Sunday, January 17, 2010

XII Sinais da Passagem

Souto, Casa, manhã e início de tarde de 17 de Janeiro de 2010





XII. CONSERVADOR DE DEZEMBROS


De alguma infância conservo os cheiros fortes das urgências do hospital. Algumas vezes me levaram lá a que me cosessem o couro da cabeça aberto a pedradas provindas de outras infâncias da mesma rua primacial. Também o musgo orvalhado dos dezembros conservo. Pedradas e musgo são tão tesouro quanto afeições correctas, afeições amáveis que tiveram para comigo. Não é ainda hora de partida, mas convém ir deixando sinais da passagem. Ante a férrea-via-vida, somos afinal guardas-da-linha – e no meu caso a bandeirola é um lápis. Vejo hoje essa e outras crianças com uma nitidez hipnótica, um pouco à maneira de quem se depara com um tigre – ou a ave engessada de fascínio ante a serpente.


V. BOTANISTA EM MAIO


No dia 8 de Maio de 1984 estive no Jardim Botânico de Coimbra. As árvores de lá mostram o nome em latim. No bornal, levava os primeiros livros definitivos da minha vida. Levava os primeiros livros definitivos da minha vida e uma lista telefónica. Não tenho utilizado a lista, os livros sim. Já não é dia 8, nem é Maio já – e o ano mudou de número. O ano mudou de número a ponto de já poder ser reescrito em latim.


I. DENTES JANUÁRIOS


Em Janeiro de 1985, apanhei tal abcesso dentário, que boca e cara se me volveram perfeita imitação de abóbora-menino. Um congresso de pus sitiou a raiz do incisivo esquerdo. O olho desse lado ganhou um colchão violáceo de excelente efeito-especial. Uma noite, finalmente, aquilo rebentou. Lavei a abcissa do abcesso com água morna saturada de borato. Voltei às aulas e à vida. Levava uma tecla bemol onde o extinto dente tinha tido lugar no teclado dental. Passei a sorrir menos. Até hoje.


VI. GALO DO JUNHO


No fulgor fresco, muito límpido, de um Junho dos primeiros da minha vida, o Carlos levou-nos a uma barragem hidroeléctrica. Havia uma casa-de-pasto familiar ali perto. Era num bosque. A senhora da casa tinha um ar triste, lembro-me bem que sim, tinha. A comida era galo com arroz. Não sei que motivo entristecia a senhora. Junho não podia ser, que era fresco e muito límpido. Tenho tido, perto de água como ela, nos anos que se seguiram ao galo, as minhas tristezas também. E a tristeza também é hidroeléctrica.


VII. JULHO DA FOZ


Julho é sempre Figueira da Foz na minha cabeça. É o Café Paraíso do senhor João. É o Parque de Diversões em Art-Deco. Euforia ante a bandeira verde, melancolia ante a amarela, raiva ante a vermelha. Balde, moinho, bola, colchão Repimpa. A Liginha com um saco enorme de brinquedos. E a Mãe jovem, sobretudo isso. Julho é sempre a Mãe jovem na minha cabeça.


XI. NOVEMBRO DO PARDAL-ELEFANTE


Dia 1 de Novembro de 1981. Um gato matou-me o pardal. O pardal e eu vivemos meio ano no meu quarto de solteiro. Li mais livros nesses meses porque estava sempre com o pardal. Consegui resgatar o passarito, já morto embora, das garras do gato. O meu Pai deu-me uma nota de cem escudos e mandou-me ir ao cinema para não pensar tanto com o coração no pardal. Fui. Era no Teatro Avenida, antigamente do Príncipe Real. Passava O Homem-Elefante com o Anthony Hopkins, o John Hurt e a Anne Bancroft. À saída da sessão da tarde, era já quase noite. A efémera comunidade da plateia rarefez-se na saída. Em frente à Escola Jaime Cortesão, escorreguei numa lâmina de água suja que brotava de uma carranca. Caí de costas e sujei a camisola encarnada com letras azuis que diziam Bik Bok. Houve gente que se riu. Apanhei o autocarro e volvi a casa. Em casa, por causa do mau tempo, faltou a luz muito tempo. Foi no dia 1 de Novembro de 1981, raios partam tal data.


