Wednesday, July 22, 2009

Com Tachins Tapar Trenos (poema estaminal embrionário)



Souto, Casa, entardenoitecer e noite de 21 de Julho de 2009

Foto: Mata do Casal Galego, 27 de Abril de 2009





Um dia fica-se sem pessoas em pessoa, há-de restar pelo campo a indiferente ira do vento, a maresia frutícola que pinta pássaros nas manhãs mais despovoadas de que nem memória houve. Circula pela abadia do céu a grave nuvem, a nuvem monástica, dedada descomunal de intocável mão, quando se não sabe mais o menos é chamar humanas às coisas. O rapaz que vai ao lixo sente bem os pés no chão, o toque da brisa ao fim do dia que se acaba em noite, o aroma dos pessegueiros frutando o mar do ar, tanto ar. Podia ser o Outono, entanto. É outra coisa, um avião traça a giz uma longitude altíssima, pelos subúrbios da razão florescem as qualidades verbais da luz nas casas, nas árvores, no trecho de mercúrio que o ribeiro é. Não é vadio já o coração, mas sedentária víscera recolhida ao tugúrio da boca, por onde fala, na volta do lixo. Hoje, tiras de toucinho muito finas enrolam tâmaras, as sílabas saem meladas do confronto com a introspecção da ceia, durante que se lembra isto e aquilo, vagos projectos de não ceder todos os quartos à infelicidade, à desistência muito menos. Das câmaras pulmonares sobe uma corda de som, é uma palavra dirigida às cortinas da sala, que ondulam escutando-a, sob que passam as gatas e as moscas, não demora muito a noite colectiva que o indivíduo marca como a um papel estudado. Estar num apartamento em Uppsala e decidir não sair, ficar em casa com uma revista dedicada a coisas como a periodização literária, os enigmas aztecas, o comércio de peles e peixe salgado em reencontrados anos do idioma. Não seguir, portanto, pela estrada que liga Heby a Sala a Avesta a Hedemora a Sater a Celorico da Beira a Sátão a Falun.

Lá no fundo (fundo alto: como o céu) do corpo está a célula estaminal embrionária, atómica deusazinha repetidora de si mesma como a má poesia. Eu, que não saio já nunca de aqui, viajo por ela a cantos (todo um cinema verbal sempre – Heby, Celorico) que são mundos eventuais baseados em casos verídicos mas inverosímeis e vice-versa:

com um cachorro preto pelo Botânico da minha terra, há mais de vinte anos / o animal gostou da largueza do sítio / claridade verde de muita árvore no ar, ar-ár-vores / pares de namorados e velhos seres aposentados pontuavam os recantos e as vias / as árvores estrangeiras falavam já então vento português / aos pés delas os nomes em latim, as origens do exílio / alguma água escurecia-se como sucede ao vidro na noite e ao olhar no vidro / eu ia dar o cãozito, irmão daquele amarelo com que fiquei dos dois que nasceram da minha cadela, ao dono de um snack-bar na Combatentes da Grande Guerra / prolonguei um pouco a companhia dele / andámos os dois por ali / depois saímos do Jardim, passámos o Seminário, entrei no snack e dei-o.

Com tachins tapar trenos, assim a minha vida escrita. (Como a de muita gente, não há especial especialidade nisto.)

No comments: