Wednesday, July 20, 2005

Rotunda

Afinal a nossa vida não vai pelos lugares nem fica connosco.
Vitorino Nemésio, Jornal do Observador

Saímos para o sol porque o vento vinha cheio de sombra, de modo que as pernas e as caras se nos tornavam finas como facas. Assim armados de frio, entrámos no sol de uma rotunda que ali há pela estação de comboios. Parámos no centro da rotunda, os pés bebendo a humidade da relva, ou os sapatos por eles, e os peitos em quilha, como cegonhas num campo de arroz. Os dois éramos muitos. Os carros rodavam-nos, éramos ambos todos quantos havia. Isto de dois serem todos é a amizade, é o amor. Enchemos as peles de luz quente, um pouco à maneira dos frios répteis que pelos muros são riscos verdes. Era eu e era ela, sem ter de ser por esta ordem, que outra ordem não há, na amizade e no amor, que a da desordem: de cabelos, impulsos, vontades, de jogos de frio e calor. Tínhamos vontade de comer, pelo que nos fomos aos quartos traseiros de uma pensão-restaurante, onde costumam deixar pelo chão, entre papel amarfanhado, bons bocados que as alimárias, nem nós, enjeitam. Croquetes mal mordidos, azeitonas inteiras, rijos paus de cenoura tocada pela pisadura da decadência, tiras de carne estufada com macieza de flanela, de bochecha de menino.
Não falamos tanto do passado como de comida. O passado de todos nós dois está cheio das mesmas coisas com diversos nomes: pessoas que nos morreram, agonias púberes, cromos eidéticos, comboios de penacho azul ouvidos ao longe. É sempre ao longe, no passado. Do porvir, então, nada falamos. Há-de o futuro encher-se também de pessoas mortas, nós dois também, como não, querem ver.
O amor e a amizade são os outros dois nomes da sobrevivência. Eu ando perto dela as mais horas do dia. Gosto, sem ela perceber que gosto, da maneira como se inclina para apanhar uma prisca gorda, um traço de bolo de arroz, um jornal lido. Os olhos que ela usa, sobrevivem à miséria. São olhos de rio resumido a duas esferas de cor. Se ela está de perfil, posso ver o céu através do olho perfilado.
A única coisa é termos desistido ambos, cada um por si, de viver com os outros e de morrer com os outros, para os outros, por causa dos outros. As nossas cabeleiras abandonadas são agora pastas de merda. Ao abrigo municipal vamos fazê-las cortar cada semestre. Queimam-nos a piolhagem com pós asiáticos. Dão-nos roupa, sopa, estopa, garoupa. Depois temos de vir embora. Sobra-nos a rua, seus jogos de luz e sombra.
Tenho com ela este amor para atravessar como uma rua. Estamos num egoísmo de lagarto ao sol. Alguma polução nocturna também acontece, licor de lua que estagna no cartão sobre que dormimos. Há vezes em que nos olhamos como espelhos. Ando junto desta mulher. Vejo menos que olho. Sombra de sombras, pessoa de pessoas acumuladas na distraída palavra com que me leva a pernoitar num choupal, um vão de escada, um túnel.
O que tem o amor é um querer tornar-se o outro, adentrá-lo, cuspindo-o de essência para cópia de ambos. Os outros tornam-se um outro, um só outro, o mesmo. A miséria tem o mesmo.
Ela tem uma mancha vermelha logo acima do joelho. Quando estia, deitamo-nos na mata, e eu faço sempre com que se deite de maneira a que uma fita de sol, rompida ao alto a cabeça de uma árvore, venha sangrar nessa mancha. Parece um mapa e é um mapa que guarda as cartografias da vida dela, sangue pingado do pescoço de cisne sujo. Beijo muitas vezes esse mapa, cuspo no sangue, brilho de vidro ao sol, quando estia.
Outras vezes, roubamos pedras de sabão azul nalguma sentina pública. Deixamos que as toneladas sem mensura da noite tomem o rio e a mata. Assombramos a própria noite. Furtivos, descalços até ao pescoço nas pedras afiadas da margem, dissolvemo-nos no rio. Banhamo-nos no filme mais antigo: a lua na água.
Não somos felizes, mas às vezes ela deita-se com homens que lhe dão uma nota. Vamos com a nota e compramos vinho e tabaco. Voltamos logo para o rio. Fumamos, bebemos. Não falamos então, o que nos torna felizes.
