quinta-feira, fevereiro 13, 2020

CADERNETA PRETA - fragmentos de 33 b)


b) Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019


Não, não pude ir a qualquer dos acampamentos-de-férias do obscuro Mr. Billy Butlin – nem Filey, nem Skeguess, nem Clacton, nem Bognor, nem Minehead, nem Pwllhell, nem Mosney, nem Ayr. Fiquei em casa. Não estou a queixinhar-me. Oh Dolly. Oh Norah. Oh Sheila. Oh Joan.

Em 1981, Calvino cita Queneau: “A História é a ciência da infelicidade dos homens.”
Em 2019, a manhã é um apagão. À maioria, sei-o bem, repugna esta luz de papelão, esta moinha constante, este ter de libertar o interruptor para que a lâmpada faça de sol doméstico & domesticado. Eu adoro. Não preciso de Mr. Butlin.

Incluindo o mês em que perfiz dez anos de nascido, havia em Londres quem (por escrito) chamasse Henry a quem de facto era Harold, e Worthington a quem afinal se chamava Wilson. Um pouco – mas só um pouco – como tratar David por John e Cornwell por le Carré.

Isto não é Trieste, não vejo daqui o azul-adriático. Da janel’alta vejo, sim, o Bolão, os campos mais além dele abrindo peito a Montemor, Figueira, Jersey, Coventry, o Bering enfim.
Esta é a minha pobrinha ortodoxia: ser não-indo, ir sem-estar. Não, não estou a queixinhar-me – apenas respiro o ar da sala enquanto o Gato dorme.
Dezembro a 2/3, o ano vai expirando. O calendário faz-se Inverno Oficial. Começo no próximo Ano Novo o outro livro. Sei o que quero dele & com ele. Nenhuma ansiedade, pelo contrário.

Na Pensão Berlitz, na Casa Borges Porto, na Biblioteca Conde Catalazete, na Confeitaria Preciosa, na Lotarias Victor, na Papelaria Zurich, na Praça Garrett, no Orfanato Lúcia d’Avon, no Café Dédalo, na Alfândega Norte, na Retrosaria Epopeia, no Círculo Tomista, na Loja Aloysio, na Livraria Calvário, no Presbitério Sauliano, na Esquadra Central, na Churrasqueira Mondego, na Joalharia Rivoli, na minha MaterPaterCasa, na Praceta Verde Pinho, na Marisqueira Neptuno, na Garagem Velindro, no Parque Claro, na Alfaiataria York, no Quiosque Lacobrigense, na Óptica Vénus, na Ferragens Luna, na Mercearia Arcelino, no Salão Astral, na Adega Piedade, na Agência Franco, no Infantário Rosicler, no Colégio Sérgio, no Restaurante Estrel’Azul, na Carvoaria Idalécio, na Bijutaria 2000, na Albergaria Nobre, no Canil 1.º de Maio, na Barbearia S. Paulo, no Jardim Marcel, na Tipografia Pessoa, na Desportiva Albicastrense, no Forte Macedónio, na Torre Basileia, na Vidraria Tarzan, na Coudelaria Ascott, na Miudezas Pequim, no Hotel Império, no Largo Martelo, no Mijacão, no Bairro Aquilino, no Cais Juliano, na Avenida Soeiro, no Velódromo Atenas, no Magistério Filinto, na Cave Altamira, no Edifício Tavarede, na Niquelaria Argentina, na Clínica Amália, no Jacob Penhores, no Condomínio 1986, na Vivenda Diana, na Eléctrica Barata, na Doçaria Milano, na Editora Mistério, na Oficinauto Carvalhosa, na Fluvial Arcada, no Estaleiro Freitas, no Anuário Cavalinho, na Panificadora Reis, na Lanificação Zelandesa, no Talho Cândido, no Laboratório Cruz, na Aeminium Fotos, na Galeria Coimbrália, na Religiosa Lamecense, na Tabacaria Sereia, na Escadaria Conventual, no Convento Purpurino, no Pórtico Almedino, no Ginásio Duby, na Imprensa Republicana, no Estúdio Stig, no Diário Paroquial, na Farmácia Esplendorosa, na Sapataria Lorde, no Minimercado Matateu, na Tijoleira Damasceno, na Metalúrgica Platónica, no Banco Salvador, na Florista Clarissa, na Orquestra Brilhantina, na Maravilha Audiovisuais, no Estuário Fevereiro, na Mandrágora Plásticos, na Frutaria Filoxera, no Bar Rotundo, na Peixaria Saldouro, na Ópera Sevilhana, no Palacete Mayor, na Pneumónica Caramulana, no Teatro Avenida, na Queijaria Colorau, na Amorosa Eclesiástica, no Cinema Trianon, na Sanitários Triunfo
– respondi, quando me perguntaram onde procuro a palavra-justa. – E alhures também – esclareci ainda.

Terminei a primeira leitura de Retrato do Artista Quando Jovem na madrugada de 2.ª-feira, 28 de Março de 1994. A segunda, esta noite mesma, 6.ª-feira, 20 de Dezembro de 2019.
O meu Pai morreu um mês menos quatro dias depois dessa primeira leitura. Arderam, entre as duas viagens ao jovem Stephen Dedalus, 25 anos + 9 meses menos oito dias. A existência como somatório de coisas assim. Mas: E a vida – como quê?

Já fez vinte & oito anos + dois meses + 19 dias: a 1 de Outubro de 1981 (uma quinta-feira), em Trancoso, numa loja diametralmente oposta à Barbearia S. Paulo, compro, a 50 escudos o exemplar, livros de Somerset Maugham. De casa, trouxe os dois volumes do Trabalho Poético de Carlos de Oliveira. Comecei a fumar há dias. Num café da vila, tomo a bica e compro dois maços: um Porto e um Ritz. Assim foi que me iludi homem.

sexta-feira, janeiro 31, 2020

CADERNETA PRETA - 33 - a)





a) Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019


O temporal canta lá fora, não é grave, é como é, cantor. O ar & a água partilham o mundo. Uma parte da atenção, dedico-a à dinâmica dos elementos. Outra parte, a imagens interiores, espiral de recorrências, por assim dizer. O Gato lava-se, minucioso. Eu na Língua, ele com a língua dele. Iço-me de meus escombros, vou fazer chá, chá cá dentro & chuva lá fora combinam-se sempre bem, muito bem.
Aprendi coisas sobre William Booth, cadáver há 107 anos. O vento deu conta dele, como de todos dá. Parece que ele era de Nottingham, como Alan Sillitoe. Tenho de ir verificar se sim. E se ele também nasceu a um 10 de Abril como o senhor meu Pai.

