Friday, July 08, 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 6

O mendigo era um homem alto e magro. Barbas brancas de uma neve profética. Oferecia calendários de Jesus e de idílicas casas de madeira à beira de lagos escolhidos pela Lua. Aceitava dez tostões, um pão e uma sopa. Comia num banco que se trazia da cozinha para fora da porta. Comia no patamar das escadas.
Um mendigo? Disseram-me: “ É um homem que perdeu a casa.” Percebi (bem) isto: “É um homem que se perdeu de casa.” Também era um homem nascido da vontade do Inverno. Ele era, aliás, o Inverno: a inchuvação. Percebia-se que tivesse parentesco com Jesus. E que a cara dele fosse a Lua.
Guardava o pão no saco de pano sem magoar os calendários. Se calhar, os calendários mostravam doze novembros. Não sei. Naquele tempo, o Verão era uma caixa de luz. Para mim, era. Não sei como era para ele. Tudo nela cabia, até um pé cortado, até a sexualidade incompreensível dos animais e a de João com Maria.
Depois, João apareceu de rosto igual a uma mão cicatrizada. Um dos meus irmãos foi também para a guerra. Talvez tenha sido ele o fotógrafo de 1967, não há provas disso, tenho de recorrer a outras maneiras de falsear o lado de lá.
Já sei ler, já sei perder. No reca(n)to da oficina paterna, confundo o Tirsense com a Académica, mas já leio o suficiente para perceber que a perda pode ser disfarçada de conhecimento.
Walt Disney parece ser boa pessoa. Tem aquele fio de bigode da década anterior, aquele bigode repetido pelos homens brasileiros. Numa edição, Matt Marriott aparece como Calidano, mas é Marriott. Wes Slade e Matt Dillon partilham os verões apaches, chineses multitudinários constroem as ferrovias de Santa Fé, o agente Ene 3 age no escuro, Camões salva a nado (um braço, um olho) o manuscrito de ‘Os Lusíadas’ para glória nacional, mas alguém lhe rouba, para desgraça nacional, o manuscrito do Parnaso (desenhos de Carlos Alberto).
O Pai conversa com o Mendigo na oficina. Em segredo, dá-lhe 20 escudos: uma nota verde onde a bonomia de Santo António iliba a assinatura do governador do Banco de Portugal.
Perco verões como perco cães. Como me perco de casa.


24 de Junho de 2004

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