Wednesday, July 20, 2005

Trabalhos e Mortos


Que trabalhos e mortos nos esperam?

Vitorino Nemésio, Jornal do Observador
Ele cheirou alguma cocaína, está certo, e é também certíssimo que emborcou muito whisky e muita cerveja, mas foi sempre ele mesmo, não outro. A loucura dele era só dele. Dividiu a vida pelos outros. No fim (mas não era o fim, posto que o escrevo) ficou com a morte só para ele. Pensava ele. Quando se lhe acabou a carreira, arranjou empregos de ocasião. Morreu crivado de dívidas ávidas. Quem ficou, que as pague. Também, quem lhe pagou a conta de ter nascido? Ninguém. Pagou-a ele com a vida. Essa dívida, pagou-a ele. Com língua de palmo e as narinas bordadas a pó branco. Nunca quis alinhar na normalidade merdosa da vidinha. Queria mais do que a vida. Teve a morte. Não foi engenheiro, mas tratava-os a todos por tu. Nunca seria um caixeiro da Sapataria Luxo. Cobriu, emprenhou e pagou o aborto à menina do consultório do dentista Cláudio, seu companheiro de alguns pós e muito Joãozito Caminhante. Andou ao sol, mas nunca pediu dinheiro emprestado para comprar os óculos escuros que usava como um astronauta galante. Tinha o corpo quebrado em vários lados pela noite, mas o rosto aparecia sempre alto, nimbado do pó de ouro dos que morrem cedo. Agora que outra vez falo dele, ou ainda, noto que ele e os mortos recorrem ao pior dos ardis para me tomar a escrita: a nostalgia. Ouro me foi tê-los conhecido quando vivos, sal me é caminhar com as bengalas de que me fizeram coxo cronista. Tem sido sempre assim, não é agora que vou negar o tiro. Por falar nisso: quem disparou contra a cabeça dele? Ele mesmo? Outro? A família não nos esclareceu nunca o acontecido. Murmurou-se, como de costume, pelos cafés. Depois a morte exerceu a autoridade do esquecimento. O céu fez-se azul, depois pardo, depois prata, depois negro, depois azul. Com a tristeza inequívoca dos inteligentes, ele segue o caminho dos mortos literários. Deita-se na minha cama, salga a minha comida, cheira as axilas das minhas mulheres. Como eu sou um vivo feito de mortos, assim também os mortos precisam de vivos para continuar nomes, sombras de vento que penetram o sono dos animaizinhos dos bosques. Perco-me, eu sei. Quem não? A rapariga do dentista Cláudio suportou bem a contrariedade. Gostava dele, não se importaria de gerar dele, mas as coisas são o que são enquanto se não quer que sejam outras. De modo que ela se deixou vazar de um filho sem pai. Fez bem. Ele depois morreu, ela está viva e namora casados na noite dos bares. De dia, certinha como um relógio suíço. Casa labor, labor casa. Chega a sexta à noite, mete-se em interiores de seda preta, perfume de França e discotecas de cá. Os homens voejam-lhe em derredor como mariposas cegas pela luz, babam-lhe as orelhas com palavras invertebradas de bichos-da-seda. Ela assume aquela aura de esfinge disponível de quem bebe gasosa com ocultos alcoóis. Outra vez, viver é capturar. Até ser, um, capturado por outra coisa: um amor, uma morte, uma viagem ao estrangeiro de outro corpo. Os que ficaram, que dizem os que ficaram? Dizem pouco. Bebem fogo frio em cafés que anoitecem por dentro como avós. Mal nos lembramos dele, verdade seja escrita. Mal lembramos o cabelo vivo, o cabelo castanho com fios que procuravam a cor encarnada. Os olhos distraídos pela loucura: mal nos lembramos deles. Vemos é passar a rapariga do dentista Cláudio. Vemos passar a que foi esposa dele, também. Vemos outras raparigas, tocadas todas pelo aríete com que arrombou fortalezas feminis. Também elas mal se lembram dele. A vida passa-se, a vida conta-se: e dá o mesmo. Há quem diga que não se passa nem conta, a vida. Só posso contornar a moral da história. Escrevo para iluminar aquilo a que, por desarranjo de linguagem, chamo “mortos”. É tudo nomes. Nomes pirotécnicos: clarões na noite da alma, aí onde sinto as fibras e as febras da passagem do que há: o tempo, a morte, a viagem, o ouro e o sal.