Em um sítio chamado Rocascura, um cavalheiro de chapéu claro fuma charuto depois de se abrigar da chuva num alpendre de solteironas, as Manas Pereirinha. Juro que não sei a numeração do ano. Desconfio que seja pela altura da morte do general salvacionista Booth. É por aí, quando já muito não falta para que estoire a Grande Guerra.
Este senhor-fulano safou-se muito como representante de mercearias-finas. Casou-se mais bem ainda com uma viúva decentíssima, amiga das Pereirinhas. A ex-viúva está lá dentro agora, a chá & à conversa com as irmãs. Por tanto de delicadeza como de fastio, beltrano veio também charutar para o alpendre. É homem de não pensar para lá do suficiente. Contas certas, contas arrumadas – lema dele, no negócio como no resto. O resto, agora que já não negoceia artigos importados de refinado quilate, é a vida de casado com a de lá dentro. Planeia livrar-se dela – pela morte, claro. É nisso que pensa enquanto deixa consumir-se o cubano sem quase o levar à boca.

Certa violência dos elementos exteriores (chamam-lhe “Depressão Elsa”) serve de contraponto ao que, aconchegado em casa, vou tendo de dia, trabalho & pensamento. Faço por abarcar, relacionar, cristalizar átomos de sabença. Há pouco, li um pouco: Calvino sobre Queneau. Poucos trechos de cada vez: tem sido a minha leitura no trono-de-louça durante duas semanas. Cozi vaca com batatas & espinafres, além de cebola. O caldo ficou no ponto: chilro, a pedir a esmola de um fiinho de azeite. Faltou-me nada. Até um resto de broa marchou. Pena não ser da minha ida materAvó Cândida.
A noite já abriu as ingentes asas, tinta preta saraivada de riscos de prata. Vento valente, arvoredo de cerviz vergada. E eu no catre, forrado a flanelas. Falta-me aqui ninguém.

*

Um jovem regressa a casa.
A casa é a do outeiro.
Do outeiro vê-se o mar.
É do mar que ele regressa.

Um velho espera na gare.
Duas horas até o próximo.
O das 23h19m ruma o norte.
O velho vai para sul.

Casa de Amália face à praia.
O mar sempre, já não ela.
Longe, outra casa.
É a do outeiro.
Do outeiro vê-se o mar.
O rapaz regressa (a) velho.

*

Gente em hotel termal, sem problemas de capital. Purga-se sulfuricamente, come verdes, passeia de manhã e à noitinha pelo saibro ajardinado da cercania. O parque é gradeado, interdito a qualquer público que não hóspede. Poroso, o arvoredo é farfalhado pelo vento nocturno. A fonte original do estabelecimento foi rodeada de altos painéis de azulejos em 1933. O mar dista doze quilómetros em linha recta, dezasseis pela estrada municipal. Os velhos visitam-no pouco, ao mar. Os de meia-idade, um pouco mais. Uma matrona suíça gere o hotel. As criadas são portuguesas e moçambicanas. O recepcionista das 6 às 14 é de Braga. O das 14-22 é de Tomar. O restante faz também de guarda, não sei de onde é. Preciso de versos para demandar algo a tal respeito – de onde (se) é.


quinta-feira, janeiro 16, 2020

CADERNETA PRETA - 32

© Julien Conquentin







32. Lixo Escritor


Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2019


Tremenda, a Beleza. Já a tenho topado em lances que a não sugeriam, muito menos a prometiam. Animais sem fome. O vento nocturno em palmeiras que nem há. O fantasma da criança no velho que a foi. Certas meias-frases de sentido dobrado. Olhos que servem pão pelo ordenado-mínimo e uma refeição diária. A montra de relógios acertados todos pelo passado do relojoeiro. Aquele casal alemão rindo-se como nós – ou de nós – ou para nós. O tapete grená no pórtico do tempo por construir. A gaiola arrombada. Certas cartas encontradas no lixo de que esta tarde, depois da sopa, V. darei recado (1). Um tu descobrir um mim que eu nem sabia ser. O vaso esbeiçado que verte soro vegetal.
(Em Português, Beleza & Tristeza rimam. Mas nem sempre. Só muitas vezes.)

(Adentrou-se-me – notavelmente aliás – a evidência de coisas que não voltarei a fazer, não, que não voltarão a fazer-me. É demasiado simples – ou redutor – chamar a uma de tais idade.)

Vento transitando o mundo próximo. Saí para fazer chegar ao contentor o par de sacos com lixo de dois, não, três dias. Penada ou não, nem viv’alma no trecho de rua. Da outra banda, os da Câmara mandar laquear a tijolo & cimento a casa onde viviam mãe & filho, a mãe foi levada para um lar pré-mortuário, o filho carambolou às nove tabelas até ser encontrado morto num canavial sem dono. Lembro-me deles assando carapau no passeio. Não pareciam desgraçados. Acho que não liam filósofos alemães nem romancistas russos. Sei que não tinham televisor. Não eram daqui, mas também não eram de longe – é tudo. Talvez a mãe seja ainda vivente. A indigência é vacinação robusta, acontece muito haver gente que chega a centenária ao cabo de 99 anos de miséria estreme. Voltei para casa sem sacos nem pressa. Morrinhava, o que sempre me encanta. Isto sucedeu imediatamente antes de V. contar a não-história daquele Guilherme Alpedro. À volta, fiz chá, pus carne a descongelar para dali a horas, o Gato emboscou-me de puro prazer juvenílimo, sacanita maravilhoso. Corrigi segmentos de um poema que mete ao barulho loucas mansas à janela & caiadores de andaime, bispos & boticários, barcas & nascituros de caderneta. Não fui infeliz nem antónimo disso. Forrei o caixote com saco novo para o próximo lixo que escrever.