Todos os das histórias de amor são vadios. Estão fora da ordem. Não puderam evitar a miséria do amor. A pessoa fica fora dos circuitos de produção, alheia aos liames comunitários, torna-se sozinha a própria miséria, o mesmo amor. Fica sozinha no terror do amor.
A biologia, a história, as demais ciências: tudo se entrega ao solipsismo, à ginástica da paixão. A alma fica em cuecas. Ambula-se sem terra à vista, borda-se uma lagoa, tudo se recorta ilha, terra e água, lama, alma, lama. Os dois corpos incensam-se, insensatos. Relatam antigas idolatrias à novidade do repetido: céu e rio, casa e carro, perfume da roupa lavada com sabão roubado ao mesmo azul da noite, a roupa boiando junto à margem enquanto nadamos sem falar, o cigarro na boca, as cabeças fora de água. O gelo toma a pele, o incêndio substitui o sangue. Por isso o fogo treme, como se de frio.
O amor ergue de gestos as suas estátuas. Um cruzar de rua, um passar por baixo de árvores, a sombra descida ao cabelo dela pelo voar de um pássaro ou de um avião. Por tudo vejo que de si mesmo se ceva o amor, esse porco sujo.
Se não a cidade a nossos pés, ao menos os quatro pés na cidade. Calcorreamos tudo. Uma vez, são dez minutos para as três de uma tarde de vento, o céu cinzento. Juntamo-nos à multidão de visitas do hospital velho. No último minuto da hora velha, a multidão entra para os corredores que cheiram a labirinto e a doentes. Nós ficamos na rua. O hospital tem um jardim de versalhes pobre, ouvimos a água engordando os canteiros. Alguns enfermeiros ociosos apontam-nos os cigarros como pistolas. Mandam-nos sair dali. Obedecemos. Não temos o ar de quem chegou para discutir um lugar no mundo. Depois, também não temos a quem visitar. Os enfermeiros confundem o escondido amor que nos move. Parece-lhes apenas alcoolismo. Vimo-nos embora sem tristeza, sem visitação. O nosso mundo é estarmos fora dele.
Má tarde para o rio. O vento abre corredores agrestes na mata. O frio resiste à garrafa. Vai ser preciso dinheiro, de moda que ela gasta a última moeda de cinquenta no balneário municipal. A água não vem quente, mas ainda assim ela demora-se: mulher que se demora em seus cantos e fímbrias de mulher lavada. Sai maravilhosa. Espero-a, recupero-a. Ela aluga-se junto ao portão de uma fábrica abandonada. (A quantidade de coisas que as cidades abandonam, se o amor me deixasse pensar nisso.) Eu espero dentro das ruínas da fábrica: sou o homem entre gatos mortos e máquinas mortas. Calco vidro e telha. Cheira e cheiro a mijo. Dois drogados dormem o coma comum no canto oposto. Sento-me no meu nirvana, observo-os. Estão lá no paraíso químico deles, fugiram daqui, encontraram-se talvez num sítio melhor, quem sou eu.
Ela aparece-me espancada, mas com algum dinheiro. O último cliente quis roubá-la depois de a cobrir, mas ela resistiu. Tem um olho negro como a noite. Não está infeliz, mas é-o. Digo-lhe para chorar um bocado. Ela diz que já não é preciso.
Também essa noite passou, ainda é o que vale. Deu-se uma trovoada de radionovela no zinco do telhado. Abraçámo-nos no canto. O frio era tudo o que tínhamos de manta. Os dois corpos não pareciam suficientes para continuarmos vivos. Ouvi-a falar no sono: uma voz subindo de um poço. O mar e a trovoada são maiores do que a vida. Pelos buracos do zinco, vi o azul-eléctrico riscado por cabelos de fogo. Instante, a chuva, grossa de cordame de navio, visitou a nossa miséria, lavou o nosso amor, encheu o poço de que subia a voz com que sonhava. Os ratos fugiam, confusos do naufrágio em terra. Senti-me poderoso de exaltação, aliado às forças da noite, uma vez na vida. Eu estive ali muito vivo. Os meus olhos assestavam lances de cinema. Cheirava a igreja: as pólvoras e as cânforas de Deus perfumavam a tempestade. Era a glória. E a glória era excelsa. Depois, nunca mais senti frio. A minha cabeça e os olhos que nela vivem, adormeceram.
