Friday, June 24, 2005

Despir, Pesar, Medir

Por ter nascido em 1964, todos os anos um autocarro do Estado ia buscar-me à Escola Primária do meu bairro. A mim e aos outros de 64, claro. Era uma manhã excitante. Em vez da Tabuada, da Ortografia e de jogar à porrada no recreio, éramos levados para o Magistério Primário, ali à Solum. Objectivo: sermos despidos, pesados e medidos. Desde 1970, portanto, que sou uma espécie de número atómico numa já remota estatística governamental. Nunca encontrei esse gráfico de antropometria relativo ao crescimento da miudagem portuguesa nascida há 33 anos. Na altura, calçava botas de rebenta-tudo, vestia uma canadiana para todas as chuvas, mostrava um olhar castanho de puro vira-latas português e não devia pesar mais de 40 quilos. Media pouco.
Hoje, é Fevereiro na minha vida e já dobrei esse cabo de cristal dos 30 anos. Entre tormentas e boas esperanças, continuo a ser despido, pesado e medido. Despido, pelo IRS, pelas farmácias e pelo preço dos livros com que entretenho o vício de estar vivo. Pesado, pela avaliação da Polícia (sou ou não sou um eventual toxicodependente?), pela desconfiança dos condutores de autocarros (tenho ou não tenho senha pré-comprada?) e pelo cérebro (?) dos porteiros de discotecas (sou ou não sou filho de um dr. engenheiro?). E medido, dos pés à cabeça, pelos meus familiares e amigos, que vivem na dúvida seguinte: até que ponto um gajo que chega ao jornal pode ter o juízo todo?
Todos temos alçapões e nichos secretos para guardar conchas mentais, relíquias de lixeira e sonhos inconfessáveis. Esses sítios secretos não podem ser despidos, nem pesados, nem medidos. São os lugares da nossa essência: onde somos sem precisar de estar, onde estamos sem precisar de vir e para onde vamos sem precisar de dizer nada a ninguém.
Por ter nascido em 1964, já tenho, plenamente, idade para ter juízo. Mas confesso que desconheço em absoluto o que fazer com tal juízo. Provavelmente, deveria vestir-me melhor (para que melhor me despissem), comer mais (para gozo dos donos de restaurantes e dos bichos da terra) e crescer mais (para ir jogar basquetebol na América).
Mas, porque me sobra a mania de me presumir como mais do que um mero miligrama estatístico, vou continuar com a roupa do costume e com o peso possível.
E sem medida.

Diário de Coimbra, 28 de Fevereiro de 1997

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