Monday, October 30, 2006

A Casa do Trinta-Diabos - histª 24 do Anoitecer ao Tom Dela

1
Há muitos, muitos anos, havia um homem que chefiava uma quadrilha de ladrões de estrada. Ninguém conhecia o nome verdadeiro dele. Mas a fama do chefe dos ladrões acendia tanto o terror na noite e nos corações, que se tornou conhecido pela alcunha do Trinta-Diabos.

2
Não havia automóveis, nem aviões, nem rádio, nem televisão. Havia o Sol e havia a Lua. E havia a casa do Trinta-Diabos, que só um dos ladrões do bando sabia onde ficava. Era para essa casa que o ajudante do Trinta-Diabos levava as malas e os alforges com o produto dos roubos.

3
Os salteadores operavam de noite. Preferiam as carruagens que se arriscavam pelas amortecidas estradas dos bosques a horas mortas. Depois do assalto, os ladrões desatrelavam os cavalos das carruagens e fugiam com eles. As vítimas ficavam ali até que Deus voltasse a lembrar-se delas.

4
O povo dizia que os ladrões comiam os cavalos roubados depois de lhes terem bebido o sangue misturado com cinzas de oliveira. Mas isso não era a verdade. A verdade é que os ladrões vendiam os animais em feiras de gado, que naquele tempo eram legais porque ainda não havia nem União Europeia.

5
Foi por causa das feiras de gado que o bando foi detectado, preso e desmantelado. Todos foram metidos a ferros no cárcere – todos menos o Trinta-Diabos, que nunca ia às feiras, preferindo ficar em casa a contar e a recontar as moedas de oiro à luz do azeite.

6
O ajudante do Trinta-Diabos, para aligeirar a pena de degredo para África com que o ameaçaram, confessou a localização da casa do Trinta-Diabos. Os polícias pegaram nele e partiram, numa noite de carvão apagado, em busca do sítio e do terrível chefe da quadrilha.

7
Quando, cheios de cautelas e suores-frios, chegaram ao local indicado pelo delator arrependido, a casa não estava lá. Foi em vão que o atónito criminoso jurou e voltou a jurar que era ali e em nenhures senão ali. Chorando baba, sangue e ranho, gemeu que só podia tratar-se de algum milagre infernal. Que só trinta diabos no corpo de um poderiam mudar de sítio uma casa tão grande como a do seu antigo chefe.

8
Os agentes da lei não acreditaram nele e mataram-no ali mesmo por fúria e vingança. Enforcaram-no num castanheiro e abandonaram-no ali à podridão em sinal de aviso ao Trinta-Diabos.

9
A casa nunca foi descoberta. Mas o povo sabe que ela só pode continuar a existir – e algures na mesma serra. Em noites invernosas, quando o frio torna a solidão tão material como uma pedra, há quem veja, lá longe no manto negro da serra, uma luz de azeite tremendo como uma estrela maligna. Mas quando a manhã volta, os cães e os homens nunca encontram a casa no sítio da luz.

10
Se esta história é verdadeira? Claro que sim. Todas as histórias são verdadeiras depois de escritas e contadas. Sou o bisneto do Trinta-Diabos. Minha Mãe foi a única filha da única filha dele. Ao lado do papel onde escrevo estas palavras para Vossa ilustração e Vosso entretenimento, brilham ainda, à luz agora eléctrica, as moedas de oiro que o Trinta-Diabos nunca pôde gastar por não ser capaz de sair de uma casa que não existia.


Caramulo, tarde de 18 de Outubro de 2006

1 comment:

aida said...

A minha querida avó sempre me chamou "trinta diabos",mas nunca lhe perguntei porquê, simplesmente pensei que era por ser muito mexida. Afinal ao fim de 40 anos fico a saber que "ele" existe. Aida