A outra manhã era um azulejo lavado. Alguém tinha lavado o céu com sabão, as nuvens faziam-se espuma que bastava soprar com a cana do nariz para se dar o milagre de pobres da irisação. Saímos para a avenida. Sucedem-se companhias de seguros, até o néon cheira a dinheiro, até a manhã brilha como uma moeda nova. À noite, apagam o néon e então acende-se o cigarro infinito das putas como o meu amor.
Fomos comer o dinheiro da véspera, o dinheiro salvo pelo olho agora violáceo: flor que olha roxa, triste. Comemos, comprámos vinho e tabaco. Ela não falou, essa manhã. Acredito que ainda estava a tentar não chorar. Lavámos as caras no fontanário do mercado. A água cintilava de escamas de peixe. As peixeiras gostam de lavar ali as escovas de escamar. Algumas escamas pratearam-me a barba, só então ela me cedeu um sorriso.
Quando vivíamos outras duas vidas, houve outras pessoas. Tínhamos empregos, uma esposa, um marido, talvez até filhos dessa gente que se tornou nada. Isso nada conta, isso já não é um livro.
Levámo-nos para o fresco arvoredo onde vive a cobra de prata: o rio, matéria de olhos. Se eu quiser, conto no presente. Vamos para o arvoredo fresco, levamos o vinho e o tabaco. Sentamo-nos e deixamos que aconteça o mundo. Olhamos os tiros de prata de ouro, e é que são os lombos dos peixes quando o sol os fotografa.
Agora e nunca mais. Suspensos da hora eterna, um homem e uma mulher, um rio, peixes, o sabão e a merda, o vento cervical no fresco arvoredo, os atalhos de terra por onde se pode chegar com lentidão a nenhures.
Mesmo agora, estou com ela. Nem preciso de mentir para acreditar que estou com ela, que com ela sigo a prata fotográfica dos peixes do rio. Ela pode não estar, mas é. Não vou dizer já que morreu, que a mataram. Antes disso, dou-vos um postal da cidade vista por nós dois da margem do rio.
A cidade também por causa do rio. Acamparam por aqui, fizeram cabanas, depois aquedutos e tribunais, plantaram legumes, criaram e comeram gado, escreveram livros, riscaram estradas, caiaram igrejas. Fruto bivalve, a cidade. Duas margens. A direita tem o núcleo histórico, escolas, comércio, polícia, mercado. A esquerda é em penedia, boa para vivendas de médicos. No sopé, as casas dos pobres e uma capela afogada pelas cheias. No cume, as vivendas dos médicos, um hotel de turismo louro e o convento novo de dois séculos de que emana a asma de um órgão de tubos tocado por fantasmas de freiras muito pálidas da fraca alimentação. Também já lá estivemos, eu e ela. De quase todo o lado nos enxotaram por causa do amor. Subimos ao cimo da margem esquerda, a ponte ficou para trás e para baixo como uma ténia, evitamos o casario clínico, tomamos por uma quelha apinhada de pinheiros de soneto. Conquistamos o miradouro. A cidade deflagra, simultânea, em postal. Não trazemos de comer nem de beber. Vamos descer agora. Do cimo, descobrimos laranjeiras. Laranjas caíram ao rio: ouro na água. Nós queremos as laranjas, é tudo o que queremos da vida. Lembro-me da descida ao silêncio que estamos a fazer. É de dia, mas nós segregamos a noite como a uma babugem.
Devo ter ouvido dizer que o universo voa para uma espécie de poço, negro como todos e sideral como mais algum. Penso nisso, o universo dentro do poço negro, nada fora do poço. Fico satisfeito, livre de arrelias, a pança cheia de laranjas, a cabeça cheia de amor e de esterco.
Deitamo-nos na erva. Rezamos o quebranto dos cobrões contra os bichos peçonhentos que babujam safiras alérgicas no peito dos adormecidos.