Já me aconteceu sentir que fui, talvez anos de mais, exasperante & exasperadamente jovem. E que talvez tenha confundido tal com, sei lá, a felicidade – ou afim rótulo. Uma dessas vezes foi há poucos dias, no sábado talvez. Quando olhava a montra da papelaria-livraria chamada Pérola? Sim, julgo. Havia um livro do Musil e outro do Durrell, ambos a cinco paus. (Voltou a chamar-se pau à unidade monetária corrente – a nostalgia é engraçada, sobretudo quando se pensa que o escudo antigo tem de ser multiplicado por duzentos para dar um euro novo. Novo, antigo. Etc.

Deitado, na cabeceira a chama quase extinta, duram pouco as velas encarnadas, o sono ainda me não manieta, o vento no solilóquio dele lá fora, grande bilhar joga ele, pobre dele, sem companheiro. Apagador de velas, ainda por cima.

Este ano, não pude hospedar-me no Albion Hotel, ou na Meldreth Guest House, ou naquela boarding-house de que de momento se me varre o nome mas que recordo ser a cinco guinéus por semana, ou no simpático Littlewold Private Hotel, onde no século passado conheci o casal Britten, descendentes do célebre compositor tão dos Brits. Para o ano, o mais provável é continuar a não poder. A há muito apeada aristocracia austríaca também por lá conversei. Candy floss, jugs of tea, o Smoky’s Punch & Judy Show etc. O mais certo é nunca-mais. Ou nevermore, como por lá se diz, recordando Poe.

Com Francine Rosso, de Metz, Karlheinz Goth, de Saarbrüken, Paloma Vásquez, de Navarra, Guido Ferrara, de Firenze – noite-de-variedades no Casino Olimpo, a dez milhas do aldeamento fundado pelo neto do plutocrata Lobstein. Acrobacia, funambulismo, prestidigitação, comédia. Uma noite próxima já do ocaso da estação-dita-alta, essa recordo-a bem, estiveram lá Jack Warner (locutor), James Balfour (cameraman), Bob Saunders (sonoplasta), Allan Tyrer (editor), Pamela Bower & Richard Cawston (guionistas/realizadores/produtores). Norman Swallow não apareceu. Assim foi, que a ser não volta.

Homem de 42 anos em 1957. Salvacionista, parece – isto é, membro do Salvation Army (SA). THE SALVATION ARMY / SPA HOME / HOSTEL FOR MEN’S SOCIAL WORK / 122 SPA ROAD, BERMONDSEY, S.E. 16. Cama em dormitório.
O filme foi televisionado a 6 de Setembro desse 1957. Eye to Eye – I Was a Stranger, realizado para a BBC pelo tal senhor Norman Swallow que não vi no Olimpo.
Charlie esteve doze anos no exército. Deram-lhe trabalho no SA. Deriva na & da pobreza. Melancólico documentário. Toda a gente morta, em 2019. Só pode.

Henrique Marechal Esteve Canvas. Homem de trabalho penosíssimo: porta-a-porta oferecendo calendários a troco do-que-quiser-e-puder-dar. Aceita um prato de sopa, algum par de calças do falecido, nos natais até fatia de bolo-rei & um cálice de porto. Este homem é mais real & menos mentiroso do que eu, juro-Vo-lo.

(Mas lá dizia o outro: “A poética da liberdade humana está indissoluvelmente ligada à mentira, essa mentira que, ao assumir as suas formas mais nobres, que são a ficção, o poema e a utopia, nos permite viver.” O “outro” é George Steiner, que assim se expressa em quatro Entrevistas que cedeu a Ramin Jahanbegloo, ed. Fenda, Lx., Junho de 2000.)

Afloraram-me à mente, hoje que bem chovia neste rincão de mundo, nomes que me são solares. Jacques Tati foi um. Wim Wenders (e por natural adjacência Peter Handke), outro(s). O meu Eça nunca anda longe. Nora Barnacle. Georges Duby. Winston Churchill. O Vala da Académica também, já falecido. E Patxi Andión, que morreu hoje, aos 72 anos, de um acidente de viação. Elevada figura, triste imerecido fim. Deixa canções formosas & fortes, como Padre.
Esta é pois a primeira noite de que Patxi não despertará. Seguem-se infinitas outras.

(1)     Uma dessas cartas reza assim (nomes e topónimos fabricados por mim):

