Friday, October 07, 2005

O Crime de Negritarias (work in progress)

Uxoricídio seguido de suicídio. Cabo mata mulher e depois, voluntário viúvo por segundos, mata-se.
No café da aldeia de Negritarias, tinha bebido cerveja e aguardente. Militar de profissão, trazia sempre a arma, que sacava muitas vezes ao balcão da taberna. Nessa noite, bebeu calado e não mostrou a pistola. Pagou a despesa, levou o carro até perto de casa, deixou o carro a trabalhar na estrada, subiu as escadas para o primeiro andar da vivenda coberta de azulejos e entrou na escuridão. A filha de pequeninos anos já dormia no quarto infantil. Também a cabeleireira dormia já. Ele acordou-a. Disse-lhe saber que ela andava a enganá-lo com outro e que ia matá-la. A primeira coisa era mentira, a segunda tornou-se verdade logo a seguir. O cabo disparou um tiro suficiente, a cabeça da mulher recebeu o metal ardente, e o sangue ofereceu ao lençol a rosa do costume. Depois, o homem abriu a boca, fechou o cano da arma contra o palato e disparou. Caiu para trás, não partilhando com a mulher, uma derradeira vez, o leito conjugal. Antes, tinha fechado à chave a porta do quarto.
A menina acordou às oito da manhã. Deixou-se estar, gozando o feriado uterino da cama, até que a bexiga a fez chamar “Mamã!”. A mãe não veio. A menina levantou-se e foi bater à porta do quarto daquela que não vinha. Uma linha vermelha cobreava do interior por baixo da porta. A cor da cobra fez a menina pensar no verniz de pintar as unhas que a mãe partilhava com ela. Olhando o verniz, a menina mijou-se pernas a baixo. O mijo misturou-se no soalho com o sangue do pai. Não era verniz.
A vizinhança não estranhou o carro parado na estrada. Não era a primeira vez. Ninguém tinha então razões para saber que havia sido a última. De modo que ninguém fez nada. Mais de trinta horas depois, um vizinho velho passava à frente da casa quando viu a cabeça da menina à varanda. Em bicos de pés, a menina disse: “Quero papa.” O velho perguntou: “Os teus pais onde é que estão?” A menina, pálida como um lírio mas flagrante como uma rosa, respondeu: “A fazerem ó-ó.” Então, o velho subiu as escadas, esticou os braços até à varanda e resgatou a menina. Levou-a para casa, disse à mulher que desse leite e bolachas à criança e foi ao café telefonar à guarda.
O senhor Leal Casimiro ouviu a notícia na rádio local. No dia seguinte, leu os factos num jornal nacional especializado em sensações. O jornal publicou as fotos dele e dela, mas não a da filha que vagueara de fome pela casa dos mortos mais de trinta horas. A cara do assassino suicida era de fuinha. A cara da assassinada era uma cara de cabeleireira. Vinham também um grande plano da vivenda forrada por fora de azulejos e uma caixa pequena com as caras do vizinho salvador ladeado do presidente da junta e da mulher do presidente da junta, os três com cara de caso. O senhor Leal Casimiro fechou a loja de utilidades. Nem se deu ao trabalho de voltar para fora o rectângulo de cartolina azul “Volto Já”. Meteu-se na 4L e rumou a Negritarias sem saber por ou para quê. Havia muita gente na praça central da cidade.
A aldeia estava mais desamparada que de costume. O vento gania nas oliveiras como um cão vegetariano. Reconheceu logo a casa do caso. Procurou o vizinho velho, que lhe repetiu de cor toda a história do crime. O senhor Leal Casimiro observou isso: o velho repetia de cor a reportagem do jornal. Não era para menos, aliás: até tinha vindo no jornal. O senhor Leal Casimiro aceitou um cálice de vinho do Porto, recusou o palito la reine e pediu para ver outras fotografias da família que já não era, se ele as tivesse. O velho tinha-as. Era padrinho de baptizado da morta. Mostrou ao senhor Leal Casimiro uma da menina, quando ainda de colo, ao colo da “pobrezinha afilhada”. “Pobrezinha, de facto”, assentiu o senhor Leal Casimiro.
Esse amanhã do crime foi dia de uma manifestação do povo de Negritarias às portas do tribunal da sede de concelho. O povo queria justiça. Ninguém pareceu lembrar-se de que não haveria julgamento. A polícia municipal dispersou com calma o povo junto. O funeral era a derradeira justiça.
A cabeleireira era natural de Negritarias, freguesia de Vale Cão. Muita gente seguiu o carro funerário, o padre e os presidentes da câmara e da junta. O ar da capela estava saturado de flores que murchavam a olho nu. Candelabros de prata não esfregada suportavam velas míopes. O rosto dela parecia encerado pela evidência da extinção. A chuva compareceu à cerimónia, pelo que a terra se volveu lama. Homens e mulheres vestidos de preto como guarda-chuvas humanos morcegavam lugubremente contra um fundo alto de gelatina cinza, atrás do nada: um espectáculo ao preço da chuva.
Ele não era de Negritarias. Era do norte do país. Foi enterrado longe das maldições impotentes do povo de Negritarias, freguesia de Vale Chão, concelho natal do senhor Leal Casimiro.
A criança foi entregue à custódia dos avós maternos. Tempos depois, soube-se que os pais do cabo reclamavam para si a netinha. Houve indignações de missa e sermões de taberna em Negritarias. A Assistência Social foi determinante no caso. O tribunal, tempo depois, confirmou Negritarias como terra da menina. O senhor Leal Casimiro, no sossego sombrio da loja, achou bem. A vivenda do crime foi vendida a um casal de emigrantes, que no retorno de França procedeu a obras por dentro e por fora de modo a que nenhum azulejo nem vestígio de verniz algum pudessem assombrar-lhe a aposentação.

7 comments:

singularis porcos said...

fazes chorar as pedras da calçada. gostei. bom texto. actual e acutilante. e de facto não há ninguém para julgar ou com que berrar para nos descansar as consciências.

Sandra Feliciano said...
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Sandra Feliciano said...

Pode ser actual, pode ser bom tecnicamente - outra coisa, aliás, não seria de esperar do seu autor - mas não gosto.

Para nos deixar neste estado de espírito, já chega a realidade. Ao menos que a arte, essa benção que nos foi dada e que não se rege pelos mesmos limites ou regras, sirva para outros propósitos mais positivos em termos emocionais: Para inspirar, para dar alento, esperança, auto-confiança à estranha espécie animal a que pertencemos.

daniel abrunheiro said...

Sandrita, Sandrita: a realidade não é a doença, a arte não é a cura. Para que saibas, este texto (evidentemente literário) teve origem numa reportagem real que fiz no concelho de Pombal. O crime aconteceu. Na realidade. E, agora, em ficção. Que não é científica nem cor-de-rosa. Sandrita, Sandrita: a arte não é para o sofá, é para a rua.

S. said...

Sandrita, sandrita, confundes arte com aspirina. Ou melhor, com cocaína.

Sandra Feliciano said...

LOL

Não se trata de confusão, mas de OPÇÃO.

Cada um, dá-lhe o uso que quiser. Eu dou-lhe o meu! ;o)

Sandra Feliciano said...

... e para que não restem dúvidas nem confusões, nem aspirina nem cocaína (essas são tão arruaceiras como a rua). É mesmo o uso que descrevi acima, no primeiro comentário que fiz.

Mas pronto, contra gostos não se discute! Que cada um fique com os seus! ;o)