Saturday, July 18, 2009

Palavras em Lugar de Rio

© Stephen Shore
El Paso Street
El Paso, Texas
July 5 1975



Casa, Souto, noite de 18 de Julho de 2009



Os muitos lugares onde nunca estive
fazem 'ind'assim lugar do mundo a que pertenço.
Dezembro, sobre o Canal da Mancha, depois da
tríade portuária Siracusa-Catania-Messina,
o Golfo de Gela em Julho
(é Julho agora, mas não estou em Gela),
pés e mãos e olhos e cabelo nunca em
Scogliatti, Pachino, Avola, Troina ou Caltanissetta,
ou Baltimore a bordo do Chattanooga Choo Choo,
nada comigo.

Descobri há anos que a nossa morte já começou:
digo:
começou nos sítios onde estivemos e a que não voltaremos.
Hoje, quase me inquietou completar essa verdade
com os sítios a que não iremos.
Que tudo é passagem, demonstra-no-lo cada rio.
E cada rio é o que passa.
Cada rio é o Mondego da minha terra.
E o rio traz e leva pessoas.
É o forasteiro da família, o rio.

Sempre viajei pelo verbo,
outros viajarão por mecanismos seus.
Que me lembre, a música é um meio de transporte
dos mais poderosos.

Em noites de inverno surpreendidas por uma nitidez estival,
surpreendi já os altos candelabros gelados do firmamento:
como não confessar que tanto magnésio nos espera a todos,
fluviais?

Gente houve que andou na guerra.
Viu quão vermelha a terra pode ser,
conheceu frutos estranhos ao nascimento pátrio,
copulou talvez com outra gente de outro idioma,
cheirou o perfume da gasolina e o fedor da milícia,
queimou borracha e unhas em praias vulcanizadas
pelo agravo das gerações perdidas umas pós outras,
afagou fotografias de bolso com o desespero
nó-cegando as tripas,
atendeu crepúsculos estrangeiros que perdiam a vista ao que
venciam em quimera.

Não fui dessa gente.
Fiquei sempre em casa.
Sempre me achei condenado a esta paz podre.

Tento hoje, no tempo que tenho e me falta, não
ser colonizado em excesso pela pútrida melancolia apátrida.
Escrevo toponímias cujas sílabas traem o desejo e a impotência.

A tarde descreveu entretanto um arco,
o pote de ouro é a noite.
A estas horas, rente ao candeeiro da sala, escrevo
as minhas palavras-de-lugar.
E elas são justas e inverosímeis e minhas:
Porquerolles, Toulouse, Fontela, Celas-a-Velha,
Mayo, Bristol, Espertina, Tröndheim,
Orão, Ourém, Baleal, Tuy,
Botulho, Belmonte, Caramulo, Sabugal,
Mancha
- tudo rios, além.

3 comments:

yodleri said...

Não sei se estou contente por não ter palavras ou irritado por não as apascentar como tu!
Cumps

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Gentileza tua, Yod.

Amélia said...

Gostei muito desta reflexão sua, Daniel.Um abraço e bom domingo!