Thursday, July 16, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (17)

Joseph Nicéphore Niépce
primeira fotografia de sempre
circa 1826



17

Pombal, manhã de 11 de Julho de 2009

Com ou sem relevo, com ou sem marca-de-água, prossegue a minha vida.
Ontem, a enumeração de possibilidades titulares (O Caso Profumo, o Auto do Colorau etc.) rendeu-me algo designável por "hora-dentro".
Trata-se de uma faceta da atenção com especial (muito especial) adentramento neuro: uma espécie (muito especial) de levitação.
Niépce e Daguerre devieram inseparáveis como Stanley e Livingstone ou Coluna e Eusébio.
Por mim, concedo que a Riefenstahl não tenha (não sempre) de ser associada ao Adolf.
Os nomes dispõem-se-me como ferramentas emocionais.
Isto das palavras torna-me um pretérito ambulante, um ser do passado, uma relíquia irrelevante?
Sim.
Que se dane, profundamente se dane.
O tesouro é este: o lexicão, a minha vida - de que sou palavra.

Uma boa alma, a que ali vai no corpo daquele senhor.
Foi clarinetista filarmónico muitos anos.
Ainda ensaia sozinho em casa, para delícia dos netos?
Ascética, hierática, sinto que perpassa, em praça próxima do Paço, a alma de Alexandre Herculano.
É por uma tarde sitiada pela chuva.
Amplo matiz de cinzentos liga a massa metálica que hoje o Tejo é ao papelão do ar molhado.
O historiador vai pelo braço de um ignorante endinheirado qualquer.
(Oliveira Martins conta-nos isto, dá-nos isto a ver, ainda no Tempo.)
Herculano fala-lhe com sisuda euforia dos monumentos hermenêuticos da História-Pátria.
Vai contente o novo-rico de "levar ao peito" o prestigiado erudito.

Num sábado simples, o corpo mentaliza as uniões da percepção, o Herculano, o dorso do rio faiscando pérolas, centelhas ígneas, a força do coração pulsando a condição arterial da vida, num simples sábado.
Meu tempo perifrástico, minha onda de açúcar, ter sido instante de casas brancas com rodapé azul, a outro Sol (que é este 'inda).
Nossa demora conventual, resignada que não persignada, paciente, de monásticos arquivos teorada.
Muita percepção, muita chamada de atenção, solicitação muita do mundo: e glandular como o vítreo, o hospitalar como o épico, o pulha como o subido.
Já me tem acontecido abrir um livro - e de lá de dentro saltar-me o tigre ao peito, uma rajada de música vienense, a mississipação genealógica, as campânulas turcas, a Beira Alta, o açúcar do sangue, a euforia da tristeza profissional, os rodados de madeira do Faroeste, o frufrú adúltero das bovarys.


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