Tuesday, January 12, 2010

Excursão Rápida a Coimbra em Três Pancadas

Coimbra, tarde e entardenoitecer de 12 de Janeiro de 2010





1. ALGUMA COIMBRA ANTES QUE SEJAM QUATRO E MEIA

Dezasseis anos depois (ou trinta e quatro; ou doze; dá o mesmo), uma volta breve por alguma Coimbra. Tarde de abóbada fosca, aguaceiros intermitentes de pinga-gelo. O trânsito do costume. No Silvano, café-com-leite e pasmar em sossego antes da hora (16h30m) da entrevista para um trabalho.
No piso de rés-do-chão de um centro comercial, vigora ainda uma árvore-de-natal artificiosa. Gajas desengraçadas niquelam-se de água oxigenada nos salões de alegada beleza. Cremes e algas e coiso nos focinhos de ratas amarelas, caretas de quem começa as frases todas por É-assim. Uma gorda de cachecol, parece um colchão-de-água atilhado por uma tira de contraplacado mole – para se coçar, deve precisar de um mapa. Um rapaz todo de ganga, botas de atirar-ao-piso, cabelo esgadanhado rente. Uma criança masculina de sapatilhas com luzes como só há nos chineses, azul-agora-agora-não. Um reformado dos de Coimbra, muito zecafonso de boca mas todo manelalegre de mão. Na mesa do lado do coração, duas sirigaitas de avental-coiffeur palram de namoros zundapes. Passa um pai-de-família em distribuição de caixas de café lote-platina. Uma flausina de boné branco e botinas com cano-de-escape leva descaídos os úberes sem remédio. Loja de ortopedia: cadeiras-de-rodas e pensos-para-joanetes, chinelos-de-enfermeira e emplastro-pró-lumbago. Um velho parecido com o meu Pai, mas sem coxear e sem a bondade nos olhos. Um rapaz de facial tipo filipino, bigodinho ralo e apetência de crucificação pascal.






2. VERSOS E TAL

Tempo, tempo meu a que pertenço,
da flor terrena guarnecido,
do rio frio estendido lenço,
vive-me agora, dá-me um sentido.


Rés de meu corpo ele há relvados,
fontes que brotam e aves raras.
Nem sempre são rostos as caras
de quem me passa ambos os lados.


Ali quiosque, dentista além,
rotundo afã, cinco da tarde.
Passa um menino sem pai com mãe,
passa um palhaço sem mor alarde.


De blusa roxa, Conceição
toma um chàzito de morna tília.
Ama Lourenço do coração,
com ele quer montar família.


Loja de espelhos multicolores,
bazar de rãs embalsamadas,
alhos, cebolas e rabanadas,
’niversidade, tantos doutores.


Tempo, tempo meu a que pertenço,
da flor terrena guarnecido,
do rio frio estendido lenço,
vive-me agora, dá-me um sentido.


Fui ao Silvano, bebi café,
passei um tempo mui sossegado.
À noite é triste vê-las de pé,
figuras do pago pecado.


Long’ avenida navegadora,
Fernão de M., Casa do Sal.
Coimbra, diz-se, é mui senhora,
passado frustre à Portugal.


Tanta flausina e arrumadores,
novocaína e hortaliça!
Licenciados e agrimensores,
muitas camadas de pele de piça!


Nasci além, ao pé da Sé
Velha que é, quase mil anos.
Estou no Silvano, bebi café,
quem m’ indemniza de tantos danos?


Tempo, tempo meu a que pertenço,
da flor terrena guarnecido,
do rio frio estendido lenço,
vive-me agora, dá-me um sentido.


Unto de sal de olhos a saudade,
vigoro de atenção por estas ruas.
Há vezes em que nem sinto vontade
como antes de ver e ter ’mas gajas nuas.


Versiculando vãs sandices,
desfaço a hora a lápis redentor.
Poderia incorrer em mil tolices,
mas não, que não sou já um sedutor.


Sonhei com agendas e afiadeiras.
Não acordei molhado nem enxuto.
Cuidado, é de evitar as bebedeiras,
passar por esperto embora seja bruto.


Tempo de meus anos, aonde vou?
Cresce p’r’os lados feia a cidade.
A malandragem veio e ficou,
é fartar-vilanagem à vontade.


Tempo, tempo meu a que pertenço,
da flor terrena guarnecido,
do rio frio estendido lenço,
vive-me agora, dá-me um sentido.


Um sentido demando, minha vida.
Além, bonito, um namoro de cães.
Alçam a perna, donos da Avenida
que tem por nome F. de Magalhães.


Um luxo é estar vivo em lápis,
um luxo, reviver o vão futuro.
É duro tudo viver em um ápice,
mas nada se viver ’ind’ é mais duro.


Tempo, tempo meu a que pertenço,
da flor terrena guarnecido,
do rio frio estendido lenço,
vive-me agora, dá-me um sentido.






3. ADEUS À PRIMA

O pré-anoitecer é azul-frio, côncavo azulejo de água. Café-com-leite num sítio quente com venda de pão. Atenção crepuscular toda ligada. Muito bonito, muito humano, por assim dizer pessoal até, o azul da ante-noite. Gosto disto. A pé roçando a Auto-Industrial, sendo como as pessoas são o que as pessoas são. Pão quente, bolos gordos, chávenas largas, cavalheiro de anoraque vermelho de pasquim desportivo em punho.
Hora de regresso, porém, à base.
Coimbra, adeus.





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