Friday, July 17, 2009

Imitação Silvícola com Referências não Imaginárias


Souto, Casa, 16 de Julho de 2009

Devo, como as árvores, ter crescido alguma coisa, posto que vos falo de pé, agora. Não tem sido sempre assim, eu sei, vós sabei-lo também. Além é inda o campo, sítio de largas e longas águas, por invernos nossos. A Quinta do Notel é que já não tem cavalos, que pena, nenhum de nós quer jamais que o Tempo leve os cavalos para nunca mais. Isto não tem mal, todos somos pessoas mais tarde ou mais cedo, e mais tarde ou mais cedo sem cavalos. Não nos larga o Tempo, é o que nos inda vai valendo.

Vezes há que se me apapoila o coração só de pensar. É outra vez enfiar os pés nas pequenas botas, ter tudo pela frente outra vez. Tenho voltado aqui pelas palavras, naves todas do meu tempo convosco e sem vós. Sem voz é que não. Conheço os céus agora porque, como vós, cresci para ser um alto bicho da terra. Conheço a terra, como ela se estende de erva, sombra, antigos cavalos, apreensivas ovelhas.

Conheço os invernos na Lousã, a extrema desolação de Peniche, aos dezassete anos vou comprar um livro do Balzac em Lagos, de Saint-Orens de Gameville praticamente não sei nada. Não se pode saber tudo, como vós sabeis.

Às tantas, em nosso torno as casas são cinzentas e cinzentos os bairros, outras infâncias iguais se des(p)enham nelas-casas e neles-bairros, assim é, sempre foi, tal vai sendo.

O nosso Tio António, o nosso amigo Zé Tarzan Agostinho, além a Quinta do Notel, além mais o Bolão, a Geria, S. Facundo (último reduto de António Abrunheiro e sua Laurinda de invencíveis olhos azuis): todo o Tempo do nosso mundo de que somos, temos sido, tal seremos.

Ou uma visão (verbal) de veados na neve, nas nossas velhices rumorosas. O inverno lousanense, o sortilégio de Coimbra, os primeiros 1º-de-maio pós-25, já longe tudo de todos.

Deixei entretanto entrar a sobriedade na minha vida. Um profissional da atenção (verbal) era o que tinha de ser, acabar sendo, para recomeçar sempre, nem sempre embora de novo.

Uma tarde, deitei-me mansamente no sofá da sala. Não demorou muito entrar num torpor acordado por dentro, sentindo os membros medusando-se no éter aquoso do quase-sono. Senti o meu irmão Fernando (um de vós) perto do Café Abadia, tínhamos vindo da piscina municipal, ele tomava conta de mim, ofereceu-me um sumo de frutas, o Zé Amaro bebeu um copo de leite e comeu uma bola-de-berlim, a tarde na piscina tinha sido uma espécie de visitação do paraíso.

E o milagre está em tudo isto, sendo imagem e imagem e imagem, não ser imaginário – mas verbal.

Lembro-me do Avô Carlos vivo, mas a morte dele foi um dos primeiros acontecimentos graves e importantes na minha vida. As mulheres cozinharam e tomaram canja de galinha na Casa dos Senhores. Lembro-me perfeitamente dessa morte grande, separadora de mundos, da tristeza forte da nossa Mãe, filha dele. O Campo do Bolão era ali mesmo à mão. Havia enguias na Vala do Norte, cujas águas não tinham inda apodrecido de lixo. Andei pela ínsua, colhi e comi tangerinas, lembro-me perfeitamente, nunca mais fiz isso.

Agora estamos todos no futuro, o Avô aparece à nossa Mãe na sala onde ela cumpre a etapa final da eternidade que pode. A vizinhança também rareou, as crianças casaram-se e divorciaram-se e voltaram a casar-se contra não sei quem e têm filhos aos fins-de-semana à hora a que sai o Expresso e vão levando a vida como nós, árvores.

(Como vós, também eu tive de nascer outras vezes outra vez. Viver é uma coisa que dá sobretudo trabalho – e trazer por coração uma papoila não ajuda muito, sempre vo-lo digo. Toda a gente, afinal, suponho, nasce numa ilha – de modo que se passa o resto da vida a tentar chegar a um continente qualquer. E quando se pensa ter chegado, foi a outra ilha mais que se chegou. E há, claro, na ilha, árvores que é preciso imitar.)

2 comments:

yodleri said...

Caminhei contigo; bebi um fino no Abadia e comi uma sandes mista, não sou de doces; senti o ácido adocicado das tangerinas; vesti de luto pelo teu avô; senti até o cheiro putrefacto onde já não há enguias... Não sei se te entendi, nunca o sabemos, apenas o cremos, mas estou seguro que cada passo que destes, dei eu a teu lado.
E ao fim, nem sei como te chamas... és apenas a diáfana memória dos amigos que já lá vão... se me permites, chamo-te amigo!

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Obrigado, amigo.