Friday, January 01, 2010

UM GAJO SOZINHO EM CAFÉS DE PROVÍNCIA - I


© Walker Evans – City Lunch Counter, 1929







I


Souto, Café A Petisqueira, noite de sábado, 17 de Outubro de 2009






Um sábado à noite, um café de província, o televisor sintonizado numa incursão à Beira Baixa, ares de Monsanto. À tarde, tinha ouvido música finlandesa pela Rádio Nacional. A música passou, levou-a o vento, casa invisível do dia. Nas estantes de vidro, pacotes de bolacha-baunilha, latas miniaturais de sardinha em tomate com molho picante, garrafa de anis, garrafa de ponche, tabaco variado, rifa do presunto pelo número suplementar do totoloto, whisky de Sacavém, sacas de giletes e cartões de pilhas. Uma formosura melancólica, a destes bens expostos ao vidro, ao sábado, à província que se deixou anoitecer sem luta nem agravo. O televisor muda para barcos muito grandes no mar muito maior. As gaivotas gravadas gritam riscos de giz ao ar de moscas do café. A atenção aos barcos no mar traz-lhe uma ânsia fácil, um querer-ir que fica. Os barcos dão lugar a incêndios, fogo-posto em viaturas de polícia, restaurantes, contentores do lixo em jardins da Capital. A patroa do café lava copos, o patrão resolve o descubra-as-diferenças do dia. É o único freguês – do café como do mundo. Vai lá fora fumar um cigarro, conta os poucos carros que regressam à cidade. Reportagem sobre a pobreza nacional. Testemunhos, bairros-de-lata, velhos e crianças em silêncio folha-de-flandres e cartão de frigorífico. Um poster do Benfica de antigamente escurece no canto mais vazio do estabelecimento, Barcelos e Santa Maria da Feira sucedem-se no ecrã, depois Esposende e Moura. Nada finlandês no horizonte. Rostos feios, comezinhos, talhados em pedra-sabão, prestam depoimentos à repórter numa gramática estropiada e irreversível. Recolha de alimentos por caridade, depois o assassínio em Ermelo, Mondim de Basto, do marido da presidente da Junta, uma senhora chamada Glória cuja viuvez comove mais ou menos a Pátria Autárquica. Depois, crimes ambientais lusitanos, cuja sordidez revela e releva em esplendor o pato-bravismo do íncola luso. Um securitas entra no café para bica-e-bagaço. Rapaz de trinta e poucos, casado com uma rapariga que patita entre galhos provisórios: limpezas em creches, em fábricas, em escritórios. Ele, vá que não vá, securitas há já três anos. Outubro, gente na praia aproveita o outono estival que vai fazendo. Depois, um homem com calças de caçador chega para um cone de martini-cerveja. É portador de um bigode cerrado tingido de carvão e espuma. Filmagens submarinas nas Maldivas – outra vez o mar, a ânsia outra vez nele, que fica em terra. Sai de novo ao pátio a fumar, um carro pára, o casal pergunta-lhe pelo Centro de Exposições, que ele indica com delicadeza e segurança, assim tudo lhe viesse e fosse. O boião de chupa-chupas teima colorindo a extrema da pedra de imitação de mármore do balcão. Meias-garrafas de vinho de cooperativa, embalagens de leite achocolatado. Brindes a meia-coroa. Uma criança de olhos velhos fulmina o televisor por dentro. A patroa senta-se à mesa mais próxima da porta, boceja a revista suplementar do jornal. O patrão conversa com o bigode caçador. Riem-se de trocadilhos pueris: dinheiro, velhice, bola, cornos, empregos: tudo os faz filosofar alvarmente. De gajas já não falam, passou-lhes a veneta. Dá-lhe uma pontada de vontade de sopa de agrião, não sabe porquê. No regresso ao quarto da pensão, remediar-se-á com pão, queijo, salsichas de lata em cru e uma maçã. E vinho branco do de temperar carne.



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