Adormecemos antes de ela ter de morrer. Sonhamos, encontramo-nos no sonho comum como um coma, as barrigas e as memórias cheias de laranjas e de água do rio. Na minha parte do sonho, já a perdi. Ela sonha que eu desisti de a procurar, de modo que grita por mim até perceber que nunca soube o meu nome. Acordamos na erva humedecida pela sombra das laranjeiras que sintonizam a lua. Outra vez, ainda, acordamos, espelho contra espelho. “Sonhei com a morte”, diz ela. “Eu sei”, digo eu. “Eu sei que sabes”, diz ela. Eu digo: “Olha o vento a pentear a erva.” Ela diz: “És uma criança.”
Mas era verdade. Para cá do rio, o vento descabela o panasco seco, inclina os tufos de espargos, oferece-nos tantos verdes. O vento exulta a minha vida, mais e mais, mais e mais. Descubro que também eu não sei o nome dela. Posso precisar dele se voltar a sonhar. Decido, então ou agora, que se chame Rosa. Rosa da Rotunda.
Voltamos à fábrica ruída. Os drogados oferecem-nos bolachas. Agora são três. O novo trouxe as bolachas e um limão. Nós damos-lhes laranjas. Os carros tossem gás e borracha na avenida. Deitamo-nos. O isqueiro deles raspa pirilampos na noite da fábrica. Suspiram muito fundo. A minha mulher está a chorar em silêncio. Só agora.
Tive uma vez um vídeo e uma esposa e visitas, talvez filhos até. Lembro-me mal de isso ter acabado. Não me lembro de ter começado. Lembro-me destas coisas por causa do meu amor ter começado a contar, com uma espécie de orgulho pueril, a história do homem que era dela e foi para França e nunca mais disse nada. Anos, como se tivesse ido para Marte. Ela, uma noite, fechou a porta de casa por fora e veio então para a rotunda e então eu estava lá na rotunda. Ela abandonou então até o nome, como se abandona uma pessoa, como uma cidade abandona as coisas, ou como se é abandonado por alguém ou por um sítio. Dá o mesmo. Rosa agora, para sempre, de qualquer maneira.
Começámos então a namorar e a procurar comida e que beber e onde dormir. Descobrimos o rio. Ela está quase a morrer, eu procuro não contar isso ainda, quem sou eu, como não. Esta é a última noite, portanto vou dizer coisas dos dias que não eram para morrer nem para viver: os dias do rio, as noites circulares do rio, as digestões de vinho, um esquecimento pior do que a memória. Ela parou de chorar, acendeu um cigarro, olha calada os rapazes estatelados no céu de heroína. “Conta-me uma história”, pede. “Ainda tenho tempo.”
Eu conto-lhe esta história: “Uma ocasião, o motorista da última carreira da noite meteu o autocarro na gare. Conferiu a folha, tirou o boné e permitiu-se um cigarro. Pelo retrovisor, viu a figura deitada de través nos penúltimos bancos. Amaldiçoou o adormecido, de certeza bêbedo. Bateu com os pés no chão de chapa. O homem não acordava. Teve de lá ir. Não adiantou abaná-lo porque o homem estava morto. Mas sorria. O pior era que o sorriso estava vivo. Continuava alastrando em câmara lenta pela cara morta, rígida já. E depois o motorista teve de descobrir que não era um sorriso. O homem tinha sido degolado. Era a ferida que sorria, não era o morto. Foi isto que o motorista contou à polícia e à mulher. Mas não contou a ninguém que lhe passou pela cabeça e pelo coração o desejo de também sorrir na morte, quando lhe chegasse a hora.”
“Agora conta-me tu uma história”, pedi eu.
Ela contou-me esta história: “Era um rapaz muito lindo que se chamava Marco. Era empregado de mesa num café onde professoras reformadas e advogados sem fama reduziam a cinzas o tempo, como se o tempo precisasse de ajuda. Havia uma cliente que o queria. Marco não teve dificuldade para saber que ela o queria. Ela escreveu um bilhete, escondeu-o na nota de cinco com que pagou o chá, saiu e esperou no lugar marcado. Marco foi pontual. Ela sorriu-lhe, mas esta estava viva. Estendeu-lhe dinheiro e disse: “Desculpe, você é um homem adorável. Não é culpa sua. Não posso ir para a frente com isto.” À noite, Marco foi beber café e aguardente ao bufete da associação e contou a história aos amigos. Os amigos riram-se muito. Disseram que ele tinha mais sorte que juízo. Mas Marco não ri. Pensa nela. A senhora nunca mais voltou ao café.”
