para respigar de sombras de senhoras um suco de meninas, para bater a sesta na Costa de Sagres após litradas de Super Bock, para andar à conquilha no Zavial, ao junquilho na Pateira de Fermentelos e ao chinquilho em S. Facundo, depois da Cidreira/Geria e antes da Pena/Portunhos, para saber de cor as preposições que regem o ablativo latino (a, ab, abs, coram, cum, de, e, ex, prae, pro, sine, tenus), as que tanto podem reger ablativo como acusativo (in, sub, super), na certeza-porém (como dizem os broncos do derivádòfacto) de que todas (mas mesmo todas) as outras regem acusativo-pai-do-nosso-complemento-directo, as que em vez de anotações biografantes de Sampaio Bruno prefeririram de longe saber mais sobre Mendes dos Remédios, as que duvidam sinceramente de que Deus tenha Mãe ao mesmo tempo que negam a existência do Aliados do Lordelo e do Atlético de Madrid pós-Jesus Gil y Gil, para sair incólumes de uma tarde na Lousã, para nunca mais voltar ao Baleal de Peniche mesmo depois de Raul Brandão ter escrito dali o que escreveu em Os Pescadores, para saber que os pais de Raul Brandão também tiveram nome e ofício (José Germano Brandão, pescador, e Laurentina Ferreira de Almeida, mulher de pescador), para se chamar ou Vidal ou Bregieiro ou Sanches ou Gusmão Noronha ou Naphta ou Settembrini ou Manuéis que ou Cid ou Ray ou Purificação ou Norga ou Sumi ou Cheeta, para saber que charcutarias e retrosarias e alfaiatarias e amola-tesouras são da primeva & terminal infância de quem nasceu tarde de mais para ter uma erecção emocional só-por-causa-de-um-iPod, para nunca ter ido a S. Bernardino nem muito querer saber o que isso é de Consolação, para ter andado a fazer cadeiras da Universidade de Coimbra e mesmo assim ler alguma coisa sem ser a Caras, para já ter ido à Nova Zelândia contar carneiros, para ter ido ao Senhor da Serra com Carlos de Oliveira e Augusto Abelaira, as que em vez de uma imerecida hagiografia  de Mendes dos Remédios teriam bem maior gosto em ver definitivamente associado o nome de Jaime Cortesão a S. João do Campo como a Ançã, as que se crispam como franco-congoleses causticados de aguardente-de-cana, para lacar farripas à força de laca de orelha-com-melena a orelha-sem-melena, para saber todas as novidades da Nike e da Adidas mas nenhumas do Código Laboral e da Liga Portuguesa contra o Cancro, para ser infeliz sem peculiares razões demais para tal que as de gostar de tal ser, para amendoinar o que tremoço e tremoçar o que sempre foi azeitona – ou pevide, para preferir Aragão ao Benelux, para expelir tijoleiras de muco pela uretra e mesmo assim ter filhos assim e depois não querer que sejam ranhosos como só podia que fossem, para duvidar de Maria mas não de outra qualquer de quem dissessem diva maternidade, para escrever horas fixas por mentira em ideários e coimbras ibidem, para envergar óculos escuros como capacetes de motard, para exercer a mais vã autocracia – que é a que por desidério imperativo tem o fidelizar gatos, pessoas (ou personagens – ou personae) para ter lido Machado de Assis e nada recordar, pessoas para recordar mas não sem terem lido Machado de Assis, para semear restolhos de vento em eira abandonada mais do que varrida, para se ter apeado em Verride, para invocar S. mas não D. Sebastião, para não vacilar ante a certeza de que tanto o regime vigente na Coreia do Norte como o idem idem nos Estados Unidos basicamente-é-assim, para ter o Torga todo em casa mas nunca ter ouvido o mínimo rumor de António Osório porque basicamente-é-assim, para parecer uma zebra cor-de-laranja excepto na colecção de vinis Cat Stevens da fase pré-Yusuf Islam, para gemer de frio na praia de Brighton enquanto Anthony Hopkins e Graham Greene, de braço dado, tergiversam sem abrir a boca, para morrer, para saber que O Sol Voltará mas só para o António Calvário, para nunca mais ficar em uma antemão de comboios, para de facto quase tudo – menos para ser capaz de eternidade.

*

Um dia também a cabeça arrenda quartos,
também ela partilha frigoríficos, tapetes,
sabões não, mas tapetes, frigorífico, luzes
das escadas.
Uma noite a cabeça não, mas isso só
um dia.

