Sunday, July 26, 2009

Da Pessoa Plena de Imagens - III

III. TUDO APENAS A V.

Isto tudo é apenas a vida, a nossa cabeça durante a vida, as pessoas que andam a pagar casas, os velhos que se entretêm nas salas-de-espera dos consultórios, as roubalheiras amorais do sistema, o meu amigo João fazendo o penso ao Pai terminal, a ponte que leva e traz e fica, o clarão da cidade chegada de rio a mar, de onde pulsam as ourivesarias e as raparigas e os relvados e os fontanários e as torres e a zona desportiva para merendas, o aroma dos assados a carvão galgando muros e pituitárias, as testemunhas-jeovás de evangélicas sandálias de napa com meias e uma fadiga antecipada do Paraíso, os pintores muito urbanos muito amigos de vereadores e de chefes-de-secretaria e das respectivas mulheres com quem copulam a pastel triste, é apenas a vida a penas, as lonjuras deitadas do mar subindo o ecrã do horizonte, o rubi-sim-não-sim-não do farol-a-vermelho-a-verde-a-vermelho-a-verde, o trânsito invisível do suicida entre (ou em) nós rumo à notícia e à polícia e à malícia do diz-que-diz, as fontes que cantam a limpa tragédia do tempo em cristal contador, a mancha heliográfica do bosque, a espiral sexual dos carnívoros com possibilidades financeiras, as lojas com roupa tão bonita, conservas alimentares tão bonitas, raparigas tão pedúnculos de flores, maços de tabaco preciosos como brinquedos coloridos, jornais gordos de novos, comedores de bifanas que arrotam a tinto traçado de gasosa, apenas a vida e nada mais que a vida, a verdade não é para cá chamada, verdade é o quiosque crepuscular, a existência digital das varandas, as velhas damas que me parecem sempre rosas de pano, a frontaria da câmara municipal reticenciada de pombos também municipais, o que se desce até à Rodoviária (e tudo isto ser várias cidades em uma vida apenas, Coimbra, Viseu, Peniche, Lisboa), aquele cantinho onde tão bem grelham as pôtas, e a nossa cabeça, nuvem de bolor em céu de pedra, de terra.

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