Monday, October 16, 2006

As Casas - história 17 do Anoitecer ao Tom Dela

1
A minha primeira casa era ao pé de um monte. Lá em cima, no picoto do monte, alvejava um marco geodésico que me disseram ser constante dos azimutes militares. Eu trepava ao marco e tornava-me príncipe instantâneo urbi et orbi. O mundo era redondo e vertiginoso. O mundo, nessa altura, não era apenas muito belo. O mundo era possível.

2
Uma noite, perdi-me no regresso a casa. Nunca mais a encontrei. Mas, como então era muito jovem, não me importei. Junto à fábrica de porcelanas, dentro de um carro branco, estava uma mulher. Dei dois nós de dedos na vidraça. Ela fez com a cabeça que eu entrasse. Entrei. Ela pôs o carro a trabalhar e levou-me para a minha segunda casa.

3
A minha segunda casa era num bairro de casas iguais. Dentro delas, moravam casais iguais àquele de que eu era agora metade. Criancinhas siamesas chilreavam, muito urbanas, no parque infantil. No campo de jogos, adolescentes e quarentões escoicinhavam uma bola. O mês de Janeiro era igual a Maio e era igual a Outubro.

4
Naturalmente, inevitavelmente, também me perdi, uma noite, quando fingia regressar a casa. Havia, depois da biblioteca, uma colina relvada. Depois da colina, subindo um pouco, era o mar. Na praia, soluçando sem som, estava um barco lacado pela Lua. Embarquei.

5
Quantos anos terei navegado, não os posso contar. Vi o lombo lustral do golfinho, assisti à cutelaria aérea dos peixes-voadores, senti do cachalote a solidão montanhosa. Aportei a uma aldeia tão branca, que a cal doía nos olhos. Por me ter parecido que a vida poderia voltar a ser uma espécie de perpétuo meio-dia, fiquei. Um homem igual a mim como um pai juvenil pegou no meu barco e partiu.

6
Nessa aldeia, estabeleci a minha terceira casa. Todas as mulheres desse lugar mais marítimo que terreno eram dotadas de olhos verdes. Arranjei uma para mim e levei-a para casa. No rés-do-chão, uma loja vendia tudo: velas, redes, candeeiros, sabão, mel, carne e fruta enlatadas, lápis, selos, botas de borracha, aguardente, livros, esfregões, azulejos, papel.

7
Desci à loja, comprei lápis, papel e aguardente. Subi a casa e demorei anos. Uma noite, a mulher perdeu-se no regresso a casa. Procurei-a por toda a aldeia. Na praia, um pescador mais velho do que as marés disse-me que um homem igual a mim a tinha vindo buscar no meu barco.

8
Virei as costas ao mar e subi ao promontório. Por um momento mágico e mortífero, eu estava no picoto do monte, a cavalo do marco geodésico. A diferença era a tristeza.

9
Continuei continente adentro. Vi feras furtivas e proibidas. Vi homens hirsutos como escovas. Bebi água aquecida ao sol em taças de lama. As minhas unhas adquiriram o carácter peremptório de canivetes. Finalmente, cheguei. Aonde, não sei.

10
Estou aqui. Acho que me sinto bem. Ouço o rio, mas nunca o vi. Não deve ser longe: vejo os pássaros que descem em flecha para depois subirem com um peixe vivo no bico. A minha última casa é o meu corpo. A minha memória brilha de janelas. A diferença, não sei porquê, continua a ser a tristeza de inquilino no pátio traseiro de si mesmo.


Caramulo, tarde de 11 de Outubro de 2006

1 comment:

Anonymous said...

ou o sítio do parque dos veados onde o sol nunca bate...