Monday, January 29, 2007

Vinte e um Poemas em Três Sequências

Desenho: IX, de Fernando Campos



Primeira Sequência - AVENIDAS FRIAS mais SETE POEMAS

(Caramulo, tarde de 26 de Janeiro de 2007)

1. É FALTA

Na boca quarentona (de)moram ainda
a canela e o cuspo da lascívia
tocada ao espelho por antecipação,
lembrança hoje apenas.

Tudo o que foi.
Tudo o que era para ser.
O que vai sendo.
O cacto que esta manhã vi,
agora lula anoitecida, grisa,
não verde já, não.

Os meus amigos quadrangulando mesas
a que não assisto por ausência económica.
O fervor-em-dulçor das vidas deles.
E a minha vida – pontapé na canela.



2. DO NÃO-RETORNO EM CROMÁTICA COERÊNCIA

Não voltarei a teu sopé.
Outra g(i)esta me apela.
Quem já foi, foi, já não é.
Gosto da cor amarela.

Te não sou também já não.
Outro o macho, outr’ o Verão.
Colorau e estragão.
E pimenta. E açafrão.



3. TRATADO ECONÓMICO

Para afinal morrer, viver é o mais mínimo salário.
De tão pouco nos serve, trazer na bolsa valores.
Acções, justas que sejam, só descer podem.
Resto é numerário: débitos, créditos, amores.



4. PANDA

Se ela conduz a toda a brida desabrida
um carrito utilitário ‘té à 24 de Julho
só p’ra estar contigo, não a desprezes, pá,
em forma de carro.
Gastam pouco.
E gostam muito.



5. ACIMABAIXO – RECORDAÇÃO

Finos, loiros, choviam os cabelos
omoplatas a baixo
(não é muito lírica a palavra omoplata,
je sais e I know, mas).
Morangos citrinos mamilavam
a serpentina língua que
aos dois buscava.
Baía d’ ouro escondia
o real nilo, labirinto, sob, das tripas.
Delta e genebra pé-de-galinhavam
a fenda-fundura.
Depois, pernas e pés – o normal.
Ao alto de tudo, a cabeça.
Ou Deus,
que a gaja era bestial.



6. SEXTA-FEIRA

E na minha sexta-feira
quantas sextas-feiras se gastam
sem notícia?
As do que exilam a própria exibição.
As do que se expõem na própria exposição.
As dos que metem cinco eurosóleos
(e ter cinco euros – viva, viva!).
A sexta-feira dos jantantes
que jantam coisas que já foram jantadas antes.
E a promessa do sábado,
do estado laico,
quando a merda da fé
dá cristão ou judaico.
E na minha sexta-feira
(feita da mesma maneira)
nem notícias nem fritadeira,
nem malícias nem eira-ou-beira,
nem estrelícias nem terrinteira,
nem sevícias nem a laranjeira.
Na minha sexta-feira,
a vossa sexta-feira.
Não há outro modo. Nem outra maneira.



7. AVENIDAS FRIAS

(mais outra canção, e sempr’ ainda, canção para a Mariana)

Isso faz sol-pôr
Isso dá geada
Isso é como amor
Qu’ é tudo e nada

Avenidas frias
Vem de lado o vento
Às vezes lamento
As noites e os dias

Às vezes também
Isso dá geada
Retrato de mãe
E um espelho de nada

E uma montra triste
De França relembrando
Que tudo o qu’ é triste
Insiste espelhando

Cachecol aos pés
Negra penduração
Não sei como tu és
Nem quem vou ser
Eu quero não

Isso é magia
No cais das velas belas
Dá tu vento por elas
De noite e de dia

Quando cantar já foi
Não lembro quem cantou
Isto não dói, não dói
Isto já foi, eu sou.



8. MAP’ALMA
(idem)

Quando a alma pulsa finda
Inunda o coração
É uma alma que abunda
Rotunda redundação

Repete a alma filha
De quem gerou e mais nada
Pode ser que a alma ainda
Saiba cantar desgarrada

Se não fora p’los meus filhos
Se não fora o que fiz
Se nunca bosque nem trilhos
Nem filhos nem meretriz

Alma-mater pulsa ao fundo
É tod’ uma geração
Mapa a cores todo o mundo
Uns vieram outros não.



