Wednesday, July 13, 2005

Programa da Manhã


O Rui Correia diz que os programas da manhã entretêm milhares de velhinhos e de velhinhas deste País.
O Rui Correia tem razão.
Ainda esta manhã, vi como ele tem razão.
Pois que me levantei da cama 9&picos.
Lerdo, entontecido, freático, cambaleei para a banheira.
Poupei água, muito cívico ainda antes de totalmente desperto.
Esfreguei-me com sabão azul, raspei o maior com um bocado de telha, podei as unhas condóricas, arranquei o pêlo da venta, gargarejei o sangue da guelra.
Conferi no espelho as olheiras tristonhas que me embolsam o castanho do olhar e o engelhar irreparável da pele do pescoço.
Aos 41 anos e às 9&picos da manhã, um homem tem século e meio de idade, no mínimo.
Bebi um leite chilro e engoli um pacote de biscoitos cediços.
Voltei ao lavatório para desobstruir as anfractuosidades cavernosas da cremalheira.
Pendurei-me na roupa de algodão chinês, calcei as mocassinas pretas de adolescente adiado e ala.
Lá fora, abrangente, egípcio de todo, o Sol refulgia como um patrão de siderurgia.
O canteiro do vizinho de cima eriçava-se de couves de pé-alto. Miosótis também havia.
Mais refeito com a evidência de a vida me ter esperado ao portão como um cão amarelo, galguei metros do lado da sombra do passeio.
Reli pela infinitésima vez a placa com o nome da rua, um senhor de Tonda que foi almirante.
Redescobri em duas vivendas outras tantas senhoras-de-fátima pintadas a azul sobre vidrado.
E entrei no café das piscinas babando os bons-dias à menina empregadita e ao roliço patrão, que folheava A Bola e o Record como um padre veterano faz ao missal.
A TV ardia no Alto. Era a Praça da Alegria.
O apresentador improvisava uma canção com o pianista.
Lá atrás, a claque anónima dos assistentes pagos a catorze cêntimos/hora aplaudiam muito a ousadia do rapaz-apresentador.
Parece que o Jorge Gabriel está de férias. O Goucha está na TVI.
Para a mesa ao meu lado direito veio um casal de septuagenários: como serei daqui a 30 anos.
Há 30 anos, ele era como eu. A mulher dele também terá sido como eu.
O casal sorria para a TV, a canção, o jeito do rapaz-suplente-do-Jorge-Gabriel, a maluqueira bem paga do pianista-maestro.
Bebi o meu café e o meu copo de água morna.
Paguei e andei.
Os velhos ficaram lá.
Suponho que uma das duas senhoras-de-fátima lhes pertence.



Tondela, 13 de Julho de 2005, manhã

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