Thursday, July 30, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (23)

23

Pombal, tarde, entardenoitecer e noite de 27 de Julho de 2009

Hoje pode chamar-se 27 de Julho de 2009, mas parte dele-dia é 11 de Novembro de 1953, data com que Vitorino Nemésio assina Situação de Garrett (em Conhecimento de Poesia, Editorial Verbo, Lisboa, 1970, pp. 71-79).
É uma prosa lustral, a do Professor.
Açoriano ilustríssimo, escritor maior, toda a gente diz que excelente professor (como a minha ida professora Lívia Múrias - RIP - do Liceu de D. Maria, que foi aluna dele em Lisboa), poeta de bom cheiro, está sepultado na minha terra-matriz, Coimbra, lá no alto de Santo António dos Olivais.

Às vezes o amor sai-me pela boca como uma música.
Não tem sido sempre assim na minha vida.
De qualquer maneira, o amor é melhor durante a vida.
Falamos com músicos e com marinheiros, escutamos do carpinteiro e do mecânico de automóveis as frases que derivam de estarem vivos como todos.
Sabemos que nem todas as bocas atiram amor.
Eu pelo menos sei que é assim porque o lado mais comezinho da vida abrange os filhos-da-puta que não amam ninguém.
Vale-me não ser filho-da-puta (e meio) senão para os filhos-da-puta.
Não tem sido sempre assim na minha vida.

É agora o tempo das garças e das brancuras, quando despertamos vivos para a vida atenta, enquanto.
Tudo pulsa poder, a cor, o verbo, a pulmonaridade exposta do arvoredo, a fragrância tão humana dos contentores do lixo.
Pirogas e brigues e trenós sulcam neves e torrentes e marés, velhos homens zarabatanam os frutos venenosos da recordação com o sopro das meias-palavras.
Mas as garças e as brancuras.

Quem de nós não está por vezes tão sozinho dentro da cabeça como uma paisagem não vista de mar batendo na falésia?

Tinha vindo ter connosco a mocidade campeã de tudo e mais alguma coisa, acabou vingando a íntima respiração.
Em carrinhas, músicos vão entre vilas vender a poesia que podem, levam-se no circo mesmo da primeira arte, depois voltam para casa, aceitam um lugar na administração pública, deixam-se de versos ingleses, vão em Agosto ao Algarve.

Tenho tido alguma coisa a ver com isto, a vida.
Às vezes o mar bate-me aos pés e eu faço de rocha alta.
Outras vezes, o amor sai-me pela boca como uma música.
Então, sinto-me poderosamente e fremo e faço com que o corpo bandeire, as mãos sulcando o cabelo, o coração exercendo oxigénio e genealogia, garças e brancuras.
Isto tudo entre nós, para nosso currículo.
Quando estudava latim, regressava de casa do explicador (o saudoso Dr. Moura - RIP) pelo inverno das ruas anoitecidas, a minha mocidade integrava o curso e o corso das instituições, dos bairros, das maravilhosas ruas tocadas pela solidão, os rubis de néon do pequeno comércio, a maravilhosa cabeleira alta do Jardim Botânico, o destino para sempre académico do amor mais escrito, as couraças que a chuva aluminiava de uma pátina feita de anos, muitos anos, todos os anos, e eu sabia que a Gália Transalpina se dividia em partes três, penso que ninguém me tinha morrido, penso que do crepúsculo o brando clarão me enchia de um amor matricial por Coimbra e pelo mundo inverosímil do corpo que é moço e não pode ser procrastinado mais, garças e brancuras, descendo e subindo a Rua do Brasil, tocando com as asas a Santos Rocha, uma amargurinha precoce e boa por a Arregaça, e S. José, e o Cidral, e Santo António dos Olivais, onde sepultaram Nemésio.
Ainda passo por S. Teotónio, ainda estou dentro da sala de cinema com a rapaziada da minha terra em quê, 1978, The Song Remains the Same &c.

Claro que agora sou feliz porque escrevo
Claro que agora sou feliz.

Mas não difiro do herói atlântico que vagueia em terra pela vida com uma atenção inquebrável e fulgurante - assim como uma estrela toda diamante.
Penso que não difiro do homem que, sozinho no lagar, trabalha à noite nas suas coisas de homem, apetrechos que fundamentam a casa onde a mulher e os filhos, em cima, desenvolvem fogo sobre pedra, a mulher separando legumes com uma minúcia de florista, os filhos mesmerizados pela televisão de Lisboa, o homem no lagar consolidando instrumentos para os ainda-dias que vão seguir-se, rios, garças e brancuras.

Ou os anos de Magnus Mills, o ex-condutor de autocarros, a juventude suíça de David John Moore Cornwell, a inspiração deliciosa em C. W. Ceram, a ingenuidade do Capitão Hastings, os gémeos poemáticos de Fernando Quiñones, Horácio pastor-operário, e garças e Dylan Thomas e brancuras e Lowry.

Quando, pelo entardenoitecer de um 24 de Dezembro, comprámos um S. Pedro de barro, eu e o meu irmão mais velho, o Carlos, integramos (ainda, no presente histórico) o curso e o corso da multidão comercial. Isso é simultâneo do mais que há, se o escrevo - e escrevo-o.

