Tuesday, August 30, 2005

Um Fim de Tarde do Século XXI - 10 Fragmentos para a História da Civilização Ocidental

1

Sou desde menino um homem do entardecer: um ser outonal.
Não tenho culpa. Também gosto de ver, mas de fora, as grandes alegrias dos outros, os estrepitosos carrosséis, a invejável Feira Popular da Existência Alheia. Aprecio e passo. Digo boas-tardes e desando.

2

Desando até que aqui chego, a este formoso café triste.
É numa aldeia. A montra dá para o largo da igreja. Depois de tolerados dias intoleráveis, o Verão cedeu tréguas. Embaciou-se como uma limpeza de óculos. Até choveu. O largo está em obras, mas não a esta hora, quase jantar. Uma mastaba de areia, três pilhas de pedras, um passador de areia, um barraco de ferramentas isolado a aloquete: obra sem operários, por hoje. É tudo sempre tão hoje. Gosto da paisagem que vos mostrei.

3

Na TV, uma série norte-americana, pois pudera.
Um assassinado, cinco assassinos e uma data de polícias. O mundo à americana. Sacudo uma mosca portuguesa. Sacudida, ela voa molemente para outra mesa, onde vai afiando as unhas de pêlo enquanto o próximo escritor outonal não chega.

4

E se alguém me perguntasse se amo a vida, diria que sim.
Sim, claro, como não?

5

No mais, é esta demora escrutinadora.
A consciência muito acesa: a cabeça como uma lâmpada. A chuva de meia tarde foi uma bênção. Os incendiários do meu País devem andar macambúzios. Os bombeiros vão poder esta noite cear, copular e dormir com suas esposas desveladas.

6

A TV muda para uma série de médicos.
No café, um homem de meia calva e barba completa afixa na montra uma notícia necrológica. Dando para a rua, vejo o reverso à transparência: era uma vez uma senhora. Se a senhora fosse de ficção, teria talvez sido salva pelos doutores do "Serviço de Urgência" da TV por cabo. Mas a notícia na montra é tão real como a montra.

7

A foto emoldurada da equipa local de futebol:
na parede pintada com tinta plástica dada a rolo com técnica de relevo areado. Debaixo da equipa, um homem material de camisa grená. Fuma um Português Suave, bebeu um martini com cerveja, sorri calado para a TV, onde agora decorre o concurso "O Preço Certo em Euros". O homem está na distracção beatífica dos iletrados: um camelo digestivo. De todos os prémios a concurso, só queria o carro para ele e a máquina de costura para a mulher. Não tem filhos, caso contrário haveria de cobiçar o computador.

8

Um par de representantes de pastelaria entra em cena.
Ele, glabro, nédio, vermelho; ela, carnuda, morenaça, ridente. O patrão da tasca sorri nãos a este produto e àquela promoção. Acabam por acertar uma encomenda modesta de bolos congelados. Magnânimo, o patrão oferece bebidas aos vendedores. A carnuda aceita um frasco de sumo de manga. O macho partilha uma rodada de martini. Tudo bem, paz na terra ao comércio de boa vontade. Eu assisto de lado.

9

Debando a cabeça de pássaro velho:
espreito a obra do largo. O aviso necrológico tapa meia pirâmide de areia. Toda a gente se pirou daqui para fora: olha a novidade. Sobramos eu e a adolescente tardia, filha do patrão, que serve.

10

O cepticismo nonagenário de Bertrand Russel;
o Prior do Crato; o Centenário, este ano, da Noruega; o euro; o assassinato de F.F. em Sarajevo, ano 1914; a derrota de Churchill nas eleições pós-II Guerra Mundial; e a Pasta Medicinal Couto - também fazem parte da História da Civilização Ocidental. Não tenho culpa que sim.



Botulho, Tondela, 10 de Agosto de 2005

5 comments:

Porco Intelectual said...
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daniel abrunheiro said...

"Well, bad words break no bones, an' they're wonderful for hardenin' the heart."

The Skin Game, John Galsworthy

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