“ Sr. Dr. Juiz

MÁRIO RELVAS
RUA DO PARDAL BAIXO
ANCORADA

1-     Venho por este meio informar Vossa exmo, que não tenho nada aver com os factos que me são atribuidos pela Etelvina Margarida Mestre.
2-     Dado que eu lhe entreguei a minha filha Soraia Mestre Relvas no dia 23-10-20…, e que a partir desta data estou proibido de a ir buscar e visitar na risidencia, cita, Rua da Abadia N.º 2 Ancorada., pelo companheiro desta Juliano Cavaco Anes, assim que por este tribunal, dicidi de a visitar na escola Primária de Ancorada aonde a encontrei, e constatei que a criança esta doente, e traumatisada, tais factos podem ser justificados pela Professora.
3-     Visto que a minha residencia é cita em Rua do Pardal Baixo, há 44 anos e que hoije vejo-me oubrigado a sair desta residencia, assim que proibido de visitar a minha filha.
4-     Não só me retirarão a minha filha, depois de a ter comigo 18 meses, e de me sacrificar por esta, a meter na pré-escola escola Primária, deixar o trabalho de motorista mas, agora Proibem-me de a visitar.
5-     Caso estranho, mera considencia bastou entregar a criança à mãe, para as queixas acabarem.
6-     A minha filha está doente, traumatisada foi soubmetida a vários feitiços, praticados pela mãe, e uma senhora da Guarda, assim que uma de Alter, Senhoras ditas corandeiras e feiticeiras.
7-     Sou conhecido na freguesia pela população, aonde detive uma Garagem de electromecanica, como um homem honesto, trabalhador, convivente, tal o podem afirmar o Snr. Carolino Pedrosa, ex presidente da junta, Emanuel Netos Silões empresário, e agente de seguros Ponderosa, para não citar mais nomes; e não como um criminoso, um delicoente.
8-     Pedi o poder paternal, assim como um inquerito, au sujeito de Etelvina Margarida Mestre, por saber que esta, nem éra mulher e ainda menos mãe competente para educar uma criança, este inquerito não foi executado devidamente.
9-     Etelvina Margarida Mestre arranjou a meter uma criança à nascença, porque esta era filha de um pai casado e com filhos, esteve enternada numa casa para menores sem pais, em Prega com a idade de 15 anos, porque a mãe Maria do Patrocínio Mestre alcòlica na altura, analfabeta, doente metal a trasia de Café em Café, aonde homens sem, consciencia, nem respeito abusavam da mãe, e da filha, até que idade de 11 Anos foi violada com o consentimento da Mãe Maria do Patrocínio Mestre, pelo padrasto hoije falecido.
10-  Como posso provar atrés de facturas de telefonemas detalhados, cartas de homens, de testemunhas, não é uma Mãe compativel para educar a minha filha Soraia Mestre Relvas, mas sim uma, mentirosa, uma Garota, uma Psycopata.
11-  Quanto au companheiro desta  Juliano Cavaco Anes, fugido da justiça Belga, aonde deixou uma mulher com dois filhos, uma amiga com uma crianca filha dele deficiente, devido aus maus tratos causados por este, desgraçou a vida a varias menores, e enclusivamente a uma da Covilhã.
12-  Hoije satorado de sofrer, amiaçado de morte, proibido de visitar a minha filha, vendo a minha filha, viver numa barraca de 30 m² com duas familias, de Café com Café com a mãe, a ouvir aquelas palavras “Grande mula não me emportava de ser o cavaleiro”, assim como outros palavrões, vendo-a avisada pela mãe, assim como pelo companheiro desta, para fugir de mim, assim me afirmou a minha filha na ultima visita que lhe fiz.
13-  O Que eide fazêr contra esta injustiça, que aceita uma mãe deficiente Mental, como testemunha, um namorado pouco a desejar perante a Sociedade, um padrasto o complôt está feito só falta ao tribunal me meter a croua na cabeça assim como a minha filha, assim aconteceu a Cristo.

Sem mais os meus simseros cumprimentos
Mário Relvas”


terça-feira, janeiro 14, 2020

CADERNETA PRETA - 31




31. Simplificação

Terça-feira, 17 de Dezembro de 2019



Vozes & ventos, mesma fartura. Sou pronto. Os papéis também. Veio sol no dia da Leonor, é natural. Pedra trabalhada entretém o Tempo. Não há crime no apessoar a inscrição. Prontidão, solidão, disponibilidade. Versos, vozes & ventos, mesma fortuna.

Pré-mortos, somo-lo todos, não há que enganarmo-nos, basta de timorata néscia superstição, só a obra operada (eu ia dizer obrada, mas seria ruidoso) vinga & vinca a efémera passagem que efémero não deixa o mesmo Sol de sê-lo.

A laboração afiambra, por assim dizer, o pão magro de cada dia. A própria, indefessa (indefesa é que não); a alheia, idem. Isso sim.

Não foi nada combinado, artificioso, interesseiro, egocoiso – não foi. Foi tão simples quão isto: sobraçando ele uma pasta sem pega e de couro, calhou pousá-la entre copos, entreabria-se papelada, perguntei, respondeu serem manuscritos já revistos & maiscabados de voltas que dera pelo pequeno-comércio, inclusos neste o povoamento ambulatório dos por-enquanto-vivos + sombras arbóreas dando em muros de vivendas well-to-do + uma pandora de falas recolhidas por autocarros e filas nas repartições públicas. Interessei-me, claro. Ele ficou de pensar se me os cederia para leitura solitária à consignação. Bebemos mais alguns, ele desandou, nunca mais o vi. Tempos (poucos) depois da morte, calhou encontrar-lhe eu a filha, ela foi gentil, sabia da tal pasta, passados dias confiou-ma.

Jorge Miguel, David Duque, Júlia André-Filho, David Arco, Jorge Rapaz – nomes constituintes do quinteto-residente, às quartas, da Luís Tano JazzHouse. Eu tinha na altura o mais bem remunerado emprego da minha vida. Rara era a quarta que eu falhava. O quinteto era excelente. A gerência tratava-me principescamente. Mesa própria, garrafa privada (Jameson tripla-destilação). Recordo-o em paz. O fotógrafo Félix Beato juntava-se-me ocasionalmente, assim como Fidelino Ernesto Castro, fotógrafo também, João Lenha, Brigitte Lindomem, até Sofia Seropico – tudo maltosa da imprensa (e seus derivados, por assim dizer). Tudo isso lá vai, nada disso cá volta. Só da música tenho alguma nostalgia, o que penso ser notório em quase tudo o que (ainda) escrevo.

Parece-me justo que desta caderneta constem tantos nomes quantos mereçam dela constar. Afloraram eles diversos & mais ou menos avulsos trâmites da minha passagem. (NB: Alguns eram já defuntos antes da minha nascença.) Assim:

Marco Tainha, autor de Hugo Berro Fino;
Nicolau Pejado, editor do melhor catálogo de títulos dedicados à pobreza em Coimbra no primeiro quartel do século XX;
Moura Bocha, santo & bêbedo & fraquíssimo poeta mas bom-coração;
Raimundo Valinca, melhor amigo social do que esposo privado;
César Pinteiro & Dinis Pote, dupla imbatível (desenho/texto) do cartoonismo esquecidíssimo da imprensa regional (Porto incluído, claro);
Marcelino Jaime Fernandes, cuja hombridade deveria ser erguida a património mundial, nem que apenas aos sábados com emissão em directo a partir do balcão do Carlos Carocha, que ainda hoje atende ali ao Bot’Abaixo.

