Tuesday, July 07, 2009

A Hora É Dourada, É de Áureos Veludos



Pombal, entardenoitecer de 6 de Julho de 2009



I

Não preciso
não precisei jamais
das mãos
para lhe
tocar o rosto.

Agora
me vou chegando
à idade
que era a dele quando
me fez.

Tenho
uma fotografia com ele
no alto da montanha.
Recordo a faca de brincar que lhe apontava.
Recordo o dia que nos apontava.
A nossa ligação
ficou
desde então
à minha inteira responsabilidade.

Ele já tinha amado para me ter.
É a minha vez agora
agora que me voou
agora que me vou
chegando à idade que era
a dele
quando
nos fez.

Como poderia eu
eximir-me
a tão alto cargo?
Aves à beira de água numa tarde de inverno
repõem-mo
sempre
para sempre
em cena.
O clarão emocional
ante
uma pintura
ou durante
uma canção
regressam-mo também
sempre também
e também para sempre.
Como lograria eu
inibir-me
de tão exímio amor?

Sou
por ele
um ser do futuro
nenhuma idade me achará
velho de mais
para tanta meninice:
nenhuma idade
nenhuma doença
amargura alguma.

Cães pobres publicam as sombras da cidade soalheira
ei-lo que mos aponta
com
a bela mão de pintor.

Não precisa
não precisou jamais
das mãos
para me
tocar o rosto

gesto
que ele faz
vejam
precisamente

agora.



II

Aves à beira de água numa tarde de inverno.
Pela cidade solar, sombriamente cães.
Exposição de pintura no Café Moderno.
Boas tarde, sô Victor, senhor Magalhães.

Uma dama alta que veste veludo
leva pela mão o bambino rosado.
Ao lado, o marido, semblante sisudo,
um olho em frente, o outro de lado.

Transístor a pilhas em janela alta
pinga pasodobles de fino recorte.
Em baixo, no tasco, s'ajunta a malta
que lhe come e bebe antes venha a morte.

Em vindo o Verão, virão excursões
a ver a Rainha Santa com' a Cruz.
Boas tardes, sô Zé e senhor Simões,
hoje já não chove, a julgar p'la luz.



III

A esta hora saem das fábricas as mulheres,
tornam ao cume das chaminés as cegonhas.
Param as máquinas amarelas nos verdes arrozais,
o penúltimo comboio diz adeus a Deus.

Sou o homem da camisa verde ao lado da memória,
um cão idêntico a um papagaio soslaia-me daquela varanda.
Julho anoitece sem pressa como a vida humana.
Tenho tenções de tomar café lendo João Camilo.

A esta hora somos talvez felizes e anacoretas todos.
Deixamos a cidade-vilória, à aldeia tornamos.
Pobres como cães, cheiramos as árvores de fruto.
Ouvimos os porcos, as rolas, as crianças, os televisores.

A metafísica depende em casa da disposição dos móveis.
Cosmogonia, há quanta chegue no quintal.
A hora é dourada, é de áureos veludos.
Os retratos concordam em silêncio com o silêncio mesmo.

Azul de muita cinza, vem a hora ser noite.
As mulheres parecem de pano que o vento abre.
Recolhem os filhos dos beirais, das caves, do ar.
Instigam a lume a comida, a cama, o sonho.

De mãos inteiras e asas partidas se acolhem a elas
os homens. Poder e impotência siamesam-se.
Em os frascos altos dormem a ervilha, o feijão,
a massa, a farinha, o açúcar da hora, o sal da terra.



IV

Agora, com esta idade, dou por mim ganhando, pelo olhar, tudo o que vou perder.
Digo: o casario, as cores, as aves à beira de água numa tarde de inverno, os cães vivos à sombra.
Digo: a Lua, o Sol, o Rio-Tempo, as estrelas em manto-de-mágico.

Quando pensei raparigas, disse raposas.
Agora, digo a idade toda em tudo quanto calo.
Saí de menino para integrar o pelotão fugitivo.
Fiz bem - nem de outro modo poderia haver feito.

1 comment:

yodleri said...

Não sei bem comentar poesia... Começo sempre com: gostei ou não gostei, atrapalhado em busca de argumentos que não fujam às regras da crítica literária que, no fundo desconheço.
Procuro entender uma mensagem ou pelo menos, desentendê-la. Busco ritmos e bailados despertos no meu pensamento e quando dou comigo a bailar sei: lindo poema.
Calo e bailo. Como agora...