Segunda Sequência - LINGUÍPICA mais QUATRO POEMAS
(Caramulo, noite de 28 de Janeiro de 2007)




1. A RESTAURAÇÃO PORTUGUESA (NA FIGUEIRA DA FOZ SOBRETUDO) ESTÁ PARA O COMÉRCIO COMO O IMPROVISO ESTÁ PARA O JAZZ, MAS SEM PRÉVIO E SÉRIO ESTUDO DAS ESCALAS NEM DA FRASE-MOTE

O casal ‘inda não é velho, mas já não é jovem.
Pediram ao banco, montaram esplanada.
Parte dá pró mar, metade é tapada.
Tem sandes modernas, cerveja gelada.

Ele arranha inglês, ela esteve em França.
Ela é pequenina, ele já tem careca.
Foi na discoteca, na pista de dança,
que se conheceram. Agora é uma seca

querer ser modernaço mas picar o boi,
que o turismo de praia não é o que foi.



2. UMA NOITE, EM LISBOA

Enquanto um verso corre e desenrola
seu mesmoutro eu na linha seguinte,
gente existe que dormir tenta
na pedra doente da cabeça.

Olha, fecharam aquele teatro!
Faltam letras ao reclamo da Companhia da Luz.
O expresso alentejano passa, hidráulico.
Uma baforada de papéis de rebuçado aflora a relva.

O Tejo muge como um boi fotografado
contra a corrente do jugo.
Paredes negras são cinzentas.
Raparigas estragadas sorriem
impropérios (od)ontológicos.

Deixaram aqui cair isto: esta gambiarra
de luzes-vias que não iluminam ou levam
nem trazem. Manchetes eléctricas,
como peidos dados em estrangeiro,
arrefecem de luz os trâmites negros.

Para mais, tudo caríssimo.
Um croquete vale meio leitão.
Uma cerveja parece ter foros de armagnac.
E a indelicadeza dos criados que,
com o nono incompleto,
aspiram a estrelatos de Carnaxide.

A aurífera sanha dos taxistas.
A brutidade anã dos bairristas.
O energumenismo dos porteiros.
Cigarros p’ra cravas e craveiros.
O lambesbianismo da velha secretária
com sete netos e rata vocabulária.

O gajo que foi de Esquerda (inda diz que é)
mas finge ser groselha o que é capilé.
E o sobrinho do embaixador
que recruta crianças
p’ra que o tio enrole
a pila em tranças.

Lisboa é boa p’ra fazer de má.
Uma nalga é Chelas; outra, Massamá.
Se fores a Madrid, lava a cara.
Corta as unhas rentes,
desprendendo ao chão
esterco, verniz e gentes.

Disse e escrevi, Lisboa, em má hora.
Que eu já t’ aí estive.
Estive mas vim-me, embora.



3. (MEN)SONG(E)

I had a song for you
My song was me and you
D’ailleurs on est partout
Song mensonge e eu e tu.



4. SO(U)NO

Torna-se a criança o homem
que dorme (apesar de tudo, dorme)
(apesar da desproporção enorme)
(apesar da noite, dorme):
retorna-se o homem a criança
que dorme.