Contam-me ter morrido, em Inglaterra e em aparato de extrema solidão (institucionalizado-sem-sequer-sombra-de-família) o indivíduo C.M.G., que conheci há cinquenta anos. Sinto pear sinceríssimo. Ele assassinou P.F.C. há 33 anos. Volveu-se farrapo, inexpiável lhe foi o crime. Eu sei que assim foi deveras. Dois mortos conto agora ao cabo da mesma faca.

Queira-o ou não
(mas sim, quero-o)
sigo rumo à/da
simplificação.

Em S. Francisco/USA, a desbunda narco-erótica de Foucault não é de grande interesse. Mas algumas páginas que escreveu, sim. Parece que ele gostava da música de Stockhausen. Tal é também interessante. Idem quanto à auto-moral em oposição à do rebanho. A parte sado-maso, essa é lá com ele. Ou era. Ou já foi. Parece que tanto ele como Barthes foram auto-atropelados. Michel sobreviveu, Roland não. Depois, veio Junho de 1984 (o Ano-Orwell, por assim dizer), a morte no bico vinha do insondável nenhur’algures, vinha & veio, tomou em si o autor de livros merecedores de atenção. Foi, enfim, amo de sua vida mesma

Em casa, em paz. Ponho a tocar Gesang der Jüngling, do Stockhausen colheita 1956. O Gato, que dormitava, interessa-se de imediato. Que lhe dirá esta música? Recordará ele algo dela em sonhos? Ou são já os sonhos dele stockhausenianos? Tenho de experimentar, nele, Messiaen, Debussy & Boulez. Baixinho, claro. Stravinsky, vemos depois se. Os dois, claro.

Aprecio daqui (sala, vidraç’alta) um trecho de rodovia de ligeira curva. É via de ligação a duas outras, não demasiado traficada, que já a pé fiz (itálico porque acho piada a este verbo nesta acepção faber ou faciens) muitas vezes – tanto de manhã bem cedo como pela pré-alva. A luz, cediça hoje, fá-la – ou torna-a; ou devém-a – várias-em-si-mesma(s). Em baixo como em cima, é limitada por semáforos. Subindo no plano, a gravura oferece-me o Campo do Bolão + as povoações em fundo-bruma (arredores do nascimento do meu Pai). Neste momento, descem-na um carro azul seguido de carrinha branca. Ninguém sobe, mas há só que esperar um pouco. Ei-lo: um papa-reformas cor-cueca subindo. O Gato adormeceu a alguma profundidade. Já não é o alemão de há pouco que soa na casa. É outro cavalheiro: o John Adams de Phrygian Gates (1977).

Na Sirius, ali à Rua da Sofia, gosto de pasmar sem abrir a boca. Nada obsta a que a hora-presente se veja transportada a horas-mortas suas irmãs, ali mesmo. Prefiro lá ir com o meu melhor fato – não é difícil, já que só tenho um. O melhor fato sobre os melhores sapatos – o que já me não é tão fácil, pois que tenho três pares bastante bons. Também a gravata me faz pensar: tenho duas. Recapitulação – um fato, duas gravatas, três pares sapatais. Agora que em casa isto escrevo, sinto vontade de voltar à Sirius em breve – veremos então que escreverei lá sobre casa, onde de roupão & pantufas me chamo Scrooge.

João Adões na hipermercearia, corredor a corredor sem correr, devagar abastecendo-se de artigos lhe conferem momentos do futuro (para) breve, escolhendo sem pressa entre marcas afins, encontrando o que não procurava e demandando o que pode não haver hoje nas prateleiras. Assim (n)a vida, João.

Alan Sillitoe – apetece-me relê-lo. É autor de sólidas qualidades. Se alguém reflectiu o & no que o rodeava , o criador de Saturday Night and Sunday Morning tem de ser arrolado no libreto. Nottingham deve-lhe.

(Escureceu, escrevo já través a luz eléctrica. É outra dimensão. E mais não digo.)

(Digo, digo:)

A salvo da bruteza de outras instâncias, segue caminho beira-rio o antigo soldador-oficial-n.º 1 da Metalúrgica Rendeiro & Livramento. É Valter Aniano da Póvoa Maria, 82 anos, natural da Arregaça. Trabalho toda a vida, teve dois filhos rapazes com Maria da Visitação dos Santos, mortos os três no mesmo dia, desastre de viação que deu muito que lamentar em a Coimbra toda desse mês de Setembro de 1986. Tinham ido a Alcobaça de visita à irmã de Visitação. Valter não foi por estar a fazer turno-extra a pedido do senhor Rendeiro. “Antes tivesse ido com eles” tornou-se a sentença recorrente do infeliz. Vive na mesma casa em que nasceu e se casou e co-gerou os rapazes, Diogo & Dionísio.
A salvo da bruteza de outras instâncias – mas não à da mesma, da única, da definitiva, da de 6 de Setembro de 1986, negro sábado.

Guilherme Alpedro Mestre Manha, rapaz fornido, sensível, deslocado, ensimesmado como as pedras que as crianças não escolhem para brincar. Ocorre-me pensar nele agora por esta ser a última entrada do capítulo de hoje. (Já passa da meia-noite, aliás, faço um pouco vigarice mantendo Guilherme na terça-17.)
A tranquilidade dele é toda exterior. A mãe da mãe suicidou-se, o médico desenganara-a, o cancro do fígado é do pior que imaginar se pode, a pobre velha suicidou-se à homem, enforcou-se na trave da adega como um homem, não na cama com soníferos.
Guilherme era então adolescente, acorreu aos brados da mãe, foi ele a tratar do imediato, bombeiros, polícia, pai por chamada interurbana.
Acabado o liceu, não quis seguir o superior politécnico. Empregou-se na lota do peixe, depressa chegou a leiloeiro. Ainda hoje não bebe nem fuma nem vai a bailes nem à bola nem nada.
Recorta, cola & coleciona notícias breves relativas a curiosidades estranhas & estrangeiras: incas, esquimós, tour-de-france, hematologia de reis, atentados, cheias de verão & insolações invernais, infâncias de compositores célebres, cifras em pedra escondidas à vista de toda a gente em frontarias da catedral X., patranhas do género que o convencem da urgência de partir em demanda delas como um folclorista farto do rancho local.
O pai não veio ao enterro da ex-sogra. Ninguém comentou, pelo menos não à frente dele. Já o rapaz trabalhava na lota, chegou uma carta dele. Nem menos: estava terminal de cancro do fígado. Guilherme não respondeu por crer tratar-se ou de uma piada de mau-gosto ou de uma seriedade de mau-gosto.
Nisto, mantendo ele o emprego & tendo chegado ao quarto álbum de recortes, chegou-se a mim a irredutibilidade da nova quarta-feira. 

