Saturday, January 23, 2010

É-se C. S.


© Vladimir Clavijo-Telepnev





Louriçal, noite de 22 de Janeiro de 2010



O corpo dá-se a ser bandeira, treme-o a lua dissoluta em vento frio, qualquer vento e qualquer corpo. A irrepetível rosa da saúde o rubesce breve. O corpo demora muito tempo a aprender a ser triste e razoável. Se amado, parece feito de luz. Se não, é sombra democrática. O corpo é a última possibilidade que a pessoa tem de chegar a ser casa. Em clínicas terminais, corpo é couro. Em iniciais berçários, é água-de-leite. O durante do corpo faz-se de espirais críticas, dada a tendência do material para corresponder aos ditames da cosmogonia. Pode não parecer, mas o escrivão de fazenda de Alcácer é tão estelar quanto o vulgar diamante do firmamento de Verão, à noite.
Também a modesta senhora que costura para fora no Sabugal, também ela é credora da energia que leva o cometa a escrever ouro branco em tanto veludo de tanta vida. O chamamento igualitário do mar demonstra o corpo em elemento: sal-da-terra e lírio-do-campo.
Trémula triste bandeira razoável lunar, companheiro de cada pessoa em trânsito. Estradas atiram-no em estrela escura de vórtice, anjo eléctrico, um pouco menos veloz apenas que dele a vida mesma, a própria via. Sonhos psicadelizam a vulgar ideia: pão mental de cada dia. Pensativo recebedor de cores, espoja-se de cheiros, algumas sujidades, alguma pureza também, ainda assim.
Ressente-se de quanto lhe fazem os lugares: cidades, gestos, o próprio nome em alheias ideia e boca. Ao corpo, nunca o bosque parece vazio, a cidade sim muitas vezes. À hora a que os outros corpos todos exercem a morte provisória do sono, que isolado corpo não sentiu quão vão é o arruamento da urbanização alaranjada de postes para ninguém? O corpo madrugadroga-se em essas vácuas demandas, a vida levada às ruas do comércio pelas horas a que todos os outros se aprovisionam no sono. E a loja do fotógrafo mostra-lhe os casamentos da vulgata social, a nédia noiva arrolando fiambres, o noivo-electricista desconjuntado no fato tão rígido, coitado.
E quando um só corpo é muita gente? Elevam-no os filhos a multidão. Não só. Os antepassados ladram-lhe do escuro dos pátios do Tempo. E ele ressente essa tremenda povoação em que se tornou. Amando ou não, amado ou não, reproduziu-se. E nele se reproduziram mortos e nascituros. Tremenda corporeidade, morredoura e viveira ao tempo mesmo. Em Belgrado como em Viseu, o corpo perfura o significado cambiante de saber-se moeda. Para se viver, fiducia-se. Dá-se a confiança impossível. Acumula afeições de animais, de inclinações materiais da luz. Imola-se na ara triste da impotência quantas vezes? Quando se pensa e se sente ente – ara-se. Partilha a divindade fácil da bílis, o inferno da digestão, o azedume do dinheiro e a euforia da música. O corpo é comum e um. Ido, é substitu-ido. Nenhum outro o será mesmo, mas deixá-lo-á ladrando escuramente de algum dos pátios do Tempo.
Menoridade civil, longínquos-orientes, promoções de pescada, corsos de carnaval, domingos à tarde depois da bola, gáudio de criança, outonalidade do erotismo, incorrecção óssea, vicissitude de rapazes & raparigas, hagiologias comportamentais sem monge-copista que as fixe, vidas de urbanização alumiada a laranjas altas, frias, de postes. A atenção além da morte, não da vida? A acumulação de referentes? Os bairros ditos sociais? A solidão fundamental do corpo em meio à gregária vivência? Tudo como nada.
Corre o Tempo corredor com os pés do corpo.
Voa o Tempo voador com as mãos do corpo.
Viseu, Belgrado, Tejo, Mondego: é-se sozinho cidade e rio, é-se corpo sozinho.

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