5. LINGUÍPICA

Por vezes a língua portuguesa freme
como involuntariamente treme
o flanco dos cavalos.
Por vezes, a língua portuguesa apresenta
a beleza involuntária dos cavalos.
Contra o horizonte raso do pensamento,
crepuscula-se, toda língua, a silhueta
da Língua.
Também merda e moscas a assediam.
Ela resiste,
lembrada de códigos de feiras ganadeiras
e de tiques sinaléticos de ricas senhoras
em pastelarias finas
tomando branco português
por chávenas inglesas.
A língua portuguesa está para os portugueses
como o vento para os cortinados.
Ventríloqua de outras línguas
graças ao triângulo
das suas catorze vogais.
Rica língua de pobres comedores de batatas
e porcos doentes,
instrumento de exílio entre
Povo e Parlamento.
O bafo do dizer troca e truca
mais do que o dito.
A maliciosa pálpebra remela o erotismo
ilícito e implícito.
Adérito chega a vias de facto-casamento
com Susana por mor de uma
chicana.
Rita tira Abel a Joana por mor
de outra
gincana.
Ou grogue de cana.
A língua cresce nos muros e nas orelhas
como o musgo da idade.
As velhas aldeãs falam para as panelas,
essas pretas surdas que só ao lume
abrem a boca.
Eu tenho visto cães que entendem perfeitamente.
Eu tenho visto éguas dando-se a cavalos lusitanos.
Deus ainda é brasileiro, mas Cristo
sempre foi português.
Cristo é de Vilanova de Milfontes, dedica-se
a búzios e a marés irrepreensíveis
que trocam cascas e espumas entre si.
Por vezes a língua portuguesa vai à discoteca
e fala com o disco-jóquei.
Jóquei é rapazito de cavalos.
E de cavalos sabe a nossa língua.

FFFRRR.


Terceira Sequência - SÍLABAS CAUDAIS mais OITO POEMAS MATINAIS

(Caramulo, manhã de 29 de Janeiro de 2007)




1. CERTEZA

Um cavalo negro na linha superior do monte
esmalta por contraste o céu frio.
Não possuo a certeza de haver cavalo.
Nem monte. Nem céu. Só o frio.



2. DIA

Se algum dia quisemos
que fosse outro
o dia,
aqui o temos.



3. COMPRAS

Vais à loja e compras

um pacote de chá
uma barra de chocolate amargo
um esfregão de palha-de-aço
uma posta de bacalhau
uma barra de sabão azul
uma caixa de molas da roupa
um ananás
uma lata de feijão-manteiga
um pacote de manteiga
um frasco de café instantâneo
uma garrafa de aguardente
uma lata de leite condensado
uma couve
um saco de rebuçados
um pacote de bolachas
uma linguiça
uma pedra-de-amolar
uma pedra-pomes
uma revista de viagens
um lápis nº 2
uma afiadeira
um caderno quadriculado
um saco de batatas (10 kg.)
uma molhada de grelos
(com referência maliciosa na caixa
à frente de senhoras)
uma lata de graxa preta
um frasco de espargos
uma lata de tomate pelado
uma lata de feijoada pré-cozinhada
uma embalagem de caldo de carne em cubos mágicos (16)
um poster de Jesus Cristo a carvão (edições salesianas, 25 mil exemplares)
uma embalagem de bolos de bacalhau prontos a fritar
uma fritadeira
um pacote de caixas de fósforos (10 unidades sindicais)
uma alface
um livro de literatura rápida
um limão
uma lata de sardinhas em molho de tomate picante
uma esponja de banho
uma embalagem de pensos-rápidos
um livro de mortalhas
uma ganza
um coiso de mercurocromo
um pacote de algodão
um conjunto de pilhas para o transístor (4)
uma lâmpada-lágrima para alumiar por baixo o menino-que-chora
uma cassete do Fernando Farinha
um conjunto de pilhas para o leitor de cassetes (4)
um garrafão de tinto corrente para ver se a coisa corre (5 litros aos cem)
um pacote de esparguete
um saco de trinca de arroz para cozer com fígado para o gato (20 kg.)
uma botija de gás
uma embalagem congelada de hambúrgueres de peru (6)
uma alheira
uma cuvete de caldeirada com dois mexilhões e delícias-do-mar
um rolo de corda sintética
um par de luvas de lã castanhas
oito laranjas
um fígado de porco para cozer com a trinca de arroz para o gato
duas mãos de vaca com sotaque nacional
duas caras de bacalhau
quatro cebolas
quatro cabeças de alho
um frasco de grão-de-bico cozido
e
um pack de água gaseificada (6).

Vais à caixa, trocas com o caixa um comentário malicioso a propósito dos grelos, pagas, sais e entras quatro vezes para arrecadar as compras no porta-bagagens, entras e sais de casa outras tantas vezes para acumular as provisões, sentas-te no sofá da sala, abres uma garrafa com gás, abres a revista de viagens, fechas a revista de viagens, olhas para a janela, calculas a altura da varanda até ao pátio, olhas para o rolo de corda e pensas na vida.