sábado, janeiro 11, 2020

CADERNETA PRETA - 30






30. Sete Heptagramas para Entreter o Pagode

Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019




Lista A: de Compras Improváveis

1
Piano com maçã meio-comida em cima.
2
Largo artificial em condomínio (muito) fechado.
3
Lampião em loja de penhores com a inscrição Buffalo NY 1862 (o lampião; a loja é de 1919).
4
Bois-almiscarados filmados, em terra e do ar, por pessoas chamadas Ivo N., Jan H., Uwe A., Tobias M., Oliver G., Florian L., Klaus Jürgen S. & Christian W. – no ano 2011.
5
Roupa interior de mineiro a enxugar em corda azul elevada por vara de pinho num pátio traseiro.
6
Postal de origem escandinava destinado a uma costureirinha de Alpiarça.
7
Postal de resposta dessa mesma devolvido à procedência por insuficiência-de-destino – como se insuficiência de destino & humanidade não fossem já sinonímia suficiente: ou pleonasmo: ou tautologia: ou puta de redundância.

Lista B: de Vendas Impossíveis mas Datadas

1
Bicicleta preta a contrapedal comprada nova a 7 de Maio de 1976 (uma sexta-feira) na loja Quiper, Rua da Sota, Coimbra.
2
Pistola de fulminantes prateada em coldre de napa branco com esmeralda em forma de estrela, última vez avistados a 1 de Janeiro de 1974 (uma terça-feira) na Vinha do Faria, Pedrulha, Coimbra (onde depois fizeram os prédios para que foram morar o Victor Mateus e os irmãos Grilo).
3
Pára-choques frontal de carrinha (azul, da firma Aljan), danificado – sem qualquer culpa de Fernando M., o condutor – na Adémia, Coimbra, a 27 de Agosto de 1976 (uma sexta-feira), na sequência de colisão com bicicleta preta a contrapedal comprada nova três meses & vinte dias antes.
4
Lençol de baixo ensanguentado por (mútua) desfloração consensual em cama do Hotel Avenida na noite de 11 de Maio de 1994 (uma quarta-feira), quando as noites queimafiteiras eram ’inda no Parque.
5
Lápis Viarco n.º 2 afiado & usado uma vez só antes de extraviado no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, durante ou no fim da aula de Técnicas de Expressão do Português, docente Dr.ª Leonor Riscado, na manhã de 15 de Novembro de 1982 (uma segunda-feira).
6
Gelado (cone baunilha-morango) caído no chão entre os casinos Peninsular e Oceano, Figueira da Foz na tarde do primeiro domingo de Julho de 1970 (dia 5, portanto).
7
Aliança transparente perdida de dedo de mão também transparente a meio da manhã de sexta-feira, 23 de Maio de 1986, entre os números-de-polícia 210 e 310 da Rua Nicolau Chanterene, Coimbra.

Lista C: de Empréstimos Evitáveis mas Não Evitados

1
LP Ser Solidário de José Mário Branco sem risco algum – a Anne Josette de Lapaix Calle, certa (ou incerta) vez de um baile-de-garagem no Bairro do Brinca, Coimbra, 1982 ou ’83.
2
Uma 1.ª edição de O que Diz Molero (Bertrand, Lx., 1977) de Dinis Machado – a Anthony Laurie Pop-Gel, por ocasião do Festival Só-Rock no Jardim da Sereia, Coimbra, Julho de 1980 ou ’81.
3
Par de luvas de cabedal forradas a lã, pretas, usadas apenas ½ inverno – a Sarah Madail Souza-Sim, à saída de conferência-de-imprensa na FIL, Lx., 2005, pelo fim de Fevereiro.
4
Lembranças relativas a clarões esporádicos no firmamento (seguidos de luzes alaranjadas em forma de charuto movendo-se pouco acima dos canaviais de Porto Santiago) – partilhadas com Charley-Paul Shoemaker Norton em viagem ferroviária Porto-Lisboa, ano 1987 ou ’88, o menos tardar.
5
Viola-braguesa original de Barcelos, adquirida em 1986 a André Júlio Antunes Pataias – a Fernando João Póvoa Casimiro, no Outono aziago de 1989, ou em Espinho ou em Braga.
6
Manual-de-instruções (para dicionários-de-rimas, livros-de-estilo, catálogos-onomásticos, crestomatias-de-etiqueta & moradas-de-putas-casadas) – a Lena Francisca Costa dos Santos, em 2000 e na Marinha Grande.
7
A boa-fé, vulgo coração-nas-mãos, vezes sem conta – a duendes verdes, e portanto de marciana extracção, até data felizmente terminal & terminada.