Olhai comigo os protestos tractorizados dos agricultores em Montemor-o-Velho, terra onde uma noite senti a passagem de uma mulher muito bonita e muito grávida chamada Clara, dela os olhos também claros alagoando a escuridão (tinha faltado a luz eléctrica, os músicos de baile tinham de esperar, eu era um deles).
Clara voltou depois de volkswagen à vida dela, se houve outros bailes não sei, deixei de tocar, regressei a casa e integrei a administração pública da minha vida privada e escrita.

O mais também é seleccionar atitudes cognitivas, assimilar as pequenas psicologias de café, as metafísicazitas de balcão, onde o carpinteiro, o Correio da Manhã, o mecânico de automóveis.

Na Sibéria, o abalo telúrico faz cair neve das ramadas.
Os animais dão a voz a trenos, a angústia dos animais toca humanamente a terra.

(Querias anoitecer em Bergen, eu sei.
O remédio é ir pela de Guerra Junqueiro, subir à Conchada, descer a de Aveiro, passar ao Still, saudar o João Carpinteiro - RIP, paz à alma dele, coitado -, levar o latim no falar onde e para onde for, isso sim.)

Foi o que levei, coisa de quase um mês, ao Noventa, na Fontela.
Mondego e comboios urdiam passagem e permanência.
Eu fazia vibrar materiais em duro trabalho.
Corria Maio.
Maio correu.
Num lento repente, dei por mim à flor de outra hora, a hora do senhor Albertino, o pai do Tó-Zé Monsiú, que casou com a filha mais nova do senhor Branquinho mas depois correu mal.
Era perto da entrada do Inverno.
A vida cheirava a tractores e a estrume, a pastilhas de glicose com jogadores de caderneta e a abóboras-meninas.
O senhor Gil, pai do Victor, cumpria os horários com uma rigidez religiosa.
O senhor Rendilho - RIP - suportava a calma da velhice na casa da esquina da do Leitão com a da Casadinha.
O Toninho Plástico e eu achámos a carteira dele no chão, era de noite, fomos devolver-lha a casa, de onde trouxe a visão dele sentado em silêncio às escuras.
Eu passei.
Ramalhetes de margaridas estrelavam, já garças e brancuras ainda, as mãos perfumadas de ter ido ao Campo.
Nenhum paradoxo nisto: nisto, filme apenas.
É que regresso às casas da terra matricial enquanto envelheço por outras aragens.
É a força do agora, o poder escritural, a íntima bíblia.
As famílias operárias, de costas coladas ao tempo como os cromos-jogadores da caderneta, instauravam a comunidade.
Na noite em que houve programa de fados, velas, vinho e cigarros acampavam nas mesas de alguns mortos ainda vivos - que todos RIP: o senhor Augusto Gonçalves "Marreco", o senhor Rogério Velindro, o senhor Ernesto Soares, o senhor Ernesto Lucas, o senhor Fernando Pratas, o senhor Daniel Abrunheiro, o senhor José Gomes, o senhor Manuel "Gago", o senhor Flores guitarrista.
Cristo continuou a morar na igreja olhando o Campo.
Quando nos juntamos sob o estandarte dos milhafres e da Senhora da Piedade, das estrelas e dos pardais, corremos o risco de amar tudo pela boca.
(Gostaria de conseguir partilhar tudo isto: porque é tudo tão belo na minha cabeça - e eu gosto de partilhar a beleza; e as garças; e as brancuras.)

Armários metálicos de cor verde de ambos os lados do corredor fechavam literaturas maravilhosas, que recordo com um ligeiro aperto no coração - queria aqueles livros, colecções completas de revistas especializadas, brotérias e presenças e águias e searas novas e tempos e modos.
Nunca vai acontecer.
Por outros livros e outros periódicos, enfim, tenho ido e revirei vindo, sendo, lendo, vendo.
Um caso flagrante em Sciascia na aranha do quiosque do Mercado.
Cortázar e Calvino também.
Fui adquirindo-os sem angústias tolas.
Já giro o meu tempo sem a toleima da eternidade a bater-me nas canelas e nos dentes, aliás em parte acrílicos desde o dia 17 de Fevereiro de 1981.
Trouxe o Sciascia comigo para casa, outra vez e tantos anos depois da primeira vez.

E que era esta sombra aérea, além da do meu coração?
Ave grande que o Sol ofuscava, neve ou nave ou ave descomunais?
Eu não sei, sinto.
Era a luz - e depois uma mancha grande; como quando o mar muda de cor por dentro.

S. Pedro de Moel, Pedrógão, Vieira de Leiria:
Óbidos, Olho Marinho, Serra d'El-Rei;
Geria, Cidreira, S. Facundo;
Portunhos, Pena, Ançã;
Fail, Parada de Gonta, Molelos;
Sargento Mor, Adões, Trouxemil;
Antões, Outeiro Martinho, Guia;
Pinhão, Don'Ana, Zavial;
Achada, Santa Catarina, Tarrafal;
Fonte do Areal, Capitão Cadete, Misericórdia Antiga;
Filipes, Casais de Além, Borda do Rio;
Convertidas, Trás-das-Eiras, Lameira do Saramago.
Major Alvega, Ene 3, Garth;
Matt Dillon, Matt Marriott, Wes Slade;
Cuto, Califa, Heidi;
Pai, Mãe, Irmãos;
milhafres, pardais, garças:

Tudo branco.






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