Monday, June 27, 2005

O frágil lado de fora

Um cadáver sexagenário do sexo feminino apareceu encalhado numas pedras da Foz do Douro. Eram nove da manhã de quarta-feira, 12 de Março. À hora de almoço, não tinham sido ainda determinadas as causas da morte.
A notícia, assim (mal) escrita e atrasada, não atrai leitores, não vende papel, não empata o trânsito. Quando a desgraça se vulgariza, nem para notícia, dois dias depois, serve. Assim é.
Por uma obscura razão qualquer, no entanto, o assunto fez-me parar, escutar e olhar para dentro. As autoridades que tomaram conta do caso da Foz do Douro já certamente determinaram, hoje sexta-feira, 14 de Março, as causas da morte e a identidade do corpo. O que eu gostaria de ver determinado, porém, são as causas da vida. Por outras palavras: perante uma mulher morta, uma anónima mulher antiga e encontrada presa nos calhaus do rio, não me pergunto quem é. Pergunto-me quem é que ela deixou de ser. E permito-me, contra todas as regras jornalísticas, dar cordas à imaginação.
Era pobre, portuguesa, silenciosa e só. Viveu demasiados anos no lado errado do rio, o lado de fora. Andou nos mercados, vendeu artifícios de plástico para segurar o cabelo das raparigas. Depois, foi perdendo a vista, a audição e aquilo que, em Economia, se designa por perspectivas. Dormia nos jardins municipais – como uma princesa solteira. Acordava molhada pelas incontinências do frio. Tornou-se escura e leve. Andava pela cidade como uma cabana andaria se as cabanas andassem como mulheres sós. Nesta altura, ela já era, há muito tempo, o futuro que há sessenta anos se prometia.
Todos comemos bom bacalhau, todos sabemos que Portugal já dividiu com a Espanha o globo terrestre. Somos todos os maiores da nossa rua. Vemos muitos filmes, compramos muitas cassetes, votamos, em pleno odor de santidade, nas eleições democráticas. Mas, enquanto estas coisas nos acontecem, aquela mulher partilhava um papelão de embalar frigoríficos com um rapaz dado às drogas, perto da Sé. Na madrugada de quarta-feira, por volta das cinco horas, a mulher sentiu que o rapaz tinha morrido. Os olhos do rapaz estavam abertos para as letras do papelão: “FRÁGIL – ESTE LADO PARA CIMA”.
Foi então. A mulher aconchegou o drogado na noite fresca. E dirigiu-se, sabem aonde?, ao rio.
Não é necessário determinar as causas da morte. É preciso determinar as causas desta vida.


Diário de Coimbra, 15 de Março de 1997