Thursday, July 30, 2009

Posse e Pessoa

Souto, Casa, entardenoitecer de 30 de Julho de 2009



Com o tempo, a pessoa refaz-se árvore.
Os dias a inclinam à condição que sobe.
A pessoa leva água dentro para ser madeira.
Numa tarde de chuva é útil ver um barco para perceber.
A natureza da pessoa tende também ao minério.
É possível que uma rosa de pedra a explique.

Ao rápido vagar aí tem a pessoa a vida:
urdume de cristais, de falhas geológicas,
de torrentes de neve, de lobos pensando sós,
de maravilhosas colecções de louça azul, de balões,
de crianças que não temem nem recriminam,
de árvores refazendo-se pedra rosária.

Vibra o Verão total na água dos olhos,
o mar parece um truque de cartolina.
A pessoa dá-se ao vento como uma folha
de livro. Perto da pessoa, outra pessoa
inclina-se em chuva, que a fará chorar?
Nesse aspecto, a cidade é toda florestal e plúvia.

Olha os despojos do Avô: barcos em molduras,
castão de bengala, o camafeu da Avó, um recorte de jornal
eternizando o terramoto do ano em que nos nasceu
o Pai: e folhas de livros. E fragmentos de louça
azul, um pião, um pente, um cardeal de chumbo,
um frasquinho amarelo com água-de-Lourdes.

Torna o Inverno da pessoa os vidros e as rendas.
Alguns tempos 'inda por viver, em madeira.
Cabe à pessoa bifurcar sendas, guardar lenha,
reunir os cacos dos dias mais antigos, as bonecas
de faces brancas como o Sol olhado no rosto,
as palavras mais preciosas da mocidade pura.

- Espera - diz a Voz que a pensa -, espera!
A pessoa aquieta-se no pórtico da casa, ela espera.
Passam na calma as tipóias, os aviões, as folhas
dos livros, as estrelas, um mais outro e outro outonos.
Crianças, arbustos 'inda, fremem ao pacato ocaso púrpura.
E jasmins como rosas querem ser pedra.

Também eu espero, tenho dias.
Já coisas hei guardadas.
Estão ainda inteiras e boas.
Umas são azuis, outras verdes.
Vou guardar este frasquinho amarelo.
São coisas úteis para te perceber - e ter.

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