Thursday, June 30, 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 5

João pastava Maria na palha do estábulo da quinta dos cavalos invisíveis. Cheirando-lhes ao amor, os cavalos punham-se a resfolegar como acordeões inquietos. O rapaz era baixo e forte. A cara dele, depois de África, parecia uma mão aberta de cicatrizes. João suava Maria, fazendo-a soar como uma pele de bombo.
Esse era o meu mundo: o monte, o amante a monte, o estábulo suspeito, a ronda fotográfica da sensibilidade a tudo. Eu queria ver.
Saltei de cima do muro do pátio-estádio e cortei um pé numa lata afiada que a silveira escondia. Sangrei no bidé feminino. Lembro-me da água debruando, como um pincel de pintor, o sangue, recordo a cor corredora do vermelho-vivo na louça do bidé, recordo o ralo gorgolejando o meu sangue. Conservo a cicatriz na base dos dedos do pé direito: uma ferida reavivada e revivida pela areia da praia. Fulgor e glória do menino ferido, salteador de muros, devassador de silveiras prenhes de frigoríficos, ratos, sofás e outros despojos fascinantes.
Um cão acompanhava-me. Era de pêlo malhado de ouro ruivo e branco-nácar. Era um animal muito inteligente, dono de um olhar apreensivo. Pertencia a si mesmo com uma nitidez decisiva: um príncipe carnívoro. Também ele, um entardecer, acabou. Sem querer, descobri que um irmão o levava para lá da silveira cortante, tinha-o metido num saco de farinha de padeiro, sepultou-o já anoitecia. Apercebi-me de que já então me escondiam a morte, como se ela jogasse às escondidas comigo, a criança em transe perdedor dos primeiros e últimos verões. Chorei mais pelo cão do que por ter cortado o pé. A morte do Cão é uma monstruosa lição infantil. Estamos, deixamos de estar: Verão, Inverno. Fui aprendendo assim.
Com a aprendizagem, veio a perda. Veio a perda porque veio o tempo. E o tempo era o tempo perdido. Sem cão, perdia-me no monte da fotografia. Esfregava as mãos nas ervas aromáticas, mordia folhas de oliveira, bebia água de uma fonte muito pura que chorava de dentro da terra, para lá da linha do comboio, como se chorasse pelos que via passar dentro do cavalo-de-ferro. Comia figos da Figueira do Carmo, apedrejava o ar, pastoreava as vacas interiores de uma tristeza que já se me tinha tornado tão inexplicável como sem remédio.
Georgette Magritte perdia o marido, entregue ao cancro terminal de 1967. René e Magritte com o meu cão depois da guerra, mais ou menos como na canção de Paul Simon. A guerra de João, o cavalo de Maria. Ao longe, morteiros da festa de Verão, morteiros da guerra de África da Piedade, as mortes de Magritte e do cão a que eu pertencia.
Caixas vazias de ananás dos Açores serviam-me de cavalos faroesteiros. Manhãs assim, no pátio-estádio, cavalgando imóvel, sendo tão feliz como a ideia de rosa que uma rosa dá sem pensar nisso. O meu corpo contava caracóis, delia as paletas do sol caindo além da quinta onde os cavalos sofriam o odor de João aleitando Maria, desferia pedradas contra Deus, esse assassino de cães e pintores.
Mas então vieram as letras, essas minhocas pretas que catalogam a terra: Selecções do Reader’s Digest em edição brasileira, a morte de Francisco Lázaro na maratona olímpica de Estocolmo (1912), ano do suicídio da mãe de Magritte, os nomes coloridos de países que nunca visitarei, centenários de santos, ilustrações francesas, Matt Marriott no Mundo de Aventuras, uma das muitas vidas de Leonardo, uma colecção espanhola de ‘dibujo’ (como eles chamam ao desenho), um folheto de psicanálise mágica que não sei se de Freud se do Professor Karma, um atlas tão pobre como o mundo que representava, Edmondo de Amicis, Mark Twain, R. L. Stevenson e o Pai Tomás na colecção Fruto Real, tantas letras que me induziram na pura perda de tempo que a eternidade era para ser e não foi.

22 de Junho de 2004

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