X. OUTUBRO DA VIDA


Não tenho medo algum da redundância: a obrigação principal da vida (de qualquer vida) é manter-se viva. A minha, tenho-a levado outonalmente e com razoável sucesso. No plano social, cumpro as regras como os demais e como os demais aufiro das pertinentes e respectivas regalias de pobre: exercer os domingos rente a um rio, ingerir biscoitos de limão com chá preto, folhear as grandes batalhas da II Guerra Mundial, festejar as gatas no espinhaço. No plano mental, vivo sempre em Outubro. É manhã cedo. Apanho o autocarro e vou para a Biblioteca Municipal. Estou ali calado horas a fio. Aprendo coisas escritas. Escrevo pouco nesse tempo. Agora é hoje e, apesar de Janeiro, é Outubro. É Outubro e não tenho medo algum, nem da redundância nem de nada por aí além.


II. FEVEREIRO DOS NOMES


Februários dias frios mas agradáveis porque interiores, onde os nomes coleccionados se assembleiam prazenteiramente. De que falo? Falo do Mircea Eliade romancista de Bosque Proibido, do Ilia Ehrenburg de Notas de Viagem, do Wenceslau de Moraes de Traços do Extremo-Oriente, do Cristopher Frank de A Noite Americana. O caracol de Fevereiro aconchegado em sua casca decorada por fora a espiral cosmogónica. Outras ocasiões, uma volta sem horário por algum pinhal, uma circunvalação mental pelo rio desejado, também o estar sentado numa paragem de autocarros da Fernão de Magalhães sem ser para apanhar carreira alguma, só para estar ali, muito caracolmente, a ver o mundo que passa, as senhoras de aluguer da vid’avenida, os carros nocturnos, a fímbria do anoitecer pingando na alma, no Fevereiro, no Eliade.


III. MARÇO DO PAI DA MÃE


A Mãe ficou sem o pai dela começava o Março de 1972. Recordo o velório. As mulheres na cozinha da casa senhorial, as malgas de caldo de galinha, o dia embaciado como um vidro de janela. Era o primeiro grande funeral da minha vida. O corpo dele, tinha-o a morte tornado mais maciço ainda. Ainda não tinha feito oito anos e a morte e a cerimónia e o embaciar dos dias começavam a marcar presença na minha atenção. Além, a ínsua de que ele cuidara continuava a gerar tangerinas e línguas de água chã. A Mãe perdia o pai dela, mas não houvera ainda perdido um filho. Estas coisas ficam na cabeça como a areia jaz sob as águas. Em Março como no resto dos anos.


IX. PAGODE E CÃO DE CADA SETEMBRO


Cada Setembro, não falho: levo uma garrafa-termos cheia de café caseiro e faço-me fotografar sozinho em frente ao pagode. É na Birmânia, em Rangum. Chama-se Pagode Shwe Dagon. Faço-o na ideia, já que de facto nunca fui à Birmânia. Digo-o, na verdade, para gozar com o pagode. Com o pagode e com “o gigantesco cão de porcelana que – diz Ferreira de Castro – defende o pórtico”.


VIII. AGOSTO SEMPRE FOI FEIO


Nada tenho contra os emigras, mas eles tornam Agosto uma coisa horrível. Moem-se lá fora anos a fio – e quando voltam, não voltam, voltam mas é como se não fosse nada com eles, como se não tivessem aprendido nada nos tantos museus de lá fora que nunca visitaram, as literaturas de lá fora que nunca leram, os rios de lá fora que nunca domingaram, as vidas de lá fora que nunca viveram. Chegam em Agosto e ficam fartos disto – e nós deles. É por isso que, quando eles se vão finalmente embora, eu finjo que Setembro é hora de partir para a Birmânia, sítio para onde eles, felizmente, não emigram.


IV. ABRIL VEZES VINTE


Como já disse, a minha Mãe ficou sem pai no Março de 72. Eu fiquei sem o meu no Abril de 94. No dia 24, ele morreu. Sepultámo-lo no dia 25 de Abril. A Revolução fazia, assim precisamente, vinte anos. Todos achámos que era uma afeição amável e correcta, tal coincidência à passagem.

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