Sunday, January 24, 2010

Procrastinar É Mau


© Eugénio Moreira (1871-1913) – Auto-retrato circa 1900




Souto, noite de 24 de Janeiro de 2010



Toda a pessoa é contemporânea de seus erros, por mais pretéritos. É comum condição dos viventes. Vou resgatando-me dos meus pela ilusão franca da literatura. Volvem-se os erros imagens verbais. Assim sobrevivo. Desempenho urbanidades com um coração de facto rural. Estudo muito – e muito silenciosamente. Meia-dúzia de livros na vida que resta – não é mau. Enquanto as glândulas não pifam, não é mau alinhavar as costuras desses livros esquecíveis. Alguns temas são-me, mais do que preciosos, incontornáveis. Restabeleço a igualdade da minha pessoa com eles, digo: o Tempo, a geminação Vida/Morte, o Corpo, Comida/Bebida, Música, Rio/Mar, Cromia, Dia/Noite, Língua Portuguesa. Posso insultar em plena glória obscena: já o fiz, voltarei a fazê-lo. Há sempre o perigo da felicidade, por outro lado. É tarde de mais para não ser feliz. O hábito da pobreza trouxe-me a prodigiosa liberalidade dos elementos: uma rua deserta ao alvor, dar de comer a um animal sem dono nem casa, um V migratório de aves altíssimas, as cegonhas do Louriçal, o chapéu de Afonso Duarte, a dicotomia Yourcenar/Woolf, um raio de sol rasgando o cartão pluvial da adolescência. Procrastinar é que não é já possível. Em Braga, terminava o Outubro de 1986, estive num café que entra num poema de João Miguel Fernandes Jorge. Sei que um Natal houve em que Ruy Belo correu Peniche à procura de um livro de Alexandre Herculano, não sei qual. Sei que Herculano é o Lado-B de Pompeia. Que a Yourcenar adoptou o norte-americano Maine para se resgatar do Grande Escultor. Que a obra de Chaplin é imperecível. Que nenhum religião é suportável nem credível ante a leucemia infantil. Que a obra de Bach não é perecível. Que o amor perece fisicamente como um fruto abandonado. São coisas que sei. Aprendi a escrever para ser. Isto é verdade. Não tem de ser lido pelo lado confessional. Não tem sequer de ser lido. Faço por entrar nas coisas, no sentido delas. Um Rodrigo Emílio. Um Eugénio Moreira. Um Manuel Bandeira. Um Carlo Levi. Um Alphonse Daudet. Um Georges Duhamel. Um Friederich Dürrenmatt. Um Juan Ramón Jiménez. Um James Hilton. Uma Jane Austen. Uma Mercè Rodoreda. Um J. K. Jerome. Um Robert A. Heinlein. Um Ray Bradbury. Um Rodrigues Lobo. Uma Daphne du Maurier. Um Malcolm Lowry. Uma tarde solitária perto de um rio. Uma choupana resistente ao vento pluvial.

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