Adormeço. Sonho, e no meu sonho sei que não me encontrarei no sonho dela. Ela está acordada. Sobrevoo uma praça do sul. Há uma igreja com Cristo encarcerado dentro. Pombos, japoneses fotógrafos e avôs mal reformados que cravam cigarros a rapazes vestidos como bailarinas russas. Uma cigana bem vestida embacia de respiração a montra da ourivesaria. Com a sabedoria reminiscente que falseia o futuro no sonho, sei que chuviscou até pouco antes de eu chegar a sul do sonho. Os avôs chupam as priscas e comentam o tempo que lhes falta. Um homem telefona dentro de uma banheira encostada a um pelourinho. Uma rapariga apregoa cintos, ligas, suspensórios, caras do Padre Cruz. Um flautista pedinte é enxotado por um polícia vestido de branco como um enfermeiro ou uma viúva feliz. Reconheço o flautista: tem o corpo do meu pai, mas a cara pertence a um dos drogados das bolachas. O flautista vai morrer, decerto a tempo de eu acordar e encontrá-lo morto. A morte já ali está: limpa, muito branca, toda na cara do flautista, vazia a praça até de mim, que acordo e me vejo sem mulher.
Viver mesmo é prestar atenção. Eu presto. Se o outro desaparece, o eu põe-se a gibraltar sozinho numa ínsua de tangerineiras salgadas, nem a loucura faz sentido redondo. Fica o ar do tempo, o tempo queimado em volta, o tempo de todos estes anos perdidos a bordo de uma canoa de ossos. Ficam os mortos muito vivos, outra vez. O olho desvela-os: gente que foi, não se sabe para onde, nem por que voltam sempre. Sacudo os japoneses de pombas a tiracolo. O esterco vivo no cabelo de abandonado, passo-lhe uma mão. Penso já menos nela que a recordo: a mancha vermelha acima do joelho branco. O amor que me inclinava para esse mapa. Os anjos do vinho que nos visitavam na mata, quando deitados na noite, na zurrapa da noite. Deitados de barriga para cima, entretínhamo-nos a ver esses seres nítidos e rotundos como cabeças de fósforo, meio meninos meio leitões. Pensávamos que vinham para nos levar, nunca nos levaram.
Levanto-me no escuro da fábrica. Do lado de lá do portão, ela esperava os homens com dinheiro. Então, uma carrinha branca com matrícula de França parou uns metros depois dela. Era o anjo do extermínio. O anjo obscuro fez descer o vidro eléctrico. Ela baixou a cabeça. Ainda estou a ver tudo isto. A navalha veio tomar-lhe a garganta. Um golpe limpo, muito diagonal, bem pensado. Ela caiu para trás: como se fosse amar. O sangue subiu na noite como uma fonte luminosa: sangue cor de rosa de rotunda. Eu vi, eu conto.
Agora não tenho mulher, só tenho o amor. Talvez não seja preciso corpo para ele, pode ser como o vento, vou ter de descobrir isso sozinho. Levo-a para a fábrica para que o escuro não permita que a ferida sorria.
Pronto, estou ao sol, os meus pés bebem a relva, tanto verde. Oh sim, desta vez tirei os sapatos. No exacto centro da rotunda, tiro os sapatos, tiro tudo. Torno-me o louco fácil das grandes cidades. Riso e susto das senhoras automobilistas, ar grave dos maridos no lugar do morto. Hebreu anacrónico, sujo e barbudo como uma alga de crude, espúria visão bíblica num século de automóveis lunares. Uma pila insignificante, um amor que se embebeu de aço francês, a mancha vermelha subida do joelho à garganta. Já não é grave, já pode deixar de ser livro. Não é grave perder a vida nem o amor, mas lembrá-los. Pode ser que ainda se me abram essas noites de verão fundas e altas como catedrais.
Vem a polícia, levam-me os polícias, fica a relva ali ao sol sem personagens, há-de chover na rotunda, enquanto um belo rapaz nos olha, a mim e aos polícias, com os olhos que foram dela, a bordo do triste táxi que nos leva a todos, que somos dois, desta história para fora.

Coimbra e Louriçal, entre 17 de Abril e 11 de Maio de 1999
Refundição em Pombal e Foitos, em Maio de 2004
(Este texto faz parte de 'O Preço da Chuva', coisa a publicar em breve, espero)

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