IDEÁRIO DE COIMBRA - 20 (trechos)




20. MÃE INTERNA(DA)

Coimbra, domingo, 20 de Junho de 2010

(...)


São de outros verdes os passos de relva e arvoredo nas tardes largas dos domingos de Junho. Também outro é o aroma das fêmeas.

*

O casal de patos da rotunda que medeia a minha varanda da esquadra da PSP, na Elísio de Moura, é muito bonito. Já hoje lhes dei pão a ambos. O macho é desconfiadote, mas a fêmea deixa-se solicitar muito bem, sendo ela sempre quem primeiro aboca o maná.

*

Por volta das sete e meia da tarde, a chapa do calor amaina, mitigada de fadiga. O vento levanta o tule da saia – e torna-se muito aprazível ambular ao fresco pela Cidade. Tenho intensificado o hábito de curvar-me para recolher do chão os ainda muitos lixos que gente sem civismo abandona. Deito as porcarias (embalagens do McDonald’s, paus e papéis de gelados, garrafas vazias de água mineral, tudo menos dinheiro) no contentor mais próximo e sigo, ao vento e à luz que esmorece.

*

Leituras lentas e agradadas: Raul Brandão e Professor Pedro Dias. Oitenta anos exactos separam A Farsa, que saiu em 1903, e Coimbra – Arte e História, de 1983. Usufruo, aprendo, anoto – cresço alguma coisa, enfim.

*

Eduardo Silvestre Gusmão Noronha prepara, por esta hora, um creme de marisco instantâneo em casa, algures aos Olivais. Não tem mulher nem filhos. Tem uma despensa onde acumula, com rigor arrumado, as comidas, as bebidas, os artigos de higiene e outras miudezas solitárias. Liga nada ao futebol. Gosta de selos e de ir ver o mar aos sábados à tarde. Fica em casa aos domingos – e a casa não tem televisor. Ouve jazz e música antiga pela internet. Lê na marquise, onde dispõe uma cadeira longa e um tamborete de apoia-pés. Tem cinquenta e seis quase completos, falta-lhe chegar ao próximo 19 de Julho, exacta quinzena posterior ao dia de Coimbra e da Rainha Santa Isabel. Depois do creme de marisco com tostas miniaturais e da garrafa pequena de maduro, prepara uma chávena de café-cevada e acende uma cigarrilha de café-creme. Ele também anda a ler Chesterton (A Perspicácia do Padre Brown). Gosta de livros de arte fotográfica, as paredes têm algumas reproduções de E. Smith e outras de Brassaï, entre outros. Deixo-o em casa.

*

Descubro olhos semelhantes a animais fatigados.
Famílias que cirandam açaimadas pela deseconomia dos tempos.
Também me recolho quanto posso.
Pratico alguns versos, imagino nuvens, tento não sonhar quando a melancolia me abate.
Orlo ruas de sombra que pelo chão me duplica.
Mulher com sapatilhas de enfermeira: animais fatigados, seus olhos sem fé nem desespero.
Rapaz ao volante do jipe parado no vermelho.
Um cão solto, duas pombas libertas, um melro.

*

Regressado a casa ’inda noite se não cerrara toda, lá os revi, pato & pata, na relva da rotunda – tão bonitos, tão serenos, tão uma do outro, serenos, bonitos.   

sexta-feira, junho 22, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 19 (trecho final) - Coimbra, sexta-feira, 18 de Junho de 2010


© Vanessa Nelissen - In the mirror


Quando podemos nada dever a ninguém, passeamos pelo mais recente Verão perto da grande asma do Mar. Toca-nos (eriça-nos) a salsugem, a respiração secreta dos peixes, o movimento de alga-grande dos cetáceos. Somos apenas (sabemo-lo bem todos, mesmo sem cursos universitários por aí além) ter-sido-infantes. As nossas mães olham-nos, medusas, do fundo do poço-de-olhos de delas água-de-olhar (os limos das décadas, os interstícios de tijoleira em que se enfia a cobra-de-água comedora de rãs, de aranhões). E se nenhum amor, ao menos de momento, nos não condenar a uma vida irrespirável, tossimos meias-frases de esplanada ante a chávena de café, a mordida beata de cigarro, a divorciada que começa as frases todas por é-assim e o aturdimento ante o génio invencível de Camões.