Thursday, January 14, 2010

Domingos e Aldeias Portuguesas: uma Sinonímia

Entardenoitecer e noite de 14 de Janeiro de 2010



Qualquer dia é domingo quando se vai ver barcos.
Também é domingo sempre na atenção dos animais.
Certos adultos conseguem prolongar as linhas da mão
por existências vegetais ao alcance da mão.
Esses adultos não perdem um domingo junto ao rio.
Os barcos fluviais conseguem sempre lembrar o
perfil da árvore de que são feitos, ainda.
Domingos e aldeias portuguesas com rio são sinónimos.

Eu, que nunca-fui-nunca-irei a Alexandria,
tenho passado por aqui os domingos de cá.
Penso que a minha poesia reflecte isso
como uma lagoa turva a um céu de inverno.
Sou português até mais além da quinta casa, de nada
me valem um bi ou trisavô galego, um pastor-alemão,
de nada muito pouco nada me valem.
Vale-me que o domingo é o mais português dos dias.

Espolina-se como se pode o domingo a lavrar,
a cerzir de espínea melancolia cristã, portuguesa.
Bênção é a calicromia outonal través o casario,
o casario das aldeias transfigurado de bosque,
elfos, gnomos, duendes, anões, padres, viúvas,
dias que bordam de oiro muito pobre as margens
do que houver marginal, que na vida é quase tudo.

– Que na vida, em verdade mo e vo-lo repito, é quase tudo.
Ainda se (mas não) alguma associação recreativa re(a)presentasse
Shakespeare ao domingo, que estranha felicidade seria nossa.
Mas não, portanto beijo o rosto da gata mais nova,
a mais velha não alinha nem tolera mimos humanos de mais.
Beijo-a e vou perder-me junto ao rio lembrado.
Junto ao rio lembrado, revendo sem ver muito brancos
pés de mulheres incendiadas de riso, casadas porém todas.

Tenho uma economia de pobre: um verso basta
para justificar uma falta, como na escola ou no emprego,
a falta de um dia, por exemplo, a falta impensável
de um dia na vida, na portuguesa vida minha.
Juncos penteados de salino favónio riscam
de oiro verde alguma duna dominical.
A vida tem pontual condão de insuportável beleza,
matadora mortífera mortal beleza lusodominical.

Indícios mínimos do extinto Luso Império há 'inda:
domingo à tarde, ante os homens sentados fora da taberna
passa o cão preto a que chamam Mantorras
por ternura e comoção, por racismo é que não.
Mas o rio não é sítio de caravelas, de faluas sim,
sim de barcas tracejadoras de escorreita sintaxe,
próprias de histórias que ninam sono de netos
alumiados a azeite e a fosforescências de senhora-de-fátima.

Sinonímia e cenário são conhecidos muito bem:
campanário alvo subindo à voz escura do sino,
ermida cega de silêncio em colina mamilar,
o agnóstico pastor que ao domingo arrebanha,
o cão Mantorras sesteando à sombra do álamo
(ou do olmo?), meninas vestidas de azul e
rapazinhos de branco-e-verde, o bêbado da terra
acariciando videiras em paz com Deus.

Impensável, impossível não amar estas pobrezas.
Domingo, aldeia e verso – tudo coisas portuguesas
branquejando través ondulações verde-violáceas
deflagradas em oir'amarelo de mil acácias.
Domingo é deveras o mais português dia.
Eu o digo, que nunca-fui-nunca-irei a Alexandria.
E o mais que não repito por ser verdade
– tem natural foral e direito de cidade.

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