Lista D: de Devoluções Fora-de-Validade
(mas qu’Inda Vão Muito a Tempo)

1
Do telegrama oriundo de Braga ultima(ta)ndo a última inocência & a penúltima ingenuidade – s/d.
2
Do livro da cegueira do Saramago, recebido em Lisboa aquando da elevação do Cristo-Rei a Saca-Rolhas – s/d também.
3
Do ramalhete de orquídeas do sub-género Cicciolinae Rata encontrado no Pinhal de Marrocos  – no ano em que o Boavista foi campeão.
4
Do livro-de-mortalhas Zig Zag com inscrição do n.º de telemóvel & do horário anti-marido mais conveniente – em Março de um ano perdido à nascença.
5
Da estatueta bicéfala (cão & deusa egípcia) diz-se que comprada na feira-de-velharias da Praça das Cebolas mas de fonte-limpa gamada àquele gajo leporino do salão-de-bilhares do Alto de S. João – no dia seguinte ao nainilévãne dUSAmericanos.
6
Dos óculos-escuros gipsy-rayban ofertados a pretexto do nascimento da Simone – quando a Nela já soprava à rosa-dos-ventos que ia deixar o Bruno antes mesmo do baptizado da cachopa, isto portanto circa 2010.
7
Da porra do Diário n.º-romano-não-sei-quantos do caraças do Torga, recebido precisamente a 24 de Outubro de 1991 (uma quinta-feira) num apartamento alvo ali acima do Arco da Velha, perdão, do Arco do Cego, perdão, do Arco Pintado.

Lista E: de Compromissos Viáveis (Alguns Já em Via, Aliás)

1
Demandar sempre o verso-justo, mesmo que – ou sobretudo quando – os outros atrapalhem um bocadito.
2
Não correr à chuva, sobretudo aos domingos – posto que o Senhor pode interpretar a correria como ingratidão pelo que Ele nos dá – ou, pior ainda, como trabalho em dia-santo, correndo-se por conseguinte o hórrido risco de se ir fazer companhia na Lua ao homem que ad aeternum lá anda a enrodilhar silveiras como vinha no livro da Primária.
3
Amar sem pressa alguma: a ave & o vento dela gerador; as datas sem calendário para que nem a morte tem ábaco; aquela rapariga clara de palavras límpidas que não queira parir seja de quem for só por o Falópio ’tar a dar horas; a praia invernal que deixe escrever na areia o que a maré seguinte deixa esquecer; não o espelho, mas o olhar dos próprios Pais nos olhos herdados.
4
Continuar na senda da palavra-justa, única que até, daqui & de boca fechada, se ouve & se compreende da Nova Zelândia à Noruega, passando por todas as restantes tabernas do mundo.
5
Garantir a José & Maria que mau-mau-mesmo-muito-mau para a saúde não é o fumar, é o andar a moirar toda a vida na estiva para depois acabar com uma reforma de merda que quase nem dá para acender uma vela em Fátima.
6
Ler maus livros – não há melhores mestres de escrita própria.
7
Demonstrar inapelavelmente que Coimbra só não é a mais formosa cidade do mundo por, sendo única, não ter termo-de-comparação.

Lista F: de Situações que Convém Levar a Sério (mas Tão-só em Verso)

1
Em o vento, além de folhas,
arrastar consigo páginas,
é de, em mudo modo, lê-las:
que te lêem mais do que imaginas.
2
Em voltando Judy Garland a menina,
é de mentir-lhe sempre o futuro.
Pode ela não querer ser pequenina
– e isso é do pior, é do mais duro.
3
Ciência é já segura que se morre,
por mais ou menos dê o pato às asas.
Então tu bebe & dorme, acorda & come;
e se não der p’ra escrever, pinta umas casas.
4
Concêntrica é a dor, como no lago
a pedrada orbita infalível.
Quanto ao amor-forever, ó carago:
tu cospe & esquece já, não é possível.
5
Tal mar, a lembrança depara dunas.
Tal vulcão, dorme por dentro do fogo.
Em vendo que o vento destrói escunas,
tu não recordes mais, tu foge logo.
6
A água, o sangue, o leite, o mel, o vinho:
q’a mágoa exangue deite à pele, mas de mansinho.
Exígua, iníqua, oblíqua, vida-azorrague:
a água, o sangue, o leite, o mel: tudo vinagre.
7
Vendo-te sozinho, não te faças coitadinho.
Se acompanhado, ide a um copo a qualquer lado.
Se assim-assim, chama-me a mim.
Se te achares de joelhos, aproveita & caga nos conselhos.

Lista G: de Coisas Literatóides que Lamento Perder em Morrendo (ou Não – mas o Título é Giro)

1
No geral, as promoções leve-2-pague-1. Exemplo: dois-livros-do-Paulo-Coelho por 1-cagalhão-desovado-à-2.ª-feira. (Onde está Paulo Coelho, pode ser Rodrigues dos Santos ou o Lobo Antunes das entrevistas. De qualquer modo, pagar sempre co’ cagalhão.)
2
As querelas doméstico-literárias que mantenho com o meu Gato. Exemplo: ele assanhar-se a sério quando a minha leitura de momento-sanita preteria José Vilhena em favor de algum Jorge Amado; ou substituía Jorge de Sena por versos do Namora do Marketing; ou hibernar o Cesário Verde em prol da versalhada im-possível do Saramago.
3
Percepções lapidares tidas & cinzeladas a sós – deveras conseguidas sozinho, sem telecomando alheio. Exemplifico garbosa mas francamente: Carlos de Oliveira é muito mais do que mero neo-realista; Vitorino Nemésio é enorme figura; Miguel Torga é criatura sobrevalorizada, bajulada, mimada, pedestalada – mas em breve esquecida & chutada para canto; Manuel Alegre aqui conta para nada, posto ser de literatura que falamos; Ary dos Santos foi um excelente letrista de canções mas como poeta-poeta é menor; histórico-literariamente, Portugal faz de porco que nem sequer grunhe quando lhe atiram pérolas: Wenceslau de Moraes, Camilo Pessanha, António Osório, Raul Brandão – são algumas delas. Mais há, porquinho.
4
Tornou-se-me pacífico dogma (não tenho pena nem temor da palavra, sei o que atinjo mercê dela) que a Santíssima-Trindade da Literatura Portuguesa é: Camões-Eça-Pessoa.
5
Já não lamento que Italo Calvino & Julio Cortázar (o primeiro, italiano nascido em Cuba; o segundo, argentino nascido na Bélgica) não tenham sido Portugueses. Pelo contrário: se esse azar lhes houvera batido à porta, provavelmente só em edições-de-autor é que apare-seriam. (É perguntar a António Osório como começou ele. Mero exemplo. É ir contar o número de obras pessoanas publicadas em vida do Autor.)
6
Já aqui tendo referido Sena & Calvino, a eles volto para assentar: pode ter havido (ou haver ainda, mas disto duvido) escritores que percebessem tanto do ofício (não santo, atenção, mas humano tout court) quanto o Português & o Italiano – mas mais, ninguém, nunca & jamais-em-tempo-algum. Firmissimamente o reitero. E não vacilo. Nem bacilo.
7
Sem falsas contemporização ou condescendência, concedo ao Leitor (qualquer & todo & cada um) que goste e/ou não goste do que entender. Liberdade – até para o mau-gosto, em caso disso. (E o disso é comuníssimo.) Gosta de merda? Pape-a a gosto. Gosta do que é bom? Então, parabéns: pérolas – das nacionais como das estrangeiras – são, ó felicidade!, tesouro que não escasseia.
Palavra-da-salvação.