4. VIETNAM

O velho mendigo
atira ao chão um fruto:
napalm da mão,
o agente laranja.



5. BOSQUE FLUVIAL

Lembro, do bosque fluvial, a abóbada cinematográfica do sol lancetando o folhedo alto.
A suspensão mineral do pó.
A nudez simultânea dos rapazes nadadores.
Lembro o tasco de madeira onde gelados e ovos cozidos e batatas fritas e caramelos.
E laranjadas e cerveja preta precoce.
Lembro o avantesmismo existencial dos ciganos.
Ranchos-famílias enpandeirando arroz de tomate e bolos de bacalhau.
Velhinhos solitários pré-inscrevendo-se na eternidade.
As pontes de madeira que rangiam aludes.
As raparigas iniciando o estatuto mamário.
Os basquetebolistas transpirando gáudio.
Os quarentões demandando uma renascença aeróbica.
As maçãs sobrevoadas pelos milhafres.
O papagaio vivo cumprimentava em espanhol, antecipando as máquinas de brindes por moeda.
Lembro o prestígio das marcas de sapatilhas (quando as sapatilhas eram sapatilhas e não ténis).
Lembro a minha bicicleta negra de travão a contrapedal.
Depois, num flash maligno, lembro o outoniverno de 1999.
Depois, não quero lembrar.



6. COELHO

O homem da espingarda existe.
O coelho existe.

Trocam números de telemóveis logo ao primeiro encontro, numa roda de amigos profissionais, um sábado à noite, discoteca, vamos tantos neste carro e tantos naquele, levam as fulanas que não bebem. Ela é solteira, ele é divorciado. Ele usa um pulôver de malha verde sem mangas que lhe assenta bem. Ela entrapa-se de qualquer maneira, está na idade, tudo fica bem quando se é doze anos mais nova.

O homem da espingarda existe.
O coelho existe.

Ela é mais velha do que ele, engenheira filha de engenheiro, conhecimentos em sede de município. Ele é bonito e está quase a acabar Farmácia. Ainda bem que ela não tem filhos: ele faz as vezes e até mais que isso.

O homem da espingarda existe.
O coelho é poeta.



7. NENHUM

Vou a funerais como se foram aulas.
A casamentos como ao cinema.
Susanas, Odetes, Mónicas, Paulas,
Abéis, Tiagos, Zés e Tos – não há problema.



8. ROL DE SEIXOS E DE COMPRAS

Indefinitamente murmura o sol de seixos
arrolado pelo ribeiro. Poda o velho avô
suas vides genealógicas. O senhor do gás
sonha vender televisores. O limoeiro perfuma
sozinho a manhã toda. Chama-se “mente” e
é sempre verdadeira. O homem que recebia
com maçãs e vinho branco na casa
vermelha – já não mora nem recebe. A mulher
da loja das meias é subida por uma medula
dormente. O sol costuma pepitar os seixos
ribeirinhos, translúcida a corrente aquária,
fotografados os peixinhos castanhos que
proferem sílabas caudais. O arquivista municipal
não sabe que há-de fazer dos anos aposentados
por força de lei. Madame faz Leiria e Fátima
por 50 euros, só cavalheiros, casais não,
obrigada. Os retratos tornam-se auras anunciadoras
de cinza. Em dia véspero de mercado, as galinhas
extremungem afecto pelo pátio de mato. A menina no
labirinto de bonecas que só falam quando se escondem.
A árvore assinada a mijo pelo cão territorial. O coração
patronímico. O tachito de arroz consagrando a
domesticidade. Lavanda entre seios. O nácar
ventríloquo da mulher aberta. O tutano exposto
da palavra. O homem da espingarda alvejando
o cavalo negro, o frio, a linha do monte.
As compras todas por arrumar.

2 comments:

Perca do Nilo said...

isto é um livro, não é um post. impossível de mandar bitaite. mas gostei.

JP Gonçalves said...

Quem escreve assim não é pago.