Monday, June 27, 2005

O Silêncio da Universidade

Fez catorze anos há pouco tempo, entrei para a Faculdade de Letras. Sétimo filho de operário (mal) reformado, o meu destino natural não era a Universidade, mas a serralharia ou as obras. Nas gerações que antecederam a minha, a promoção a homem fazia-se pela tropa e/ou o casamento. Ir para a universidade era uma utopia irresponsável.
A democracia teve isto de bom: a desmistificação do ensino superior. Eu, que lá andei, posso dizer, no entanto, que chamar superior ao ensino universitário é uma balela mal contada. Porque o mesmo é chamar inferior a todo o resto do sistema educativo. Acontece que não é bem assim. E passo a picar alguns conceitos que muito gosto teria em ver dissipados.
Os graus básico e secundário não são géneros menores. Não é por se ter menos idade que se aprende menos. Mais ainda: é nestes anos de formação literária, técnica e científica que mais a pessoa dá de si. As iniciativas das escolas chegam mais à rua e à sociedade que as pesporrências universitárias. O ensino inferior faz exposições, dá concertos, mostra livros, dinamiza excursões. E o outro?
O outro, o de cima, publica umas revistas tão elitistas, que ninguém as lê. A Faculdade de Letras, por exemplo, vive à conta de uns quantos prestígios bolorentos que se estão nas tintas para fazer chegar à população o conhecimento do que há de melhor na língua portuguesa. Antes pelo contrário. Nas Letras, Camões é um cadeirão, não o poeta magnífico que falava de Sexo, de Amor, de Aventura. Da Economia, não sai um caderninho mínimo que aproxime os cidadãos de noções tão fundamentais como o Orçamento de Estado, a Poupança, o Investimento, o IRS.
Eu sei que há excepções honrosas. No meu tempo universitário, tive bons mestres. Recordo aqui a malograda Doutora Angélica Coxito, uma senhora que chegava a telefonar para casa dos alunos, preocupada com a assimilação da Linguística que era o pão dela e haveria de ser o nosso. Mas as excepções são o que são: tristes confirmações da regra geral.
Seria bom que os professores universitários se dessem à humildade de escrever nos jornais que o povo lê. Seria muito bom que, em artigos molhados por uma linguagem viva e escorreita, fossem capazes de quebrar o silêncio falsamente superior de tantas teses ilegíveis. Seria óptimo que Camões, uma vez explicado às criancinhas operárias de quarenta anos para cima, fosse mais que a estátua em que o transformaram.
Os estudantes, esses, também deveriam descer à praça pública para outro efeito que não apenas o da exibição de bebedeiras descomunais. As propinas são ilegítimas, eu sei. Se no meu tempo me tivessem exigido o que agora se exige, eu não teria podido ser superior. Têm razão, os estudantes. Mas também há fundamento na observação popular: estuda-se pouco e mal. Lê-se zero. Escreve-se menos.
O povo mais fácil de governar é sempre o povo inculto. Não escrevi analfabeto de propósito. É que se pode perfeitamente ser universitário e inculto. Por outro lado, não defendo a banalidade muito corrente da cultura geral à moda do extinto Diário Popular. Para se ser uma pessoa bem (in)formada, não basta saber as capitais da Europa. Não é suficiente cantarolar de cor os apeadeiros entre a Estação Velha e a Figueira. Não é preciso andar sempre a malhar no ferro frio de D. Afonso Henriques ter sido o primeiro rei de Portugal.
Para a identidade cultural e adulta de um País, o importante é saber onde procurar a sede de conhecimento. Como escreveu um grande autor dos nossos tempo, “tudo no mundo está dando respostas; o que demora é o tempo das perguntas”.
Não consigo evitar o sentimento muito íntimo de que estou a aborrecer uma data de gente com esta conversa mal fiada. Mas, ao menos, disse. Estive cá. Vou estando. Não alinho no silêncio da Universidade.


Diário de Coimbra, 13 de Dezembro de 1996

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