Sunday, January 10, 2010

Secreto Amargo Sorriso



Souto, Casa, tarde e noite de 10 de Janeiro de 2010








Um dos rapazes da rua roça a percepção de estarem anjos muito perto, mas não lhe chega à fala a evidência. Vectores são as vidas da rua: os adultos oficiando o sacrifício do pão (e o do vinho), os idosos aceitando cada crepúsculo de secreto amargo sorriso, os rapazes e as meninas ensaiando a hierarquia, o combate, o abate, a missa da economia. Aquele de entre os rapazes ferve de gastrossensibilidade: os anjos subjazem ao solo do coração. De quando em quando, uma fragrância floral quase o faz levitar. Anos a fio (suspeita-o já então na rua, mas ’inda o não sabe) sofrerá a ubiquidade que o sal das leituras esparge no território do sono-em-vida. Intersectado será pela afinidade das coisas aos seres, como a estátua é afim do representado e do escultor a uma só vez e a uma só voz: ambos devindos um terceiro, Um finalmente inicial a partir dos terminados escultor e representado: a estátua que fica. Ou também: a árvore única no pátio da casa daquele de entre os rapazes significa a casa mesmo a ponto de sê-la. Assim a estátua funde escultor e representado.
Mágica embora, a Palavra (ou a Estátua) nem sempre leva a ver. Evidências, círculos, espirais, anjos – exemplos disso. Quem viveu por ele a noite de 7 de Setembro de 1812 em Borodino? Livros, alguns livros em algumas casas da rua inscrevem essa batalha defensiva dos Russos contra o invasor Francês, Corso de nascimento. Um dos rapazes da rua será, devagar e sem corpo, Vassili Denissov. Quem chamaria o Anjo da Guerra chamado Kutuzov? Pierre? Um dos rapazes brinca com ciclistas de plástico na areia da praia. Chegou Julho ao mundo, Julho leva-o da rua a quarenta e dois quilómetros dali, onde o mar cego brilha à totalidade do Sol. Kutuzov é Frank Middlemass, há-de o rapaz conhecer tarde de mais, décadas a fio depois. Ciclistas-Soldadinhos: a Volta à Rússia em Bicicleta Armada, etapa entre Borodino e Nijni-Novgorod. Tarde de mais também para Alexis Maximovich Pechkov, segundo a datação inscrita num livro composto pela viseense Tipografia Guerra em Maio de 1971 para a Editorial Início, cuja sede era muito longe (mas não tão longe quão Borodino ou Nijni-Novgorod ou Rangum ou Cartago) da rua de aquele de entre os rapazes, pois que ficava, a Início, em Lisboa, ao nº 21, 2º Esqº, da Avenida Almirante Reis. Tudo isto, comemorado já nos livros não tidos nem lidos à altura, vem a ter consequências naquele de entre os rapazes da rua que se imolou à concatenação de irrisórias sabedorias espácio-temporais. O México de Frida K., Diego R., Léon T., Ramón M., Malcolm L. e tantos tantos tantos tantos outros, como, já agora, Estebán Wolkow, que é um dos outros rapazes.
Entre pagodes e cubatas, choupanas e catedrais, arruamentos sangram ambulantes seres, nem todos vivos, nem todos mortos. Além-décadas e além-genocídios, a extensão territorial de Masona, que José Maria de E. de Q. apontou na carta como por bandas da margem sul do Zambeze, somando no elenco cartográfico o Rio Chire, o Lago Niassa, o Cabo, o Lago Tanganhica, Vitória Niassa e o Nilo Branco. Um de entre os rapazes da rua anotará (para nada e ninguém) os diplomatas inglês Lord Salisbury, inglês Petre e português Barros Gomes, com o povo Macololo apartando-os irrevogavelmente até que o Ultimato etc..
Anjos já então na rua, ei-los sem peso nem cor pela existência invisível do apenas sentido numa revoada outonal, num rastilho aromático de rosas muito glaucas, num refogado maternal, num qualquer idílio genital e num que outro, do rapaz de entre rapazes, verso menos mal conseguido.



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