Friday, January 22, 2010

Retábulo Verbal em Tríptico (DOIS)



© Rosalie Gwathmey

DOIS



Encontra-se “fechada para todo o serviço” a igreja maior cá da terra. O Sol sucede à Lua na medida do possível. Instantes fora do tempo – não há.
De momento, perto da Escola Secundária, uma mulher de casaco longo progride telefonando, telemove-se sem conto de passos, absorta que está e vai na conversa. Preciso, como ela, de reportar o visível e o imaginável. Como volutas de fumo, as realidades da realidade prestam-se à retabulação da verbalidade.
Atravessando a ponte, sentimento voraz dos camiões que devassam norte-centro-sul-centro-norte. Carroça agrícola das antigas em contemporaneidade cooperativa, na linha das cargas & descargas. Curso barrento das águas fluviais, tem chovido alguma terra.
Esparsa refulge a eternitarde da quarta-feira. Luz nebulosa, frio nenhum a meio do período, estes que aqueles homens sobraçando documentos aforadentroaforadentro repartições e secretarias públicas. Outra mulher, cachecol lilás ligando pescoço a joelhos, calças abastecidas de coxame celuloso, estranhamente de sandálias no maduro Janeiro que vivemos.
(As duas mulheres já apreendidas em retábulo verbal passam a integrar algo a que pode chamar-se Memória Descritiva Instantânea Embora Nebulosa. O mesmo quanto ao resto.)
Em redor do núcleo urbano, terrenos aguardam projectos de loteamento nos devidos termos legais. Arquitectos e formigas subassalariadas já rondam prestes a exercer a percentagem de ocupação em edifícios, a cota de soleira, a implantação em respeito proporcional dos afastamentos mínimos quanto aos limites laterais, posteriores e frontais dos lotes. Número de lugares de estacionamento? Sempre de área correlativa à área bruta de construção. A altura dos muros também tem mínimo. E redes, nada? Sim: viárias, de abastecimento de água, de drenagem de águas residuais e pluviais, eléctricas de baixa tensão e de telecomunicações. O recreio infanto-juvenil não pode ser menosprezado. Antes da projecção da obra, que alguém levante topograficamente o terreno. Árvores de grande porte que houver, que a haver continuem.
A cidade viva vive e reproduz-se. É verde a espaços, cinza e oiro a tempo(s). ela é recreativa, narcótica, refeitória, manutenente, cardal, cardial, cardinalícia, pragmática, quimérica, ilusória, prática, ortogonal, retabular e verbal. À noite, é aconselhável que a iluminação pública recorra a lâmpadas de vapor de sódio de alta pressão, preferíveis às lâmpadas de vapor de mercúrio. Porque vinte e oito mil horas a cem watts são mais do que dezasseis mil a duzentos e cinquenta watts. Das casas apartadas que resultaram do tal projecto loteado, nada teremos, muito provavelmente, a dizer. Gente as habitará, mais gay menos gay, mais só menos só, com cão sem cão, com gato sem gato, canário sim canário não. De qualquer modo, há garantia de não estar prevista qualquer edificação religiosa no local. Quer isto dizer que a igreja maior cá da terra retomará, sem acrescida concorrência, “todo o serviço” quando a hora chegar.
O amarelo solar, já de si nublado de nascimento, desmaiou até à dissolução, sucedendo-lhe um cartão glauco que reforça o escuro das árvores e das roupas. É daqueles dias eternos que não ficam sequer residualmente: uma vaga mancha no cinema do corpo, algo assim.
É peremptório, o estar vivo, mesmo que não precisamente a favor do vento. Alongadas as cordas ópticas, travessas vibrações acodem a planaltos, penhascos, angras, estuários, baías, reentrâncias, grutas, centros comerciais, manifestações nacionalistas, portas de discotecas e umbrais de conventos. Lê-se, imaginando ver. E lê-se o escrito perpétuo das coisas mais efémeras, tais: as sílabas de rosa, o pulsar diafragmático, o paladar parado na memória, a agonia espermática preambular a todo o nascido. E muito peremptório.
Que faremos agora, agora que a vida chegou toda ao mesmo tempo? Imóvel labareda de um cedro que espera zéfiros frescos, cada ego regurgita micro-infâncias recorrentes. E as várias artes consumam essoutra recorrência chamada demanda. Muito se procura tudo em um quase-nada.
Mães-de-família planificam o jantar. Uma pensa aproveitar em empadão uma sobra de carnes frias que incluem salpicão, galinha, faceira de porco e polvo. Outra anda em desejos de sopa de feijão verde bordada de peixe frio para comer à mão com broa. Outra, ainda, já se decidiu por cozer pescada com brócolos e meia batata. A última vai meter uma pizza congelada no micro-ondas.
Crianças gansam e cisnam em recreios coloridos: ferros azuis, redes verdes, escorregas vermelhos, balões rosas.
Homens conduzem comerciais a gasóleo por trilhos e vórtices, fatigados e amargurados como guerreiros a quem não sobra razão para crer na guerra.
O filho dos meus pais reporta quanto pode. Ante a ínsula fundamental de ser-se, ele está-se. E na sequência do mar a vicissitude da embarcação. Por pauzinhos de perlimpimpim, nada como adormentar a angústia mercê do recurso ao Grande Livro de Piratas, Corsários e Flibusteiros da História – ou à Colectânea de Mèzinhas de Indesmentível Utilidade em Caso de Desespero – ou à Crestomatia Hodierna em PowerPoint – ou ao Pantagruel – ou ao Livro de São Cipriano – ou ao Almanach Bertrand para 1917.
Na orla do corpo, como sempre, vagueiam divagações que quiseram ser música e o não foram. Outras (tantas) coisas assim na vida, enfim.
Mas dar a alma sempre – e toda.






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