Friday, July 08, 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 9

Um momento nocturno junto a uma laranjeira devassada pelo vento. Oceânicos, verticais, negros, alguns eucaliptos exsudam lavanda. É como não haver dentro nem fora, entre os corpos. O vento folheia o meu, dá-lhe laranjas. Eu dou à noite uma fosforescência tranquila. Não assustarei sequer um coelho que tenha vindo visitar as couves dos meus vizinhos já recolhidos à paz da lareira, talvez mesmo ao leito, são idosos, deitam-se com o sol e acordam com ele.
Posso urinar na terra sem maculá-la. Ela gosta. Caracóis vegetais nascem da carnação húmida do trevo, da hortelã sensual, da roseira amarela. A lua poalha-se no veludo, senhora nua dedicada a uma insónia feliz. Um cão denuncia a distância rouca. Um clarão de indústria doura a noite: crepúsculo de fábricas, labor de formigueiros humanos a que hoje escapo na sombra dupla da laranjeira. Sei que, um dia (uma noite?), o meu corpo se desembaraçará desta perfeição. Voltará a ser um interior, em cujo bojo uma glândula se queixará do tempo, um osso rangerá como uma porta demasiado tempo fechada. Isso não é agora. Agora, é a laranjeira e é o vento contemporâneo dela, vindo da lua onde estou, quase eucalipto, contrabandeando couves para o invisível coelho.

Há outros verões a que posso chamar 1967, dá o mesmo – porque é perder o mesmo. Luz explodida, granada que se fez ouro branco, ouro piado de gaivota, ouro salgado. Nas sandálias, os dedos dos pés sentiam-se como se fossem o que sempre desejaram ser: dedos de mãos.


3 de Julho de 2004

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