Monday, January 04, 2010

De Sorte que a P. do Tempo


Clube de Futebol União de Coimbra – Plantel de 1935






Souto, Casa, madrugada de 5 de Janeiro de 2010

De sorte
que a arte
há-de perder-te
e abrir-te
e fechar-te.







*



Cimento embora pisem,
tudo é jardim
onde os pardais.
Tenho amparado aves olhando-as.
Em Peniche, as marinhas corvoam a negro,
azul e branco, comedoras de sal
e de dias.







*



Em abstracto, vogo bem.
Conheço os meus ilimites.
Agora deu-me para copiar nomes da televisão.
Sento-me na sala até que as horas se tornem madeira.
A beleza desce das paredes aracnideamente.
A minha respiração embacia o vidro do relógio.
Cometas em câmara-lenta sideram os olhos cerrados.
Buzinas surdem longe como sinos horizontais.
Muito poderosa é a evocação de certos jardins públicos.
Pardais, corvos, albatrozes, mariposas
e, em abstracto, outras coisas maravilhosas.







*



Numa sobreloja de pensão familiar
é mais fácil (muito mais fácil) aceitar
que os Outros não venham nem deixem recado.
O resto – o resto passa-se ao lado.







*



Assim tem sido todas as noites:
cubro uma zona do sofá da sala e espero.
A leitura adia-me e anoita-me.
Mereço isto, ao menos isto.







*



Tantos anos aguardei a vinda delas,
rutilantes umas, outras amáveis e amantes,
tantos anos que os depois eram dantes,
até que hoje aconteceu chegarem todas,
começo já para lhes não perder a embalagem,
o fio de lápis entreabrindo a boca,
a sedução narcótica do cigarro solitário,
as persianas verdes da parte alta da cidade,
o fervilhar pobrezinho da praia fluvial,
uma vez em Coja perto da ponte eu,
julgo haver uma fotografia perdida disso,
uns calções azuis há coisa de quarenta anos,
os dentes ’inda todos na boca já então lápis,
a galeria de amados cães dizendo adeus a Deus,
a descoberta muito adentro do Tempo, a porra do Tempo,
os cavalheiros operários eram todos do União de Coimbra,
fios de seda afinal chita mas seda,
as navegações mediterrânicas num charco de chuva,
placas de cortiça roubadas do lixo dos silos,
cedros de faroeste na encosta poente do Monte,
o Américo e o Armando e o Rui e o Tó e o Beto,
mais tarde troquei-os a todos, mas mal, por
o Rilke e o Belo e o Eliot e o Camões e o Jorge,
tantos anos, santos anos,
de sorte
que a arte
há-de perder-me
e abrir-me
e fechar-me.







*

Dizia-me
isto passava-se em Seia
que
por outro lado.







*

Braga, antepenúltima noite e dois últimos dias de Outubro de 1986.
Figueira da Foz, 18 e 19 de Abril de 1989.
Vinha do Faria, Pedrulha, 1º de Janeiro de 1974.
Rua Ferreira Borges, Coimbra, 17 de Fevereiro de 1981.
Beco das Cruzes, idem, Primavera de 1985.
Avenida Bissaya Barreto, idem, 2 de Maio de 1983.
Pombal, todo o Janeiro de 2005.
A porra do Tempo, a grande porra do Tempo.

4 comments:

Anonymous said...

Não é por sorte que a P. do Tempo é mais uma maravilha! É por mestria, por genialidade!

Anonymous said...

Não é por sorte que a P. do Tempo é mais uma maravilha! É por mestria, por genialidade!

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Leitor(a) amigo(a): "genialidade" é coisa de que não posso ser acusado. Rilke, Camões e tal - podem. Eu não. Não fui eu. Eu nem lá estava.

Professor said...

Ui, Jesus!
Que detritos, sedimentos e moreias, a porra do tempo deixa no seu seco leito de passagem.
Um abraço