Tuesday, July 21, 2009

Na Varanda, o Crescer das Plantas

© Minor White

Road and poplar trees in the vicinity of Naples and Dansville

NY, 1955

Souto, Casa, tarde de 21 de Julho de 2009


O colo do fémur aparece por vezes onde menos era esperado, também não é comum esperar que o colo do fémur isto ou aquilo e assim ou assado. Alterações genéticas, investigações no pensamento, manipulação clínica, tudo bate as asas no ar das nossas histórias pessoais, parece. Um homem de boné encarnado cultiva legumes numa leira emoldurada de choupos, num canto do País. Andou por França, Suíça, Bélgica e Alemanha alguns anos, voltou há alguns anos, ficou, tem dias em que pensa nos lagos gelados que viveu nesses tempos, agora isto esquisito no colo do fémur da mulher que cá o esperou estes anos todos. Em Almada, uma mulher de quarenta e dois anos considera-se gorda, está sentada num banco alto de balcão, bebe uma laranjada sem gás, sente-se um pouco enredada pela melancolia. Na varanda, o crescer das plantas fá-las povoação. A sombra de um homem novo mancha a estrutura de chapa da paragem do autocarro, à noite neste sítio há quando chove putas recolhidas que gostam de reggae e de rebuçados de café. Perdeu-se qualquer coisa da qualidade de viver, não haverá muitos que o saibam definir, muito menos justificar. Em pranchas de madeira pintadas de cinzento, perto de alguma nova urbanização, crianças mexem as pernas no ar. Uma noite de há muitos anos, fui com um sobrinho ver uma música que dava no Teatro Gil Vicente, havia famílias na plateia, hoje desfeitas talvez e talvez refeitas em outras, talvez. No Hospital Pediátrico, a hematologista saía do turno a chorar sem poder conter-se por causa da leucemia ser infantil também, recordo isso, recordo como isso provava o total absurdo de Deus, deixai vir a mim as criancinhas etc., parece que estou a vê-la com os olhos cristalizados postos no chão. Subi a Sereia, ouvi exercícios de piano descendo de um terceiro-andar à rua, alguma menina desfolhando o tempo, nunca a vi, o tempo sim e o que ele desfaz que toca, ouvi a música e passei como tudo passa. Semanas, empenas, estearinas, azeitonas, escunas. Escamas, poemas, limas, glaucomas, escumas. Em La Valetta são 15h34, mais duas horas do que nos Açores. Fess Parker, a madurez do vinho, a estrela de madrepérola que desce o peito da cantora muito branca. Uma hipótese de eternidade é serem os mesmos agora os pássaros que foram outrora, assim o Sol, o fémur, o crescer das plantas.

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