Saturday, January 23, 2010

Retábulo Verbal em Tríptico (TRÊS)



© Caspar David Friedrich – Monge à beira-mar

TRÊS

Leiria. Do Rossio dos Borges, içar o olhar até o castelo, cuja beleza é sublimada pela feiura geral da cidade hodierna. Em manhã baça, é grato ambular pela solidão mesma da quinta-feira. Toxiarrumadores fazem pelo euro em tudo quanto é estacionamento. O ar vale ser largo, bom de respirar sem inquietação de maior. Café com livros, ao cimo de uma avenida sem história. Televisor aceso, ruído de música falsa.
Reunião profissional numa saleta séptica (e céptica). Pessoas presentes, da esquerda para a direita:

• Rapariga em sua década de vintes, cabelo preto lustral e escorrido, óculos de aros também pretos, casaco preto, camisola âmbar de gola alta, mãos sem anéis, ganga nova empernada, agudas botas pretas, sem verniz nas unhas;


• Rapariga roçando os trintas, cabelo castanho fino até os ombros, olhos amendoados de semichinesa, casaco preto adornado no espaldar da cadeira, casaquinho de lã cinzento sobre camisola fina preta, também pernas de ganga, também pretas botas finas;


• Rapaz-rato, óculos magros, cabelo curto e barba rala, bom impermeável cinza-verde com capuz, camisola de meia-gola castanha, colarinho listrado de azulibranco, calça preta, sapato preto;


• Rapariga nutrida sem exagero, banhas louçãs, vintes e poucos, cabeleira estriada de madeixas áureas, cachecol cinza-noite, bom blusão antipluvial de creme-pálido, única de saia em toda a equipa, saia e botas pretas, collants de carne;


• Rapariga escorrida, magra, fisicamente tão interessante quanto uma mosca, camisa azul-frio, lenço castanho-escuro, casaco feio pintalgado de pretibranco, óculos feios e fortes, calças e botas castanhas;


• Rapaz em seus dele trintas, calvície voraz de bancário, óculos indiferentes, blusão azul-sport derreado na cadeira, camisola de lã em cinza-mãe com estampa listrada de cinza-escuro, bombazina preta fechando coxas e canelas, bom sapato de sola alta;


• Rapariga morenaça além dos trinta, ar experiente, vários gajos no curriculum vitae, blusão de cabedal com éclairs nas mangas e fumos, brancos, um sob cada ombro, camisola parda, calças creme-pérola, boas botas modernas de largos atacadores;


• Madura de cabelo frisado à granada, leitora infalível da Maria e da Caras, óculos diagonais, fundo cordão coralino despenhado do pescoço até território baixoventral, blusa de lã feita à mão e em casa, calças de ganga barata arregaçadas a sul, joviais sapatos larocas de adolescente anacrónica;


• Rapariga-toda-rosto, vintanista, sobrancelhas tratadas em gume acerado, cabelo castanho fino, simetria de feições, olhos vivos, testa pensativa, equilíbrio excelentíssimo de cores e têxteis, do azul muito escuro à magenta segura;


• Madura feia, coitadita, ar de vespa nédia, óculos terríveis betumando olhos secos, bochechas flácidas, dentes separados, queixo incompleto, roupa de uma noite no circo, cara e grotesca;


• Maduro elegante, meio século de paciência no pêlo, cabelo pouquíssimo e muito branco, excelentíssimo casaco pesado sobre camisola forte à poveiro, belos sapatos de castanho dispendioso;


• Rapaz de quarentas há pouco tempo, bonomia gorda, enroupado a peso, calçado grosso e honesto, casado para toda a vida com a mesma, que o trai de certeza.


Dirige a reunião uma Ilídia Mate. É moça para seus dela trinta e quatro ou nove. Óculos escuros fechando o cabelo no cocuruto, óculos de lentes progressivas ao norte da cara, além dos que vigoram olhos orientais. Casaco de cabedal castanho com gola e lapelas de pêlo sintético, agressivo, hirsuto e feio. Calças de ganga qualificada, botas de modelo orladas de metal dourado. Dentes sobrepostos no falar. Angariadora financeira de agentes de reconhecedores de batedores de formadores de vendedores de colaboradores de trabalhadores de consumidores de estertores. Palavras nucleares atroam o ar gerado a néon:


• processamento, legislação, texto, peritagem, avaliação, contabilidade, fiscalidade, finança, banca, seguros, cursos, recursos, labor, comércio, publicidade, promoção, stocks, organização, administração, operação, utilização, fidelização, venda, enquadramento, evolução, aprovisionamento, gestão, rendimento, rentabilidade, regulamento, crédito, empresa, empreendimento, concessão, acompanhamento, recuperação, atendimento, recrutamento, fluxos, princípios, ergonomia, químicos, físicos, biológicos, bases, dados, objectivos, direcção, homologação, registo, envio, password, judicial, e-learning, têxtil, vestuário, atavio, calçado, couro, arquitectura, computadores, geração, linguagem, aplicações, cálculo, segurança, programação, custos, proveitos, resultados, particulares, técnicas, língua, estratégias, tempo.


Se muito se atentar, a existência pode mostrar fauces horrendas. Sem o recurso terminal à ermitagem, o perigo está no desossar dos valores, antigamente humanos, já que a alegada civilização não se resolve a equilibrar produção e equidade na distribuição.
Remediação pelo lado filosófico? Sim, desde que em constante idiomacracia dos vectores da vida. (Neste caso – e em todos os casos – falo por mim, enfim.)






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