Epílogo ou Remate (de cabeça)

I

Diogo do Couto, parece, foi maiusculamente Amigo daquele Camões miserando que até fome rapava, sem dela poder sair, na Ilha de Moçambique. Gratidão se lhe deve. E muita, pois que alimentou, vestiu, calçou & embarcou para Lisboa o Perene Epopeu.
Jorge de Sena, nisto ou naquilo, pode nem sempre ter tido razão – mas usou-a sempre, à razão, lá por razões só dele.
Aconchego-me a obras de pessoas há muito corporeamente extintas. A muitas me refiro, digo, pessoas & obras. São caloríferos nos (já raros, infelizmente) dias frios & são refrigerantes nos sufocantes (infelizmente, demasiados).
As boas leituras acabam sempre por permear-me o solilóquio permanente com que escoro a maioria-silenciosa dos meus dias. Curiosa, que não paradoxalmente, as más também – se não mesmo mais até.
A Literatura não é meramente um modo-de-vida mas sim a vida-de-outro-modo. Creio-o & pratico-o.
É verdade, não é mistificação: homens & mulheres já mortos continuam vivos mercê da obra que nos legaram, mormente quando de grande & incontornável qualidade. Não é milagre nem fé – é inteligência & boa-sorte. Neste sentido, continua estentoreamente audível a gargalhada do delicioso Eça; continua mirífica a arqueologia idiomática do maravilhoso Camilo; continua ímpar a paleta fotossensível de Wenceslau; continua singular a Lisboa-plural (não é vão paradoxo) de Cesário Verde, Cardoso Pires, Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão – e não muitos mais, embora ainda alguns.
Confesso embirração com a figura (figurinha-queixinhas, às vezes) que Eugénio de Andrade arvorou por pose – mas a poesia dele é assaz revisitável: mesmo não sendo nós já deslumbráveis adolescentes.
Dos torg’alegres, já disse. Quanto a essa multidão chamada Pessoa, cometo profano pecado sempre que o nomeio – pois que se não deve invocar o nome de (um) deus em vão.
Desde 1 de Janeiro de 1995 (um domingo) que registo numérica & cronologicamente as leituras/releituras que faço. Folheando esse rol, obtenho da minha passagem uma espécie de gramática essêncio-existencial. E também, ou sobretudo, o cadastro do melhor tempo da minha vida.
(Copofonia & misantropia não são sinónimos de literatura – mas lá que a ajudam, dúvida nenhuma.)

II

Por dentro se configura a distância,
que concretiza o afastamento,
que ainda assim é presença.

A pessoa só é pessoa se por dentro.
Por fora, é homem ou mulher,
em novidade ou velhice – e só.

Homem só, mulher só, pessoa a sós.

III

O estivador da Rocha do Conde d’Óbidos comendo pão com sardinha de conserva em tomate picante. O sol outonal glorifica a foz tágica. Milenar aquilo tudo: o homem, a sobrevivência, a glória – e o R que ali, em tágica, parecia faltar.

IV

Pesporrência caturra dos pseudomoralistas (relativamente a tudo & mais qualquer coisa) – não dou, já há muito que não, para esse peditório. Prefiro-lhe uma volta pelo burgo, este a que para sempre retornei – não cuidando eu de saber quanto vale(rá) este para-sempre.~
Inteligência a sério & a valer, apreciei eu a de um licenciado que, herdando de seus velhos uma pequena casa aldeã, a tem reconfortado de meios simples mas eficacíssimos. Ameace o boletim meteorológico o que ladrar, não há sábado, domingo ou feriado que ele lhe falte a ela. Pouco falta para que dê por concluída a restauração do tugúrio. Já me restaurei lá eu mais do que duas vezes. Cá fora, sob telha, há o largo alpendre dotado de lenha e onde ardê-la. Confeccionámos lá lautos grelhados, peixeiros uns, viandeiros outros, opíparos todos. Nomeando-o embora vinho, veludo é o que lá temos mamado. Acontece-me sempre voltar de lá com vontade de lá voltar. Ficar, não posso – portanto, escrevo-o para que sim, se & quando lido.

V

Jacobi faz Claudius.
Hulce faz Amadeus.
Suchet faz Poirot.
Gambon faz Maigret.
Brett faz Holmes.
Ganz faz Hitler.
Craig faz Bond.
Guiness faz Smiley.
Silva faz Evaristo.
Cintra refaz Belo.

Assim devemos fazer
– ou pelo menos tentar.

Morre-se na mesma
– mas dói menos ter nascido.

VI

Rosa, cavalo, noite, aurora.
Sim, sim, certa, justa.

VII

Paulina Barbosa Catalazete
deu de si a flor tão preciosa,
mas mal-amada, e de repente,
a sós vive ela hoje em sua casa.

Danilo do Carmo Melo Taborda,
d’alto de 4.º-andar viu ele os Cravos.
Não mataram os pides-bardamerda,
’inda queimaram aos montes arquivos.

O país é bonito, a pátria é chunga,
é pária de si mesma quando quer.
Ter-lhe amor nunca decapita a zanga
q’um gajo sente em lhe vindo o pior.

Tanto émeérrepêpê & cêdêésses,
varinas, pauliteiros d’enfiada,
tudo enfim à coca de benesses,
cagando & rindo da própria cagada.