A rapariga do dentista Cláudio? Começou numa noite de Natal. Foi há tantos anos, que as árvores ainda eram azuis. Fiquei vivo quando a beijei. A boca da rapariga tinha um sabor a nuca. Conhecemo-nos num baile. Achou-me lindíssimo. Procurei-a depois na cidade. Encontrei-a. Ela estava à espera. As mulheres sabem que esperar é buscar. Levámo-nos para o jardim botânico: o fresco arvoredo do presente. Engendrámos um filho, que depois recusei. Alguma coisa me dizia: “Não permitas a vida, vais morrer duas vezes.” E eu paguei o desmancho. Hoje, que estou escrito, consola ter tido razão.

A vontade: demónio íntimo. Usou na vida a maneira dos ricos, mas não era rico. Os trabalhos e os mortos juncam a realidade. Foi um outro homem: viveu outras tardes. Já a carne lhe caminhou para lama. Os ossos, para pedras. Que hei-de fazer dele? Escrever para poder vê-lo: escrevivê-lo.

Cá estou. O grande sol fotografa a vila onde fui vivo. Vejo do ar. Sei como a noite desenreda os fios do dia. Assim faz a morte aos da vida. Estou no tecto do café. Aí em baixo, o escritor pede um copinho de conhaque nacional para que os mortos tenham como visitá-lo em vida. Rapaz de cabelo castanho e boca de irmão de comedor de mulheres. Aí o tenho, de novo visitado pelos seus evangelistas sem Deus, todos eles tomados pela marca do Diabo. Anos fundos lavram a terra do corpo. O escritor desce as noites que lhe cabem: cabanas incendiadas pelo desamparo da criação. Maio acaba. O ano segue povoado pelo sonho da inglesa nos corredores de pedra do Hospital da Rainha Victoria. “A verdade, doutor, só a verdade me interessa.” O passado é um pudim. O futuro, uma geleia. O presente, um gás. Quando eu cheirava o pó branco, reconhecia a ordem do mundo na perfeição da couve viva. Depois a bala encontrou a minha cabeça. Já só posso ser um nome, uma alusão ferida pela nostalgia de um outro, não eu.

Ele, sim. Referia-se à inglesa que criou a filha contra a chuva. A história está num livro lançado ao público no dia 31 de Outubro de 2003, na cidade de Pombal. Foi muito depois de ele ter morrido. Entretanto, a filha de Dale cresceu para ser um junco: firme, flexível, forte, franca. Feliz também? Mas quem o é? Grandes poças castanhas: os olhos. Pele branca: papel vivo. A rapariga ouviu dizer que o pai, como um pássaro, vive no céu. E que não vai pousar nunca na terra. Percebe que morrer é voar para sempre. Na adolescência, conhece que não. Que o corpo volta à terra para ser terra e couve: pó. Que a alma é só uma das possibilidades da literatura. A rapariga vai estudar literatura para outra cidade. Casa com um diplomata e vem para Portugal, país da chuva quente e do sol fotógrafo. Aprende a desenhar. Desenha tudo o que vê. Conhece um português triste que a leva a sítios herdados pela sombra. O marido volta para Londres, ela fica. Mora perto do mar.

A casa é ao lado do que fui quando vivo.

E de mim também, mas só quando escrevivo.

Fica por explicar a bala na cabeça.
Imagem: © Chema Madoz
Coimbra e Louriçal, 25 a 31 de Maio de 1999
Refundição em Pombal, Maio de 2004
(Este texto faz parte de 'O Preço da Chuva', coisa a publicar em breve, espero)

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