20/11/2020

VinteVinte - 129 (III & IV)




    III


    Ó imaginada noite estrelada 
    Estrelada como o manto do mágico 
    Cada um é ante ti desarmado 
    – E se desamado, pior. 

    Matina minha a que a sós pertenço 
    Pertença que me pensa & sente perto 
    Mísera, ínfima condição a humana é 
    – E se lúcida, pior. 

    Tarde árida, ávida, estéril 
    Em ti os prédios semelham túmulos verticais 
    Jazigos para ratos & mercearias 
    Que a podridão consome ao gume dos dias. 

    Aqui onde me vêdes 
    Ó noite, ó matina, ó tarde 
    Aqui ainda refaço quanto fui 
    – Feliz até, por um fósforo. 

    IV 

    Com grande clareza & desarmante claridade, Wittgenstein postula que 

    “conceber uma linguagem é conceber uma forma de vida.” 

    Belo achado, excelente pólvora. Eu crio antes da morte para anulá-la: e cheio de viciosa ingenuidade o faço. 

    As constantes motriz-obsessionadas do que escrevivo? Facílimo apurá-las, em nitidez & relevo, junto de quem me leia sem partis-pris, qualquer este seja. Posto isto, bebo em sossego uma alta cerveja. 

    E mais isto: sempre que escrevo matemática, é ela literal que viso significar. Em moço, o estudo dela remunerou-me. Não a segui academicamente, havendo optado pelas ditas humanidades, id est, língua & literatura: são a minha mais ilusória sinecura.


 

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Canzoada Assaltante